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1. A QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL NO CONTEXTO DA

2.2 O Setor de TI no Brasil

O setor de tecnologia da informação e comunicação é um dos mais dinâmicos em termos de inovação no mundo. Em segmentos específicos, como o de celulares, por exemplo, tal inovação fica ainda mais evidente, e é grande o investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Contudo, a disseminação dessas tecnologias não ocorreu de maneira igual em todos os países. Nesse sentido, nem todos conseguiram ser, além de consumidores, produtores dessa tecnologia.

No caso do Brasil, até a década de 1980, ainda existia uma indústria nacional de hardware protegida. Com a abertura econômica nos anos de 1990 e as privatizações, o setor teve que se readequar para sobreviver e competir com as empresas estrangeiras (Tauille, 2001; Bridi, 2011). Assim,

As indústrias de informática e de telefonia, caracterizadas respectivamente pela proteção da Lei de Informática e pelas compras do sistema Telebrás, sofreram profundas modificações decorrentes da abertura de mercado e da privatização. A década de 1990 caracterizou-se por um forte ingresso de empresas estrangeiras que, em alguns casos, passaram a ter no Brasil plantas voltadas para exportação, especialmente no caso de aparelhos celulares. (AGENCIA BRASILEIRA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL (ABDI), 2009, p. 2).

Além disso, segundo o relatório da ABDI, o setor de TI apresenta características ambíguas no Brasil. Ele tem indicadores de inovação e de esforço tecnológico maiores do que a média do setor industrial, mas, por outro lado, tem duas fraquezas estruturais. A primeira se refere à forte dependência da importação de componentes eletrônicos que têm importância crescente no valor agregado dos produtos, enquanto que a segunda se refere ao problema das empresas brasileiras que estão à margem da determinação dos novos padrões tecnológicos, inerente à este setor, e que é feita por meio de alianças entre as grandes corporações internacionais e, por vezes, com a participação governamental. (ABDI, 2009, p. 2).

Assim, de acordo com Tauile (2001), muitas empresas deixaram de ser fabricantes e passaram a ser montadoras diante da dificuldade em fazer pesquisa e desenvolvimento e da forte concorrência internacional. A maior parte das empresas de hardware desapareceu e as que sobraram se dedicaram a serviços específicos. Atualmente, as empresas existentes no mercado são montadoras ligadas a grandes redes de fornecedores nacionais e estrangeiros (IEGER, LIMA, 2017; BRIDI, 2014). Este foi o caso da empresa Positivo Informática, sediada no Paraná, uma das maiores fabricantes de computadores da América Latina e que agora está de “malas prontas” para transferir toda a sua linha de produção de computadores definitivamente para a Zona Franca de Manaus, em busca de melhores resultados financeiros, em razão dos incentivos fiscais lá recebidos.65 Somente a parte administrativa permanecerá no Paraná.

Abaixo estão elencadas algumas políticas públicas em vigor destinadas a promover o desenvolvimento do setor de TI no Brasil.

65 A Zona Franca de Manaus foi criada pela Lei nº 3.173 de 06 de junho de 1957 como Porto Livre. Dez anos mais tarde, o governo federal por meio do Decreto-Lei 288, de 28 de fevereiro de 1967, reformulou o modelo estabelecendo incentivos fiscais por 30 anos para promover a integração e o desenvolvimento econômico da região amazônica. Inicialmente foi concebida para tornar-se um polo exportador, mas a maior parte de sua produção é orientada para o mercado interno (SUPERINTENDÊNCIA DA ZONA FRANCA DE MANAUS, 2017). Em função dos incentivos fiscais concedidos, tem forte impacto na indústria nacional de TIC, uma vez que as principais empresas produtoras de aparelhos eletrônicos, como TVs e DVDs, estão ali localizadas.

QUADRO 1- LEIS DE INCENTIVO AO SETOR DE TI EM VIGOR NO BRASIL

Lei do Bem Dedução dos gastos em pesquisa e desenvolvimento no cálculo do IR

Fonte: WIZIACK e CARNEIRO (2016). Elaborado pela autora.

