E INTERSEXUAIS: DESAFIOS EXISTENCIAIS
SEXUALIDADE E VELHICE
Os preconceitos com relação à velhice também influenciam a visão sobre como as pessoas velhas vivem a sexualidade. Barbosa e Cápua (2020) afirmam que a sexualidade destas pessoas aparece na literatura enquanto problemas sexuais, sugerindo ausência ou desânimo na vida sexual. Em contraponto, os autores citam a pesquisa realizada por Lindau et al. (2009) que encontrou ‘dados indicativos de que a maioria dos adultos mais velhos está engajada em relacionamentos íntimos e considera a sexualidade como uma parte importante da vida.’ (Barbosa & Cápua, 2020, p. 31). Mesmo com a diminuição de hormônios, a maioria das pessoas velhas mantem o interesse na atividade sexual podendo desfrutar da sexualidade satisfatoriamente.
Quanto à velhice das pessoas homossexuais, segundo Araújo e Fernández-Rouco (2016), nos Estados Unidos esta população tem aumentado tanto pela redução das taxas de mortalidade, quanto por melhor acesso aos serviços de saúde. Para os autores,
...as maiores dificuldades no envelhecimento das pessoas LGBT são frequentemente associadas com a deterioração física por uma atenção à saúde deficitária, inadequada às necessidades e com pouca estimulação externa, com tal contexto pobre para os que envelhecem e com sentimentos frequentes de solidão, talvez influenciados pela visão negativa que se tem das pessoas idosas, atreladas ao desconhecimento e rejeição da diversidade sexual (Araújo & Fernándes-Rouco, 2016, p.131).
No Brasil, somente no Censo Demográfico de 2010, é que o IBGE inseriu in- formações sobre casais homoafetivos acarretando dificuldades de encontrar dados. Na academia surgem produções que abordam questões sobre a diversidade sexual e a velhice das pessoas homossexuais, a seguir apresentaremos brevemente alguns autores.
Nery (2019) afirma que enquanto as pessoas cisgêneras se tornam mais longevas e vivem a velhice com menos sofrimento, as travestis e as pessoas transgêneras vivem cada vez menos, pois a média de vida delas é de 35 anos. O autor encontrou dificuldades para encontrar pessoas trans idosas dispostas a lhe darem um testemunho quanto ao enve- lhecimento. Após os processos transexualizadores, algumas se afastam procurando uma nova vida. ‘Só assim se sentem realizados, como se, apenas a partir de então, tivessem o reconhecimento de sua condição humana, sem serem zoados ou perseguidos’. (Nery, 2019, p. 16). Ele chama este afastamento de ‘morte social’, assim como a condição de vida de pessoas trans por sofrerem ‘sem educação acolhedora, sem assistência à saúde especializada, sem chance de moradia, sem abrigos apropriados, sem prisões com alas es- peciais, sem acesso ao trabalho formal’ (Nery, 2019, p. 18). Sobreviventes das exclusões apresentam histórico de abuso sexual, síndrome do pânico, depressão crônica, automu- tilação ou tentativas de suicídio, importantes sinais sugestivos de comprometimento da saúde mental e psicossocial decorrentes das violências enfrentadas.
Mota (2014) pesquisou sobre a homossexualidade masculina em camadas médias urbanas cariocas e com idade igual ou superior a 60 anos. A geração investigada sobre- viveu à ditadura militar, ao ambiente heteronormativo, patologizante, com uma cultura cristã e sexista e à epidemia de HIV/AIDS nos anos 80. Viveram para ver se levantar ‘a bandeira política em prol da diversidade, do reconhecimento e da luta pelo direito à dife- rença, que se impõe em uma ordem para além da heteronormatividade’. (Mota, 2014, p. 15). A expressão ‘sair do armário’ que se refere a se assumir homossexual para família, amigos ou outros grupos, neste estudo ultrapassa o sentido do movimento gay como mo- vimento político. O ‘sair do armário’ é a história vivida como processo de dor, de luta e de
luto, de separações, de encontros e reencontros, com menos glamour e algumas mágoas. O submeter-se ao ‘armário’ reflete a falta de amparo e de aceitação social.
Simões (2011) realizou pesquisa com homens homossexuais, brancos, com ida- des entre 59 e 70 anos, de classe média, frequentadores de espaços de trocas eróticas homossexuais em São Paulo, para saber as concepções e atitudes relativas ao corpo e sexualidade em suas próprias vivências de envelhecimento. Resultados apontaram uma vivência não vitimizada da velhice, destacando as vantagens e enriquecimentos que a maturidade proporciona, com vida sexualmente ativa e convivência social pública em espaços como bares e boates. As narrativas sugerem que o envelhecimento é vivido como um processo ambivalente, ‘que envolve tanto perdas inevitáveis como novos campos de possibilidades’ (Simões, 2011, p. 11).
