3. PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS PARA A EXECUÇÃO
3.3. Meios de constrição
3.3.1. Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário – SISBAJUD
O SISBAJUD é um sistema de dados que substituiu, a partir de setembro de 2020, o muito conhecido “BACENJUD”, a partir de parceria que envolveu o Conselho Nacional de Justiça, o Banco Central e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional433.
O mecanismo é responsável por conectar o Poder Judiciário às instituições financeiras, através do Banco Central brasileiro. Assim como indica o nome, ele facilita a busca de ativos financeiros nas contas bancárias do devedor, “(...) para bloquear e penhorar somas de dinheiro necessárias à garantia da execução por quantia certa”434.
A substituição do BACENJUD pelo SISBAJUD, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, decorreu da “(...) necessidade de renovação tecnológica da ferramenta, para permitir inclusão de novas e importantes funcionalidades (...)”435. Como é de comum conhecimento, o
433 A parceria foi formalizada por meio do Acordo de Cooperação Técnica n.º 041/2019.
434 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução e cumprimento de sentença. 31.ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021, p. 393.
435 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Sisbajud. Disponível em:
<https://www.cnj.jus.br/sistemas/sisbajud/>. Acesso em 11 de julho de 2022.
avanço tecnológico característico da sociedade contemporânea pode fazer com que os aparatos já desenvolvidos se tornem obsoletos e insuficientes para as exigências práticas.
Em seguida, o CNJ relaciona as funcionalidades do SISBAJUD. Além do envio virtual de determinações judiciais de bloqueios de valores (em conta corrente, ativos mobiliários, títulos de renda fixa e ações), é possível fazer a requisição de informações básicas de cadastro e saldos de determinada pessoa, ter acesso a dados detalhados de extratos de conta corrente e
“(...) emitir ordens solicitando das instituições financeiras informações dos devedores tais como:
cópia dos contratos de abertura de conta corrente e de conta de investimento, fatura do cartão de crédito, contratos de câmbio, cópias de cheques, além de extratos do PIS e do FGTS”436.
Tem-se, por conseguinte, várias medidas que podem ser exploradas no processo executivo como forma de se entender a efetiva situação patrimonial da parte executada.
Ressalte-se, por exemplo, o fornecimento da fatura do cartão de crédito como importante indicativo dos gastos do devedor, demonstrando eventual blindagem de seu real patrimônio437. A partir disso, outras das ferramentas tecnológicas mencionadas no presente trabalho podem ser empregadas com maior precisão.
É relevante destacar que o art. 835 do CPC, ao definir a ordem preferencial de bens penhoráveis, estabeleceu como o primeiro deles o dinheiro, seja em espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira438. Tendo em vista a circunstância de que a guarda de
“dinheiro vivo” é cada vez menos usual, ganha especial relevância as formas de se alcançar os valores depositados ou aplicados no mercado financeiro.
Além disso, o §1.º do art. 835 definiu a absoluta prioridade do dinheiro em relação aos demais bens mencionados na “cabeça” do dispositivo em comento. Dessa forma, a alteração da ordem dos outros bens previstos no artigo poderá ser feita pelo juiz, a depender das vicissitudes concretas do caso em exame439.
436 As informações constantes no presente parágrafo também foram tiradas do site do Conselho Nacional de Justiça (mencionado na nota anterior).
437 Por outro lado, é interessante ressaltar a discussão aventada por Gilberto Bruschi sobre a penhora de recebíveis de cartão de crédito ou débito: BRUSCHI, Gilberto Gomes. Recuperação de crédito. 3.ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021, p. 443/447.
438 “Ora, inexiste meio tão idôneo para execução patrimonial quanto a penhora de dinheiro em depósito ou em aplicação financeira. Essa idoneidade concerne não só ao exequente – já que a liquidez da penhora aí é obviamente indiscutível –, mas também ao próprio órgão jurisdicional, haja vista que não será necessário realizar qualquer espécie de expropriação, bastando a entrega do numerário ao exequente, com evidente economia processual".
MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. O projeto do CPC: crítica e propostas. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 157.
439 Art. 835, §1.º, CPC. É prioritária a penhora em dinheiro, podendo o juiz, nas demais hipóteses, alterar a ordem prevista no caput de acordo com as circunstâncias do caso concreto”. Para Artur de Souza: “Este dispositivo vem eliminar de uma vez por todas a dúvida existente se a ordem estabelecida nos incisos II a XIII do art. 835 do atual
Nas seguintes linhas, portanto, buscar-se-á retratar o disposto em subseção específica da codificação processual, na qual o legislador de 2015 pormenorizou a penhora de dinheiro em depósito ou aplicação financeira. Trata-se do disposto no art. 854, cujo caput expressamente indica que ao executado não será dado conhecimento prévio da medida. É uma imposição lógica, sob pena de se frustrar o uso do sistema caso o contraditório não seja diferido440. Determina, ainda, o uso de sistema eletrônico e limita a indisponibilidade ao montante em execução.
