Os sujeitos do ato linguageiro são representados por suas identidades, sejam elas sociais, sejam discursivas.
Consultando o dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, destacam-se duas acepções para o substantivo “identidade: “qualidade do que é idêntico” e “conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la” (HOUAISS 1.0, 2009). Curiosamente pode-se ter a impressão de que
“identidade” é um paradoxo, pois o mesmo vocábulo se refere a algo idêntico e distinto. Dessa forma, é preciso salientar que a identidade se constrói com base nesse paradoxo quando o sujeito se reconhece, em ato de interação, como semelhante e, ao mesmo tempo, diferente de seu interlocutor.
Questões filosóficas como “quem sou eu” e “por que sou assim” procuram refletir sobre a identidade do “eu” e seu lugar na sociedade e na cultura. A expressão “crise de identidade” demonstra, em estudos da Psicologia, a força desse vocábulo e seus sentidos para a sociedade humana, em geral.
A identidade permite ao sujeito tomar consciência de sua existência, de seu corpo (seu lugar no espaço e no tempo), de seu saber (seus conhecimentos sobre o mundo), de seus julgamentos (suas crenças) e de suas ações (seu poder fazer). A identidade implica, então, a tomada de consciência de si mesmo.
Todavia, essa tomada de consciência necessita do “outro” para que ela ocorra, uma vez que a diferença é necessária para o reconhecimento do próprio “eu”. Assim, a identidade baseia-se nessa dualidade entre o “eu” e o “outro”, no jogo que ocorre por meio do ato de linguagem, em que o eu, dotado de determinada intencionalidade, busca afetar seu interlocutor, para convencê-lo a fazer algo, a pensar em algo ou a proceder de acordo com os seus interesses, muitas vezes não tão claros ou objetivos.
A identidade, de maneira geral, desenvolve-se por meio da interação, momento em que determinado indivíduo percebe sua dessemelhança em relação ao outro. É o princípio de alteridade, marcante para a tomada de consciência do “eu”, de suas semelhanças e diferenças em contato com seus interlocutores. A semelhança origina-se nos saberes compartilhados, na cultura, na língua. Por meio desses elementos, os sujeitos do ato linguageiro são capazes de interagir reconhecendo um no outro a sua própria identidade. Por outro lado, a diferença pode parecer uma ameaça. Isso porque um sujeito, ao notar essas diferenças, pode se sentir inferior ao outro, levando-o a questionar se o outro é melhor ou tem mais conhecimento do que ele.
A identidade, então, é construída sobre esse paradoxo: a necessidade do outro para a tomada de consciência de si próprio, ao mesmo tempo em que desconfia dele, e por isso o rejeita ou se assemelha a ele, a fim de se eliminar, ou minimizar, a diferença.
Desenvolve-se, assim, o princípio da alteridade, componente essencial para a identidade, para o ato de linguagem e para o discurso. Sem o “outro”, o “eu” nada seria.
O ato linguageiro, inserido em determinada situação (no tempo e no espaço), ocorre por meio da intencionalidade por parte do sujeito enunciador, que desenvolve um propósito sobre o mundo. Esse ato depende da identidade dos parceiros e é resultado de um desejo de influência por parte do sujeito comunicante.
A identidade social garante ao sujeito o direito à palavra e funda sua legitimidade como ser comunicante de acordo com o estatuto e o papel atribuídos a ele pela situação de comunicação. Além disso, o sujeito constrói para si uma imagem (ethos) de quem enuncia, uma identidade discursiva de enunciador mediante papéis atribuídos a si próprio em seu ato linguageiro, consequência das coerções da situação de comunicação impostas e das estratégias por ele escolhidas. Charaudeau considera que “o sentido veiculado por nossas palavras depende ao mesmo tempo daquilo que somos e daquilo que dizemos. O ethos é o resultado dessa dupla identidade, mas ele termina por se fundir um uma única” (CHARAUDEAU, 2018a, p. 115).
Consequentemente, torna-se evidente que identidade social e identidade discursiva são indissociáveis, que urge averiguar determinado discurso partindo-se do conhecimento de quem o emite. Sendo assim, o sujeito interpretante, de maneira muitas vezes inconsciente, procede à
análise da identidade social do sujeito comunicante com o intuito de melhor compreensão do enunciado emitido. Não são raras as vezes em que se duvida de determinada enunciação tão somente pela não legitimidade do sujeito que a enuncia. A identidade discursiva reflete e é refletida pela identidade social, e vice-versa, e nesse jogo se desenvolvem muitas máscaras de que se vale o sujeito comunicante a fim de adequar o enunciado à situação de comunicação.
Ainda assim, é preciso ressaltar que essas máscaras não indicam, necessariamente, falsidade. Como se disse, todos têm consciência de que um diálogo com o irmão não é a mesma coisa que uma reunião de trabalho; que um bate-papo em uma mesa de bar com amigos permite uma enunciação completamente diferente da utilizada em uma comunicação em um congresso.
