Mota, A. / Oliveira, A. / Neves, J. / Félix, S. / Oliveira, A.P. / Gomes de Oliveira, C.1
Resumo
Os acidentes industriais graves associados à libertação de substâncias perigosas justificam a necessidade de limitar as consequências para a Humanidade e Meio Ambiente, através da prevenção e controle dos perigos inerentes. Segundo a Diretiva Seveso III, deve estar disponível, para os habitantes nas áreas adjacentes aos complexos industriais, informação sobre as substâncias que cada indústria manuseia ou armazena, as suas quantidades, os seus riscos e o seu plano de emergência. A importância desta informação, da comunicação e da sensibilização das populações é um fator determinante na resiliência das comunidades.
Este estudo permitiu aferir a eficácia da legislação, em termos da informação que chega à população, no âmbito das indústrias de matérias perigosas que possam eventualmente existir na sua zona de residência. O inquérito realizado a 100 indivíduos de quatro distritos do país permitiu concluir que o desconhecimento sobre os riscos é transversal nas zonas geográficas, idade, género e grau de escolaridade. Haverá muito a fazer para que toda a informação relativa a Indústrias Seveso esteja disponível, de forma eficaz e eficiente, a toda a população interessada. Para conseguir isso, o cumprimento da lei deve ser verificado e o ajuste às novas formas de comunicação na sociedade moderna deve ser aplicado.
Palavras-chave: Diretiva Seveso; Indústria Seveso; Acidente Grave; Informação; Comunicação.
Abstract
Serious industrial accidents associated with the release of hazardous substances justifies the need limit the consequence for Humanity and the Environment, through control and prevention of the inherent dangers. Through the European Seveso III Directive, information on the substances that each industry handles or stores, its quantities, its risks and its emergency plan must be available to the inhabitants in the areas adjacent to the industrial complexes. The importance of this information, communication and public awareness is a key factor in the resilience of communities. The goal of this study is to gauge the effectiveness of this Directive in terms of the information that actually reaches the public, within the context of hazardous materials industries that may exist in their area of residence. The survey of 100 individuals living in four portuguese districts shows that the knowledge about the risks is transversal in the geographical areas, age, gender and schooling level.
All the Seveso Industries information must be easily accessibly and freely available to the public. To achieve this, compliance with the law should be verified and adjustment to the new forms of communication in modern society must be applied.
Keywords: Seveso Directive; Seveso Industry; Serious Accident; Information; Communication.
1 ISEC Lisboa – Instituto Superior de Educação e Ciências de Lisboa, Alameda das Linhas de Torres, 179, Lisboa.
1. Introdução
O avanço do tecnológico verificado nas últimas décadas potenciou o crescimento de grandes indústrias, incrementando um conjunto de riscos passíveis de conduzir a acidentes tecnológicos graves (Velosa, 2007).
A ocorrência de alguns acidentes graves (AG), a par de estudos científicos que revelaram a existência de um vasto conjunto de materiais cancerígenos e de substâncias perigosas para o ser humano e para o ambiente, conduziram à redação de um vasto enquadramento legal que visa a implementação de todo um conjunto de medidas de cariz preventivo e de proteção perante cenários de AG em indústrias denominadas Indústrias Seveso. Os acidentes graves podem, com um único evento, ter o potencial provocar efeitos que vão além do local e do momento de sua ocorrência (Freitas et al., 1995).
A legislação específica para as indústrias Seveso surgiu após o grave acidente na cidade Italiana com o mesmo nome, em 10 de julho de 1976, e levou à criação, por parte da Comissão Europeia, da Diretiva 82/501/CE do Conselho, de 24 de junho de 1982 (Seveso I). Esta diretiva, relativa à prevenção de acidentes graves que envolvem substâncias perigosas, assim como à limitação das suas consequências para o ser humano e para o ambiente, foi transposta para a legislação portuguesa pelo Decreto-lei nº 224/87, de 3 de junho, e pelo Decreto-lei nº 204/93, de 3 de junho. A Diretiva 96/82/CE do Conselho, de 9 de dezembro de 1996 (Seveso II) evidencia de forma inequívoca o perigo que pode constituir a proximidade de indústrias perigosas a zonas habitacionais, e apresenta um conjunto de disposições relativas ao controlo do planeamento da ocupação dos solos, na fase de licenciamento de novas instalações ou no desenvolvimento de zonas residenciais nas proximidades de instalações já existentes. Esta diretiva foi transposta para a legislação portuguesa pelo Decreto-lei nº 164/2001, de 23 de maio, e posteriormente a Diretiva 2003/105/CE, de 16 de dezembro, a qual altera a Diretiva 96/82/CE, resultou no Decreto-lei nº 254/2007, de 12 de julho.