Caso o bloqueio efetuado pela instituição financeira seja considerado excessivo pelo órgão judicial, ele determinará, em até 24h e mesmo sem a provocação das partes, o seu cancelamento, que também terá o mesmo prazo para ser cumprido (art. 854, §1.º).
A intimação da parte executada ocorrerá, então, após a concretização da ordem de indisponibilidade, por intermédio de seu advogado ou, na ausência deste, de modo pessoal (§2.º). Terá, em seguida, 5 dias para comprovar eventual impenhorabilidade do valor bloqueado ou excesso ainda remanescente (§3.º). O acolhimento dessas alegações também deverá ser cumprido pela instituição financeira em 24h (§4.º).
Por outro lado, caso o devedor não se manifeste ou seus argumentos não sejam acatados, o §5.º do art. 854 ordena a conversão da indisponibilidade em penhora. Nessa situação, é dispensado que termo seja lavrado e à instituição financeira deverá ser determinado, pelo juízo executivo, que providencie a transferência do valor bloqueado para uma conta vinculada ao órgão judicial (também no prazo de 24h).
O mesmo prazo441 será aplicado para o cancelamento da indisponibilidade, na hipótese em que o débito seja pago por outro meio (§6.º), cuja inobservância acarretará a responsabilidade da instituição financeira por eventuais prejuízos, nos termos do §8.º.
C.P.C. é absoluta ou relativa. Assim, somente em relação ao dinheiro, que será sempre prioritário, a ordem referida nos incisos II a XIII do caput deste artigo não tem caráter absoluto, podendo o juiz alterá-la de acordo com as circunstâncias do caso concreto”. SOUZA, Artur César de. Código de Processo Civil: anotado, comentado e interpretado (Parte Especial: arts. 693 a 1.072). Vol. 3. São Paulo: Almedina, 2015, p. 751.
440 “Uma vez feito o pedido pelo exequente, se o juiz o deferir, o executado não ficará sabendo previamente do ocorrido, fato que faz com que o procedimento seja efetivo, evitando, assim, possível desvio de valores por parte do devedor, que, se tomasse conhecimento prévio de que a penhora ocorreria, poderia simplesmente entrar na sua conta e movimentar os valores para que nada ficasse disponível”. BECKER, Rodrigo Frantz. Manual do processo de execução dos títulos judiciais e extrajudiciais. Salvador: JusPodivm, 2021, p. 485.
441 Percebe-se que em diversos dispositivos foi previsto o rápido prazo de 24h. Para Marina França Santos, trata-se de “(...) uma expressa preocupação do CPC/2015 em evitar prejuízo ilegítimo do executado, tendo sido estabelecidos prazos reduzidos para que o juiz corrija qualquer inadequação na indisponibilidade de seus ativos financeiros e atribuída expressa responsabilidade à instituição financeira pelos prejuízos causados ao executado no correto cumprimento das ordens judiciais (...)”. SANTOS, Marina França. Art. 854. In: STRECK, Lenio Luiz;
NUNES, Dierle; CUNHA, Leonardo Carneiro da (Org.). Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo:
Saraiva, 2016, p. 1120.
O desenvolvimento do BACENJUD e do SISBAJUD obedecem à regra disposta no §7.º do artigo em estudo, a qual determina que o meio para a transmissão das comunicações nele previstas deve ser um “sistema eletrônico gerido pela autoridade supervisora do sistema financeiro nacional”.
Por fim, apenas para finalizar a menção a todos os parágrafos do dispositivo, o último deles (§9.º) estatui regra específica à situação em que o processo executivo é movido em face de partido político. Nessa hipótese, a determinação transmitida pelo SISBAJUD deverá alcançar apenas os ativos que pertençam ao órgão partidário responsável por contrair a quantia em execução ou que tenha ocasionado a violação de direito ou o dano.
Além do tratamento legal conferido ao tema, é importante reiterar o julgado do Superior Tribunal de Justiça no item 3.2.1. supra. Em tal oportunidade, decidiu-se que a utilização do SISBAJUD, RENAJUD e INFOJUD não depende do exaurimento, pelo exequente, de diligências extrajudiciais, tendo em vista a grande utilidade de tais mecanismos para a tutela executiva442.
A posição atual do STJ se afasta de teses doutrinárias segundo as quais a penhora eletrônica feita pelo SISBAJUD deveria ser medida excepcional, aplicável após o esgotamento de outras providências investigativas conduzidas pelo credor, em atenção ao princípio da menor onerosidade da execução. Gaio Jr. e Thaís Oliveira mencionam tais alegações, mas delas se afastam, por entenderem que a instrumentalidade do processo leva à necessidade de que se concretize o direito por meio dele buscado, alcançando-se o acesso à justiça443.
