• Nenhum resultado encontrado

Capítulo V O umabo de Sesi através de Bongiwe

3. Sesi, Thokosa, funerais, Umkhamba e Mangaliso

O primeiro lobola que Mangaliso pagou foi o de Linda. Com ela, ele teve o seu primeiro filho, Donald. Mas desde que o casal foi morar junto, a relação tomou-se conflituosa, cheia de brigas, e Mangaliso optou pela separação. Ele pegou Donald e o levou para Umkhamba - a ekhaya, a home [lar] dos Kubheka -, onde a criança cresceu sob os cuidados de sua gogo [avó], a mãe de Mangaliso, sem que Linda jamais o procurasse131.

Depois da separação, Mangaliso conheceu Elizabeth Mollo (W), chamada carinhosamente de Sesi - apelido cunhado de usisi [neologismo para sister, irmã], A língua materna de Sesi era o seSotho e ela era originária de Thokosa, onde morou com Mangaliso por mais de dez anos desde que ele pagou pelo seu lobola. Juntos, tiveram quatro filhos: Bongani, o primogênito e único filho homem do casal, cujo nome

131 Ao completar 15 anos, Mangaliso levou Donald a Thokosa para conhecer a sua mãe, quando ele chegou a passar algum tempo com ela e m anifestou o desejo de colocar o seu sobrenome na identidade. M angaliso argumentou que não havia problema, pois agora ele havia crescido e poderia fazer o que quisesse. Mas a relação com a mãe não foi tão boa assim, especialmente com o padrasto, e Donald retom ou para Ingogo.

significa “eles devem agradecer”; Thembeni, que significa “depende”, a filha mulher mais velha; seguida por Danisile, nome na verdade incomum, aparentemente de origem

isiXhosa e que, nas palavras de Mangaliso significa “desapontamento” (“quando você

espera uma coisa e vem outra” - pois o casal desejava outro menino); e, por fim, a caçula Zanele, que significa “o suficiente”, “chega”132.

Sesi, uma mulher urbana, gostava muito de Thokosa. Entre as fotografias de Thembeni (eD) vistas na noite em fui com Danisile (D) e meu filho a Madadeni, há muitas de Sesi, que sempre aparece bonita e bem vestida, visivelmente fazendo pose e orgulhosa. No início dos anos 1990, quando os conflitos entre ANC e IFP obrigaram os Kubheka a saírem de Thokosa, Sesi trabalhava em Johanesburgo como empregada doméstica. Passados quase quatro anos desde que os seus filhos mudaram-se para KwaZulu-Natal (com exceção do mais velho, Bongani, que permaneceu em uma township em Gauteng com parentes), Sesi foi para Madadeni. Quase um ano mais tarde, foi a vez de Mangaliso juntar-se à família depois que seus taxis foram incendiados.

Os tempos difíceis em Thokosa, no entanto, não apagavam o desejo de Sesi de retornar para aquela township. Sempre que podia ia para lá. Quando o taxi em que viajava para Thokosa capotou na N I 1 (rodovia que liga Newcastle a Johanesburgo), ela preparava-se para uma nova mudança: depois de anos vivendo em KwaZulu-Natal, a família voltaria para a Sabi Street - onde ficava a casa que ainda pertencia à família Kubheka.

Sesi morreu repentinamente em um domingo de 1999. Faleceu na local do acidente. Foi a única vítima fatal, embora estivesse com o seu neto de 2 anos no colo, Khetha (eDS), que não sofreu nenhum arranhão. Por coincidência, Khetha é o apelido de Khethokuhle, que significa bom caminho. Mangaliso só ficou sabendo da tragédia na segunda-feira, quando seus antigos companheiros de profissão, os taxi drivers [motoristas] o localizaram133.

132 Conforme Koopman (2008), o igama lasekhaya (litralmente o nome usado em “casa”, o nome “real”) contém importantes mensagens sociais que podem expressar gratidão e esperança dos pais, assim como seus desejos sobre o comportamento futuro da criança e ainda podem refletir a ordem de nascimento dos filhos (ibdi., p. 439-441). Sobre os nomes dos Kubheka e seus significados, ver Anexo II - Glossário de Nomes.

133 O modo como M angaliso narrou linearmente o seu conhecimento a respeito da morte de Sesi naquele momento, não exclui outras narrativas sobre a morte, quando os sonhos são elementos chave na comunicação com os amadlozi [ancestrais]. De acordo com Borges (no prelo), em outra ocasião, M angaliso falou sobre o conhecimento que teve da morte de Sesi através de um sonho premonitório.

Durante a semana em que Sesi morreu, Mangaliso teve que ir e voltar várias vezes de KwaZulu-Natal para Gauteng, a fim de resolver as burocracias que lhe permitiriam fazer o funeral da esposa em Umkhamba, em Ingogo. O corpo de Sesi fora levado para um mortuary [mortuário, onde os corpos aguardam para serem enterrados] em Gauteng e, somente no sábado, quase uma semana após o seu falecimento, é que o funeral foi realizado em KwaZulu-Natal.