Mais recentemente foi publicada a Diretiva 2012/18/UE, de 4 de julho, denominada de Diretiva Seveso III, a única que não advém da ocorrência de um acidente grave e cuja evolução legislativa para o nosso país resulta no Decreto-lei nº 150/2015, de 5 de agosto. Embora, mantendo a mesma filosofia e lógica relativamente à Seveso II, as principais alterações introduzidas nesta nova legislação são: Adaptação do Anexo I (adaptação às novas regras do Regulamento CLP - Regulamento (CE) nº 1272/2008, de 16 de dezembro, relativo à classificação, rotulagem e embalagem de substâncias e misturas perigosas); Ordenamento do território; Informação ao público; Participação do público e acesso à justiça; Imposição de Inspeções.
Com a entrada em vigor da Diretiva Seveso III, as indústrias abrangidas por esta legislação passam a estar obrigadas a comunicar os seus riscos à população, uma vez que inclui a adaptação aos requisitos da convenção de Aarhus sobre o acesso à informação, participação pública na tomada de decisões e acesso à justiça em matérias ambientais (Rodriguez et al., 2014; Vieira, 2017). Considerando o acesso do público à informação como uma necessidade, sendo que quanto mais informações e conhecimentos a população tiver, mais possibilidade esta terá de se proteger (Cunha, 2008).
De acordo com as diretivas Seveso, os estabelecimentos industriais encontram-se divididos em dois níveis. Um estabelecimento de nível superior de perigosidade (designado por NSP) é um estabelecimento onde se encontrem presentes substâncias perigosas em quantidades iguais ou superiores às quantidades indicadas na coluna 3 da parte 1 ou da coluna 3 da parte 2 do Anexo I, do Decreto-lei nº 150/2015, usando se aplicável, a regra da adição prevista na nota 4 do anexo I.
É considerado um estabelecimento de nível inferior (designado por NIP) aquele em que estejam presentes substâncias perigosas em quantidades iguais ou superiores
às indicadas na coluna 2 da parte 1 ou da coluna 2 da parte 2 do Anexo I, contudo inferiores às quantidades indicadas na coluna 3 da parte 1 ou da coluna 3 da parte 2, do referido artigo, usando se aplicável, a regra da adição prevista na nota 4 do Anexo I, do Decreto-lei nº 150/2015.
Em Portugal, segundo a última atualização (25/01/2018) disponível na página eletrónica da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) (https://www.apambiente.pt) existem 207 indústrias Seveso (25 em Projeto e 3 em Construção), sendo que destas, 141 são de NIP e 66 de NSP. Os quatro distritos em estudo (Setúbal, Lisboa, Portalegre e Castelo Branco) representam 30,9% das indústrias Seveso existentes em território nacional continental, sendo que a maioria se situa no distrito de Setúbal (Tabela 1).
Tabela 1 – Número de Indústrias Seveso de nível inferior de perigosidade (NIP) e de nível superior de perigosidade (NSP) existentes nos distritos de Setúbal, Lisboa, Portalegre e Castelo Branco. Fonte:
adaptado de APA (2018)
Indústria Seveso Setúbal Lisboa Portalegre Castelo Branco
NIP 16 15 1 1
NSP 26 5 0 0
Na Europa, entre 1998-2009, ocorreram nove acidentes graves, com consequências para os trabalhadores, meio industrial e meio ambiente. Entre estes, dois ocorreram em território nacional, (i) um no Porto em 1998, devido à ocorrência de um derrame de crude seguido de ignição, fez uma vítima mortal, perdas materiais na ordem dos 20 milhões de euros e contaminação da água; (ii) e outro em Guimarães em 2001, devido a uma explosão numa fábrica de material pirotécnico, que provocou seis vítimas mortais e um incêndio generalizado (Calado, 2014).
