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1 AS MUDANÇAS PARADIGMÁTICAS E A INOVAÇÃO PEDAGÓGICA

1.3 Seymour Papert e sua abordagem construcionista

A preocupação com o desenvolvimento do homem juntamente com a importância dos processos de aprendizado são os temas centrais das obras de Vigotski, para ele, o aprendizado e o desenvolvimento estão interligados. Existe, por um lado, um processo natural de desenvolvimento do organismo, mas é o aprendizado, através do contato do indivíduo com ambientes culturais, que permite o despertar de processos internos de desenvolvimento, ou seja, o desenvolvimento da pessoa está ligado ao meio sociocultural em que ela está envolvida e à interação com outros indivíduos de sua espécie, “De fato, aprendizado e desenvolvimento estão inter-relacionados desde o primeiro dia de vida da criança.” (VIGOTSKI, 2007, P. 95).

Essa importância que é dada por Vigotski ao papel do outro social no desenvolvimento do indivíduo é ratificada em um conceito específico dentro de sua obra, conhecido como zona de desenvolvimento proximal (ZDP).

Para Vigotski, é necessário se determinar ao menos dois níveis de desenvolvimento do indivíduo, o nível de desenvolvimento real – que é a capacidade da criança de realizar atividades de forma independente –, e o nível de desenvolvimento potencial – sua capacidade de realizar tarefas com a ajuda de companheiros mais capazes ou de adultos. Esse distanciamento entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento potencial é o que se pode chamar de zona de desenvolvimento proximal. A ZDP é, dessa forma, o caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em estágio de amadurecimento e que, no futuro, se tornarão parte do desenvolvimento real, assim, a ZDP estará sempre em constante transformação.

A concepção da criança construindo o conhecimento através da interação com o meio sociocultural e com pares mais aptos recebeu o nome de teoria construtivista. Para Vigotski:

- os aprendizes são ativos e gostam de ter iniciativa e escolher entre várias alternativas;

- os aprendizes são tão competentes como ativos na tarefa da compreensão, sendo possível que construam conhecimento baseado na sua própria compreensão, ultrapassando esse conhecimento a informação disponibilizada pelo professor, ou indo mesmo além da própria compreensão do professor;

- a construção de conhecimento pelo aprendiz é facilitada pelas interações horizontais e pelas interações verticais;

- a disponibilidade de múltiplas fontes de informação potencia a construção de conhecimento. (VIGOTSKI apud FINO, 2004, p. 2).

Para Fino (2004), é comum entre os teóricos construtivistas uma visão dos educandos como indivíduos que constroem ativamente o seu conhecimento, sendo assim, a atividade de educar é dar-lhes oportunidades de se envolverem em atividades criativas que possibilitem essa construção.

A esse processo deu Papert (2008) o nome de construcionismo, teoria que, segundo ele, os educandos se envolvem na construção de alguma coisa com significado para eles, seja uma casa, um castelo de areia, um brinquedo, desenvolvendo seus próprios meios de descoberta, logo, haveria dois tipos de construção: a construção das coisas e a construção do conhecimento relacionado àquelas coisas construídas.

Foi a partir da teoria construtivista que Seymour Papert desenvolveu o conceito de construcionismo, “Assim, o construcionismo, minha concepção pessoal do construtivismo, apresenta como principal característica o fato de examinar mais de perto do que outros ismos educacionais a ideia de construção mental.” (Grifo do autor) (PAPERT, 2008, p.137).

Em seu livro “A máquina das crianças”, Papert põe em paralelo os “ismos” observados por ele, o instrucionismo – baseado na instrução simultânea de vários aprendizes para atender

às necessidades das indústrias, concentrado habitualmente no professor e no ensino, sendo diretivo, extrínseco e, muitas vezes, não atendendo às necessidades individuais dos alunos – e o construcionismo – os educandos devem buscar o seu conhecimento, os professores são os mediadores, promovem contextos de aprendizagem que facilitam as descobertas dos aprendizes, que constroem, modificam, enriquecem e dão significado ao que estão aprendendo, retirando a atenção do ensino e colocando-a na aprendizagem. Coll (1994, p. 156) compartilha da opinião de Papert ao dizer “construímos significados cada vez que somos capazes de estabelecer relações ‘substantivas e não arbitrárias' entre o que aprendemos e o que já conhecemos.”