Os trabalhos de Nery (2019), Mota (2014) e Simões (2011) são importantes e valiosos e vislumbra-se a possibilidade de realizar novas pesquisas acadêmicas incluindo outros recortes de classe, escolaridade, raça/etnia.
As pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais podem necessitar de Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) e enfrentam mais desafios pois muitas instituições não os aceitam, ou impõem restrições de convivência como casal gerando sentimentos de exclusão e há relatos de ‘volta ao armário’, como condição para sobreviver.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Eu tentei enterrar algumas vivências. Mas logo descobri que elas eram o que eu deveria viver novamente. E por quê? Porque eu tenho sonhos sim. Eu sou gente. Como qualquer um, mesmo que pensem o contrário. Hoje ouvi que não deveriam falar comigo, já que eu era ‘louca’. Mas as pessoas poderiam entender que eu já passei por medos que me fizeram ser assim, talvez tolos, eu devo admitir. Mas a minha coragem, a minha coragem ultrapassou qualquer falta de lucidez e loucos todos nós somos mas a minha loucura é doce e isso torna a minha coragem absurda. Talvez seja isso o que caracteriza os loucos de pedra: a força que eles têm em enxergar a vida como uma dádiva e não como um pedaço de tempo em que podem até fingir ser o que não são. E não pense que isso é do feitio dos loucos. Não. Repito que isso é coisa dos ditos ‘normais’. E não, os sonhos não são para os fracos. – Isso é lindo. (Almeida, s.d., p.80).
Almeida (s.d.), artivista (ativista e artista), transmasculine, intersex, expressa na citação acima a impossibilidade de enterrar suas vivências, pois ele é gente e tem sonhos. Sawaia (2017) aborda o sofrimento ético-político como uma categoria de análise da dialé- tica exclusão-inclusão. O sofrimento ético-político
[...] abrange as múltiplas afecções do corpo e da alma que mutilam a vida de diferentes formas. Qualifica-se pela maneira como sou tratada e trato o outro na intersubjetividade, face a face ou anônima, cuja dinâmica, conteúdo e qualidade são determinados pela organização social. Portanto, o sofrimento ético-político retrata a vivência cotidiana das questões sociais dominantes em cada época histórica, especialmente a dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade. Ele revela a tonalidade ética da vivência cotidiana da desigualdade social, da negação imposta socialmente às possibilidades da maioria apropriar-se da produção material, cultural e social de sua época, de se movimentar no espaço público e de expressar desejo e afeto. (Sawaia, 2017, p. 106).
Apesar de todas as iniciativas e esforços para eliminar preconceitos e de dar visi- bilidade às pessoas e condições para que se constituam enquanto seres humanos únicos, vemos que o envelhecimento de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais apresenta ainda muitos desafios, pois são recorrentes as situações de exclusão e de violências. Almeida (s.d.) e Sawaia (2017) abordam a vivência cotidiana das relações sociais dominantes que objetificam as pessoas. É preciso muita coragem para viver numa sociedade cisheteronormativa, nestes tempos extremamente conservadores, onde se ex- perimenta preconceito, homofobia, agressões, violências de diversos tipos que afetam o modo de viver e de se relacionar, implicando em restrições e sofrimentos. Muitas outras iniciativas serão necessárias para garantir o respeito e o valor a todas as vidas.
Concordamos com a autora a respeito do sofrimento ético-político reconhecendo como a sociedade capitalista e conservadora discrimina a velhice e a diversidade sexual reduzindo o espaço público, restringindo as expressões de ser, desrespeitando a vida e os direitos de cidadania.
A psicologia, enquanto ciência e profissão pode contribuir muito para a visibili- dade e qualidade de vida destas pessoas acolhendo-as e realizando pesquisas quanto à sexualidade, diversidade sexual e os processos de envelhecimento. Atuando na defesa
dos direitos de cidadania e na criação de políticas públicas efetivas que respeitem as di- versidades sexuais e a velhice. Enquanto profissionais precisamos buscar conhecimento e qualificação teórica e técnica para atuar diante das questões humanas.
Salientamos a importância dos movimentos sociais de defesa das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais nos avanços dos direitos humanos, quanto na proteção à vida e nos estudos empreendidos na academia.
Destacamos ainda que este estudo não esgotou a proposta do trabalho. O enve- lhecimento das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais não considerou as especificidades e necessidades de cada uma destas pessoas, sendo este estudo limitado e generalista. O tema é relevante para o cenário atual sendo importante explorar outros ângulos e áreas como a afetividade, as limitações físicas, necessidades psicossociais, políticas públicas etc.