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2. CONTEXTUALIZAÇÃO

2.2 INDICADORES DE PIB E DEBATES ATUAIS

2.2.3 SERVIÇOS

Faz-se necessário, dado o escopo deste trabalho, um breve entendimento a respeito do setor de Serviços no que tange sua conceituação, características e revisitações de trabalhos recentes, principalmente no caso brasileiro. O debate de Serviços se estende desde os pensadores clássicos econômicos até os dias de hoje. Enquanto a definição de Indústria pode ser derivada de suas características produtivas, de maneira simples, a conceituação de Serviços já tem por origem de dificuldade a própria significação de seu caráter produtivo. Suas características são evidenciadas por:

 Heterogeneidade: Ampla faixa de atividades que vão desde transportes a um trabalho de emprego doméstico.

 Dinamicidade: Há segmentos que deixam de existir e outros são criados rapidamente tais como um designer de páginas de Internet, novos cortes de cabelo e outros. Alterações de processos produtivos, aumentos de produtividade, etc. são mais comuns e velozes em comparação com os setores Secundário e Primário.

 Intangibilidade: Mais marcantes no setor Terciário, serviços são, em sua maioria, produzidos e consumidos ao mesmo tempo, embora agora possam ser estocados em mídias, por exemplo.

É esta última característica o centro de atenções no que concerne ao seu caráter conceitual produtivo, do que acaba sendo considerado ―produtivo‖ ou ―improdutivo‖ conforme o viés do pensador econômico. Isto já era discutido desde os autores clássicos, sem chegar a um acordo propriamente dito. Tal debate mais aprofundado a respeito da temática pode ser visto em Kon (2015).

Desta maneira, muitas das tentativas de conceituar Serviços têm como origem as características acima descritas. Além disso, comparações são feitas com produtos ou processos dos demais setores. Para clarificar, Melvin (1995) observou que uma das maiores dificuldades encontradas no que diz respeito a Serviços é medir sua produção e definir exatamente o que são serviços e como eles diferem de mercadorias convencionais. Isto é, como dizia Walker (1985), serviços não seriam tangíveis e, consequentemente, não possuiriam forma como produtos.

Ainda na busca do entendimento para sua definição, Kon (2015) analisou, ilustrativamente, que a característica da simultaneidade entre seu fornecimento e consumo pode constar, agora, em etapas diferentes ou não. Isto é, ao longo do tempo as definições e classificações teóricas podem se diferenciar em virtude da evolução de

atividades outrora tradicionais, bem como a criação de novas modalidades. Ou seja, as várias mudanças conceituais são derivadas da própria dinâmica de serviços no contexto econômico. Para ser mais claro ainda, o conceito de Serviços é mutável. Se antes, por exemplo, havia uma característica fundamental de intangibilidade ou incapacidade de estocagem, hoje é possível materializar atividades, tais como aulas gravadas em discos ou mesmo armazenadas em um servidor na Internet.

Dentre os vários exemplos de conceitos teóricos, pode-se citar Meirelles (2006) em que Serviço é definido como ―[...] trabalho em processo, e não o resultado da ação do trabalho; por esta razão elementar, não se produz um serviço, e sim se presta um serviço‖ (MEIRELLES, p. 16, 2006). Mais prática, no entanto, é a abordagem de Clark (1940) que fez uma divisão da economia em três setores. Serviços, como produção terciária ―[…]is defined by difference as consisting of all other economic ativities […]‖ (CLARK, pg. 182, 1940). Contudo, tratar Serviços como um setor residual implica em outra questão, que é identificar de onde e até que lugar vão seus limites, conforme analisado por Téboul (1999). Para o autor, há pouca pertinência na distinção entre Indústria e Serviços: ―[...] os serviços não podem prosperar na ausência de um setor industrial poderoso, e a indústria depende dos serviços.‖ (TÉBOUL, p. 18, 1999).

Para a base deste estudo, utiliza-se a compreensão e medição de produção do setor, no Brasil, com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). Esta tem como princípio o agrupamento de unidades econômicas com base em similaridades de produção. O conceito de similaridade de processo de produção é aplicado estritamente no nível de classe, isto é, trabalha-se com homogeneidade de atividade econômica (IBGE, 2007). A atividade principal é identificada com base no principal processo produtivo da unidade analisada. Por exemplo, um estabelecimento comercial pode, além de vender, também instalar um ar condicionado. Então, neste caso, a atividade principal seria o comércio, logo, a unidade é partícipe do setor de serviços e não do industrial.

No tocante ao ganho de espaço relativo do Setor de Serviços no país, vale destacar alguns trabalhos. Melo et al.(1998) chamaram a atenção de que a expansão de Serviços no Brasil seguiu a mesma trajetória que a internacional, desde os anos de 1970, com a industrialização e a urbanização acelerada dessa década.

