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2 DIREITO A TER DIREITOS: de menor a criança

2.3 Sob a perspectiva do ECA

O Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 2012a) trata da regulamentação do artigo 227 da Constituição Federal. Foi elaborado com o auxílio e a participação da sociedade civil organizada, sob influência de Convenções Internacionais, em um processo de retomada 40 Embora esta Convenção tenha influenciado os relatores do ECA, apenas foi ratificada pelo Brasil em 1990, no mesmo ano da promulgação do ECA.

41 A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança é o instrumento de direitos humanos mais aceito na

história universal. Foi ratificado por 193 países. Somente dois países não ratificaram a Convenção: os Estados Unidos e a Somália. Fonte: <http://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10120.htm> Acesso em: 10 maio 2014.

da livre expressão e da democracia no país, consolidando, assim, o princípio da criança enquanto pessoa humana em condição peculiar de desenvolvimento (BRASIL, 2012a, artigos 3º e 6º).

O Estatuto está dividido em duas partes: Livro 1, contendo as disposições preliminares, os direitos fundamentais e sobre a prevenção de violações; e, Livro 2, com as políticas de atendimento, as medidas de proteção, as disposições sobre ato infracional, sobre o conselho tutelar, sobre o acesso à justiça e sobre os crimes e infrações administrativas. Diante de uma abrangência que contempla direitos de crianças e adolescentes e sanções para violações dos direitos e/ou ameaça de violações cometidas por adolescentes, adultos, instituições e Estado, esta passa a ser a legislação mais importante para o referido segmento social.

A partir do ECA, pela primeira vez, todas as crianças brasileiras são vistas sob um viés holístico, de proteção integral, que significa assegurar o “desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade” (BRASIL, 2012a, art. 3º), ao contrário da legislação anterior, o Código de Menores (BRASIL, 1927). De acordo com Piovesan (2013), o novo paradigma estabelecido pela Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989), e no Brasil, aprofundado pelo ECA,

fomenta a doutrina da proteção integral à criança e ao adolescente e consagra uma lógica e uma principiologia próprias voltadas a assegurar a prevalência e a primazia do interesse superior da criança e do adolescente. (PIOVESAN, 2013, p. 410)

Verificamos, a partir de então, que o país passou de uma situação de contradição frente às convenções mundiais a uma situação de acompanhamento dos avanços no pensamento sobre o trato com crianças e adolescentes.

Com o quadro abaixo é possível compreender as principais diferenças entre o Código de Menores, em suas duas versões, e o ECA:

Quadro 3 – Código de Menores x Estatuto da Criança e do Adolescente

Código de Menores (1927) Código de Menores (1979) Estatuto da Criança e do Adolescente (1990)

Direito penal do menor Situação irregular Proteção integral Menores abandonados e

delinquentes Menores em situaçãoirregular Todas as crianças eadolescentes42 42 Cabe ressaltar que o termo menor deixou de ser utilizado com o estabelecimento do ECA, sendo substituído pelos termos criança e adolescente, de acordo com a faixa etária da pessoa. Há duas principais razões para esta mudança: primeiro, o termo menor se remete à legislação anterior que se aplicava apenas a parte da população, ficando estigmatizado por corresponder a crianças e adolescentes em conflito com a lei, simbolizando a infância

Proteção e vigilância Assistência, proteção e

vigilância Proteção integral

Abandonados e delinquentes Carentes, abandonados e delinquentes Todas as crianças e adolescentes Controle social da pobreza Controle social Desenvolvimento social

Objeto de intervenção do

Estado Alvo de medidas deintervenção Cidadãos sujeitos de direitos Natureza jurídica e de

segurança pública Natureza jurídica Natureza jurídico-social Estatizante na figura do Estado Centralizador e estatizante na figura do Estado Descentralizador e participativo congregando toda a sociedade

Elaborado por um jurista

Elaborado por um conjunto de profissionais composto

por juristas, médicos, psicólogos e assistentes

sociais

Proposto pela sociedade civil, incorporado por setores

governamentais e parte do sistema de justiça Estigmatiza e segrega Estigmatiza e segrega Integra

Regido pelo código penal Regido pelo código penal Regido pelas medidassocioeducativas Responsabilidade do

Estado Responsabilidade do Estado

Responsabilidade da família, da comunidade, da

sociedade e Poder Público

- - primazia no atendimentoPrioridade absoluta com

Prevê punição Prevê punição e direitos Prevê direitos, deveres eresponsabilidades43 Não apresenta plano de

prevenção

Não apresenta plano de prevenção

Apresenta artigos relacionados à prevenção de violações

dos direitos Não apresenta sanções para

violação de direitos Não apresenta sanções paraviolação de direitos

Determina sanções para violações e ameaça de violações por parte de crianças, adolescentes, adultos, entidades e Poder

público.

