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2. O PROJETO ALTERNATIVO DE DESENVOLVIMENTO

2.1 Os atores

2.1.1 Sindicalismo: a Fetraf-Sul/CUT

O processo que deu origem à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul) iniciou-se no final dos anos 70 e início dos anos 80, através das oposições sindicais que deram origem ao chamado novo sindicalismo e, em seguida, à CUT. Propunha-se fazer um sindicalismo classista e de lutas, desatrelado da estrutura do Estado, que não se justificasse apenas através do assistencialismo aos seus associados e que fosse organizado e tivesse a voz da base social. As Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s), organizadas através da Teologia da Libertação, da igreja Católica, teve forte influência na conformação desse tipo de ação, influenciando a gênese de diversos movimentos sociais brasileiros criados à época.

Os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais conquistados na região Sul no final dos anos 70 foram Erechim, Chapecó e Francisco Beltrão (Bonato, 2003). A partir de então, com as oposições sindicais, organizou-se um processo que levou à criação da Articulação Sindical Sul16, do Fórum Sul dos Rurais da CUT, do Departamento Nacional e dos Departamentos Estaduais dos Rurais da CUT e, por fim, dando origem à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul).

A retomada das lutas sociais no meio rural, no final dos anos 70, coincide com o ressurgimento das greves e mobilizações dos trabalhadores urbanos. A CUT, fundada em 1983, em seu processo de construção procurou integrar a cidade e o campo, reunindo, sob uma mesma estrutura, diferentes vertentes de contestação ao sindicalismo oficial, que surgiram no processo de desintegração do regime militar. Nesse movimento, uma identidade mais abrangente, “o trabalhador” passou a articular identidades singulares associadas a categorias profissionais ou grupos sociais: o operário, o pequeno agricultor, o funcionário público, o bóia -fria (SCHMITT, 1996, pg. 189).

A história da Federação é marcada por algumas idas e vindas. Entre a constituição dos DETR´s e a criação da Fetraf-Sul houve uma tentativa de se compor as direções da Contag e das Fetag´s. A filiação da Contag à CUT foi muito importante na tomada dessa decisão política. Para Schmitt et al (2003),

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Tratava-se de uma articulação ampla aonde participavam movimentos sociais do campo estimulados pelas Comunidades Eclesiais de Base, entre os quais o sindicalismo ligado à CUT e o MST (entrevista 19).

Entre 1995 e 1998 verifica-se uma aproximação com as Federações da CONTAG, tendo em vista a decisão do movimento sindical cutista de disputar a direção da Confederação. A partir de 1997, entretanto, os sindicatos de trabalhadores rurais vinculados à CUT retomam paulatinamente sua dinâmica própria de organização, com a estruturação da FETRAFESC (Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar de Santa Catarina), a criação, em 1999, da Frente Sul da Agricultura Familiar, a implantação do projeto educacional Terra Solidária e, posteriormente, com a fundação da FETRAF-Sul (Schmitt et al, 2003, p. 119).

Em que pese a importância desse processo histórico na natureza da Fetraf-Sul, foram as lutas e o contexto político e econômico dos anos 90 que imprimiu as condições para o surgimento da Fetraf-Sul. De acordo com Schmitt et al (2003):

Ainda que as divergências em relação à estrutura sindical oficial tenham marcado a história da FETRAF desde seu surgimento, foram as lutas dos anos 90, por um crédito diferenciado para agricultura familiar, por linhas emergenciais de crédito para famílias atingidas pela estiagem, pela efetiva implantação dos direitos sociais conquistados na Constituinte, entre outras, que serviram como motor fundamental para seu surgimento (Schmitt et al, 2003, pg. 119).

Atualmente, a Federação está presente em 22 micro-regiões do Sul do Brasil, representa uma base de 300 mil famílias de agricultores. Articula 112 sindicatos filiados com base em 266 municípios, os quais possuem 110 mil famílias associadas na região Sul (Fetraf-Sul, 2007). Apesar da ampliação da base sindical da Fetraf-(Fetraf-Sul, a maior parte dos sindicatos está concentrada no entorno dos primeiros sindicatos conquistados ainda no final da década de 70 e início da década de 80: Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul, Oeste de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná.

