CAPÍTULO II – PERCURSO DE VIDA E ENVELHECIMENTO
2.1. O SER HUMANO QUE ENVELHECE
A mudança demográfica a que se tem vindo a assistir nas últimas décadas chamou a atenção para o problema da velhice, normalmente associada à maior incidência de dependência nas atividades de vida diária, com impacto quer ao nível da saúde quer ao nível económico e social (Sequeira, 2007, 2010). Paúl (2005) e Sequeira (2007) ao abordarem a história da velhice de Minois de 1987, referem que esta preocupação com o envelhecimento já aparece retratada no Antigo Testamento (Génisis, 6,3) onde se aborda os 120 anos como limite de idade “(…) o homem é carne, e os seus dias não ultrapassarão os cento e vinte
anos»” (A Biblia Sagrada, 2006, p. 32), como também refere Lima (2010), muito embora
Moisés (Sal, 90, 10) se refira à longevidade até aos 70, 80 anos “A duração da nossa vida
poderá ser de setenta anos e, para os mais fortes, de oitenta” A Biblia Sagrada (2006, p.
934).
Esta preocupação com o envelhecimento, que originou a Gerontologia através dos trabalhos de Elie Metchikoff em 1903 (Sequeira, 2007), tem na atualidade uma nova expressão devido ao grande número de pessoas a chegar à velhice. Lima (2010) diz que este fenómeno expande a morbilidade, pois à redução nas taxas de mortalidade e ao aumento da esperança de vida está associada à prevalência de doenças crónicas com períodos de tempo mais prolongados de incapacidade e dependência. A consciência desta realidade crescente tem preocupado os poderes do meio político, social e científico pelas dificuldades daqui decorrentes. No entanto, a oferta de condições adequadas para a qualidade de vida e bem- estar das pessoas neste escalão etário, promove um envelhecimento com melhor saúde, autonomia e independência (Sequeira, 2007, 2010) e permite um melhor aproveitamento da riqueza dos idosos a favor da humanidade (Simões, 2006) que, muito embora pareça difícil aceitar a sabedoria como sua constituinte (Bastos, Faria e Moreira, 2012; Jesuíno,
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2012), não parece difícil aceitar o privilégio da coconstrução de sabedoria no contexto das relações interpessoais com estas pessoas de longa experiência.
O cada vez maior número de pessoas com idades avançadas, em crescente de longevidade, transformou um grupo, que anteriormente possuía características homogéneas, em subgrupos diferenciados entre si pelas capacidades físicas, cognitivas e psicológicas demarcadas pelo avanço da idade e por dinâmicas diferenciadas e não homogéneas (Lopes e Gonçalves, 2012). Afonso, Morais e Almeida (2012) consideram os subgrupos dos 60 ou 65 até aos 80 anos e dos acima dos 80 anos. Outros autores como Imaginário (2004) e Lima (2010), referem que o ciclo de vida dispõe cronologicamente o grupo dos idosos nos subgrupos, ou categorias, “Idoso jovem” (65-74), “Idoso médio” (75-84) e “Idoso idoso” (85 e mais).
No grupo dos idosos o passar do tempo intensifica o processo gradual, transversal e irreversível de mudanças e de transformações que progridem à medida que se avança nos subgrupos ou categorias (Lima, 2010). Nomeadamente, no aspeto biológico o envelhecimento constituiu-se como objeto de estudo passível de abordagem com metodologias científicas (Almeida, 2012). Estas transformações acontecem tanto de forma multidirecional, podendo concretizar-se por várias vias, como de forma multidimensional, podendo não acontecer em simultâneo nas dimensões física, intelectual e social, como ainda de forma contextual dependendo da interação com o contexto (Lima, 2010).
Segundo Paúl (2005) e Sequeira (2007), as transformações da velhice têm vindo a ser trabalhadas por vários filósofos sendo a estes imputadas visões posteriores positivas (Fernández-Ballesteros 2004) e negativas (Paul 1997; Dias 2005) acerca da velhice e do envelhecimento: Platão (427-347 a. C.), iniciador dos desenvolvimentos otimistas da velhice, considera-a na linearidade sequencial da vida do jovem e do adulto, com noção do envelhecer como se viveu na juventude; Hipócrates (460-377 a. C.) pioneiro a considerá- la medicamente como um processo natural de contínua maturação do ser humano que vai diminuindo as suas resistências e o predispõe à doença; Aristóteles (384-322 a. C.), iniciador dos desenvolvimentos desvalorizadores da velhice, aponta-a na quarta fase da vida humana com deterioração de capacidades e consecutivo aparecimento da senilidade; e Galeno (131-201) considera-a como a intensificação progressiva da perda de líquidos corporais que determinam a consequente perda de função dos órgãos.