Fonte: Quadro formulado pela autora com base no quadro “As leis brasileiras sobre a infância: uma comparação” presente na apostila de textos do “Curso de Formação em Estatuto da Criança e do Adolescente para Profissionais da Educação” realizado pela Prefeitura Municipal de São Carlos/SP em 2011.

pobre e “potencialmente perigosa”. Ainda hoje o termo é amplamente utilizado de maneira pejorativa pela população, influenciada pela mídia nacional e a segurança pública. O segundo motivo, refere-se ao sentido comparativo da palavra, no qual coloca crianças e adolescentes em condição de inferioridade em relação ao adulto. Com a abolição do termo, crianças e adolescentes são colocados em condição de sujeitos de direitos, assim como os adultos, porém em outra fase de desenvolvimento.

43 O Estatuto, em seu artigo 6º, coloca que a legislação considera “os direitos e deveres individuais e coletivos”. Nesta pesquisa, é feita a opção por inserir o conceito responsabilidade por compreender que é dever da família, da comunidade, da sociedade e Poder Público garantir a efetivação desta lei, entretanto, é responsabilidade de crianças e adolescentes garantirem o próprio direito, já que as pessoas são responsáveis por cuidar do que lhes pertence, e não, obrigadas.

De acordo com o quadro 3, o ECA inaugura uma concepção de crianças e de adolescentes que devem ser protegidos e atendidos por toda a sociedade, como verificado no excerto destacado, por meio de uma rede articulada e integrada de instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, intitulada Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA, 2006). Na rede de atendimento, cada ator ou grupo social desempenha uma função que envolve tanto a esfera privada, quanto a pública. Dessa forma, redimensiona a política de atendimento a esse segmento social buscando promover, defender e controlar a efetivação dos direitos, garantindo políticas sociais básicas, políticas de assistência e proteção especial.

No ano seguinte a sua promulgação, o ECA recebeu as primeiras alterações e supressões em seus artigos, sendo, nos últimos anos, bastante atualizado em virtude de mudanças sociais e avanços na concepção de sociedade como um todo. Estes avanços resultaram, igualmente, em instrumentos formulados para a proteção de crianças e adolescentes tais como: Plano Nacional de Direito à Convivência Familiar e Comunitária, de 2006; Agenda Social da Criança e do Adolescente, de 2007; Sistema Nacional de Atendimento Sócioeducativo (SINASE), de 2012, entre outros (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2008), sendo que a última alteração sofrida, até o momento, foi em 2014.

Além dos instrumentos citados, as políticas sociais básicas, as políticas de assistência, a concepção de família e os direitos dos conselheiros tutelares, por exemplo, foram ampliados, entre outras alterações que não se referem necessariamente aos direitos das crianças e adolescentes, mas sobre os temas que envolvem todo o sistema de garantia de direitos. Em diversos aspectos há, ainda, possibilidade de aprimoramento, como por exemplo, inserir artigos relacionados ao uso e violações na internet para além do artigo 241, publicidade e consumo voltados ao público infantil44, estabelecimento de regras mais justas e menos

discriminatórias no processo de adoção, inclusão da educação em direitos humanos explicitamente, ampliação de ações de proteção e direitos a crianças portadoras de deficiências, incluir artigos sobre a questão de gênero na infância e adolescência, entre tantos outros. Ainda que pese a necessidade de tais aperfeiçoamentos, vinte e cinco anos após sua promulgação, o ECA continua sendo um instrumento de referência mundial na defesa e proteção de crianças e adolescentes, tendo sido inspiração para, no mínimo, 15 legislações latino-americanas (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2008).

A maior dificuldade relacionada ao ECA atualmente, refere-se à sua efetivação nas 44 Embora já tenha sido aprovada a Resolução nº163/14 do CONANDA em 04/04/2014, que dispõe sobre propaganda e publicidade infantil, esta ainda não foi aprovada pelos órgãos competentes e, portanto, ainda não modifica o ECA.

práticas sociais da população brasileira, pois a instituição das Leis não garante, e não garantiu, ainda, uma mudança na postura da sociedade de maneira geral.

No sentido de ampliar o conhecimento do ECA entre a população, Ferreira, Zenaide e Gentle (2013) apontam que, além da implementação de políticas públicas na área, um dos caminhos mais promissores está na escola. Este é um dos primeiros espaços de socialização e aprendizado da criança, fora do ambiente familiar, que possibilita o contato com conhecimentos sistematizados diferentes daqueles encontrados na convivência com a família. Se a população, de maneira geral, não tem conhecimentos básicos sobre o ECA, levá-lo à escola pode garantir a formação da população mais jovem em direitos da criança e do adolescente. Importante ressaltar que a introdução do Estatuto como conteúdo no ensino fundamental mostra-se enquanto ferramenta no sentindo de uma formação para a cidadania, e também, de uma formação de crianças e adolescentes participantes sociais ativos (ROSA; WILLE, 2013). Dessa maneira, no último item, abordaremos considerações acerca do ensino de direitos e dos próprios direitos, para crianças.

2.4 Sujeitos sociais, sujeitos de direitos: a educação em direitos humanos (EDH) na