5 POLÍTICAS EDUCACIONAIS PARA O ENSINO MÉDIO EM
5.1 Singularidades do estado de Pernambuco dos idos de 1990 ao limiar do
Pernambuco foi um dos estados do Nordeste onde mais aumentou o número de habitantes nas últimas décadas do século XX. Foi de 3,4 milhões de habitantes em 1950 para 8,8 milhões em 2010. Ao mesmo tempo, cresceu também a urbanização de forma mais acentuada. Na década de 1970, a população urbana foi superior à rural, contudo seu ápice de urbanização ocorreu na década de 1990, e em 2010, localizam-se na zona urbana 80,1% da população do estado, o que significa 7.052.210; na rural, há um total de 1.744.238.
Vários fatores contribuíram para a migração da zona rural à urbana. Os principais foram os problemas com a seca e a crise do setor sucroalcooleiro, bem como a modernização e a industrialização dos centros urbanos, fato comum na maioria dos estados nordestinos (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014). Em 2015, Pernambuco terá 9.345.173 habitantes, o sétimo estado mais populoso do Brasil, e Recife, a cidade mais populosa do Norte-Nordeste e a quarta no país de acordo com a estimativa do IBGE (2015b).
Nas décadas de 1980 e 1990, a principal fonte receitária de arrecadação do estado ainda era a cana-de-açúcar. Com as mudanças no governo federal na abertura comercial e produtiva para o exterior, a competitividade levou a economia de Pernambuco a perder dinamismo e instrumentos para a reestruturação produtiva. Dessa forma, passou por um longo período com baixas taxas de crescimento econômico. Assim, nos anos 1990, Pernambuco vivenciou uma crise na agroindústria sucroalcooleira, acarretada pela abertura da economia
brasileira com maior concorrência, o que levou ao fechamento de várias usinas industriais e a elevados índices de desemprego.
[...] após ter ficado estagnado durante a chamada ‘década perdida’ (1985 a 1995), o estado assiste a uma importante mudança em seu perfil econômico, com investimentos nos setores naval, automobilístico, petroquímico, biotecnológico, farmacêutico e de informática, que estão dando novo impulso à sua economia, que vem crescendo acima da média nacional. (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014, p. 20).
O que só veio a mudar na década de 2000. A partir desse ano, a economia de Pernambuco passou a apresentar melhor desempenho em virtude de alguns investimentos no Complexo Industrial Portuário de Suape, a expansão da fruticultura e a expansão das atividades de confecções, como também uma reação da atividade álcool-açucareira e o incremento do turismo. Merecem destaque também as atividades terciárias de comércio atacadista, de serviços de saúde e de informática, concentradas na região metropolitana do Recife – RMR (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007). Em 2012, apresentou o décimo maior PIB do Brasil e Recife, a região metropolitana mais rica do Norte-Nordeste.
[...] nesta década de 2000, o esforço por melhorias nos indicadores sociais não deve ser desmerecido e, com vimos, sua evolução tem sido mais rápida que a observada no país como um todo. Porém, partindo de um nível inicial mais baixo que a média nacional, sua evolução não foi capaz de produzir uma trajetória de aproximação relativa à do país. Ademais, mesmo em estados da federação cujos indicadores de desenvolvimento apareciam em nível inferior ao de Pernambuco, a evolução na última década foi muito mais intensa, permitindo que – no caso do Rio Grande do Norte e do Ceará – viessem a se colocar acima do nível de desenvolvimento em Pernambuco. (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014, p. 29).
Segundo dados do censo de 2010, a maior concentração da população de Pernambuco está na RMR, composta de 14 municípios, que somam 3,7 milhões de habitantes. Só em Recife, a capital do estado, há mais de 1,5 milhão de pessoas. No interior do estado, nos 10 municípios mais habitados, somam-se 1,3 milhão de habitantes (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014). O estado tem 185 municípios, dividido em 5 mesorregiões: Sertão, Mata, Agreste, São Francisco e Metropolitana, subdivididas em 19 microrregiões.