Já Silva et al. (2006) buscaram compreender as questões relacionadas à inovação tecnológica e crescimento produtivo dos serviços mais dinâmicos, principalmente de consumo intermediário, no Brasil. Dentre os principais resultados, encontraram que:

 Serviços empresariais intensivos em conhecimento corroboram a inovação tanto no próprio setor quanto na Indústria.

 No Brasil, existe uma concentração espacial maior em Serviços que na manufatura. Contudo, no Centro-Oeste, a expansão agrícola não resultou em atração de Serviços na região.

 Empresas de capital estrangeiro são, em maioria, mais produtivas que as de nacional.

Analogamente, nas empresas de software, os mercados menos dinâmicos são dominados por empresas de capital nacional e nos segmentos de maior valor agregado, de estrangeiras.

 Na atividade de transporte de cargas, existe participação desproporcional do modal rodoviário, que impacta em todos os setores necessitários de escoar seus bens nos mercados interno e externo.

No relatório da Confederação Nacional da Indústria (2014), é encontrado que Indústria e Serviços se complementam, de modo que o consumo intermediário de Serviços aumentou ao longo do tempo. O valor adicionado, em termos relativos, atingiu níveis comparáveis aos de economias ricas, como o de 2011, na ordem de 64,5%. Porém, Serviços pouco contribui para elevar a competitividade industrial, seus preços são elevados e de baixa qualidade. Outros resultados são que:

 A elevada participação do setor no valor adicionado da indústria se deve, principalmente, às mudanças de preços relativos.

 Não há um padrão de relação comum entre serviços e indústrias, há elevada heterogeneidade.

 As maiores despesas industriais com serviços estão relacionadas aos financeiros e de manutenção prestados por terceiros.

 O perfil de consumo de serviços está ligado ao perfil tecnológico da indústria.

 O Brasil já é grande consumidor de serviços importados.

Na literatura, também são encontrados vários estudos a respeito de serviços intensivos em conhecimento. Um destes é o de Costa (2014), cujo objetivo foi investigar as externalidades positivas geradas por uma análise dos serviços de Tecnologia de Informação (TI) na Região Metropolitana do Estado de São Paulo (RMSP). A autora escolheu serviços de TI por ser um segmento produtivo que compõe estruturas diversificadas e por apresentar expressiva concentração na região de

interesse, além de agregar uma série de atividades tecnológicas consideradas elementos centrais no contexto de desenvolvimento baseado em inovação. Por meio de mapeamento dos serviços de TI presentes no Brasil e um questionário semiestruturado recolhido de 13 empresas na RMSP, dentre os principais resultados, a autora obteve que:

 O fator proximidade é relevante. Empresas de TI estão próximas de empresas grandes, também fornecedoras de TI, de maneira que geram relações de confiança.

 Serviços de TI podem ser considerados complementares para outros tipos de empresas.

 Os melhores serviços de comunicação estão associados à infraestrutura como malha rodoviária e aeroportos, o que facilita o deslocamento de consultores e sócios.

 O setor demanda pessoal qualificado. Contudo, com grande concentração na RMSP, há alta rotatividade laboral.

No que concerne às características relacionadas à realização de serviços, Batista et

al.(2017) tentaram verificar se, de maneira agregada, Capital ou Trabalho são mais

intensivos para sua consecução no Setor de Serviços do Brasil. Aplicaram a função de produção de Cobb-Douglas sobre um conjunto de dados da Pesquisa Anual de Serviços entre 2007-2014. Utilizaram os modelos econométrico de dados em painel de Efeitos Fixos, Dados Agrupados e Efeitos Aleatórios. Encontraram coeficientes na ordem de 0,45 para capital e 0,41 para Trabalho, o que provém retornos decrescentes de escala. Observaram que, considerando tais insumos como produção de serviços, existe certo equilíbrio na ponderação entre os dois coeficientes que seriam na ordem de 0,52 e 0,48 respectivamente.

Jacinto e Ribeiro (2015) analisaram a evolução da produtividade do setor de serviços com foco na relação entre estrutura e crescimento. Ressaltaram que na literatura internacional, Serviços já foram associados a um desempenho histórico negativo da indústria, pelo fato de ser intensivo em mão de obra e com tendência estagnacionista como supunha William Baumol, o qual caracterizou o problema como ―doença de custos‖. A metodologia que utilizaram foi baseada nas Contas Nacionais, na Pesquisa Anual de serviços e no uso de decomposições para explorar a dinâmica produtiva. Dos principais resultados, observaram falta de evidências de doença de

custos no Brasil tanto em Serviços, quanto na Indústria. Ratificaram também marcante heterogeneidade do setor que apresenta dinâmica em parte similar e em parte diferente da indústria, de modo que esta foi determinada em grande medida pelo desempenho intrassetorial. Finalmente, avaliaram que o setor de Serviços, ao contrário do senso comum, é de alta produtividade enquanto a produtividade no período de 2002 a 2009 foi positiva, a indústria passou a ter queda nos anos de 1996 a 2002 e 2002 a 2009.