Para Papert (2008), para que aconteça uma mudança paradigmática no ambiente escolar e superemos o sistema de instrução monolítico que perdura desde a Revolução Industrial, é necessário que o enfoque saia do ensino e se centralize no aprendizado. Vale salientar que a teoria construcionista elaborada por Papert (2008) não rejeita por completo a teoria instrucionista tradicional, para ele, apenas deveria haver uma reavaliação do método, pois, para o construcionismo, a meta é ensinar de forma a produzir a maior aprendizagem a partir de um mínimo de ensino. Usando uma metáfora, ele explica que não adianta dar o peixe para que as crianças matem a fome, é necessário ensiná-las a pescar. O construcionismo tem por base a suposição de que as crianças aprendem melhor descobrindo por si mesmas o conhecimento de que precisam, dessa forma, o papel da educação, seja ela formal ou informal, é observar se as crianças estão sendo apoiadas em seus esforços.

Criar contextos de aprendizagem significativos, como aborda Papert (2008), é criar desafios abordáveis para o aluno, estimulando e incrementando sua capacidade de compreensão e atuação autônoma. Seria papel do professor o planejamento detalhado de suas ações; a observação e a reflexão sobre o que acontece durante as aulas; e uma atuação diversificada, respeitando, dessa forma, a ZDP de cada educando. Para Coll (1994, p. 119), essas observações devem ser realizadas dentro de cada unidade didática, incluindo “desde o planejamento e preparação de tarefa até a avaliação de resultados.” Observando-se, com prioridade, a evolução dos educandos ao longo das unidades, seus progressos, erros, bloqueios e reestruturações. A aprendizagem, a partir dessas observações, é uma atividade articulada entre os alunos e o professor:

É necessário, além disso, levar em conta as atuações do professor que, encarregado de planejar sistematicamente estes “encontros”, aparece como verdadeiro mediador e determina, com suas intervenções, que as tarefas de aprendizagem ofereçam uma maior ou menor margem para a atividade autoestruturante do aluno. (COLL, 1994, p. 110)

Construir significados requer, portanto, uma série de interações, na qual estão envolvidos alunos, professores e conteúdos de aprendizagem, sendo o professor o responsável por criar atividades significativas que promovam a construção do conhecimento pelo aluno.

Uma aprendizagem significativa requer uma mudança comportamental diante da forma de entender o processo de aprendizagem, pondo-se em relevo os conhecimentos prévios do aluno e o seu processo de pensamento, em contraste com a visão tradicional de que a aprendizagem do aluno depende diretamente do professor e da sua metodologia de ensino.

Para Papert (1986), uma segunda grande revolução no fazer pedagógico aconteceria se introduzíssemos efetivamente, no contexto escolar, as TIC como ferramenta para estimular as crianças a se tornarem ativas na construção de seu próprio universo intelectual. As TIC, neste caso, não seriam fornecedoras de conteúdos, programando as crianças, mas os próprios discentes é que estariam no comando “e ao ensinar o computador a pensar, a criança embarca numa exploração sobre a maneira como ela própria pensa.” (PAPERT, 1986, p. 35). Essa visão de trabalho com as TIC corresponde, segundo Fino (2011), à inovação pedagógica, pois, quando se fala em inovação pedagógica, fala-se em transformação e mudança do ambiente escolar, fala-se em romper com os pressupostos dos moldes fabris, fala-se na transformação do ambiente de ensino em ambiente de aprendizado, com professores empenhados em criar contextos ricos para o aprendiz, para que haja o máximo de aprendizado.

Portanto, a abordagem construcionista prega uma visão diferenciada de ensino, os educandos passam de receptores para construtores, e os professores passam de transmissores de conhecimento para um ser reflexivo que cria ambientes propícios para que os alunos construam seu aprendizado. Como diz Fino (2008), uma mudança na forma de se fazer a educação, pois inovação pedagógica envolve obrigatoriamente as práticas.