Não há como deixar de reconhecer a particular importância que teve a Igreja Católica na estruturação da profissão no país, esta foi responsável pelo ideário, pelos conteúdos e pela formação dos primeiros assistentes sociais brasileiros. É verdade que isto se deu em virtude de sua busca pela recuperação do poder e da influência que possuía junto à sociedade, até períodos anteriores à constituição da república no Brasil. Sob o argumento de consolidar a ordem e a disciplina social, a Igreja objetiva estabelecer mecanismos de influência e controle, com apoio das frações dominantes da Sociedade Civil.
Os desdobramentos da ação social implementada pelo movimento laico de tal instituição foram mais amplos do que sua atuação previa, uma vez que a especialização técnica de pessoal na área social foi funcional ao enfrentamento das manifestações da questão social no âmbito do Estado.
Na década de 1920 o movimento laico da Igreja começou a atuar por meio de pequenas organizações, a fim de reconquistar espaço para exercer sua influência social. As primeiras instituições criadas – a Associação de Senhoras Brasileiras (1920) no Rio de Janeiro e a Liga das Senhoras Católicas (1923) em
São Paulo – são resultado da divulgação do pensamento social da Igreja.
Aquelas, diferente das antigas obras sociais, objetivam não apenas o socorro aos indigentes, mas possuíam um caráter preventivo visando desde já atenuar nas sequelas do desenvolvimento capitalista (IAMAMOTO e CARVALHO, 1998).
As pequenas iniciativas de intervenção social se ampliaram, foram organizadas a partir da Ação Social Católica e tomaram forma de apostolado social. Com a necessidade de organizar e tornar mais efetiva as obras sociais já existentes, sob controle da hierarquia, em 1932 é criado o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo (CEAS). Este tinha por objetivo formar seus membros com base
na doutrina social da Igreja e aprofundar o conhecimento a respeito dos problemas sociais, visando tornar mais eficiente a atuação daquelas mulheres da elite paulista que atuavam como trabalhadoras sociais (idem).
Um marco para a introdução do Serviço Social no Rio de Janeiro, a então capital do país, foi a Primeira Semana de Ação Social realizada por iniciativa da hierarquia e do movimento laico, mas com grande participação de diversas instituições públicas que realizavam atividades de assistência. Nesta ocasião é reconhecida a necessidade de formação técnica especializada na área social, uma vez que as atividades precederam a formação. Diante da dinâmica do processo de industrialização no Brasil, que agrava a relação capital/trabalho, havia uma demanda latente pelo aumento nos quadros de recursos humanos para a prática de assistência no meio católico, como também no âmbito do Estado e do empresariado (idem).
Desde aquele momento tinha-se como público alvo a massa operária, visto que havia a preocupação presente em afastá-la de influências “subversivas”, ou seja, das contestações em torno das condições em que era realizada a exploração da força de trabalho. Com o aumento do proletariado, apesar da cultura de subserviência do trabalho, surgem movimentações orientadas pelo alcance da consciência de classe, lembremos que a classe operária era composta em grande parte por imigrantes europeus, que trouxeram consigo características da classe trabalhadora dos países do capitalismo central.
A partir daquela preocupação o apostolado do movimento laico da Igreja se empenhou em reunificar e recristianizar a sociedade, de modo que voltou esforços para “livrar” o proletariado das influências políticas contestatórias e perturbadoras da ordem, a fim de restaurar os costumes cristãos. Sua ação objetiva não apenas organizar as classes subalternas em torno de um sentimento de resignação, mas também harmonizar as classes em conflito, em busca de um comunitarismo cristão (IAMAMOTO e CARVALHO, 1998).
As intervenções sociais, realizadas junto ao proletariado, passam a ser realizadas por trabalhadoras com formação técnica especializada orientada pela
doutrina social da Igreja. O aprofundamento técnico oriundo dos esforços realizados pelo Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo desdobra-se na fundação da primeira Escola de Serviço Social, em 1936 (idem).
No contexto da década de 1930, o Estado também estava empenhado na manutenção da ordem social. Com o objetivo de regular as tensões entre as classes sociais criou uma série de iniciativas que o permitiam, por meio da administração burocrática, intervir nas manifestações da questão social. Para atenuar as forças sociais em ascensão buscou desmobilizar a organização da classe trabalhadora, através de medidas como a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), o salário mínimo e outras de cunho controlador, na lógica das “concessões” do Estado (YAZBEK, 2009).
Com vistas à confluência de interesses Igreja e Estado aliam-se politicamente, visto que possuíam em comum a preocupação de consolidar a ordem e a disciplina social. A primeira em busca de reconquista do seu terreno de influência social e o último objetivando a regulação das relações entre as classes sociais, para fins de manutenção da relação entre capital e trabalho então instaurada. Tais instituições se empenharam em estabelecer mecanismos de controle social em uma conjuntura que envolvia crise de hegemonia entre as frações da classe burguesa e grande movimentação das classes subalternas.
A partir de então os quadros técnicos formados pela Escola de Serviço Social extrapolaram o atendimento da demanda oriunda da ação social católica, e passam a atender também a demanda de instituições estatais pelo serviço técnico voltado à intervenção social. O empreendimento realizado pelo CEAS, em torno da fundação da Escola de Serviço Social, portanto não foi fruto exclusivo do Movimento Católico Laico, visto que já havia uma demanda, real ou potencial, por parte do Estado (IAMAMOTO e CARVALHO, 1998).
No Brasil a institucionalização e legitimação profissional do Serviço Social se realizaram em virtude de ser este um dos instrumentos do Estado e do empresariado, juntamente com as políticas sociais, para o enfrentamento das manifestações da questão social. Nos anos 1930, quando tais manifestações se
intensificam nas condições de vida da classe trabalhadora e adquirem expressão política, a especialização do trabalho social se torna funcional à reprodução das relações entre capital e trabalho (YAZBEK, 2008).