Lugli (2015) se dispôs a analisar de forma detalhada o setor de serviços no Brasil entre 2000 e 2012. Seu estudo baseou-se nos dados das matrizes do Sistema de Contas Nacionais (SNC), da Pesquisa Anual de Serviços (PAS), da Pesquisa Industrial Anual (PIA) e objetivou a comparação entre os setores. A autora percebeu que Serviços superam os demais setores na geração do valor da produção, no valor adicionado bruto, no pagamento de salários e no volume de empregos. Observou que o setor perde a liderança para a indústria quando se trata da participação no consumo intermediário, no total das importações, na produtividade e no salário médio.

Já Silva et al. (2016) resumiu que a literatura brasileira diverge quando o tema é a produtividade do setor de serviços, coexistindo tanto visões pessimistas de baixa produtividade quanto outras mais otimistas (que destacam segmentos altamente produtivos e intensivos em tecnologia). Com dados da Pesquisa Anual de Serviços do IBGE no período de 2007 a 2013, verificaram aumento no crescimento de 58% no número de empresas e de 50% no número de pessoal ocupado. Os principais resultados do estudo indicaram que serviços mais relacionados ao consumidor final (serviços

prestados às famílias, de manutenção e reparação) apresentam produtividade e salários

comparativamente menores. Serviços mais intensivos em capital ou tecnologia (alguns segmentos de transportes, telecomunicações, auxiliares financeiros, compra, venda e

aluguel de imóveis próprios) apresentaram altos níveis de produtividade e salários.

Também, serviços intensivos em conhecimento são mais produtivos e com maiores salários e remunerações.

Ambrozio e Melo (2017) revisitaram a literatura a respeito do Setor de Serviços e deram ênfase na questão da produtividade e suas implicações para a dinâmica de crescimento econômico. Analisaram que houve modificação da imagem do Setor de Serviços, isto é, passa da visão de ter pouco dinamismo para uma como força por trás da elevação da produtividade e, consequentemente, do desenvolvimento econômico. Observaram que na literatura houve avanços de técnicas de definição e mensuração do produto do setor. Desta maneira, no Brasil há uma crescente literatura empírica que faz

uso dos dados existentes. Destacam em primeiro lugar que serviços empresariais intensivos em conhecimento desempenham importante papel na alavancagem da produtividade industrial. Em segundo lugar, que a disponibilidade de obter fatores produtivos, principalmente trabalho, a um custo razoável é importante para a capacidade das firmas mais eficientes do Setor de Serviços substituírem as que são menos eficientes no mercado.

Finalmente, Cândido Junior e Simonassi (2017) indicaram que o setor de comércio e serviços se expandiu a partir de meados dos anos 2000 e início da década de 2010. Os autores verificam que além da evolução positiva ao longo do período, o setor marcou participação em torno de 70% do PIB, comportamento que atribuem à expansão de serviços no consumo final das famílias e aumento dos preços relativos dos bens do setor terciário. Observaram que alguns fatores explicativos, para tal ocorrência, podem estar relacionados ao ciclo expansionista de demanda interna pelo qual o Brasil recentemente passou, isto é, decorrente da incorporação de enorme contingente de trabalhadores no mercado de consumo. Com a melhoria de condições de trabalho e diminuição de desemprego, houve ampliação da concessão de crédito que, conjugados, ampliou o consumo das famílias, cuja cesta está alocada na ordem de 62% em serviços. Com essa expansão, houve pressão sobre os preços, sobretudo nos custos de mão de obra qualificada. Além disso, tal aumento foi contribuído pelo fato de que a maior parte do setor não está exposta à concorrência externa. Os autores ainda destacaram, dentre outros, que é fundamental para o país que se possa elevar a produtividade setorial. Isso somente seria possível ao melhorar o ambiente de negócios e de operações das empresas.

Em resumo, na maior parte da literatura, existe certa dificuldade para se conceituar precisamente Serviços por conta de seus maiores níveis de Heterogeneidade, Dinamicidade e Intangibilidade de suas atividades, em comparação com os setores industriais, extrativistas e agropecuários. Soluções de conceituação teórica se pautam em comparações das características entre os produtos dos demais setores, em definição por via residual frente aos demais setores, ou em avaliações empíricas por meio da identificação de atividades-fim. No que diz respeito ao ganho de espaço de Serviços no Brasil, observa-se que foi seguida uma tendência internacional.

Nos trabalhos abordados parece haver consenso de que há grande diversificação de atividades de serviços no país. Os estudos mais recentes, destacados acima, apontam aumentos de produtividade em serviços tecnológicos ou intensivos em conhecimento,

sendo que aqueles direcionados ao consumidor final apresentam menores desempenhos em termos relativos. Alguns trabalhos indicam que o setor é um grande provedor de vagas e empregos, mas faz uso intensivo quase na mesma proporção de capital e trabalho, de maneira geral.

2.3 ESTUDOS PRÉVIOS COM UTILIZAÇÃO DE MATRIZ INSUMO-PRODUTO

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