Isso porque um sujeito possui várias identidades sociais: pai, filho, profissional, amigo, hóspede em um hotel, espectador em um teatro etc. E para cada uma dessas identidades, convém que se adotem posturas, enunciados e enunciações, construindo-se identidades discursivas, também diversas, adaptadas à situação comunicativa, que geram imagens para o outro,
não absolutamente uma imagem falsa, uma aparência enganosa, mas uma imagem que é o próprio ser em sua verdade de troca. Nesse momento, a máscara seria nosso ser presente, ela não dissimularia, ela nos designaria como sendo nossa imagem diante do outro (CHARAUDEAU, 2018a, p. 8).
Tal imagem se constrói mediante a postura do enunciador e do seu enunciado e é essencial, para o reconhecimento dessa imagem, que se possa compreender os diversos valores envolvidos no ato linguageiro. O valor de um texto não está somente naquilo que está explícito.
Reconhecer o implícito, incluindo-se aí as condições de produção do texto, o contrato de comunicação e as circunstâncias discursivas, é fundamental para a melhor compreensão acerca da intencionalidade do sujeito do ato linguageiro. Para Charaudeau,
o sentido é, ao mesmo tempo, nosso mito e nosso real. Ele se constrói na confluência entre o dito e o não dito (o explícito e o implícito). Ele não é apenas o dito, ele não é apenas o não dito. O sentido nasce da relação entre os dois” (CHARAUDEAU, 2008, p. 13).
É preciso salientar que o implícito é um elemento extralinguístico e deve ser acionado pelo sujeito destinatário para que possa abarcar a plena compreensão do enunciado. Assim sendo, entende-se que o sujeito destinatário, idealizado pelo sujeito enunciador, tem maior probabilidade de coincidir com o sujeito interpretante. O implícito, ou subentendido, permite dizer algo sem dizê-lo. Ao afirmar que está com forte dor de cabeça, um sujeito pode deixar implícito um pedido de medicamento ou para que se fale mais baixo. Dizer à namorada que não
tem olhos para outra mulher, deixa subentendido que se está apaixonado por ela. Para Ducrot,
“o subentendido reivindica a possibilidade de estar ausente do próprio enunciado e de somente aparecer quando um ouvinte, num momento posterior, refletir sobre o referido enunciado”
(DUCROT, 1987, p. 20-21).
Diferentemente do implícito (ou subentendido), o pressuposto se encontra no próprio enunciado, mas como algo anterior a ele, “apresentado como uma evidência, como um quadro incontestável no interior do qual a conversação deve necessariamente inscrever-se, ou seja, como elemento do universo do discurso” (DUCROT, 1987, p. 20). Ao se dizer que não se acredita mais em um sujeito há o pressuposto de que, no passado, confiava nele e que algo ocorreu para a quebra da confiança.
Patrick Charaudeau sustenta a existência dos sujeitos do ato linguageiro, dotados de intencionalidades que, no caso, carregam em seus enunciados os implícitos e os pressupostos como elementos da enunciação comunicativa.
Deve-se ressaltar que o ato de linguagem, resultado da ação de seres psicossociais representados por suas identidades sociais, depende do jogo de interesses construído pelo próprio ato de linguagem e baseia-se em uma interação de intencionalidades. Assim sendo, os sujeitos do ato linguageiro encontram-se em uma relação de troca comunicativa, de acordo com um contrato que se realiza pelo reconhecimento mútuo dos estatutos sociais dos envolvidos e do seu direto à palavra, o que constitui sua legitimidade.
O linguista francês desenvolveu em sua teoria a ideia da existência de duas identidades atuando em conjunto, por ocasião do ato de comunicação – as identidades social e discursiva.
Aquela é externa ao ato linguageiro, tornando parceiros os sujeitos envolvidos; esta é interna ao ato, tornando os sujeitos protagonistas da encenação linguageira.
A identidade discursiva pode ser resumida com a questão: “estou aqui para falar de que forma?”, e, para isso, depende de um duplo espaço de estratégias – a credibilidade e a captação.
Para ter credibilidade, o sujeito falante defende uma imagem de si mesmo (ethos), procurando elaborar seu texto com o intuito de ser encarado com seriedade. Para isso, adota atitude discursiva de neutralidade, de distanciamento ou de engajamento. Ekkehard Eggs destaca que “o lugar que engendra o ethos é, portanto, o discurso, o logos do orador, e esse lugar se mostra apenas mediante as escolhas feitas por ele” (EGGS, 2016, p. 31). Com isso, o autor destaca que, ao se expressar, o sujeito linguageiro promove escolhas entre diversas possibilidades linguísticas e estilísticas.
Para a estratégia de captação, a fim de atrair seu interlocutor, o sujeito do ato linguageiro compartilha suas ideias ou suas opiniões, procurando elaborar seu texto de modo a fazer com que o interlocutor seja tomado por aquilo que ele diz. Assim, utiliza a persuasão, por meio da razão, ou a sedução, por meio da emoção, adotando atitude discursiva de polêmica, da própria sedução ou de dramatização.
Diante do exposto, pode-se afirmar que as identidades social e discursiva compõem o sujeito do ato linguageiro, do qual se origina o processo de semiotização do mundo.