Perante a possibilidade de ocorrência de AG em ambientes de Indústria Seveso, a comunidade internacional tende a responsabilizar os operadores destas indústrias, tanto pela segurança interna como no sentido de providenciarem as medidas de prevenção necessárias para salvaguarda do exterior. Os operadores nacionais, perante a legislação em vigor, encontram-se assim obrigados ao cumprimento de um conjunto de medidas de prevenção de ocorrências e mitigação de consequências, implicando, o seu não cumprimento, as sansões e coimas previstas na lei.
A presente Lei de Base da Proteção Civil, Lei nº 27/2006, de 3 de julho, no artigo 4.º, identifica como um dos objetivos fundamentais a prevenção dos riscos coletivos e da ocorrência de acidente grave, ou de catástrofe deles resultantes, atenuação dos riscos coletivos e limitação dos seus efeitos no caso da ocorrência, sendo as duas entidades envolvidas na prevenção e/ou mitigação de consequências para a população, a Agência Portuguesa do Ambiente e a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC).
Na maioria dos países, a aplicação dos requisitos da Diretiva Seveso III no ordenamento do território ficam sob responsabilidade dos municípios, contudo uma vez que a avaliação de risco é, em geral, efetuada por técnicos da área, e a aplicação no território é efetuada pelos responsáveis pelo ordenamento do território dos municípios, os limites de zonas com potencial risco de sofrerem efeitos de acidentes podem não ser precisos. Assim, encontram-se zonas urbanísticas e históricas junto a estabelecimentos industriais, resultantes de um mau Ordenamento do Território, motivado por interesses económicos ou mesmo da ignorância das autarquias, que sem o apoio das entidades estatais muitas vezes cometem erros nos Planos Municipais de Ordenamento do Território (PMOT).
O presente artigo tem como objetivo aferir a qualidade e quantidade de informação a que a população em geral tem acesso no que diz respeito a indústrias
A densidade populacional e a actividade económica é extremamente assimétrica em Portugal Continental, o que provoca diferenças de desenvolvimento muito acentuadas. Por tradição, a distinção faz-se, entre o litoral e o interior. Sendo o primeiro, ativo, vigoroso, urbano, movimentado e economicamente forte, enquanto o segundo é rural, inerte, estacionário, envelhecido. A fim de relacionar as assimetrias em termos de informação recebida, foram selecionados para o presente estudo quatro distritos com características e particularidades distintas: Lisboa, Setúbal, Portalegre e Castelo Branco.
2. Metodologia
Foi desenvolvido um estudo transversal, utilizando uma metodologia de investigação qualitativa centrando-se em procedimentos de análise e interpretação de dados. A amostra foi recolhida em quatro distritos, dois no litoral (Lisboa e Setúbal) e dois no interior (Castelo Branco e Portalegre) do país.
Recorreu-se a um inquérito, composto por dez questões fechadas, para recolha de informação sobre as características sociodemográficas (género, idade, habilitações literárias) e sobre o grau de conhecimento da população relativamente aos riscos inerentes à presença de indústrias Seveso no seu distrito. Foram também efetuadas questões para indagar sobre as medidas e o comportamento a adotar em caso de AG envolvendo substâncias perigosas (medidas de autoproteção). Ao longo de uma semana realizaram-se, presencialmente, 100 inquéritos a cidadãos anónimos e ao acaso. Obteve-se um total de 100 questionários respondidos válidos.
Após essa recolha, foi construída uma base de dados, em IBM SPSS Statistics
Data Editor 25 (IBM SPSS®), com todas as informações recolhidas e os outputs foram
trabalhados em Microsoft Excel® 2016.
3. Resultados
Responderam ao inquérito 100 indivíduos, 57 do sexo masculino e 43 do sexo feminino. Metade dos inquiridos vive no litoral e a outra metade no interior, tendo 48% o 12º ano de escolaridade e 34% possuem mesmo habilitação superior (Figura 1).
Figura 1 – Caracterização sociodemográfica da população/amostra.
A maioria da população inquirida (70%) desconhece o que são indústrias Seveso (Figura 2A), sendo a população do litoral mais leiga (Figura 2B). No entanto,
não houve diferenças significativas entre o litoral e o interior, o que demonstra que o desconhecimento é transversal aos quatro distritos.
A
B
sim 30% não 70% 0 10 20 30 40 50 interior litoral não simFigura 2 – Grau de conhecimento sobre indústrias Seveso (A) de todos os inquiridos, (B) dos inquiridos do litoral e do interior