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O sentido de um signo qualquer varia de acordo com as diversas circunstâncias de uso, passando pela intencionalidade do sujeito que o utiliza, pelo contexto em que foi empregado, pelos saberes de conhecimento que circulam entre os parceiros do ato linguageiro. Em virtude de tal riqueza, o signo é passível de abarcar uma gama extensa de sentidos, peculiares ou não.

O ato linguageiro realiza-se na confluência dos sentidos explícitos e implícitos, indissociáveis, que os sujeitos envolvidos lhe incutem. Destaca-se a força do implícito como elemento que engloba o explícito, conforme afirma Charaudeau ao dizer que “é o sentido implícito que comanda o sentido explícito para constituir a significação de uma totalidade discursiva”

(CHARAUDEAU, 2016, p. 26).

Tal poder do implícito explica-se por sua intrínseca presença no ato linguageiro, circulando entre os parceiros da troca comunicativa. Ao enunciar algo, o sujeito do ato linguageiro faz uso de saberes partilhados, de crenças, de conhecimentos, com os quais interage com seu interlocutor. Este, por sua vez, interpreta de acordo com seus saberes, suas crenças e seus conhecimentos. São elementos extralinguísticos que fomentam o processo de construção da totalidade discursiva.

Patrick Charaudeau (2018b) ressalta que, por intermédio da hermenêutica, entende-se que a compreensão é um momento de apreensão global do sentido resultante de diferentes atividades de interpretação. Dessa forma, a compreensão carrega efetivamente a marca de uma relação intersubjetiva entre sujeito falante e sujeito interpretante, em uma relação assimétrica entre o que um quis significar (o sentido intencional) e o que o outro interpreta (sentido reconstruído), o que remete à distinção, defendida pelo autor, entre o efeito visado pelo sujeito falante e o efeito produzido e construído pelo sujeito interpretante.

Assim sendo, pode-se considerar que todo enunciado é repleto de potencialidades de sentidos, chamado por Charaudeau de possíveis interpretativos, que o sujeito interpretante depreende da diversidade semântica. Ele entende que, ao se considerar que a compreensão é impossível de captar em sua totalidade, há, entretanto, dois níveis de compreensão: o nível de uma compreensão do sentido considerado literal, explícito, possivelmente compartilhado por todo sujeito de uma dada comunidade linguística; e o nível de uma compreensão da significação que se dirá indireta, específica das circunstâncias de produção e de recepção do ato de linguagem.

Daí vem a distinção entre o sentido de língua e o sentido de discurso (referência).

Considerando-se que a língua existe somente no uso dos seus elementos linguísticos, que não há língua sem discurso, pode-se afirmar que o sentido de língua faz parte do princípio elementar, ao entender a língua fora de um contexto de utilização. Já o sentido de discurso evidencia as condições sociais que envolvem o ato de linguagem, promovendo a interação entre o explícito e o implícito. Dessa forma, as circunstâncias da produção linguageira e a intencionalidade tornam-se essenciais para o processo de produção e de interpretação do ato comunicativo. Como exemplo, pode-se analisar a frase “Estou num buraco” como ambígua, em que o termo “buraco” pode, de acordo com o contexto, com as circunstâncias de discurso e com a intencionalidade do sujeito do ato linguageiro, apresentar sentido literal ou figurado. Ou seja, o sentido de discurso engloba o valor implícito do signo, contribuindo para descaracterizar ambiguidades e para determinar o amplo sentido de um termo de acordo com as condições de enunciação.

Mais do que o sentido das palavras ou da combinação entre elas, importa ao sujeito receptor de um ato de linguagem compreender seu sentido comunicativo e social. Tal ato, por si só, provém de uma troca social particular e, por isso, precisa estabelecer uma relação entre os enunciados e os dados da situação em que se desenvolve a interação.

Considerando que a Semiolinguística se encontra entre a Linguística da Língua e a Linguística do Discurso, é fundamental ressaltar que, ao unir tais elementos na Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso, Patrick Charaudeau desenvolve a ideia de que o ato linguageiro é composto pelo significado dos signos verbais, pelo valor semiótico dos elementos extralinguísticos e por seu contexto discursivo. Dessa forma, a linguagem torna-se indissociável de seu contexto sócio-histórico. Basta lembrar que o signo “livro” abarca hoje em dia mais sentidos do que no século XV, por exemplo.

Sabe-se que os signos apresentam traços estáveis e recorrentes, entretanto não se pode apresentá-los fora de contexto, sob pena de gerar dubiedade. Na perspectiva semiolinguística,

o ato de linguagem inclui uma atividade estrutural – a simbolização referencial – e uma atividade inferencial – a significação. Ou seja, utilizam-se símbolos (signos) que representam a realidade, referindo-se a ela e dando-lhe sentido, considerando-se as circunstâncias de produção do ato de linguagem e a intencionalidade do sujeito desse ato.