Este passado demonstra que é antiga a tarefa de atribuição de sentido às transformações da velhice dependendo ainda o seu impacto e significação das contingências de cada época (Dias e Rodrigues, 2012). Viegas e Gomes (2007) dizem que mesmo no meio destas transformações as pessoas idosas continuam a reconstituir a sua identidade nas relações dinâmicas que vivem e com tudo aquilo que as rodeia, que Fonseca (2005) diz serem
Mário Simões – CUIDAR EM HUMANITUDE, Tese de Doutoramento em Enfermagem na Especialidade História e Filosofia da Enfermagem, Universidade Católica Portuguesa
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as outras pessoas, os contextos físicos, institucionais, sociais ou históricos. Imaginário (2004) refere que mesmo vivenciando um percurso degenerativo natural a pessoa idosa incorpora também a experiência adquirida, produto da maturação ao longo da vida, que deve continuar a ser vivida constantemente, adaptada à progressiva involução biológica, morfológica, funcional, psicológica e social, uma vez que estes não se instalam à mesma velocidade em todas as pessoas. Perante tal heterogeneidade Pimentel (2005) e Sequeira (2007, 2010) dizem surgir dificuldade em definir as características que diferenciam o grupo dos idosos, dos outros grupos do ciclo de vida. No entanto, sob influência dos trabalhos do alemão Bismarck que em 1889 desenhou o primeiro programa de segurança social determinando a idade de reforma aos 70 anos, os autores Sequeira (2007, 2010), Imaginário (2004) Aragão e Sacadura (1994), Paúl (2005), Spar e La Rue (2005), e a Organização Mundial de Saúde em 2002, a Organização das Nações Unidas em 2009, apontam para a faixa dos 60 aos 65 anos de idade como sendo a idade de transição para a velhice.
Os 65 anos trazem um conjunto de novos desafios: a aposentação, que em Portugal se iniciou em 1896 através da Caixa de Aposentações dos Trabalhadores Assalariados entregue à Caixa Geral de Depósitos e Instituições de Providência, instituiu um ritual de passagem ao estatuto de idoso e criou um reajuste de papéis úteis e de renovação de estilos de vida, uma vez que a nível financeiro diminuem as entradas e aumentam as saídas ligadas à dependência; a mudança nos relacionamentos familiares, pois enfatizam uma maior atenção cuidativa entre o casal, novamente sozinho e com maior disponibilidade de tempo para si próprio, uma reaproximação dos filhos adultos aos pais idosos, mas agora com a intenção de apoio emocional e instrumental e uma reaproximação dos irmãos idosos pela partilha de memórias passadas comuns, ou seja, as relações familiares moldam-se em torno do apoio emocional e do apoio à autonomia; a presença dos netos, que são fonte de relações significativas, muito mais expressivas do que instrumentais, com os avós que atualmente os vêm crescer muito para além da infância; a diminuição das redes sociais, com perda de relações significativas através da morte de outras pessoas, potencia a necessidade de se construírem novas amizades para evitar o isolamento e a solidão e também para o apoio à dependência e à doença; assim como a maior frequência na perda de capacidades e de relações, na vivência de luto e de pensamentos de finitude, na presença de diversas patologias, doenças crónicas, incurabilidade e grande mortalidade (Costa, 2006; Sousa, 2006; Sequeira, 2007).
Fundamentalmente, a velhice é marcada pela presença da aposentação, pela rejeição afetiva do grupo social, pelas afeções crónicas, pelas modificações físicas ao longo da sua existência no tempo e por uma maior dificuldade de adaptação às alterações e solicitações do meio ambiente. É, também, vivida com o recurso a experiências individuais e percursos próprios de significação subjetiva da experiência de vida (Paúl, 2005) e, por
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isso mesmo, por pessoas muito diferenciadas com grande diversidade de adaptação pessoal (Imaginário, 2004; Costa, 2006; Fonseca, 2005) e heterogeneidades no progredir da idade (Lima, 2010).
