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Sentidos e Significados

No documento Leonardo Marcelino Luz.pdf (páginas 30-33)

Complementando Pensamento e Linguagem, as categorias de Sentidos e Significados também formam um par dialético, e são centrais para nossa análise de dados.

O estudo dos Sentidos e Significados são entendidos aqui como um meio de acesso as subjetividades dos sujeitos, não com a conotação linguística, mas sim sobre a constituição psíquica. Trouxemos Namura (2003, p.25) que, pensamos, esclarece, a partir de Lukács, a conotação que pretendemos dar ao estudo dos Sentidos:

As reflexões e ponderações desses autores marxistas [Vigotski e Lukács] sobre o sentido e a estética nos campos da psicologia e da sociologia e filosofia, afastam-se das concepções hegemônicas dominantes que tendem a restringir o sentido ao campo das representações, da linguagem significante e da semiótica, ao inserir a estética e a experiência humana no cerne do sentido

Dessa maneira, nosso esforço caminhará na direção de apresentar os Sentidos e os Significados como categorias constituintes de nossa condição humana, condição essa que nos leva, por meio das significações, a valorar, a atribuir valores à nossas atividades, das mais simples às mais complexas.

O estudo sobre os Sentidos e os Significados marca uma importante passagem da obra de Vigotski, já no fim da vida do autor, no ano de 1934, quando havia abandonado em definitivo a reactologia e adotado o materialismo histórico e dialético como modo de orientar suas pesquisas em Psicologia. Embora importante, o estudo dos Sentidos e Significados de Vigotski ocupou pouco espaço em suas obras. Sobre esse importante marco da obra vigotskiana González Rey10 (2011,p.77) assim se expressa:

Com a categoria de sentido, Vigotsky pretendeu desenvolver uma nova unidade da vida psíquica. O sentido integraria cognição e afeto, mas não como processos diferentes, senão como constituintes de um novo tipo de unidade psicológica que abriria uma opção qualitativamente diferente para o estudo dos processos psíquicos

Opção essa que não pôde ser efetivada. Em primeiro lugar porque Vigostki falece no ano de 1934, sem tempo para ampliar os estudos sobre os Sentidos e os Significados; em segundo lugar porque no ano de 1936 o regime stalinista extingue a Pedologia como ciência e o nome de Vigotski seria proibido de menção dentro da própria URSS até o ano de 1956, o que ocasionou um considerável atraso em pesquisas de seus colaboradores mais próximos, incluindo aí Leontiev e, principalmente, Luria. Naquele momento histórico da ainda jovem

10 No original em espanhol: “com la categoria de sentido Vigotsky pretendió el desarrollo de una nueva unidad de la vida psíquica. El sentido integraria cognición y afecto, pero no como procesos diferentes, sino como constituyentes de um nuevo tipo de unidad psicológica que abriria uma opción cualitativamente diferente para el estúdio de los procesos psíquicos”.

Psicologia Sócio-Histórica soviética, a ideologia partidária stalinista vetava pesquisas que incluíssem entre seus temas categorias como subjetividade, sem a qual não é possível explicar sem a participação dos Sentidos e dos Significados.

A exemplo do que ocorre com Pensamento e Linguagem, a relação entre Sentidos e Significados também se estabelece de uma maneira dialética e não imediata. Como categorias que ajudam a explicar a constituição humana, não é possível dissociar Sentidos de Significados; por outro lado é possível e mesmo desejável 11compreender que são categorias diferentes, embora constituintes uma da outra.

A primeira diferenciação a se fazer é que os Significados são mais compartilhados do que os Sentidos. Esses, por sua vez, estão na base da constituição psíquica de cada sujeito de uma maneira mais individual, singular; enquanto os Significados são mais dicionarizados, e, por isso, mais compartilháveis.

Vigotski (2001[1934], p.465) dirá sobre o Significado que ele é “apenas uma dessas zonas de sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata”. O Significado, ainda diria Vigotski, é uma pedra no edifício dos Sentidos. Porém, mais do que seu aspecto externo, o Significado também opera nos processos internos do pensamento, organizando-o. O Significado une a Linguagem e o Pensamento; e esses Significados não são estáticos, eles evoluem, se modificam e também com ele o Pensamento, por meio das reelaborações culturais do meio em que o sujeito vive.

Quando, por exemplo, se indaga em um grupo de professores os motivos que os levaram a optar pela docência pode-se ouvir como resposta o gostar de crianças. Nesse momento estamos ainda mais nos Significados. Entretanto, quando perguntamos a cada um o que é esse gostar de crianças, começamos a adentrar pelos Sentidos: uma professora pode evocar memórias da infância quando brincava de professora com as colegas; outra pode dizer que a mãe professora a influenciou; uma terceira lembra de uma antiga professora que foi um modelo para ela; enfim, quando buscamos apreender as zonas de Sentidos constituídos por cada sujeito a proposta é apreender algo que está além dos Significados, entendidos como mais aparentes, enquanto os Sentidos são mais individualizados, dizendo respeito à subjetividade de cada sujeito.

Entretanto, o próprio Vigotski e seus colaboradores mais próximos jamais utilizaram a categoria subjetividade em suas pesquisas, o que não quer dizer que ela não fosse

11 Há grupos de pesquisas acadêmicas que interpretam Sentidos e Significados como equivalentes, inclusive na maneira de a eles se referirem: sentidos-e-significados.

considerada. Pensamos que a contribuição de González Rey (2003, p.251) a esse respeito esclarece o que tentamos dizer:

A dimensão do sentido constitui um aspecto essencial na definição do subjetivo, em que o sentido não pode ser visto como emoção ou significado de forma abstrata, mas como a expressão de uma nova síntese, que só pode ser compreendida dentro do movimento permanente dos significados e das emoções dentro das quais se define o sentido subjetivo

Enquanto a lógica formal tende a dicotomizar objetivo de subjetivo, a lógica dialética procura entendê-los como uma unidade de contrários, em que um constitui e nega o outro ao mesmo tempo. Entendemos que a subjetividade e a objetividade são constituintes uma da outra, longe de ser de maneira dicotômica, mas de maneira dialética: ao mesmo tempo negando-se, para então se reafirmar por superação. Compartilhamos novamente da proposta que González Rey (2005, p.353) expõe sobre esse aspecto tão determinante para a constituição da psique humana:

O objetivo e o subjetivo não se apresentam nesta perspectiva como dimensões excludentes entre si, pelo contrário, se pressupõem de forma recíproca. Não existe uma dimensão objetiva dos processos humanos que possa se separar do subjetivo em seu impacto sobre o homem, pois a subjetividade é um atributo definidor da objetividade humana

Sendo assim, entendemos que o estudo das categorias Sentidos e Significados nos auxiliarão em nossa pesquisa ao trazer com elas a discussão da relação dialética entre a dimensão subjetiva e a dimensão objetiva na constituição psíquica humana. Dito de outra maneira, pensamos que essas categorias nos auxiliam a enxergar nossos sujeitos como constituídos por uma totalidade que traz em si a particularidade; e nessa linha de raciocínio, o estudo dos Sentidos e Significados são de extrema importância para a análise e compreensão do caminho que percorre o Pensamento para se tornar Linguagem.

No documento Leonardo Marcelino Luz.pdf (páginas 30-33)

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