No estado, alguns municípios destacam-se pelo crescimento econômico provocado pelos projetos de desenvolvimento implantados. No Agreste, cidades como Garanhuns, Gravatá, Chã Grande e Bonito passaram a se dedicar à floricultura, produzindo flores tropicais
e tradicionais. Além do cultivo de flores, vêm crescendo no Agreste pernambucano as lavouras de café e as plantações de seringueiras.
No Sertão, a fruticultura irrigada produz toneladas de frutas tropicais por ano, e o principal polo de produção fica em Petrolina, no vale do rio São Francisco. Entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, localizados na RMR, está o Complexo Industrial e Portuário de Suape, considerado, na atualidade, o principal complexo industrial do estado (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014). Os autores acrescentam:
Um novo perfil da atividade produtiva está se consolidando dentro da RMR nesta década de 2000. A microrregião do Recife – envolvendo os municípios do Recife, Jaboatão dos Guararapes e Olinda – vai se especializando cada vez mais nas atividades terciárias e transferindo a indústria para seu entorno mais próximo, em particular, para o Cabo de Santo Agostinho (Porto de Suape), que ampliou sua posição no PIB estadual de 3,4% para 14,2% entre 1996 e 2010. (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014, p. 118).
No setor terciário, o município que mais se destaca é a capital, Recife, com o maior IDHM do estado com 0,772. Os segmentos de maior relevância são comércio, serviços médicos, serviços de informática e de engenharia, consultoria empresarial, ensino e pesquisa e atividades ligadas ao turismo. A capital pernambucana abriga o Porto Digital, reconhecido como o maior parque tecnológico do Brasil, e tem 3,9% de participação no PIB do estado:
Pernambuco coloca-se no cenário mundial por seu capital humano. Há uma participação crescente do setor de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no PIB pernambucano. Enquanto a média nacional é de 0,8%, em Pernambuco, a participação chega a 1,8%, de acordo com dados do IBGE e do Conselho de Desenvolvimento de Pernambuco (Condepe). (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007, p. 533).
O estado tem, ainda, o segundo maior polo de confecções do Brasil. Os principais pontos de vendas estão em Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama. Outro setor desenvolvido é o turismo nos municípios de Fernando de Noronha, Porto de Galinhas, Cabo de Santo Agostinho, Olinda, Recife, Igarassu, Itamaracá, Gravatá, Triunfo, Garanhuns e Caruaru.
O processo de desenvolvimento de Pernambuco concentrou-se em regiões mais centrais; altos investimentos contribuíram para o crescimento do estado sem muita atenção à localidade, principalmente as regiões no interior do Estado:
As linhas gerais da política de desenvolvimento de Pernambuco parecem, assim, apontar na direção correta, abrangendo a atração de investimentos, a expansão da infraestrutura, a promoção de arranjos produtivos, o suporte às exportações etc. Os recursos financeiros estaduais, entretanto, têm sido muito escassos e usados um tanto pulverizadamente sem alvos mais dirigidos em termos de reforço da base produtiva local. Ademais, não há incentivos diferenciados e, assim, maiores preocupações com a desconcentração da base produtiva para outras regiões do interior do Estado. (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007, p. 533).
A maioria das políticas estaduais de desenvolvimento concentra-se na RMR, o que mostra o desequilíbrio econômico no estado. Não é por acaso que entre os dez primeiros municípios que detêm o maior IDHM, sete estão na RMR. Os projetos estruturantes que vêm provocando o desenvolvimento de Pernambuco nos últimos anos demonstram que necessitam de ajustes e de novas estratégias, principalmente “[...] da integração dos tais projetos com o resto da economia”. Além disso, “[...] as políticas precisam ater-se também à necessidade de espraiar o desenvolvimento do estado para as regiões interioranas, definindo incentivos diferenciados a favor de espaços menos dinâmicos[...]” (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007, p. 540).