O fenómeno da heterogeneidade demonstra uma grande necessidade de atendimento personalizado (Sequeira, 2007, 2010) na fase da velhice (Lima, 2010). Na conceção deste atendimento é necessário dinamizar uma cultura de educação para a velhice (Simões, 2006; Fonseca 2012) que potencie a inter-relação tanto no desfrute das suas novas liberdades como na ajuda nas suas novas limitações (Imaginário, 2004). Este atendimento não passa meramente pelo cuidado médico ou medicamentoso e esforços dirigidos à prevenção dos problemas inerentes à velhice, passa também pela dinamização das forças das pessoas idosas para mudanças de adequação das suas competências às exigências ambientais, para que deixem de se focalizar no que lhes falta e passem a valorizar o que têm (Costa, 2006; Fonseca, 2012), uma vez que “não é a mudança de lugar de vida que
provoca perturbações fisiológicas ou emocionais, mas a maneira como ela se processa (a pessoa não é consultada; a pessoa é obrigada; mudança não preparada; mudança feita à pressa; local de acolhimento inadaptado; etc.” (Gineste e Pellissier, 2007, p. 82, 2008, p.
103). Assim, o apoio dos outros é importante para potenciar intervenções personalizadas e autónomas perante novas vulnerabilidades (Fonseca, 2005), tendo disso sido dado prova legislativa já em 1061, em Inglaterra, com a primeira lei de proteção aos mais velhos (Afonso, Morais e Almeida, 2012).
As novas vulnerabilidades da fase da velhice, trabalhadas sob a perspetiva do desenvolvimento do ser humano inerente a todo o seu ciclo de vida (Fonseca, 2004), exigem que se potencie a inter-relação para a superação de dificuldades e a adaptação do idoso. É nesta fase que o processo interativo do relacionamento pessoal ganha novo relevo, uma vez que por um lado proporciona o suporte de superação às mudanças que se vão instalando na pessoa idosa, e por outro lado porque, naturalmente, é onde se redefinem as prioridades da vida dando mais relevo à família e às relações do que à profissão que já não é exercida (Fonseca, 2005; Pimentel, 2005).
Assim sendo, também na velhice o desenvolvimento é notório através da aquisição de formas de conduta adaptadas às novas prioridades, desafios e exigências, com a vantagem do recurso à experiência acumulada e maior disponibilidade de tempo para viverem relações significativas que ajudam a manter, a formar, e a reconstituir a sua vida personalizada, e dão significado à vida (Viegas e Gomes, 2007; Sequeira, 2007, 2010). Até porque, a maior disponibilidade para a relação é proporcional à necessidade de interação de subsistência, inerente ao declínio de funções e ao declínio das respetivas reservas cognitivas (Bastos, Faria e Moreira, 2012). A descontinuidade que este declínio de funções promove e a respetiva mudança para uma nova estabilidade, marcam diferenças
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de resposta em cada pessoa que as vive, uma vez que a pessoa idosa já pode contar com a aprendizagem adquirida na resposta a descontinuidades outrora vividas e particularmente significadas (Viegas e Gomes, 2007). A existência desta experiência, independentemente da presença de limitações físicas e de saúde, permite à pessoa idosa interpretar o seu presente e otimizar o seu desenvolvimento e adaptação (Viegas e Gomes, 2007), e permite às pessoas que a acompanham ajudarem-na a desocultar essa experiência e a progredir na sua ação de significação do que vive no presente (Fonseca, 2005).
Agir desta forma, ajuda a criar contextos de vida estimulantes que retardam, ou invertem mesmo, o declínio de capacidades e mantêm as pessoas idosas no controlo da sua vida (Fonseca, 2005) e a desenvolverem a sua personalidade (Lima, 2012). Saldanha (2009) e Almeida (2012) referindo-se ao grande número de internamentos motivados pelo síndroma de fragilidade e suscetibilidade às doenças causadores de morte inerente à fase da velhice, referem, também, a necessidade de uma preparação pró-ativa das pessoas nesta fase do ciclo de vida para a vivência do processo de envelhecimento, referindo a necessidade de formação específica pós-graduada aos profissionais de saúde, nomeadamente enfermeiros da área de geriatria e médicos de família.