• Nenhum resultado encontrado

Perfis dos sujeitos estudados: a construção dos modos de participação nas culturas do escrito

3.1.5 Senhor Domingos: uma identidade inventada

O senhor Domingos Alves, com 78 anos169, nasceu em Riacho dos Machados, à época, distrito de Porteirinha, e se mudou para a comunidade quando tinha, aproximadamente, dez anos. Foi criado pela irmã mais velha de D. Maria de Jesus, com quem aprendeu um amplo repertório de rezas e benzeções. Segundo ele, desde pequeno, trabalhou em lavouras na comunidade e na vizinhança. É considerado pelos demais entrevistados, o benzedor mais procurado e com maior e MP # * - $ H " ! & / / . M%@ * & = C 6 :1 I1 P ? = 6 I1 I1 P " /

mais complexo repertório. E, de fato, suas orações são as mais extensas dentre as catalogadas (SOUZA, 2003). Na ocasião da primeira entrevista, contava com a ajuda de um morador local para se aposentar, pois, apesar da idade avançada, não tinha documentação organizada e não conseguia lidar com o processo. Algum tempo depois, conseguiu o benefício.

As lembranças da infância são marcadas pelo abandono sofrido: a mãe o entregou para ser criado por um homem que ora é identificado como um padrasto ora como “meu tratador”. Esse é um assunto de difícil abordagem e o senhor Domingos é evasivo ao falar sobre ele. Em relação à escolarização, de início, deu uma resposta vaga e ambígua: “escola num é pra mim não”. Tal afirmação, aliada à declaração de que não sabia ler nem escrever, foi entendida como uma negação de que tivesse vivido alguma experiência de escolarização. No entanto, em visita à Secretaria de Educação de Porteirinha tive acesso a dois diários de classe e, um deles referente a uma turma de EJA, de 1986, trazia seu nome na lista de alunos frequentes.

Na ocasião da segunda entrevista, disse que já havia estudado quando morou em Riacho dos Machados, mas não se lembrou do nome da escola nem soube informar com segurança quanto tempo estudou. Lembra-se apenas de que só aprendeu a ler as letras do “ABC”, sabia todas “de cor” e aprendeu a escrever o nome, mas não conseguiu aprender a ler palavras. Embora não saiba com precisão o ano de nascimento – acredita que tenha sido em 1939 – o senhor Domingos deve ter frequentado uma das quatro escolas municipais criadas nesse distrito na década de 1940, conforme leis editadas entre 1940 e 1948. Como se mudou para Barra do Dengoso no final da década de 1940, passou a não ter mais acesso à escola, uma vez que as primeiras escolas isoladas começaram a funcionar no início da década de 1960. A infância e a adolescência são lembradas por ele como de muito trabalho, pouca diversão e pouco tempo para pensar em estudar.

Não deu detalhes sobre a juventude. Nunca se casou e constituiu duas famílias: do primeiro relacionamento, teve três filhos (todos morreram, ele não soube dizer a causa) e duas filhas; do segundo, teve um casal (uma menina de 9 anos e um menino de 7). Até recentemente vivia sozinho, a companheira o abandonou há mais de dois anos, mas no início de 2009 obteve a guarda dos dois filhos que atualmente moram com ele em Barra do Dengoso. Não soube dizer se as filhas mais

velhas estudaram, mas mostrou-se atento à trajetória dos filhos mais novos para que estudem e disse que “vigiava” a mãe das crianças e condicionava o pagamento da pensão ao cuidado com as crianças e à frequência a escola. Disse que durante as visitas que fazia mensalmente às crianças conversava com elas sobre a importância de estudar, para “melhorar de situação”170. Tentava, desse modo, controlar e influenciar o processo de escolarização dos filhos. Atualmente, a filha mora com ele e soube por vizinhos que frequenta a escola e ele mesmo a leva e busca em sua bicicleta. A menina também participa da catequese.

O senhor Domingos ainda trabalha como diarista em uma propriedade próxima à sua casa e, como quando morava sozinho, não faz as refeições em casa. Em função do trabalho e do fato de a filha ser ainda muito pequena e estudar, as refeições são realizadas na casa de uma vizinha, neta da senhora que o criou. Ele repassa um valor mensal referente às despesas com alimentação. Ele se mudou recentemente e não tive acesso ao interior da casa em que mora atualmente171. É uma casa de adobe que estava fechada havia muito tempo. Em função da vinda dos filhos, ele fez alguns ajustes na casa e cuidou dos terreiros, antes cobertos de mato. Ele cuida da casa, do entorno e não paga aluguel. Na época da realização das entrevistas, a casa em que morava era muito organizada e limpa. O ambiente era muito simples: na sala de estar havia apenas uma cadeira de descanso e na parede um quadro de um time de futebol mineiro, os quartos não possuíam portas e cortinas de tecido cumpriam tal função; na cozinha havia um fogão a lenha inativo com uma caixa de papelão sobre a chapa, um fogão a gás que disse usar raramente, uma pequena mesa de madeira com duas cadeiras e uma prateleira com algumas vasilhas e um pequeno rádio. Não possuía televisão e disse assistir ao jornal na casa de vizinha quando vai até lá fazer as refeições.

