A história é um professor envolvente. No mundo de hoje, é fácil pensar que o ministério de compaixão (como expresso na igreja) é alguma nova “invenção” ou “criação”.
Mas a história nos compele a ouvir ao seu chamado. Os ministérios de compaixão sempre existiram.
As raízes do ministério de compaixão na Igreja do Na-zareno remontam às primeiras fundações, mesmo antes das fusões consumadas em Pilot Point, Texas, em 1908. Os mi-nistérios de pequenos grupos, em sua maioria igrejas locais, quase sem exceção, apresentavam uma diversidade do que chamamos hoje de “centros de ministério de compaixão”.
De fato, muitos grupos locais começaram como “missões de resgate” ou “missões do evangelho”, cujo foco estava no núcleo urbano das cidades norte-americanas.
Também é útil observar que muitos dos primeiros lí-deres nazarenos vieram (eram conhecidos, de fato, como
“saídos”) de igrejas estabelecidas, principalmente a Meto-dista, quanto ao regime, e a Wesleyana, quanto à teologia.
Eles trouxeram uma paixão pelos perdidos, um desejo ar-dente pela reforma social nas cidades e uma “renovação” da vitalidade espiritual nas cidades e para elas. Eles também
trouxeram um nível de educação que variava de faculdades bíblicas a grandes universidades. Esse é um dos motivos pe-los quais a educação foi plantada desde o início no DNA da denominação. Vale a pena observar que a maioria das novas denominações começou com faculdades bíblicas e depois migrou para escolas de pós-graduação em teologia, seminários e faculdades de artes liberais. Contrariando essa tendência comum, a Igreja do Nazareno começou com fa-culdades de artes liberais e, em 1944, na Assembleia Geral, autorizou a criação de uma escola de pós-graduação em te-ologia, o Seminário Teológico Nazareno, e depois esperou mais 20 anos, até a Assembleia Geral de 1964, para autori-zar a criação da Faculdade Bíblica Naautori-zarena.
Desde a sua fundação e até 1925, o ministério de com-paixão na Igreja do Nazareno atacava o núcleo dos proble-mas sociais mais difíceis da época, incluindo o alcoolismo e a falta de moderação, a gravidez inesperada e paternidade fora do casamento, a dependência de drogas, o racismo e discriminação, os direitos das mulheres, incluindo o mo-vimento sufragista pelos direitos de voto para as mulheres.
Em outras palavras, reforma social, ou o que alguns rotula-ram como “evangelho social”.
Com base nesse histórico, o dr. Tom Nees escreveu sua tese de doutorado com o tema “Ética social da santidade no ministério urbano nazareno”. Para sua pesquisa, Nees pas-sou centenas de horas nos arquivos da denominação, len-do cada panfleto, artigo e manchete de publicações oficiais para reunir um repertório sobre a conexão entre a teologia da santidade (um dos propósitos declarados da Igreja do
Nazareno era “disseminar a Santidade Escriturística”) e re-forma social e ministérios urbanos.
Ele descobriu o que o dr. Timothy Smith, professor durante muitos anos no Colégio Nazareno do Leste (em Wollaston, Massachusetts) e na Universidade Johns Ho-pkins, em Maryland, tinha concluído: que a reforma social e a teologia wesleyana estavam alinhadas em conteúdo e propósito, até 1925, quando houve o que Smith chamou de “a grande reversão”.
Em 1925, muitos fatores tinham entrado na corrente sanguínea da sociedade norte-americana e os elementos conservadores da denominação dirigiram a igreja para uma prioridade mais “evangelística”. Nas cinco décadas seguin-tes, ocorreu um abandono no nível geral das paixões iniciais pela verdadeira profundidade da teologia de John Wesley.
Também houve um afastamento do (impulso para realizar) ministério urbano, que não foi renovado até a década de 1980. Enquanto isso, a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, os avanços tecno-lógicos e o New Deal durante os mandatos de Roosevelt tinham estabelecido uma estrutura na qual a denominação vivia e reagia.
Então, quem é esse Tom Nees? Tom cresceu em uma casa pastoral nazarena, filho de um líder proeminente, o dr.
L. Guy Nees, que foi pastor, inclusive da Primeira Igreja do Nazareno em Los Angeles, a igreja mãe de Bresee, superin-tendente distrital, reitor da faculdade e diretor da Missão Global. Tom sofreu a influência das amplas experiências de seu pai e de sua paixão por ministrar a todas as pessoas, o
tempo todo. “Atender à necessidade humana” era um tema recorrente.
Depois de se formar na Faculdade Nazarena do Nordes-te (hoje Universidade) e no Seminário Teológico Nazareno, Tom e Pat pastorearam três igrejas locais antes de ele ser chamado para ser pastor da importante e influente Primeira Igreja do Nazareno em Washington D. C. Foi durante esses anos que ele começou a trabalhar no projeto de doutorado mencionado acima.
Depois de alguns anos, Tom sentiu que era hora de mu-dar e se tornou o diretor fundador do que ficou conhecido como a Comunidade da Esperança, começando o seu tra-balho em um conjunto habitacional caindo aos pedaços, no corredor da 14ª Avenida, em Washington, uma área conhecida pela alta criminalidade, proliferação de drogas e outros problemas. Uma das características singulares da Comunidade da Esperança era que, desde o início, sua equipe, e depois sua liderança, era composta por pessoas da comunidade, uma iniciativa autóctone financiada pela Igreja do Nazareno geral, por doações privadas e por verbas federais. Agora, três décadas depois, esse ministério amadu-receu e se transformou em um empreendimento de muitos milhões de dólares que executa a mesma missão da sua carta de fundação.
Ao refletir sobre isso, Nees afirma hoje que “naque-la época, você precisava explicar por que estava engajado com as necessidades humanas da comunidade. Agora pre-cisa explicar por que não está engajado com as necessidades humanas da comunidade”. Isso é algo bom, um
desenvol-vimento positivo. A atitude mudou radicalmente desde aqueles primeiros dias em que a igreja estava saindo da sua hibernação geral. Ainda assim, segundo Nees, “nossa teolo-gia não acompanhou a prática” no entendimento não ape-nas do que, mas de por que fazemos o que fazemos como parte da nossa herança e crença wesleyanas. Então, muitas coisas foram feitas, mas ainda há muito a fazer.
Em resumo, a Igreja do Nazareno nasceu em uma cha-ma de evangelismo e reforcha-ma social. Depois, passou por um tipo de hibernação teológica no tocante à reforma social. No entanto, mesmo nessas décadas, houve pioneiros e heróis, todos eles membros de igrejas locais, engajados nas necessi-dades humanas nos centros urbanos. Então, começando no final da década de 1970 e na de 1980, a igreja começou um longo processo de se reengajar em nível geral. A criação do escritório dos Ministérios Nazarenos de Compaixão foi par-te desse processo. E hoje estamos onde estamos, com milha-res de igrejas locais e lídemilha-res totalmente engajados, com um leque vertiginoso de ministérios como uma expressão das
“boas novas” do Evangelho, sendo as mãos e pés de Jesus para as pessoas que sofrem na necessidade humana.
Sempre existiu. Sempre foi assim.