4. DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL
6.4 Simbiose Sócio-Religiosa e Errância do Transe
O sertão de Glauber tem vários personagens históricos, dos quais o retirante-vaqueiro de
Vidas secas, com seu interior dilatado, é em Deus e o Diabo na Terra do Sol um personagem
revolucionário conduzindo a narrativa. Homem do povo, que servilmente trabalhou e se calou diante do coronel por séculos, nesse filme é incitado a buscar sua liberdade: sonha com a própria terra, em trabalhar para si e soltar-se dos mandos e desmandos do seu opressor. O protagonista que não era um escravo dos poderosos coronéis, mas fora explorado e tolhido em sua opinião, recusa-se a permanecer submisso e a alimentar as riquezas dos poderosos.
O vaqueiro supera a linguagem lacônica de Vidas secas e enfrenta o coronel durante a partilha das vacas: “Mas seu Moraes, as vacas tinham o ferro do senhor... Não pode ser logo as minha. Sou homem pobre. Foi azar, mas é verdade, as cobra mordeu as reses do senhor”. O coronel poderoso e arrogante, outro personagem-tipo, nesse caso tipicamente brasileiro e não apenas do sertão, lança sua defesa: “Já disse, tá dito, a lei tá comigo”. Manuel não se conforma, insiste numa partilha justa, quando o coronel parte para a agressão física e chibatea seu “submisso”, num ato de autoritarismo. Manuel reage e mata-o.
O vaqueiro, em Deus e o diabo na Terra do Sol, sai da condição de semi-escravo abrindo frente à proposta revolucionária de Glauber de libertação do oprimido. O homem do povo, que numa reação inesperada toma uma atitude revolucionária, agora, paga sua atitude. Primeiro a morte de sua mãe e, depois, é obrigado a fugir em buscar de proteção para sua vida e a de sua mulher no messianismo, força histórica, que enfrentou a ordem estabelecida no sertão, prometendo ao povo fartura e igualdade para todos.
Manuel liberta-se de seu opressor físico, mas cai nas amarras religiosas austeras que o manterão como um eterno errante em transe. Um emaranhado religioso que emerge no início do filme quando o personagem fala a sua mulher sobre a intuição, antes mesmo de matar o coronel, de ter encontrado um salvador na figura do beato Sebastião. Guia messiânico junto a quem Manuel - contra a vontade de sua esposa, Rosa – busca proteção e salvação da alma após matar o coronel. Nesse momento seu transe é agravado, passando por vários rituais; das promessas do catolicismo à magia negra.
A dimensão histórica do religiosismo recusa qualquer exotismo. Então, o personagem de Sebastião é uma superposição do beato José Lourenço, do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, e de Antônio Conselheiro, de Canudos. O personagem Sebastião, que representa de modo sintético todos eles, é o alvo que a tríade (coronel, Igreja, político) precisa eliminar como o fizera na história real. Assim, a Igreja atravessa a vida do trabalhador tão fortemente quanto a ordem político-econômica, negando a liberdade do povo, uma vez que ele não lhe rende mais riquezas.
Quando os beatos são assassinados pela força da tríade em pleno Monte Santo, e São Sebastião é morto por Rosa na tentativa de tirar Manuel de seu transe, a revolulção se apresenta tolhida, eliminada. Mas restam seus resquícios, Manuel e Rosa que ficaram vivos “para contarem a história”.
Novamente o vaqueiro é obrigado a buscar proteção em outra força de dimensão histórica que enfrentou a ordem social, porém sem propostas revolucionárias populares, o cangaço, que também é fruto do sistema sócio-político latifundiário e da injustiça.
O cangaço recebe o homem do povo, Manuel, que aceita mais um ritual ao ser batizado de Satanás por Corisco. Desse modo, o vaqueiro ingressa em sua terceira fase, no sincretismo religioso do cangaço com característica da cosmogonia cristã e ibérica, permanecendo refém de seu transe.
Corisco relembra os momentos de guerra em que esteve ao lado do “Rei do Cangaço” e incorporando Lampião jura vinga-lo, e Satanás se põe à disposição: “Eu morro pelo senhor, capitão. Num é tudo a mesma coisa, Sebastião e Virgulino?”. A comparação deixa corisco indignado e sua reposta e bravura reaviva a identidade do cangaceiro forte, próprio do sertão guerreiro, ao qual Manuel se agarra em busca de justiça.
Agora, o ex-vaqueiro é incitado diretamente por um líder a mudar o destino pelas próprias mãos, ainda que no rifle e no punhal. E, no confronto final do cangaço, Corisco dispensa seus cabras e pergunta a Satanás se ele vai enfrentar Antônio das Mortes ou vai embora. Manuel não encontrou a sua certeza e, no limiar da morte, recorre à consulta de Rosa, até antes renegada em suas decisões. A esposa, que durante todo o filme foi mais racional, responde dizendo que “estou com você para termos um filho, uma família”. Assim, o vaqueiro volta a assumir os tregeitos de Manuel, que atravessou o messianismo e o cangaço imbuído da cosmovisão incidida por Glauber: tomar seu destino em suas próprias mãos e a desenvolver sua consciência política, mas não a alcança.
Então, em uma corrida desalentada, que não lembra nada do enfrentamento da ordem, Manuel vai alcançar o mar, com um repentista cantando: “O sertão vai virar mar, e o mar virar sertão/ tá contada a minha história, verdade imaginação/ Espero que o senhor tenha tirado uma
lição/ Que assim, mal dividido, esse mundo anda errado/ Que a terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo/ Não é de Deus nem do Diabo”.
Assim, os personagens históricos que a cultura popular, por meio do cordel já havia transformado em mitos, são retrabalhados de modo sintético. A religião que atravessa a história do messianismo ao cangaço volta a alimentar a fé em Manuel, que mais uma vez, não alcança a consciência e se vê enredado no transe. Mesmo com um fim que não assegura a liberdade ao protagonista, a alternativa apresentada por Glauber não é mais representada pelo sudeste, como em O Canto do Mar e Vidas secas, mas pela força combativa e consciente do homem em modificar, ele próprio, seu mundo.