A idade do senhor Domingos é uma aproximação. Ele disse que não conheceu o pai, que morreu quando ele ainda era muito pequeno, e que a mãe não o registrou de modo que, quando adulto, diante de uma proposta de casamento, foi ao cartório de Porteirinha e providenciou seu registro civil. As informações sobre data e local de nascimento, nomes dos pais e avós, foram inventadas. Isso porque os pais já haviam morrido, sabia apenas seu primeiro nome e o primeiro nome dos

H # = * :1 I1 P

H / P " " ?

pais e inventou o restante: data e local de nascimento, sobrenome, nome de avós maternos e paternos. Chama a atenção no processo de “invenção” dos nomes os critérios empregados por senhor Domingos: “eu num sabia os nomes completos não, aí eu fiz uma base... que tinha muito sobrenome que o povo chama né... aí eu fiz uma base e mandei...”. Para a mãe e avós o sobrenome “de Jesus” e do pai “Alves Ferreira”.

Embora o casamento não tenha dado certo, ele aproveitou para regularizar sua situação. Estudou em duas situações quando adulto, uma em 1986 e outra em 2006, pelo Programa “Cidadão Nota Dez”. Disse que já sabia assinar o nome e que, quando começou a aprender a ler e escrever, as aulas foram interrompidas e voltou “a zero”, segundo ele. As seguidas interrupções das aulas foram apontadas por ele como um impedimento para aprender. Enquanto falávamos de suas experiências de escolarização, ele saiu da cozinha e buscou uma pasta com cadernos e lápis. Disse que não ficou com o livro usado nas aulas e entregou o caderno para que eu o olhasse.

O caderno estava todo escrito, com atividades referentes às aulas e muitas folhas preenchidas com o nome dele. Disse que chegava em casa e ficava treinando para não esquecer e para melhorar a letra. Segundo ele, esse treino também serve para que possa escrever mais rápido quando precisa assinar algum documento, como no recadastramento do INSS, por exemplo. Foram feitas algumas tentativas de ver se o senhor Domingos lia e foi possível verificar que ele apenas identifica algumas letras, mas “num consegue juntar essas letras... num lê de jeito nenhum...”172. Tornou-se um copista, tem letra legível, mas não consegue ler, mesmo textos conhecidos, como a oração de São Jorge que ele traz sempre consigo há anos. Disse que a distingue porque desenhou uma cruz no verso da oração, mas que não lê.

O fato de ler não o impede de organizar os próprios documentos. Ficou grande parte da entrevista realizada em sua casa, andando entre a cozinha, onde eu estava, e o quarto de onde primeiro voltou com a pasta com materiais escolares. Depois trouxe um saco plástico com comprovantes de recebimento da aposentadoria, o cartão bancário, mais uma ida ao quarto e trouxe um saquinho com recibos do rádio e termo de garantia e, por fim, trouxe um envelope com documentos

pessoais: carteira de identidade, cartão do CPF, cartão de vacina. Da caixa sobre o fogão trouxe outro saco plástico com cartões de vacina dos cinco cachorros que possui. Disse que quando há vacinação na comunidade já entrega para o agente os cartões e ele vai identificando cada cachorro à medida que o agente lê os nomes nos cartões. Não possui nenhum catecismo, disse possuir apenas as duas orações uma de S. Jorge e outra, de proteção, sem nome, que carrega sempre consigo.

Demonstrou ter uma preocupação especial com a documentação. Mantém os documentos em ordem, guardados no quarto e disse que não compra nada sem recibo ou nota fiscal. O motivo para tal preocupação, segundo ele, é para evitar prejuízo, principalmente em caso de roubo – não poderia reclamar se não tem recibo provando que ele é o dono. Relatou um caso em que perdeu um rádio porque não pôde provar que era o dono. Desde então disse que se não tiver recibo, ele não compra. Disse receber bilhetes da mãe de seus filhos pequenos e pede a uma vizinha que leia para ele, mas disse que quando recebe o bilhete já sabe o conteúdo: pedido de dinheiro. De modo que só manda ler para confirmar e para pedir que ela escreva a resposta ditada por ele. Ele não esteve presente a nenhuma das celebrações observadas.

Pode-se observar que todos os entrevistados têm contatos com material escrito e vivem diversas situações cotidianas que demandam ler e ou escrever. A descrição de eventos como retirada de dinheiro em caixas eletrônicos, realização de compras e a participação nas celebrações religiosas, especialmente para os quatro sujeitos mais velhos, evidenciam que o não domínio das habilidades de leitura e escrita não os impede de participar desses eventos com compreensão do que está em jogo. Quando descrevem a operação de inserir o cartão bancário, digitar a senha, retirar o dinheiro, por exemplo, demonstram possuir uma série de conhecimentos acerca do funcionamento da escrita e da situação de uso. Nesse caso, evidenciam-se as práticas de letramento, mais especificamente, como destacam Barton e Hamilton (1998), evidencia-se o conhecimento sobre o que fazer com a escrita. A mediação do outro, conforme dito anteriormente, destaca-se como uma das estratégias mais usadas pelos quatro sujeitos menos escolarizados para participar de situações que envolvem ler e ou escrever.