Assim sendo, uma frase como “Cláudio pendurou as chuteiras” apresenta um sintagma verbal que indica uma relação existente entre o futebol e a realidade circundante. As chuteiras metonimicamente referem-se à profissão e o fato de pendurá-las indica deixar de usá-las. A princípio tal estrutura sintagmática remetia, necessariamente, ao universo do futebol, indicando que um determinado jogador se aposentou. Posteriormente, esse sintagma verbal passou a ser utilizado metaforicamente referindo-se a qualquer profissão. Ou seja, sem conhecimento do pressuposto, do contexto, não se sabe exatamente se Cláudio foi jogador de futebol ou não.

Produzir e interpretar um discurso vai além do simples conhecimento das palavras e de suas regras de combinação. Portanto, o receptor-interpretante procura não exatamente o sentido das palavras e da combinação entre elas, mas o sentido comunicativo e social do enunciado proferido pelo sujeito de um ato linguageiro, estabelecendo uma relação entre os enunciados e os dados da situação em que se desenvolve a interação. Seu objetivo é a significação social do emprego das palavras, assim como a relação entre esse emprego com algo exterior a ele.

Charaudeau opõe o sentido de língua ao sentido de discurso ao afirmar

que aquele constrói uma visão decerto simbolizada (não há linguagem sem processo de simbolização referencial), mas essencialmente referencial do mundo. Ela pode, pois, operar com um signo linguístico capaz de associar o significante a um significado pleno nas suas relações sintagmáticas e paradigmáticas. O sentido discursivo, ao contrário, não pode mais operar com este tipo de unidade. Certamente, o signo remete a algum significado, mas este não pode ser visto a partir de um valor absoluto, pleno e autônomo (CHARAUDEAU, 1999, p. 31).

No sentido da língua, o sujeito comunicante adota sentido literal ou explícito do signo, por meio de seu sentido denotativo, passível de ser verificado por meio de critérios de coesão.

No sentido do discurso, o sujeito comunicante, de acordo com sua intencionalidade, se apropria do sentido conotativo, vinculado aos processos de coerência, resultante do contexto em que foi utilizado.

O sentido de um enunciado é elaborado com a ajuda de inferências, classificadas por Charaudeau como centrípetas internas, estruturadas com base nos elementos do próprio enunciado. Isso é feito por meio da diferença negativa (em ausência) em relação ao eixo das

oposições paradigmáticas, e por meio da combinação entre os coocorrentes (em presença) em relação ao eixo sintagmático, de acordo com as regras do sistema linguístico utilizado.

Ou seja, o que está em jogo na construção do sentido do enunciado são os signos linguísticos que o compõem, não se levando em consideração nenhum elemento externo ao ato de linguagem. Charaudeau considera que, “de maneira geral, é esse tipo de inferência que permite desambiguizar os enunciados cujas palavras apresentem polissemia”

(CHARAUDEAU, 2018b, p. 16). Na frase “A manga estava deliciosamente doce.” são os termos próximos à palavra “manga” que permitem compreender que se trata da fruta e não de parte de uma vestimenta.

Compreende-se, portanto, que o sentido de língua é aquele que se encontra nos dicionários, é o sentido literal, descrito pelas gramáticas em seu sentido objetivo, encontra-se no campo da interpretação semântica, provém da ordem do provável. Já o sentido de discurso leva em consideração o contexto discursivo e a situação de comunicação, é inferido, remete à significação, encontra-se no campo da interpretação pragmática, provém da ordem do plausível.

Essas distinções levam Charaudeau2 a diferenciar as ações de “interpretar” e

“compreender”. A interpretação é um processo com o qual se analisa o conteúdo discursivo. A compreensão é o resultado do processo de interpretação, completa-se ao final deste.

Assim sendo, entende-se que compreender um enunciado, um texto ou discurso demanda, inicialmente, um processo de interpretação com o qual se decifra e se extrai o sentido.

Terminado esse processo, desenvolve-se a compreensão geral.

Vale destacar que a interpretação se relaciona com o sentido de língua enquanto a compreensão, com o sentido de discurso. Com isso, a Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso desenvolve a ideia de que tais vocábulos não são sinônimos. A interpretação é um processo e a compreensão, um resultado.

Tanto a interpretação quanto a compreensão são perpassadas pelas inferências, essenciais para o desenvolvimento do ato comunicativo.