Outro exemplo da resistência de alguns sujeitos processuais pode ser extraído da decisão do Supremo Tribunal Federal no MS 27.621/DF, julgado no final do ano de 2011. A partir de tal oportunidade, o STF decidiu pela obrigatoriedade de cadastro dos magistrados junto ao BACENJUD, impedindo que a ausência de tal registro seja fundamento para o indeferimento
442 Paulo Lucon e Guilherme Costa, ao responderem questionário elaborado pelo Prof. Michele Lupoi acerca do
“(...) uso da nova tecnologia da informação no cumprimento de decisões judiciais”, explicam a técnica constritiva representada pelo BACENJUD e indicam que o STJ abandonou o seu primeiro entendimento, pelo qual se exigia o exaurimento de prévias medidas investigativas pelo credor. LUPOI, Michele; LUCON, Paulo Henrique dos Santos; COSTA, Guilherme Recena. Brazilian report on the use of new information technology in the enforcement of judgments. Revista de Processo, São Paulo, v. 194, p. 317/322, abr./ 2011.
443GAIO JÚNIOR, Antônio Pereira; OLIVEIRA, Thaís Miranda de. Processo Civil e os modelos de investigação patrimonial na atividade executiva. Revista de Processo, São Paulo, v. 259, p. 119/135, set. 2016. Para os autores, ademais, o direito ao sigilo bancário não é argumento suficiente para impedir a medida constritiva eletrônica.
de seu uso444. Parecia se tratar de um exemplo do estratagema mencionado em um dos trechos que epigrafaram este trabalho.
Após caracterizar o sistema e apontar as novas funcionalidades por ele trazidas em relação ao seu antecessor (BACENJUD), Antônio da Lapa apresenta o que entende como
“retrocessos” do SISBAJUD. O principal deles consistiria no não funcionamento do sistema continuamente, pois operava apenas nos dias úteis, em horário determinado (7h às 16:59h). Para o autor, tal restrição autoriza aos devedores a movimentação de suas contas bancárias, especialmente via PIX, nos momentos em que a ferramenta não funciona445.
Ocorre que uma nova aplicação foi incluída no âmbito do sistema, a qual permite que as ordens de indisponibilidade sejam reiteradas automaticamente, por até 30 dias. Trata-se da conhecida “teimosinha”, que afasta a necessidade de que o juiz ou serventuário repita, diariamente, a comunicação de bloqueio no sistema. Tal medida, além de aumentar a chance de êxito, diminui a carga de trabalho burocrático do Judiciário.
Dierle Nunes e Tatiana Andrade salientam que a “teimosinha” afasta o antigo inconveniente de que o credor precisava contar com a sorte de que existissem valores em conta no exato dia em que a pesquisa fosse realizada. Os autores, todavia, mencionam a expectativa de que o prazo de 30 dias atualmente em vigor seja aumentado, “(...) perdurando até a total liquidação da execução”446.
Apontam, ainda, outros anseios relacionados ao avanço do SISBAJUD, dentre eles a completa integração dele com o PJe e o SIMBA (item 3.2.4. supra), assim como a indicação da existência de investimentos do executado em criptomoedas. Nunes e Andrade, por fim, tratam de um interessante pormenor prático quanto ao emprego do mecanismo. Para eles, o advogado do exequente deve ter a cautela de requerer ao juízo executivo que não desbloqueie, de imediato, eventuais valores mínimos tornados indisponíveis. E isso porque seria relevante analisar se o
444 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança n.º 27.621/DF. Roberto Wanderley Nogueira v. Conselho Nacional de Justiça. Relatora: Min. Cármen Lúcia, Redator para o Acórdão: Min. Ricardo
Lewandowski. Brasília, 07 de dezembro de 2011. Disponível em:
<https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=1983588>. Acesso em 12 de julho de 2022. O STF entendeu que a imposição, pelo CNJ, direcionada a membros da magistratura, de obrigação puramente administrativa concernente na inscrição em cadastros eletrônicos não exorbita a competência regulamentar do Conselho nem viola a convicção dos juízes.
445 LAPA, Antônio Neto da. Guia prático para efetividade da execução: descubra o patrimônio oculto do devedor. São Paulo: JusPodivm, 2021, p. 84. Além dessa questão, o autor critica o fato de que possam ser liquidadas eventuais dívidas bancárias antes que se faça a penhora relativa a créditos trabalhistas, o que, para ele, desrespeita a natureza privilegiada de tal tipo de crédito.
446 NUNES, Dierle; ANDRADE, Tatiana Costa de. Recuperação de créditos: a virada tecnológica a serviço da execução por quantia certa. Belo Horizonte: Expert, 2021, p. 134.
resultado obtido pela consulta efetivamente traduz a real natureza da relação jurídica entre o devedor e a instituição financeira447.
Conforme se pode extrair dos apontamentos aqui desenvolvidos, são inúmeras as utilidades do SISBAJUD no âmbito da execução civil. Observa-se, ademais, que as autoridades responsáveis estão em constante procura de seu aprimoramento, dada a sua relevância para a recuperação de créditos. Cabe, portanto, à comunidade jurídica, o estudo e efetiva aplicação do mecanismo, de forma que o máximo proveito de suas aptidões seja alcançado, tendo em vista que o sistema não se restringe, como visto, ao bloqueio de valores, autorizando o acesso a outros tipos de dados.