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Simplificação dos procedimentos e gestão dos projetos:

No documento Inovação – Política e gestão (páginas 148-151)

Por fim, como forma de incentivo a essa visão inovadora e empreendedo-ra, há que salientar os incisos VII, que determina a “promoção da competitivi-dade empresarial nos mercados nacional e internacional”, e XIII, que autoriza a “utilização do poder de compra do Estado para fomento à inovação”39.

Tais permissões e incentivos são frutos de uma visão ampliada do Estado, a qual permite que se transforme de “‘leviatã’ burocrático inativo a novo catalisador de investimentos empresariais; de ‘ajustador’ a formador e criador de mercados;

deixando de ser ‘eliminador de riscos’ para o setor privado para acolher e assumir o risco devido às oportunidade que oferece para o crescimento futuro”40.

Assim, diante do grande potencial consumidor do Estado, o uso de seu poder de compra é amplamente considerado com vistas a estimular a compe-titividade de mercado de empresas incipientes e, de um modo geral, favorece a competitividade no mercado nacional e internacional.

8.6. SIMPLIFICAÇÃO DOS PROCEDIMENTOS E GESTÃO DOS

artigos 218 a 219-B, o estímulo e incentivo à “ciência, tecnologia e inovação”

deve ocorrer em qualquer esfera da Administração Pública43.

Visando complementar a ideia de financiamento e incentivo nessa área, o inciso IV do Marco Regulatório de Ciência, Tecnologia e Inovação indica que deve haver “descentralização das atividades de ciência, tecnologia e inovação em cada esfera de governo, com desconcentração em cada ente federado”44.

Para compreender tal princípio, necessário se faz diferenciar a “descen-tralização” da “desconcentração”. De acordo com os ensinamentos de Maria Sylvia Zanella Di Pietro45, a descentralização “é a distribuição de competências de uma para outra pessoa, física ou jurídica” e difere da desconcentração, já que essa se caracteriza por se uma “distribuição interna de competências, ou seja, uma distribuição de competências dentro da mesma pessoa jurídica”.

Sendo assim, a desconcentração permite que a Administração Pública seja organizada hierarquicamente, de modo que as atribuições sejam outorgadas ao vários órgãos que compõem essa hierarquia. De acordo com a autora, “isso é feito para descongestionar, desconcentrar, tirar do centro um volume grande de atribuições, para permitir seu mais adequado e racional desempenho”46.

No que concerne às atividades de ciência, tecnologia e inovação, verifica--se que tais princípios visam oferecer maior autonomia no desenvolvimento da gestão dos processos de inovação e pesquisa científica pela União, Estados e Municípios.

A descentralização e a desconcentração, almejadas pelo Marco Regula-tório de Ciência, Tecnologia e Inovação, possuem, inclusive, total harmonia com as alterações de competência trazidas pela Emenda Constitucional n. 85, as quais modificaram o art. 23, inciso V, de modo que se tornou competência comum dos entes federados “proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação, à ciência, à tecnologia, à pesquisa e à inovação”; e competência con-corrente da União, Estados e Distrito Federal legislar concon-correntemente sobre

“educação, cultura, ensino, desporto, ciência, tecnologia, pesquisa, desenvolvi-mento e inovação”, conforme art. 24, inciso IX, da Constituição da República Federativa do Brasil47.

Além disso, esse princípio pode ser identificado no art. 219, parágrafo único, da Constituição da República Federativa do Brasil, o qual aduz que o

43 Op. cit.

44 BRASIL. Lei n. 13.243. Congresso Nacional, Brasília, janeiro de 2016. Disponível em: <http://www.

planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13243.htm>. Acesso em: 10/12/2017.

45 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 30ª ed. Forense: Rio de Janeiro, 2017.

p. 566.

46 Op. cit. p. 266.

47 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Congresso Nacional, Brasília, 1988. Disponível em <http://

www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 10/12/2017.

Estado estimulará a formação e o fortalecimento da inovação nas empresas, bem como nos demais entes, públicos ou privados, a constituição e a manu-tenção de parques e polos tecnológicos e de demais ambientes promotores da inovação, a atuação dos inventores independentes e a criação, absorção, difusão e transferência de tecnologia.48

Nesse sentido, ciente de que a constituição e a manutenção de parques e polos tecnológicos, bem como a atuação de inventores independentes e a trans-ferência de tecnologia já foram tratados nos tópicos anteriores, é preciso ressaltar o princípio contido no inciso X, o qual determina o “fortalecimento das capaci-dades operacional, científica, tecnológica e administrativa das ICTs”49.