Mangaliso me falou sobre esse funeral com muita tristeza, pois além de perder a esposa, ainda teve que lidar com uma enorme burocracia em um momento de intensa dor. Nessa conversa, referiu-se a outros funerais da família: o de seu pai e o de sua mãe. Mponjwane Khubeka, seu pai, morreu em uma quarta-feira de 2004 e seu corpo foi diretamente encaminhado pelo hospital para o mortuary de Newcastle. Mangaliso estava fazendo um curso de computação em Pietermaritzburg (KwaZulu-Natal), mas voltou para Newcastle naquele mesmo dia. Na quinta-feira, ele preparou toda a documentação e na sexta-feira enterrou o seu pai, apesar de seus familiares insistirem para que o funeral fosse realizado mais tarde.

O tempo que o corpo espera para ser enterrado era considerado penoso por Mangaliso, que achava que hoje em dia as coisas estavam mudando - a demora está aumentando - e

Então, quando os taxistas o avisaram do fato, era como se ele já soubesse do ocorrido. Em outro momento, Borges (2012) também descreve um sonho que chegou a M angaliso através de um cousin [primo] - na verdade, um parente muito íntimo - , que anunciava, senão a sua própria morte, os riscos que a sua vida corria.

A relação entre sonho, verdade, realidade e conhecimento é exaustivamente trabalhada por Krog et al. (2009). Nesse caso, trata-se do depoimento da Senhora Konile - colhido na Comissão de Verdade e Reconciliação sul-africana, em 1996 - acerca do brutal assassinato de seu filho, no evento que ficou conhecido como Gugulethu Seven Killings (ibdi., 1). A liberdade de finalmente falar - em sua língua materna - sobre os massacres perpetrados no regime do apartheid, é desafiada pelo depoimento da Senhora Konile. Traduzido para o inglês de forma “descontextualizada” e cheia de lacunas, seu relato surge absolutamente inverossímel. “There was these goat” (2009) é um esforço de encontrar o sentido da fala da Senhora Konile que mesclava aquilo que ela já sabia - revelado através de um sonho com uma cabra - com aquilo que lhe foi dito - , quando Pheza, um amigo de seu filho, lhe avisou que ele havia sido morto. O depoimento, aparentemente desconexo, demonstra, na verdade, que:

“The sequence o f forebodings every time M rs Konile saw Pheza, plus the story o f the goat dream, indicated that culturally these two incidents were connected for her. M rs Konile was communicating a message to the Truth Commission audience that effectively said, ‘Long before I heard of my child’s death, I was already in pain through the premonitions and the bad dream .’’’(ibdi., p. 54).

que, antigamente, enterrava-se o quanto antes - antes que as lágrimas secassem134 Comparou a triste experiência que teve com o funeral de sua esposa com o funeral de sua mãe que, nas suas palavras, havia ocorrido da melhor maneira possível. Linah Khumalo faleceu em Umkhamba - a ekhaya, a home [o lar] dos Kubheka - no dia 24 de dezembro de 1994. No dia 25, a família permaneceu com seu corpo em casa. Perguntei se não a enterraram naquele dia porque era Natal, mas Mangaliso negou: era para que eles pudessem ficar mais um dia velando-a. No dia seguinte a enterraram.

Desde quando a família de Mangaliso fora obrigada a deixar Thokosa, ele trazia memórias ruins daquela township e a evitava ao máximo. Com o falecimento de Sesi - que ocorreu a caminho de lá -, o sentimento ruim que já tinha, só aumentou.

Por ocasião de uma das viagens de Mangaliso a Gauteng, Danisile (D) me falou sobre a relação de seu pai com aquela província. Não me recordo o motivo que o levara para lá daquela vez, mas suas obrigações rituais familiares, bem como sua atividade política frequentemente o faziam viajar.

Em um sábado à noite, Danisile me disse que iríamos à igreja na manhã seguinte, como fazíamos todos os domingos durante o primeiro período de meu trabalho de campo em 2010135. Comentei que Mangaliso voltaria cansado da viagem e que, naquela altura da noite, eu desconfiava, inclusive, que ele poderia não voltar e acabar dormindo por lá. Mas Danisile disse que aquele era o Big Sunday - encontro da igreja metodista que

134 Conforme Borges (2011a) em conversas com M angaliso K ubheka e Sibongile M batha, se o corpo demora para ser enterrado, as lágrimas secam - o que não deve ser confundido com o fim da dor:

“para Sibongile, o pior de tudo isso é que ao longo da espera - pela chegada dos parentes, pelos recursos para pagar as despesas funerárias, pela autorização do fazendeiro para deixar que o corpo seja depositado no mesmo sítio onde jazem os outros falecidos - as lágrimas secam. A esta constatação M angaliso acrescenta sua preocupação primordial: a espera e os traslados podem confundir a pessoa morta em sua condução a casa e, consequentemente, confundir os vivos, que acabam acreditando que tanto o enterro no solo quanto a condução da pessoa morta a casa aconteceram de modo preciso.” (ibdi, p. 225).