Tijolos dos enunciados, as palavras utilizadas pelos sujeitos falantes são carregadas dos sentidos que eles lhes atribuem. Na ocasião da interação do ato comunicativo, os interlocutores fazem uso desses sentidos que atestam diversos saberes circulantes nos grupos sociais. De acordo com Patrick Charaudeau,

2 A conceituação aqui em voga trata da concepção de Patrick Charaudeau de 2018b, que difere daquela apresentada em 1994.

são saberes mais ou menos compartilhados, e quando das trocas, os sujeitos interpretantes mergulham nesses saberes para proceder a inferências. Esses saberes, por sua vez, são carreados de discursos anteriores, e é referindo-se, explicitamente ou implicitamente, conscientemente ou inconscientemente, a esses discursos selecionados por cada sujeito interpretante, que são orientadas as interpretações, (CHARAUDEAU, no prelo).

Utiliza-se aqui o conceito de inferência – “operação intelectual por meio da qual se afirma a verdade de uma proposição em decorrência de sua ligação com outras já reconhecidas como verdadeiras” (HOUAISS, 2009) –, realizada pelos sujeitos interpretantes ao recorrerem a saberes minimamente compartilhados. Com elas, o sujeito interpretante avalia o sujeito comunicante e seu enunciado a fim de proceder à compreensão da intencionalidade inerente a todo ato de linguagem.

Forma-se, com isso, a interdiscursividade, como um discurso dentro de um outro. Os enunciados são atestados por outro discurso anterior, com o intuito de ratificar o argumento adotado no ato de linguagem.

Em seus estudos, Patrick Charaudeau (no prelo) destaca que o sentido é resultado de inferências centrípetas internas, elaborando-se o sentido de língua, no qual ocorre a construção do primeiro sentido de um enunciado. Já a significação resulta de inferências centrífugas externas, originárias de elementos exteriores à enunciação, criando-se, assim, o sentido de discurso. Essa distinção permite comparar o sentido e a significação de determinado signo linguístico ou enunciado carregado de ambiguidade, que somente será desfeita por meio da identificação do contexto, da circunstância do discurso, da intencionalidade do sujeito enunciador e das restrições do ato de linguagem.

Em relação à significação, o linguista francês subdivide as inferências centrífugas externas como:

* Situacionais, em que os parceiros do ato linguageiro se reconhecem mutuamente como tais e a troca comunicativa é regida por sua finalidade e por suas circunstâncias materiais, formando-se, com isso, o contrato de comunicação. Esse contrato depende das identidades dos parceiros, da visada discursiva, além do dispositivo utilizado para a troca linguageira. Essas informações permitem determinadas significações e garantem certa intercompreensão.

* Interdiscursivas, em que os saberes de conhecimento e de crença, de acordo com o trabalho de Patrick Charaudeau sobre as noções de compreender e interpretar, como dois modos de apreensão do sentido nas ciências da linguagem, são compartilhados e funcionam como suporte para a realização de inferências durante a troca comunicativa. Dessa forma, ao se utilizá-los, as orientações são direcionadas a determinadas interpretações. Enquanto os saberes

de conhecimento sustentam-se em objetividade exterior ao sujeito, independem dele e são verificáveis, os saberes de crença são subjetivos, fundamentam-se em avaliações, julgamentos e apreciações e não podem ser verificáveis.

Fatos históricos, identificação geográfica e cultural, conceitos científicos e empíricos, experimentação, disponibilizam ao sujeito uma gama de elementos que lhe garantem certos conhecimentos e aprendizados que são de grande valia para o cotidiano de qualquer pessoa. A objetividade é a tônica desse tipo de saber, o conhecimento independe do sujeito, ocorre em seu exterior. São os saberes de conhecimento, tão importantes para a vida do sujeito enunciador e de seu interlocutor porque compõem matéria essencial para o compartilhamento no momento da interação social, sustentada por intermédio do ato linguageiro.

O formato do planeta Terra, por exemplo, é de conhecimento amplo e irrestrito, já solidificado na cultura por meio de experiências científicas fundamentais para o estabelecimento da objetividade de tal saber. Da mesma forma, desde pequeno, o ser humano sabe que “qualquer corpo ou objeto ‘cai’ em direção ao solo”. Não é necessário comprovar cientificamente, mesmo também sendo descrito e explicado pela Ciência, pois o empirismo demostra a ação da gravidade, independentemente de conhecimento a respeito da fórmula de sua velocidade.

Tais conhecimentos capacitam o sujeito linguageiro para a utilização de pressupostos que se incorporam ao seu enunciado, fazendo-se alusões, mas sem necessidade de discorrer de maneira aprofundada sobre eles. São conhecimentos culturais, científicos, de crença, e outros, que são acionados pelos sujeitos envolvidos por ocasião do ato linguageiro. Configuram-se, assim, elementos fundamentais que extrapolam o posto (aquilo que é dito), por meio de conhecimentos que, se não estão explicitamente expostos, fazem parte da enunciação como elementos extralinguísticos e anteriores ao ato comunicativo. Dessa forma,

uma tipologia de conhecimento está também enraizada no discurso e na interação. Isto é, os vários tipos de conhecimento estão diferentemente associados a implicações e pressuposições no texto e no contexto. Assim, o conhecimento pessoal não está, em princípio, pressuposto em qualquer discurso, mas necessita ser afirmado quando é relevante (DIJK, 2003, p. 396).