Pesquisa realizada no âmbito da Associação Brasileira de Desenvolvimen-to Industrial – ABDI e coordenada por Arbix50 aduz que não há fórmula pré-moldada para se guiar na seara da inovação. É certo, contudo, segundo estudos prévios, que os resultados que advêm de um ambiente baseado na boa qualidade dos recursos humanos, na tolerância, no fluxo contínuo de ideias e informações sem preconceitos e, primordialmente, propício à ocorrência do empreendedorismo são mais colaboradores com o animus de inovação.

Isso significa que a inovação ocorre, sempre, em ambiente de incerteza.

O conhecimento intensivo e extensivo do ecossistema da inovação ajuda a minimizar essa incerteza e os riscos associados a ela e, para isso, a capacitação dos envolvidos deve ser assunto de destaque em tais ambientes.

Ademais, no tocante à criação de uma boa infraestrutura, aduz Biels-chowsky51 que, enquanto motor de desenvolvimento do país, quando turbina-do por inovação tecnológica, permitirá transformar em núcleos estruturantes da economia nacional várias atividades produtivas ainda inexistentes, ou em fase incipiente – como, por exemplo, o pré-sal e a utilização sustentável da biodiversidade –, e inaugurar ou reforçar a existência de encadeamentos pro-dutivos com alta densidade tecnológica.

Como bem defende o autor, assegurar a inovação tecnológica possibilita o adensamento de várias frentes de expansão, a ampliação dos efeitos

multiplica-48 Op. cit.

49 BRASIL. Lei n. 13.243. Congresso Nacional, Brasília, janeiro de 2016. Disponível em: <http://www.

planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13243.htm>. Acesso em: 10/12/2017.

50 ARBIX, G.; MARTIN, Scott. Beyond developmentalism and market fundamentalismo in Brazil: inclu-sionary State activism without Statism. In: Workshop On “States, Development, And Global Gov-ernance”, Madison: Global Legal Studies Center and the Center for World Affairs and the Global Economy (WAGE). University of Wisconsin-Madison, Mar., 2010. Disponível em: <https://law.wisc.

edu/gls/governance.workshop.html>. Acesso em: 10 jun. 2016.

51 BIELSCHOWSKY, Ricardo. Estratégia de desenvolvimento e as três frentes de expansão no Bra-sil: um desenho conceitual. In: CALIXTRE, André B.; BIANCARELLI, André Martins; CINTRA;

Marcos Antônio M. (Ed.). Presente e Futuro do Desenvolvimento Brasileiro. Brasília: IPEA, 2014, p. 115-133.

dores sobre renda e emprego. Destarte, observa-se um efeito cascata positivo que se gera ao investir em ciência e tecnologia, e, principalmente, em fazer perdurar tais investimentos, garantindo benesses amplas e duradouras.

Por fim, necessário afirmar que o grande gargalo para a ciência, tecno-logia e inovação no cenário brasileiro é a burocratização dos procedimentos para a gestão dos projetos. Inclusive, a Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras – ANPEI divulgou uma pesquisa na 14ª Conferência de Inovação Tecnológica52 em que ficou demonstrado que a “redução da burocracia” liderou o ranking temático que demonstrava o que os atores querem no futuro, alcançando 22%.

Diante desse quadro de insatisfação, o inciso XII do arcabouço de prin-cípios do Marco Regulatório de Ciência, Tecnologia e Inovação indica como princípio a “simplificação de procedimentos para gestão de projetos de ciência, tecnologia e inovação e adoção de controle por resultados em sua avaliação”53.

Entretanto, essa disposição legislativa trata-se de uma inversão na preo-cupação com os mecanismos de controle de gestão da pesquisa científica, especialmente porque envolvidos o repasse de recursos públicos para o fi-nanciamento dessas atividades. Controle por resultados é essencialmente a preocupação com eficiência no dispêndio do dinheiro público traduzida, in-clusive, na flexibilização do controle e do accountability, combinando transpa-rência e flexibilidade na medida das necessidades do pesquisador.

No documento Inovação – Política e gestão (páginas 148-151)