135 As temporadas mais longas que passei em campo remetem ao segundo bimestre de 2010 e primeiro semestre de 2011. Em 2010, íamos sempre à igreja metodista com M angaliso e eu cheguei a participar de um encontro do LPM (Landless People ’s M ovem ent) com ele em Johanesburgo. Já em 2011, não fomos nenhuma vez à igreja e M angaliso participou pontualmente de encontros relacionados ao LPM. Sua atividade, em 2011, voltava-se inteiramente para sua candidatura à counselor (um espécie de vereador) do ward 1 de Newcastle (que corresponde basicamente á área rural de Ingogo e de Charlestown) e para a resolução de conflitos entre white farm ers e fa rm dwellers [moradores de fazenda] naquela mesma região.

ocorre de três em três meses na escola secundária de Ingogo136 - e que Mangaliso voltaria, sim.

Danisile falou que seu pai não gostava de Gauteng e sempre que precisava ir até lá, procurava abreviar a sua estada: viajava de manhã e voltava à noite (ao todo, oito horas dirigindo na estrada). Nesse momento, Danisile relembrou a Tribal War - como chamam em inglês os conflitos entre partidários do ANC e do IFP no início dos anos 1990137 - quando muitas pessoas foram assassinadas em Thokosa. Depois, falou de sua mãe, que gostava muito de Thokosa e insistiu em viajar sozinha para lá no dia em que morreu no acidente de taxi. Por esses motivos, Mangaliso não gostava de pernoitar em Gauteng.

O conjunto de sentimentos difíceis de administrar em relação à Thokosa juntamente com a complicada situação financeira que Mangaliso, já viúvo, enfrentava com seus filhos e netos, transformaram a sua vida urbana em uma realidade do passado. Desde o falecimento de Sesi (W), foi morar em Umkhamba, na região rural de Ingogo, onde permaneceu por cerca de oito anos, até mudar-se para o que futuramente seria a Tomato Farm.

Antes da conquista dessa fazenda, porém, Mangaliso envolveu-se profundamente com a luta pela terra na África do Sul junto ao LPM. A luta - manifesta em seu ativismo político - encontrava nos contornos de sua própria constituição de vida sua maior inspiração: um homem que voltava a morar na terra em que nascera, onde seus antepassados viveram e estavam enterrados, mas que não lhe pertencia e era aterrorizada pelos fazendeiros brancos ao seu redor.

Suas posturas políticas adquiriam os contornos de seus sentimentos íntimos e Mangaliso pouco a pouco se transformava em uma liderança local, sempre acionada diante de

136 O Big Sunday é um encontro da igreja metodista que ocorre de três em três meses na escola secundária de Ingogo ao meio-dia. Com exceção desse evento, íamos à igreja metodista aos domingos pela manhã em Newcastle. Tanto em Ingogo quanto em Newcastle, não havia a presença de nenhuma pessoa branca, com a exceção de mim mesma, que fui muito bem acolhida quando apresentaram-me como brasileira na véspera da Copa do Mundo de 2010.

137 Estes conflitos são ainda chamados de East Rand War. Rand é como é conhecida a área nas cercanias de Johanesburgo, sendo assim, trata-se do lado oriental dessa zona, onde se localizam algumas townships bastante populosas, como Thokoza.

qualquer conflito com os white farmers através do call me back [me ligue de volta]138, e, logo, em um representante internacional da luta pela terra na África do Sul - o que lhe proporcionou viagens para diversos países, como EUA, índia, China e Brasil (onde esteve em cinco ocasiões), além de outros países do continente africano139.

Enquanto ativista político, Mangaliso se “tradicionalizava” e efetuava conquistas cosmológicas frente ao Estado e à sociedade que durante tantos anos negara uma condição de vida digna e plena de realizações às pessoas negras da África do Sul. Diferente do Estado do apartheid- segrecionista, racialista e autoritário - o Estado do pós-apartheid - embora democrático, capitalista e liberal - é também africano, black, nacionalista e “tradicional”. Mangaliso, assim como o Estado sul-africano atual, podem ser considerados como entidades que se “tradicionalizam” em termos de sua complexidade “dialética”140. Esta complexidade, apressadamente descrita como paradoxal, informa sobre os diversos códigos que as pessoas black, modernas, rurais, cosmopolitas e tradicionais criam para tratar de assunto igualmente diversos, sem que isso se revele como uma contradição entre termos.