4. DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL
6.3 Sertão Oculto
A mesma geografia, a mesma natureza e o mesmo sol que esturrica a terra da seqüência inicial do filme O Canto do Mar, com o seu personagem-tipo, o retirante, abrigaria, 10 anos mais tarde, a narrativa e os protagonistas de Vidas secas. Aqui, o sertão representado permanece pobre e rural, mas passa a ser denunciado como resultante de um sistema latifundiário que perpetua as injustiças. A denúncia, entre tantas, é a de uma família que, após percorrer léguas e mais léguas à pé, chega a uma casa abandonada, no entanto para fazerem moradia dela Fabiano precisa enfrentar o coronel. Um confronto, um convencimento difícil, que não é de briga, e sim dos valores persuasivos, de que ele, Fabiano, é um bom trabalhado, sabe da lida com o gado. Aquele homem que implora para trabalhar e se abrigar com a sua família, do sol e da errância de retirante, é o protagonista da narrativa. Uma mostra do quanto subjugado à “ordem social” está o retirante sertanejo. Até mesmo humilhado, emerge de modo dramático, simples e rápido, denunciando a exclusão social do País. Com o acordo de trabalho fechado entre coronel e vaqueiro; Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos, o mais novo e o mais velho, passam um ano de inverno, de fartura, trabalhando e morando em “uma casa segura, de tijolo, com alpendre”, como assegura a matriarca.
81GUIMARÃES ROSA, João. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1986, p. 98 .
82ZÍLIO, Carlos. A querela do Brasil: a questão da Identidade da arte brasileira. 2º Edição. Rio de Janeiro: Ed.
Para Bernardet, a representação, em Vidas secas, desse personagem-tipo do sertão uno, que se torna duplo, o retirante tornando-se vaqueiro, representa um “passo fundamental na conquista da representação do homem brasileiro na tela (...) verdadeiro tratado sobre a situação social e moral do homem no Brasil”.83 O fato do filme ser desnudado de todos os vícios folclorizantes, de ter sucessivamente, embora brevemente, confrontado Fabiano aos diferentes representantes do poder (coronel e posteriormente o soldado, representantes do Estado), de ter tratado a religião como um puro ritual mecânico, permitiram-lhe atingir um grau de universalidade mais intenso: “Fabiano deixa praticamente de ser um homem particular, com problemas específicos, para tornar-se o homem brasileiro esmagado pela sociedade (...) Ele é tanto o sertanejo quanto o pequeno-burguês citadino, e talvez mais o segundo que o primeiro”.84
Ora, essa observação de Bernardet resume os propósitos dos jovens cinemanovistas. Trata-se da ambição de renovar totalmente a própria expressão, ou seja, de elaborar uma imagem nacional com elementos da cultura, e, na outra vertente, a de contribuir para o inventário e para a denúncia do subdesenvolvimento. Vidas secas é, antes de tudo, um meio de expressão a serviço da cultura e participa da criação dos costumes autenticamente brasileiros, tomando como referência o que havia animado o romance brasileiro pós-modernista.
Nos momentos analisado no filme, os retirantes encontraram uma casa e trabalho, estão em um momento de “equilíbrio” pobreza-social-econômica. Nesse instante da narrativa, o espectador é convidado a dialogar com outra parte do sertão, que não apenas a geografia, a vegetação, as características físicas e as injustiças da ordem econômica, e sim o comportamento mental da família. Um olhar interior jovial do menino mais velho incita a atenção com o seu elo entre o sonho em ser proprietário de um boi e a curiosidade aguçada que conduz o espectador até a ambigüidade do real. É por meio dele que somos levados a conhecer a lida de Fabiano e a sua conseqüente assimilação dos sentidos e valores do vaqueiro.
Aqui, o sertanejo é apresentado como um lutador estóico, ou mesmo heróico, capaz de afrontar as maiores secas tanto quanto os maiores desafios; na transfiguração por que passa no momento de perigo e “opera um milagre”, em face dessa prova, atravessando um novo ciclo.
A partir desse sentido o menino mais velho é o embrião do personagem-tipo do sertão, a certeza de um moço “sol nascente” que está tão atento à realidade quanto rápido para não perder o momento de apreendê-la ao modo de sua formação. Ao mesmo tempo que a lida de Fabiano é automática, mecânica como a religião, ressalta-se uma diferença entre ambas: a sua labuta sacia, ainda que no limite, a fome de todos, enquanto a religião os mantêm alheios a “ordem” social. A
83BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007,p. 67. 84Idem, 2007,
atenção apreensiva, admiradora do menino mais velho sugere o discernimento entre as duas coisas. Além de convidar o espectador a conhecer, com suas descobertas inquietantes diante da vida, uma possível promessa de mudança nesse cenário.
Primeiro, como as raízes do lugar vão se tornando uma extensão de suas forças. Do pai domando o cavalo e tornando-se o seu herói à admiração dos objetos de vaqueiro que Fabiano vai se desfazendo enquanto o menino mais velho os admira como troféu; o gibão, o peitoral, as esporas, as perneiras, o chapéu. Uma descoberta tão jovial e tão bonita, mas que logo irá marcá- lo com uma perda sentida pelo coração: a morte de Baleia, que o resigna e, ao mesmo tempo, agrupa elementos constitutivos do homem tenaz sertanejo em formação.
Vidas secas une ao retirante-vaqueiro o menino que com seu olhar dialético da realidade
sugere um futuro diferente. Desse modo, mais uma vez, vai às raízes da região para alcançar os problemas brasileiros do descaso com o trabalhado rural ou urbano irresolutos; a criança do trabalhador injustiçado está condenada a rezar automaticamente e repetir mecanicamente a vida de trabalho dos seus pais? O menino mais velho dá todos os indícios que não.
Quando a seca retorna ao sertão e volta a desorientar os caminhos dos injustiçados, o coronel retira a lida de Fabiano e ordena que ele deixe a fazenda. Mais uma vez a denúncia do subdesenvolvimento da ordem estabelecida volta a marcar a vida de Fabiano e de sua família, sendo atribuída não apenas à seca, mas ao latifúndio. Nesse instante, acrescenta-se a narrativa a personalidade forte e decisiva no núcleo familiar, Sinhá Vitória, que tem a hierarquia de quem sabe fazer as contas, “que é boa da cabeça”,85 dando as ordens. Não um mando autoritário, mas uma consciência do quanto contribuíram para o patrão e o quanto é importante “mudar de manhãzinha, antes que o patrão chegue! Vá buscar o bezerro da vaca laranja. A viagem pode ser longa”, fala Sinhá Vitória a Fabiano. A esposa, nesse momento, é mais racional e pensa calculado na sobrevivência da família, assim como será Rosa na maior de Deus e o Diabo na
Terra do Sol, tentando acordar Maneul de seu transe.
Um ponto marcante do drama do filme Vidas secas é quando o menino mais velho e o mais novo são levados para a penumbra da casa por Sinhá Vitória, numa tentativa de protegê-los de sua primeira perda sentimental: o assassinato de Baleia que embora doente provoca um vazio no menino mais velho e, ao mesmo tempo, traz uma re-significação da luz do sertão sentida por ele dali para a frente. O retorno do ciclo de retirante, ao sol nascer, com os parcos pertences na cabeça e a racional decisão de Sinhá Vitória formam a personalidade do menino mais velho. Um
85Fala de Fabiano durante o ajuste de contas com o coronel .
convite ao espectador para a ambigüidade do real, com personagens que são concebidos e ganham densidade, talvez pela primeira vez, veridicamente representados no cinema brasileiro.