OUTRO OBJETO
5.1.2 Significação do estudante autista
“O autismo é cruel” – essa frase foi falada de várias maneiras ao longo das entrevistas com os educadores. Mesmo com uma ótima relação com as crianças, os educadores compreendem que o diagnóstico traz consigo diversas dificuldades. O autismo é visto como uma condição complexa que muitas vezes não vem sozinha, afetando a criança e sua relação com o mundo em diversos aspectos. Obter um diagnóstico, que nem sempre é precoce, muitas vezes se torna um peso para criança e para a família, principalmente para aqueles indivíduos que estão em uma área mais severa do espectro. Mesmo com essa visão, os educadores dessa escola convivem diariamente com crian- ças no espectro. Isso faz com que eles tenham uma percepção desses indivíduos mais profunda do que grande parte dos educadores no sistema regular – e que vai além de um diagnóstico ou uma
sigla que vem antes do nome na chamada. Em uma escola onde estão matriculados mais de 40 autistas é impossível não os perceber em suas semelhanças e diferenças. Cada educador, no entanto, significa suas experiências de maneira diferente.
Observamos que quem trabalha de maneira mais próxima aos estudantes autistas, como a professora da classe especial e a monitora tem um conhecimento mais técnico e utilizam também um vocabulário mais preciso para descrever determinadas situações. Palavras como “estereotipia” ou “ecolalia”, no entanto, já estão presentes no vocabulário comum dos educadores.
Enquanto caracterização, os educadores observam sim que grande parte dos autistas apre- senta uma hipersensibilidade auditiva, alguns com outras questões de integração sensorial também. Mas dentro da realidade escolar, é bastante comum ver crianças com um abafador de som, dentro da sala de aula ou fora. Pela quantidade de estímulos, muitas vezes a escola é vista como um am- biente aversivo para esses estudantes, fazendo com que o professor aprenda a lidar com as particu- laridades sensoriais de cada criança além de conscientizar os colegas a serem mais cautelosos o redor deles. Outra característica marcante para todos os educadores são as dificuldades de expres- são. Principalmente para os educadores presentes nas classes regulares, acessar a criança que não desenvolveu a oralidade é um desafio diário que traz muita insegurança. Para a monitora Amanda, por exemplo, mesmo que os surtos sejam vistos muitas vezes como algo negativo, para ela é um indício de expressão de que tem algo errado. Um dos estudantes que acompanhamos, Max, é bas- tante dependente de comandos e tem uma fala ecolálica – é a ele que Amanda se refere quando fala das dificuldades de estabelecer uma comunicação. Ela diz que grande parte de suas reações são muito sutis e que ela precisa ficar sempre atenta a ele para compreender suas necessidades, muitas vezes optando por estratégias de tentativa e erro e observando as suas reações.
O isolamento e a dificuldade de socialização também são vistos como características desses sujeitos autistas, no entanto, os educadores sentem que essa é a área em que a escola consegue auxiliar mais. É interessante que aqui temos uma visão divergente entre a professora da classe especial, Mônica, e os outros educadores. Para ela, o isolamento não é algo negativo, mas sim algo necessário para um momento de reorganização sensorial. Então há momentos em que a criança autista precisa estar sozinha e longe dos pares para que ela possa se autorregular (muitas vezes com o uso de algum reforçador ou por meio das estereotipias). Alguns educadores observam que a pro- ximidade com os pares parece ser importante para os estudantes autistas, por mais que eles tenham essa dificuldade de socialização e tenham a necessidade de isolamento em alguns momentos.
Enxergam, porém, dificuldade dos autistas em participar de brincadeiras, principalmente quanto elas existem uma linguagem mais abstrata e simbólica. Por exemplo, a Camila não brinca de bo- necas como as outras meninas dificultando sua participação em brincadeiras. Existe ainda um de- safio de socialização quando o estudante está muito fora da faixa etária, pois a diferença de idade entre as crianças passa a ser mais um obstáculo a ser superado. A monitora Amanda cita a dificul- dade que ela observa em Yasmin, colega de Gustavo e Max; por ser três anos mais velha que o resto da turma, ela muitas vezes tem dificuldades em estabelecer vínculos e falar sobre os mesmos interesses. Apesar de ter algumas dificuldades em relação ao conteúdo, Yasmim tem consciência de que é mais velha que as outras crianças e assume um papel de cuidadora das crianças mais novas em alguns momentos.
Há ainda um desafio da condição do espectro autista: há limitações que não podem ser superadas. Algumas crianças não vão responder às exigências da educação formal e deverão ter um caminho alternativo. A questão da carreira e estudo é vista como complexa pelos educadores, que observam isso também nas famílias de seus estudantes. Mônica diz que se o estudante não aprender o que o professor ensina, não significa que ele não vai aprender mais nada. É importante entender que existem outras possibilidades para esses estudantes que vão muito além da educação formal. Mesmo assim, ela tem consciência de que existe também uma expectativa dos pais sobre seus filhos e que essa educação formal tem uma função significativa e representa uma possível autonomia. Com os desafios, vem também as conquistas. Por compreenderem a dificuldade desse ganho pedagógico ao longo da trajetória escolar para alguns sujeitos, os educadores sentem felici- dade em ver o progresso de seus estudantes, não importa o quão pequeno pareça para os outros. E esse progresso observado vai além do conteúdo: participar em uma brincadeira, aprender a se ex- pressar de outra maneira, ter autonomia para lavar as mãos... Tudo isso também são conquistas a serem comemoradas.
Mesmo com essa diversidade de significações, os educadores acreditam que a criança au- tista é uma criança e cada criança é de um jeito. Com suas potencialidades e dificuldades, ela pode trilhar seu próprio caminho de desenvolvimento com suporte de uma comunidade escolar a sua volta. Para cada sujeito é importante, portanto, descobrir o que é relevante para eles mesmos, res- peitando-os e ajudando a desenvolver o que faz sentido dentro de sua realidade.