2 PROCESSO PENAL
2.1 SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS
Da necessidade da instrução processual, antes, demandará investigação preliminar e consequentemente o processo-crime, para então a eventual condenação ou absolvição. Nesse processo existem três sistemas, o inquisitivo, o acusatório e o misto. Vale destacar que nenhum dos sistemas foram adotados integral e individualmente, ou seja, os pontos positivos de um podem ser agregados a outro, formando uma variação mais adequada ao ordenamento jurídico vigente.
2.1.1 Sistema Inquisitivo
O Sistema Inquisitivo é regido pela concentração de poder na autoridade judicial, no qual não existe separação das funções de acusador e julgador. O juiz inquisidor é quem faz a gestão das provas.
Surgiu no direito romano, entre 27 a.C. a 284 d.C., em decorrência da negação das garantias individuais da época. Esse modelo foi consolidado na Monarquia Absoluta, com a lei do Imperador Constantino, e todo o processo é conduzido de ofício pelo magistrado.
Os outros atributos do sistema inquisitorial, na lição de Zilli (2003, apud DAZEM, 2021):
1. Hierarquização da jurisdição: invariavelmente, o monarca é o depositário da jurisdição penal, que a delega a funcionários subordinados, que a exercem em seu nome;
2. Presença do inquisidor: o poder de acusar e perseguir é exercido pelo mesmo órgão que também é encarregado de julgar;
3. O acusado é tratado como um objeto da persecução, e, não, como sujeito de direitos;
4. O procedimento consiste em uma investigação secreta, escrita e descontínua;
5. No campo probatório, impera o sistema das provas legais. Ou seja, a valoração das provas atende a rigorosos critérios que podem afastar ou reconhecer um fato como elemento hábil para a formação da convicção;
6. O sistema de recursos reflete a forma hierarquizada de organização da jurisdição penal. Da mesma forma que o monarca delega aos seus subordinados parcela da jurisdição que por eles é exercida, esta lhe é inteiramente devolvida quando do exame e julgamento do recurso.
Além de desencadear o processo criminal, de ofício, o juiz inquisidor tinha iniciativa para determinar a colheita de provas, em qualquer tempo, tanto na fase de investigação quanto no decorrer do processo criminal, de posse das provas e da legislação, tinha poder para decidir conforme o seu livre entendimento para concluir a sentença como bem entendesse.
Nas palavras de Lima (2021, p. 44), quando o acusado “é mero objeto do processo, não sendo considerado sujeito de direitos”, na busca da verdade admitia-se a tortura para obter-se a confissão. O processo corria em sigilo, por escrito, era rigoroso e não existia o contraditório e a ampla defesa, era totalmente incompatível com os direitos e as garantias individuais, bem como não cumpria os mais elementares princípios do processo penal atual.
2.1.2 Sistema Acusatório
A principal característica desse sistema é a presença dos órgãos de acusação, de julgamento, contrapondo a defesa e a acusação em condição de igualdade, liberdade tanto para
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acusação quanto para a defesa, com isonomia entre as partes do processo, como também a transparência nos atos praticados.
Nas palavras de Nucci (2021, p. 28), o “contraditório está presente; existe a possibilidade de recusa do julgador; há livre sistema de produção de provas; predomina a maior participação popular na justiça penal e a liberdade do réu é a regra”.
A natureza do acusado está em negar a culpa, assim, para que o julgador seja imparcial, entra a figura do acusador como instituição, justifica Lima (2021, p. 45) do “porquê da existência do Ministério Público como titular da ação penal pública”. Enquanto existir a separação das partes de acusador e julgador, a imparcialidade será garantida.
Esse sistema vigorou durante a antiguidade grega e romana, com também na Idade Média, e teve um período de declínio a partir do século XIII quando o sistema inquisitivo ressurgiu.
Os ordenamentos jurídicos modernos adotam a prática acusatória como regra. No Brasil, a CRFB a acolheu explicitamente no art. 129, I, quando tornou a propositura da ação penal pública privativa do Ministério Público (BRASIL, 1988), e no CPP , por meio do art. 3º-A, na nova redação da pela Lei n. 13.964/2019 (BRASIL, 2019), conhecida por pacote anticrime de 2019, explicitou que a adoção do sistema processual penal “terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação”.
O sistema acusatório pode ser encontrado na legislação de muitos países, não é infalível, suas práticas acusatórias são utilizadas como regra, mas podem se utilizar de alguns aspectos inquisitórios, na fase inicial de coleta de provas, dada a efetividade e a celeridade do processo.
Lima (2021, p. 46) esclarece que a:
Gestão de provas: recai precipuamente sobre as partes. Na fase investigatória, o juiz só deve intervir quando provocado, e desde que haja necessidade de intervenção judicial. Durante a instrução do processual, prevalece o entendimento de que o juiz tem certa iniciativa probatória, podendo determinar a produção de provas de ofício, desde que faça de maneira subsidiária’ (Grifo nosso).
Essa teoria reflete a igualdade entre os sujeitos, a produção de provas cabe às partes, observados os princípios do contraditório, da ampla defesa, da publicidade, do dever da motivação e, principalmente, o fato de que o juiz não é o gestor das provas.
2.1.3 Sistema Misto
Depois da disseminação do sistema acusatório por toda a Europa no século XIII e de sofrer algumas alterações (influências napoleônicas), surgiu o novo sistema processual misto, também conhecido por “francês”, dada sua origem no “Code d’Instruction Criminelle”, logo após a Revolução Francesa.
Esse sistema possui duas fases distintas. A primeira fase, a tipicamente inquisitória, ou seja, sem publicidade, sem ampla defesa, de instrução escrita e secreta, sem acusação, sem contraditório, é a fase de investigação preliminar, onde se pretende levantar a materialidade e a autoria dos fatos. A segunda fase tem caráter acusatório, em que o órgão acusador apresenta a acusação, o réu, a defesa, e o magistrado julga. O processo segue as regras de publicidade, oralidade, isonomia processual e o direito de manifestação, em que há a defesa após a acusação.
No Brasil, embora a CRFB e o CPP apontem para o sistema acusatório, existem normas prevendo o uso do sistema inquisitorial, executado pela polícia judiciária, encarregada da investigação criminal, que nada mais é que um processo de investigação preliminar, conhecido como Inquérito Policial.
As últimas alterações impostas pelo pacote anticrime, que criou no CPP o juiz de garantia, no art. 3º-B, por força de liminar do STF, não entrou em vigor, porém, tem como atribuições controlar a legalidade da investigação criminal e ainda decidir sobre requerimentos de produção antecipadas de provas, como a interceptação telefônica, o afastamento de sigilo, entre outras ações investigatórias (LIMA, 2021).
Destarte, o Brasil não tem um sistema processual acusatório puro, dadas as características introdutórias de investigação criminal, em que Magistrado autoriza de ofício os procedimentos legais necessários para a legalidade investigativa.