Por sua vez, Ducrot (1987) desenvolve metáforas a fim de discorrer sobre a ocorrência de pressuposto, posto e subentendido (inferência), caracterizando, em relação temporal, o pressuposto como o passado, anterior ao ato linguageiro, o posto como o presente, explícito no momento do ato linguageiro e posterior a esse ato o subentendido, que se desenvolve após a enunciação.

O pressuposto é como uma condição a que se submetem os protagonistas do ato linguageiro. O não reconhecimento do pressuposto torna a compreensão da enunciação falha ou incompleta.

Introduzindo uma ideia sob forma de pressuposto, procedo como se meu interlocutor e eu não pudéssemos deixar de aceitá-lo. Se o posto é o que afirmo, enquanto locutor, se o subentendido é o que deixo meu ouvinte concluir, o pressuposto é o que apresento como pertencendo ao domínio comum das duas personagens do diálogo, como o objeto de uma cumplicidade fundamental que liga entre si os participantes do ato de comunicação (DUCROT, 1987, p. 20).

Diferentemente da possibilidade de verificação dos saberes de conhecimento, os saberes de crença, inverificáveis, compõem-se de avaliações, julgamentos e apreciações a respeito dos fenômenos. Representam um posicionamento pessoal do sujeito, cujo ponto de vista determina sua opinião, formando, portanto, uma verdade interiorizada que, ao mesmo tempo, se compartilha.

Os saberes de crença podem ser de opinião ou ideologizados. Os de opinião, passíveis de serem configurados como estereótipos, relacionam-se com avaliações realizadas pelos indivíduos acerca das coisas, dos acontecimentos, dos seres. Os ideologizados, muitas vezes configurados como doutrina, compõem-se de ideias políticas, religiosas, morais, fundamentadas em sistemas de pensamento definidos como detentores de poder explicativo sobre o mundo e a atividade social. Assim sendo, a opinião baseia-se na subjetividade individual e não necessita de comprovação, assim como posicionar-se a respeito de um tema, votar em determinado candidato, comungar com uma religião.

Para Charaudeau, “levar em consideração as características da situação de comunicação, dos saberes de crença e dos saberes de conhecimento, nutre as interpretações pela via da atividade inferencial” (CHARAUDEAU, no prelo).

Há também as inferências discursivas epistêmicas, igualmente pertencentes às inferências centrífugas, exteriores ao enunciado discursivo e baseadas no âmbito de interpretações eruditas. É um saber que se torna presente por intermédio de procedimentos de análise reconhecidos. Dessa forma, as inferências se realizam por meio de categorias e de explicações fundamentadas em determinada disciplina. É possível, também, que se empreguem conceitos e categorias de uma outra disciplina. Esses dois modos definem as inferências epistêmicas internas ou externas.

As inferências epistêmicas internas ocorrem nos casos em que os resultados de uma descrição se relacionam com o quadro teórico-metodológico que os produziu, com o objetivo de provar ou verificar a validade dos princípios teóricos e das categorias utilizadas para orientar a análise.

As inferências epistêmicas externas ocorrem nos casos em que os resultados de uma análise são comparados com os de outras disciplinas uma vez que diferentes disciplinas trabalham com diferentes definições de uma mesma categoria.

Com isso, pode-se considerar que os sujeitos interpretantes são estimulados e conduzidos pela atividade inferencial que se realiza durante o ato de linguagem.

Conclui-se que a compreensão se efetiva na relação entre o sujeito enunciador e o sujeito interpretante em relação assimétrica entre a intencionalidade daquele e a interpretação deste, distinguindo-se, assim, o efeito visado e o efeito produzido. Com isso, evidencia-se o processo de coconstrução do sentido do ato linguageiro, uma vez que estão presentes duas intencionalidades, a dos sujeitos em interação. Consequentemente, influenciadas pela natureza e pelo status do sujeito interpretante e em virtude de sua imprevisibilidade, as significações oriundas de um enunciado são diversas, escapam ao “controle” do sujeito enunciador. Os saberes de conhecimento e de crença, além da sensibilidade do sujeito interpretante, contribuem para os possíveis interpretativos construídos por este sujeito a respeito do enunciado que lhe é dirigido.

Assim sendo, conclui-se que a interpretação é um aspecto da língua e a compreensão, um aspecto do discurso. A interpretação é um processo para atingir a compreensão. Essa distinção contribui em muito para a análise de postagens no Twitter.