Apesar do desenvolvimento econômico no estado, ainda são poucos os municípios que acompanham essa evolução, o que leva o estado, no cômputo geral, a não obter índices elevados. Os projetos de desenvolvimento concentram-se em regiões específicas e não se expandem para outras regiões do estado, o que se constata com o desenvolvimento humano baixo em 107 municípios.
[...] O montante de 82,8% das pessoas percebe rendimentos de, no máximo, dois (2) salários-mínimos em Pernambuco [...] A população pernambucana é majoritariamente ainda de baixo rendimento mensal, mesmo comparada a padrões regionais, e o contingente de renda superior – acima de três salários- mínimos – reside, de forma concentrada, na Região Metropolitana do Recife, principal centro urbano produtivo: apenas 82 mil pessoas, em toda a população do estado, no estrato de renda superior, residem em outras localidades que não a RMR. (MONTEIRO NETO; VERGOLINO, 2014, p. 22).
Inúmeros foram os investimentos em Pernambuco nas últimas décadas, não só com recursos do estado, mas também financiamentos federais. Segundo Monteiro Neto e Vergolino (2014, p. 106):
O governo federal fez apostas para a implantação de uma refinaria de petróleo da Petrobras, de uma siderúrgica e de um estaleiro naval – projetos de grande envergadura de capital e tecnologia, sem dúvida atratores de novos investimentos ao longo das cadeias de produção. Portanto, desde pelo menos 2005, um novo momento para o setor industrial no estado vem sendo redefinido pelos esforços federais e estaduais para a consolidação de uma matriz produtiva renovada e capaz de orientar uma trajetória mais robusta de crescimento econômico.
Temos, além desses investimentos, o Programa Bolsa Família, ação do governo federal, que vem contribuindo para a redução dos índices de pobreza do estado, cujos recursos são de 1,3 bilhão em 2012 e atenderam 1.151.000 famílias. Em 2013, foram 2 bilhões de reais e se compararmos com o ano de 2004, esse valor dobrou durante a vigência do referido programa.
Mesmo com o desenvolvimento de Pernambuco, alguns autores alertavam para a necessidade de reestruturação de alguns setores produtivos para a competitividade com outros países emergentes, pois: “Ao lado desse cenário bastante promissor de novos projetos, cabe chamar a atenção de que segmentos consolidados da economia pernambucana vêm sendo ameaçados e devem ter atenção especial para potenciais crises que podem enfrentar em futuro próximo.” (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007, p. 539). Assim como questionamentos sobre o futuro produtivo da economia no estado:
Estes novos investimentos terão condições de modificar a realidade atual da economia local? Os impactos não estarão extremamente localizados sem transbordamento para o resto da economia? Como preparar uma economia desigual para um salto de desenvolvimento, sabendo que a qualificação de pessoal e a participação de capitais locais ainda são inadequadas para um novo paradigma de desenvolvimento, em um novo patamar tecno- econômico? (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007, p. 540-541).
Em termos demográficos, a população de Pernambuco é de 8.796.448. Desse total 17% têm de 15 a 24 anos (8% de 15 a 19 anos e 9% de 20 a 24 anos). A maior concentração ocorre nas faixas etárias de 30 aos 49 anos com 28,4% (15,6% na faixa de 30 a 39 e 12,8% na de 40 a 49). De acordo com os dados do IBGE (2013), Pernambuco tem 36,8% de jovens (15 a 29 anos) e 21,4% de idosos (+ 60 anos). Em torno de 53% da população acima de 15 anos, está empregada. Apesar do aumento nos últimos anos, ainda é um quantitativo que retrata a necessidade de revitalização de outras regiões do estado. A concentração de renda permanece em um grupo seleto.
