9 INSTITUTOS SIMILARES À TOMADA DE DECISÃO APOIADA NO DIREITO COMPARADO: VANTAGENS E DESVANTAGENS
9.4 Sistemas de apoyo al ejercicio de la capacidade (Argentina)
O novo Código Civil e Comercial argentino (Ley 26.994) foi promulgado em 2014 e entrou em vigor em 2016, modificando substancialmente o regime jurídico das incapacidades e estabelecendo um sistema de apoio para o exercício pleno dos direitos, em consonância com o art. 12 da Convenção de Nova Iorque.288
O objetivo da reforma legislativa ocorrida na Argentina foi, sobretudo, moldar um sistema voltado à autonomia da pessoa com deficiência ou em situação de vulnerabilidade, em perfeita correspondência com o binômio liberdade versus dignidade.
Nas palavras de Ricardo Luis Lorenzetti:
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Conforme ressaltado, Projeto de Lei n. 11.091/2018 em tramitação na Câmara dos Deputados, ao incluir o art. 749-A no Código de Processo Civil, prevê que no pedido de Tomada de Decisão Apoiada deve constar as hipóteses de participação obrigatória dos apoiadores para a validade do ato.
287
SOUZA, Iara Antunes de. Estatuto da Pessoa com Deficiência: curatela e saúde mental. Belo Horizonte: D´Plácido, 2016, p. 168.
288 De acordo com os arts. 23 e 24 do Código Civil e Comercial da Argentina: “Artículo 23. Capacidad de
ejercicio: Toda persona humana puede ejercer por sí misma sus derechos, excepto las limitaciones expresamente previstas en este Código y en una sentencia judicial. Artículo 24. Personas incapaces de ejercicio: Son incapaces de ejercicio: a) la persona por nacer; b) la persona que no cuenta con la edad y grado de madurez suficiente, con el alcance dispuesto en la Sección 2ª de este Capítulo; c) la persona declarada incapaz por sentencia judicial, en la extensión dispuesta en esa decisión”. Tradução livre: “Artigo 23. Capacidade de exercício: Toda pessoa pode exercer por si só seus direitos, exceto as limitações expressamente previstas neste Código e em decisão judicial. Artigo 24. Pessoas incapazes de exercício: São incapazes para o exercício: a) o nascituro; b) a pessoa que não tenha idade e grau de maturidade suficiente, com o escopo estabelecido na Seção 2 deste Capítulo; c) a pessoa declarada incapaz por sentença judicial, na medida prevista nesta decisão”.
Como es sabido, la Convención sobre los Derechos de las Personas con Discapacidad – que tiene por objeto promover, proteger y asegurar el goce pleno y en condiciones de igualdad de todos los derechos humanos y libertades fundamentales por todas las personas con discapacidad, y promover el respeto de su dignidade – insta a los Estados a realizar una verdadera reforma de sus normativas y prácticas institucionales para garantizar que las personas con discapacidad disfruten de los mismos derechos que las demás personas, ejerzan la ciudadanía, y participen del progreso de sus sociedades en igualdad de condiciones que las demás personas.289
Para tanto, a nova lei determina a capacidade como regra e prevê que apenas em casos excepcionais será possível restringir a capacidade para atos específicos (art. 31 do Código Civil e Comercial argentino).
O apoio para o exercício da capacidade está previsto no art. 43 do diploma, devendo-se entender como apoio qualquer medida de caráter judicial ou extrajudicial que facilite a pessoa que o necessita a tomar decisões para dirigir sua pessoa, administrar seus bens e celebrar atos jurídicos em geral.290
As medidas de apoio previstas no art. 43 do novo Código Civil e Comercial argentino são aplicáveis a todas as situações em que, por algum motivo, há um comprometimento no exercício pleno da capacidade. O objetivo é promover a autonomia e facilitar a compreensão e a manifestação de vontade.
Portanto, as novas medidas de apoio do direito argentino não ficam reservadas às situações específicas de incapacidade em razão de doença mental, e
289
LORENZETTI, Ricardo Luis. Código Civil y Comercial de la Nación comentado. De LORENZO, Miguel Federico; LORENZETTI, Pablo (coord.). Santa Fé: Rubinzal-Culzoni, 2015, p. 07. Em tradução livre: “Como é sabido, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – que visa promover, proteger e assegurar o pleno gozo em igualdade de condições de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência, e promover o respeito a sua dignidade – impulsiona os Estados a realizar uma verdadeira reforma de suas normas e práticas institucionais para garantir que as pessoas com deficiência desfrutem dos mesmos direitos que as demais pessoas, exerçam a cidadania, e participem do progresso de suas sociedades em igualdade de condições em relação às demais pessoas”.