Segundo reportagem veiculada pelo jornal Folha de São Paulo em seu site (Wiziack; Carneiro, 2016), alguns dos principais programas de incentivo à indústria brasileira estão sendo mantidos sem a devida garantia de que as contrapartidas em investimentos para o desenvolvimento tecnológico estão sendo cumpridas. De acordo com a notícia, foram analisadas pelo Tribunal de Contas da União as Leis de Informática, a Lei do Bem, o Padis e o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Equipamentos para a TV Digital (PATVD) e o Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto).

Isso significa que as empresas deixaram de pagar cerca de R$ 52 bilhões em tributos desde o início do governo de Dilma Rousseff até o fim de 2016, tendo

como contrapartida a obrigação de investir em pesquisas e tecnologia. Assim, os estudos do TCU apontaram para o fato de que os ministérios envolvidos não fiscalizam o cumprimento das contrapartidas nem avaliam os efeitos das isenções para a política industrial do país. Segundo o TCU, a Lei de Informática Nacional foi a que mais gerou renúncias e a que menos investiu em pesquisa e desenvolvimento, sendo que para cada R$ 1 renunciado pelo governo apenas R$ 0,34 foi investido pelas empresas. Além disso, tais números só teriam sido auditados uma vez, em 2010, e foi descoberto que metade das 510 empresas beneficiadas não tinha efetivado as contrapartidas. No final de 2015, o Ministério Público Federal (MPF), em Campinas, abriu inquérito para investigar a situação.

O Ministério da Ciência e Tecnologia, por sua vez, afirma em sua defesa que realiza fiscalização regularmente, por amostragem, e que problemas levantados pelo TCU já estariam sendo resolvidos com as empresas

“devedoras”. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (Abinee), que representa o setor, não concorda com o posicionamento do TCU e afirma que a lei permitiu o surgimento de novas empresas que geraram em torno de 130 mil empregos e mais de R$ 100 bilhões em receitas no período.

No que se refere ao segmento do software, houve um grande crescimento em razão de políticas públicas, nacionais e locais, destinadas ao setor como a isenção fiscal para novos investimentos, redução de impostos e programas específicos. No caso de programas locais é possível darmos como exemplo a criação do Parque de Software, em Curitiba, no ano de 1996. Tais políticas contribuíram para que o Paraná passasse a ser, a partir de 2001, um dos grandes produtores de software do país (BRIDI; MOTIM, 2013).

Um estudo produzido pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), em parceria com a International Data Corporation (IDC), mostra que o Mercado de TI no Brasil, incluindo hardware, software e serviços, tem crescido vigorosamente. Os dados da última pesquisa divulgados em 2016, e que se referem ao ano de 2015, mostram um crescimento nos investimentos do setor na ordem de 9,2% em relação à 2014, contra 5,6% da média global. No mundo, os investimentos neste setor somaram US$ 2,2 trilhões em 2015 (considerando o mercado interno e descartando as

exportações). Com tal resultado, o Brasil permanece na lista dos países que apresentaram maior crescimento setorial, mantendo a 7ª posição no ranking mundial. (ABES, 2016).

Na tabela abaixo é possível observarmos em termos percentuais a participação, por segmento, em relação ao total de negócios movimentados no mercado mundial de TI em 2015.

TABELA 6 - DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DO MERCADO DE TI

Segmento Porcentagem

Software 20%

Serviços 31%

Hardware 49%

Fonte: ABES (2016).

Podemos verificar que o hardware representa o maior percentual de negócios do setor com 49% do total, seguido da área de serviços, com 31%, e de software com 20%. É importante ressaltar que os ramos de software e de serviços atingiram em 2015 o valor de US$ 1,124 trilhão, e o Brasil manteve o 8º lugar no ranking mundial, com um mercado interno de aproximadamente US$ 27 bilhões. (ABES, 2016, p. 8).

No que se refere aos investimentos no setor de TI na América Latina, o país se manteve em 1º lugar com 45% dos investimentos seguido de México (20%) e Colômbia (8%). Ao todo, a região latino-americana soma US$ 133 bilhões. Diante destes números, o Brasil se destaca como uma liderança regional relevante. (ABES, 2016, p. 6).