Ao direcionar para a população de 15 a 29 anos em relação aos rendimentos mensais, de acordo com dados do IBGE (2013), recebem até ½ salário mínimo 20%, mais de ½ a 1 salário mínimo 37,9%; ganham 1 salário mínimo 31,2% e apenas 8,4% recebem mais de 2 salários mínimos. Os jovens na idade de 15 a 29 anos, na maioria, recebem até um salário mínimo, ou seja, aqueles que conseguem entrar no mercado de trabalho.
Em 2013, a população jovem (15 a 29 anos) de Pernambuco era de 3.389.000 pessoas. Desse número, só estudam 23,9%; trabalham e estudam 10,6%; só trabalham 39,7%, nem trabalham nem estudam 25,8%. Tal realidade demonstra que o desenvolvimento no estado de Pernambuco, até 2013, não influenciou de maneira significativa na população jovem do estado; altas jornadas de trabalho, baixa remuneração e, o que é mais agravante, excluídos da instituição escolar. No que diz respeito aos jovens de 15 a 17 anos, apesar de uma evolução nos últimos anos, ainda há um percentual de 16,8% que não estão na escola, um alto quantitativo para atingir a lei da universalização do ensino médio, visto que essa faixa etária deveria estar cursando esse nível de ensino.
A partir de 2014, o estado de Pernambuco foi atingido pela grave crise que afetou todo o Brasil, não só econômica, mas também política. O estado ficou vulnerável aos efeitos de retração no nível de atividade da economia brasileira. Outra agravante é que a crise ocorre no momento de instabilidade no mercado de trabalho devido à conclusão da fase de implantação dos investimentos produtivos e em infraestrutura, especialmente em Suape. Com isso:
O mercado de trabalho foi pego, portanto, na fase de transição da implantação para a de funcionamento de vários empreendimentos produtivos e de infraestrutura. E finalmente, a economia estadual sofreu as consequências econômicas das investigações no âmbito da Operação Lava Jato. O envolvimento da Sete Brasil que, para produzir sondas que seriam alugadas a Petrobras, tinha feitos várias encomendas ao Estaleiro Atlântico Sul, viu-se obrigada a cancelar contratos que desencadearam efeitos em cadeia que atingiu severamente a recém instalada indústria naval e o setor metalomecânico da economia estadual. A Refinaria Abreu e Lima, por outro lado, ficou inconclusa. (JATOBÁ, 2016, n. p.).
Em consequência desses problemas, a economia estadual retrocedeu 2,2% entre janeiro e setembro de 2015 comparada com o mesmo período de 2014; o estado perdeu quase 90 mil empregos em 2015, a taxa de desemprego voltou aos 11% no fim de 2016, o rendimento médio real do trabalho caiu quase 1% em termos reais, corroendo parte dos
ganhos observados nos anos anteriores (JATOBÁ, 2016). Em 2015, o PIB do estado de Pernambuco diminuiu 3,5%, a maior queda nos últimos dezessete anos.
O crescimento econômico de Pernambuco vivenciado no período 2000-2013 não continuou nos anos 2014 e 2015, conforme demonstrado nos dados acima. A promessa de desenvolvimento do estado estava sendo ameaçada, o qual vive um momento de recessão e queda nos investimentos. A atual realidade do estado, com alta taxa de desemprego e diminuição no PIB interfere no financiamento das políticas educacionais, os quais sofrem influência da situação vivenciada. A redução de investimentos provocou o atraso em repasses de verbas às escolas públicas de Pernambuco, que, no auge do desenvolvimento econômico, viu como caminho a qualificação dos jovens do ensino médio.
O desenvolvimento econômico de Pernambuco impulsionou a formulação de políticas educacionais que visassem à melhor preparação dos jovens, principalmente do ensino médio com o PEI, tanto nas escolas técnicas estaduais como nas escolas regulares. Nesse planejamento, viabilizaram-se parcerias, e novos grupos foram essenciais para a adoção de políticas que adotaram modelos de gestão oriundos de empresas privadas para as escolas públicas. Dessa forma, torna-se imprescindível conhecer tais políticas.
5.2 Políticas educacionais para o ensino médio no estado de Pernambuco: do fim da