290 Art. 43 do Código Civil e Comercial da Argentina: “Concepto. Función. Designación. Se entiende por apoyo
cualquier medida de carácter judicial o extrajudicial que facilite a la persona que lo necesite la toma de decisiones para dirigir su persona, administrar sus bienes y celebrar actos jurídicos en general. Las medidas de apoyo tienen como función la de promover la autonomía y facilitar la comunicación, la comprensión y la manifestación de voluntad de la persona para el ejercicio de sus derechos. El interesado puede proponer al juez la designación de una o más personas de su confianza para que le presten apoyo. El juez debe evaluar los alcances de la designación y procurar la protección de la persona respecto de eventuales conflictos de intereses o influencia indebida. La resolución debe establecer la condición y la calidad de las medidas de apoyo y, de ser necesario, ser inscripta en el Registro de Estado Civil y Capacidad de las Personas.” Tradução livre: “Conceito. Função. Designação. Entende-se por apoio qualquer medida de natureza judicial ou extrajudicial que facilite à pessoa que dela necessite tomar decisões para dirigir sua pessoa, administrar seus bens e celebrar atos jurídicos em geral. As medidas de apoio têm a função de promover a autonomia e facilitar a comunicação, compreensão e manifestação de vontade da pessoa para o exercício de seus direitos. O interessado pode propor ao juiz a designação de uma ou mais pessoas de sua confiança para que prestem o apoio. O juiz deve avaliar o escopo da designação e buscar a proteção da pessoa em relação a eventuais conflitos de interesse ou influência indevida. A decisão deve estabelecer a condição e a qualidade das medidas de apoio e, se necessário, ser inscrita no Registro Civil e Capacidade das Pessoas”.
podem ser aplicadas em todos os casos em que há o comprometimento ao exercício pleno da capacidade pelo indivíduo.291
O beneficiário do apoio poderá requerer ao juiz a designação de uma ou mais pessoas de sua confiança. Cabe ao juiz avaliar o objeto, o conteúdo e a extensão do apoio pretendido. Ressalte-se que a designação de mais de uma pessoa da confiaça do apoiado é uma faculdade e não uma imposição legal como o fez a lei brasileira.
A decisão judicial deve especificar, de forma proporcional às necessidades individuais do pretenso apoiado, a função dos apoiadores e os atos dependentes da medida protetiva.
Neste sentido, Marina M. Sorgi Rosenthal observa: “Por lo que, el apoyo deberá disenarse según las necesidades de cada persona, debiendo respetarse siempre su autonomia individual y su capacidad para adoptar decisiones".292
Quanto aos atos praticados pela pessoa beneficiária do apoio, sendo ela incapaz ou com capacidade restrita, sem a participação do apoiador, após a inscrição da sentença no Registro Civil, a lei argentina estabeleceu a nulidade como sanção aplicável (art. 44 do Código Civil e Comercial).
Se o ato foi praticado pelo apoiado antes do registro da sentença concessiva da medida de apoio, poderá ser declarado nulo se houver prejuízo para ele e se configurar uma das seguintes situações: a enfermidade mental era notória na época da celebração do ato, o terceiro contratante estava de má-fé ou o ato foi praticado a título gratuito (art. 45 do Código Civil e Comercial).
O legislador argentino deixou expressa a obrigatoriedade da participação do apoiador nos atos previstos na decisão judicial, fixando a nulidade como sanção aplicável na hipótese de violação.
Importante frisar, outrossim, que o Código Civil e Comercial argentino coloca a medida de apoio como forma de promover a autonomia do deficiente ou da pessoa em situação de vulnerabilidade, favorecendo o poder de autodeterminação e garantindo a preferência do indivíduo.
291
GIAVARINO, Magdalena B. La recepción del sistema de apoyos em el nuevo Código Civil y Comercial. In: Estudios de Derecho Privado: comentários al nuevo Código Civil y Comercial de la Nación. Compilado por Graciela C. Wüest. 1.ed. adaptada. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Asociación de Docentes de la Facultad de Derecho y Ciencias Sociales de la Universidad de Buenos Aires, 2016, p. 128.
292
SORGI ROSENTHAL, M. M. Capacidad jurídica de las personas con discapacidad en el código civil y comercial. Revista Derechos en Acción, n. 4, 28 sep. 2017.
Porém, conforme prevê o § 4º do art. 32, se a pessoa se encontar absolutamente impossibilitada de manifestar vontade, deixando de ter qualquer discernimento, o juiz poderá declarar a incapacidade e designar um curador que substituirá a sua vontade, praticando em seu nome os atos jurídicos.293
Portanto, acertadamente, as medidas de apoio previstas no sistema argentino não excluem a possibilidade de declaração de incapacidade e a nomeação de curador em casos de maior gravidade.