No que se refere aos objetivos da Fetraf-Sul, verifica-se que há uma tentativa de preservar as características historicamente definidas, de sua origem, com objetivos novos, que dêem conta das questões atuais. A Federação define sua missão da seguinte forma:

"(i) construir a visibilidade, identidade e representação da agricultura familiar; (ii) tornar-se efetivamente um ator político e social no processo de elaboração e construção de um Projeto Alternativo de Desenvolvimento Sustentável e Solidário que considere a agricultura familiar como um componente estratégico; (iii) contribuir na ampliação e articulação das ações vinculadas à organização da produção, marcando presença em toda a cadeia produtiva; (iv) ser um instrumento político de potencialização do ator social "agricultura familiar", na disputa de espaços na sociedade; (iv) enfrentar e romper o modelo organizativo do sindicalismo oficial; (v) superar a pulverização e fragmentação organizativa da agricultura familiar". (FETRAF-SUL / CUT, 2002, p. 20)

No que se refere à agenda política da Fetraf-Sul, verifica-se que em grande parte ela se concentra na busca de melhoria das políticas públicas que atendam o grupo social que representa: política agrícola (crédito, preços, seguro agrícola, compras institucionais, pesquisa e assistência técnica) e políticas sociais (previdência social, educação, saúde, habitação). Se, de um lado, uma grande parte da agenda das direções da Fetraf-Sul é ocupada com a busca de melhoria das políticas públicas, de outro lado, os sindicatos locais dedicam um tempo ainda maior na execução de tais políticas.

Outros temas ocupam a agenda sindical da Federação atualmente: apoio ao desenvolvimento do que chama de “organização da produção” (cooperativismo de crédito e produção, apoio às agroindústrias de base familiar; fortalecimento de iniciativas de produção em nível local; agroecologia). O sind icalismo, como organização representativa, tende a afirmar que a agenda concentrada no tema políticas públicas se justifica pelo fato de que as políticas públicas podem atingir um público mais amplo do que é atendido pelas “organizações econômicas” do campo da agricultura familiar, que elas visam e se justificam pelo fortalecimento dessas organizações econômicas e a alteração do modelo tecnológico de produção na agricultura. As políticas públicas teriam também o papel de redistribuir a renda concentrada durante o processo de produção.

Em que pese a pauta sindical, identifica-se um certo distanciamento entre o discurso das direções da Federação e a ação política dos Sindicatos de base. Na região Centro-Sul paranaense, por exemplo, a partir de meados dos anos 90 vários assentamentos rurais foram criados, alguns ligados ao MST e outros não. Em General Carneiro, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais apoiou a ocupação de uma fazenda que está resultando no assentamento de 200 famílias. Verifica-se que a ação desse Sindicato, e de outros ligados à Fetraf-Sul, pauta-se pela reforma agrária em virtude da demanda local, o que já tem se evidenciado através de seminários promovidos pela Federação.

É importante destacar que a Fetraf-Sul é um sistema sindical não reconhecido oficialmente, já que a unicidade sindical garante essa condição à Contag, embora ambas sejam filiadas à CUT. Uma parte desses sindicatos do sistema Fetraf também não é oficialmente reconhecida, não podem cobrar a contribuição sindical e necessitam utilizar-se de outras fontes para financiamento de suas atividades. Além das anuidades dos associados, a cobrança por determinados serviços, incluindo descontos no repasse de políticas públicas (previdência social, Pronaf, habitação rural) contribui para formar o orçamento dos sindicatos. Enquanto a Fetraf-Sul reivindica a legitimidade de representar os agricultores familiares brasileiros, a

Contag procura redefinir-se politicamente, ao menos em nível de cúpula, ampliando sua relação com a base social e promovendo eventos políticos que a legitime.