Em relação ao mercado brasileiro de TI e a distribuição do montante movimentado entre os segmentos de hardware, software e serviços em 2015, a tabela a seguir traz algumas informações.

TABELA 7 - MERCADO INTERNO E EXPORTAÇÕES DE PRODUTOS DE TIC NO BRASIL - 2015 (US$ BILHÕES)

Segmentação Mercado

Mercado Doméstico

Mercado Exportação

Mercado Total

Software 12.337 245 12.582

Serviços 14.300 680 14.980

Hardware 33.386 267 33.653

SUBTOTAL TI 60.023 1.192 61.215

Telecom 93.715 - 93.715

TOTAL TIC 153.738 1.192 154.930

Fonte: ABES (2016)

Como observamos, do total do montante calculado para o mercado brasileiro de TI, o mercado doméstico representa a maior parte e a parcela referente às exportações é baixa se comparada ao primeiro. Isso demonstra que ainda faturamos pouco com vendas para o exterior e que, apesar dos avanços das empresas brasileiras na internacionalização dos seus negócios, eles ainda são modestos. Outro dado relevante é a participação da área das telecomunicações com cerca de 93 bilhões de dólares movimentados em 2015 no mercado total de TIC (que inclui o mercado interno e as exportações) e que supera os segmentos de software, hardware e serviços que juntos somaram 60 bilhões em 2015. Esse montante significa 3,3% do PIB brasileiro e 2,7% do total de investimentos de TI no mundo, um resultado praticamente igual às participações apontadas no ano anterior, sendo que a soma dos segmentos de software e serviços representou 44% do mercado total de TI, “mantendo a tendência de passagem do país para o grupo de economias com maior grau de maturidade, que privilegiam o desenvolvimento de soluções e sistemas.”

(ABES, 2016, p. 5). O setor de software teve um crescimento em 2015 de 30,2% em relação a 2014 e o setor de serviços teve um aumento de 8,7%

sobre o ano anterior. As atividades de software e serviços tiveram um crescimento de 17,5%, crescimento acima da média da maioria dos setores da economia brasileira.

Outra informação relevante que a pesquisa desenvolvida pelas ABES traz se refere à nacionalidade dos programas de computador (incluindo o software sob encomenda) utilizados no Brasil. Segundo os dados de 2015, o software desenvolvido no país representou 31,1% do investimento total,

reforçando a tendência de crescimento apontada desde 2004. Além disso, verificou-se que dentre as cerca de 13.950 empresas dedicadas ao desenvolvimento, produção, distribuição de software e de prestação de serviços no Brasil, por volta de 58% delas têm como atividade principal o desenvolvimento e produção de software ou prestação de serviços. Destas, 94% são classificadas como micro e pequenas empresas quando se adota o critério de número de funcionários (ABES, 2016, p. 10).

No que se refere à distribuição regional do mercado de TI a região Sudeste concentra a maior participação no mercado interno brasileiro.

TABELA 8 - DISTRIBUIÇÃO REGIONAL DO MERCADO BRASILEIRO DE TI

Região Hardware Software Serviços Total

Norte 5,22% 3,06% 2,94% 4,24%

Nordeste 12,88% 8,67% 7,43% 10,72%

Sul 14,6% 13,18% 13,11% 13,95%

Centro-Oeste 9,88% 11,38% 11,8% 10,64%

Sudeste 57,42% 63,71% 64,72% 60,44%

BRASIL 100% 100% 100% 100%

Fonte: ABES (2016).

Como podemos observar, a região Sudeste lidera em todos os segmentos (software, hardware e serviços) e em seguida aparece a região Sul.

Na sequência destacam-se as regiões nordeste e centro-oeste, que praticamente aparecem empatadas no montante total e, por fim, a região norte.

Portanto, trata-se de uma distribuição desigual entre as diferentes regiões do Brasil.

Esse desenvolvimento do setor de TI no Brasil demandou profissionais especializados. Nesse sentido, cresceu a oferta de cursos nessa área, inclusive no IFPR, como demonstramos no capítulo anterior.

Na sequência trazemos um panorama do setor de TI no Paraná.