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CAPÍTULO 4 PERCURSO METODOLÓGICO

4.1 SOBRE A ESCOLHA DO IMPRESSO

Toda pesquisa está determinada por escolhas e também por algo que provoca inquietações, por realidades que “atraem o investigador” ou se tornam “notadas” (BOURDIEU, 2011, p. 28). Pesquisar os fluxos de interação nos jornais impresso vem de uma observação sistemática dos espaços de comentários dos leitores que, por vezes, apontam perspectivas, enunciados e/ou dados ignorados (estrategicamente ou não) pela própria cobertura jornalística. Outras que revelam baixa adesão do público, silenciamentos ou filtragens/ocultações que o próprio leitor reclama e o meio decide publicar. Também pelos modos de apropriação dessas manifestações, suas organizações no espaço do jornal, as conexões que por vezes se estabelecem com outros dispositivos (manchetes, artigos, editoriais ou notícias).

Outro fator são os canais de participação disponíveis nos sites dos jornais e toda a estrutura que convocam: as regras de participação, os cadastros, as estratégias de controle que o veículo lança mão como a moderação prévia ou posterior e outros que foram se revelando à medida em que foi possível conhecer os processos pela perspectiva interna - na própria redação.

Estas inquietações representam, sobretudo, o reconhecimento da importância da interação leitor-jornal a partir da constituição histórica dos espaços destinados à essa participação. Soma-se a esse fator a relevância da interface entre o impresso e o online, em especial as características e lógicas que os comentários dos leitores assumem e operam na ambiência digital.

Uma decisão que se apresentou como necessária logo de início foi quanto à delimitar as observações e coleta dos dados apenas no território do jornal, por assim dizer, neste caso o impresso e o site do veículo. Isto implicou em não incluir observações e dados quanto aos fluxos que ocorrem nas redes sociais (Facebook, Twitter, Google +). Não se trata, porém, de desconsiderar a importância desses novos espaços, mas de escolhas necessárias para um planejamento que não dispõe de tempo hábil, condições, ferramentas e recursos a ponto de dar conta de um objeto que se amplia consideravelmente.

Quanto à escolha dos jornais diários - neste caso local e regional - que compõe o conjunto de dados empíricos deu-se em virtude da proximidade que facilita o acesso e da contribuição no sentido de observar as rotinas de trabalho nas redações de veículos que não estão aqueles tidos como de referência22 no país. Desta forma, oferece dados que revelam a diversidade das empresas que, por sua vez, incidem na prática cotidiana de nos modos de fazer jornalístico.

Pesquisar em ambientes redacionais de jornais de natureza empresarial privada contempla por um lado um dos principais paradoxos da atividade que representa ao mesmo tempo o interesse público e os interesses de uma organização que visa lucros. Ou seja, o objeto de pesquisa garante relevância justamente por estar localizado numa realidade que representa formas hegemônicas de jornalismo no Brasil.

Por outro lado, e como consequência dessa natureza privada, o acesso à pesquisa não é público ou livre. E os limites destas instâncias - campo acadêmico e iniciativa privada - é um dos obstáculos que devem ser considerados. Desta forma é legítima tanto a intensão de pesquisa nessas condições quanto a defesa empresarial de seus interesses - sejam eles econômicos, comerciais, políticos, entre outros.

Dos jornais analisados

Incialmente a escolha dos jornais a serem analisados estava limitada aos dois únicos diários impressos da cidade de Ponta Grossa: Jornal da Manhã (JM) e Diários dos Campos (DC). No JM foram realizadas as primeiras entrevistas e investidas para as observações participantes de caráter exploratório.

22 A classificação utilizada para jornais de referencia nacional é da pesquisa de mídia SECOM 2014, que aponta

no impresso os cinco mais citados (de segunda a sexta-feira): Extra; Super Notícias; Meia Hora; O Globo e Diário Gaúcho. Na categoria de sites, considerando apenas os portais de notícias, os cinco mais citados: Globo.com; G1; UOL, R7 e Terra (também de segunda a sexta-feira).

Ocorre que nesse período de traçado inicial da metodologia de pesquisa o site do JM passou por uma reforma que, conforme detalhada no quinto capítulo (da análise dos dados), representou uma significativa ruptura dos contrafluxos gerados a partir dos comentários dos leitores. Esse fator foi determinante para incluir a GP e tratar como complementares os dados coletados no JM, dada a importância tanto das informações quanto das ações exploratórias para a construção do percurso metodológico.

Dos três veículos - Jornal da Manhã (JM), Diário dos Campos (DC) e Gazeta do Povo (GP) - apenas o JM permitiu o acesso direto aos e-mails e ao sistema de participação via site, sistema que em menos de um mês estava parcialmente modificado e fora do ar - ação que acabou por excluí-lo da amostra. Os outros dois não permitiram tal acesso alegando compromisso com o sigilo e privacidade da relação leitor-jornal. Neste sentido, os dados coletados nos jornais DC e GP, por sua vez, são trados como empíricos centrais.

Essa questão de autorização de pesquisadores a informações e sistemas internos como neste caso dos contrafluxos de comunicação, diz respeito à fronteiras nem sempre possíveis de serem ultrapassadas, por vezes passíveis de negociações, mas que limitam em muito acompanhar/monitorar os processos de escolha, edição, ocultação e exclusão dos comentários enviados. As negociações necessárias e as condições impostas para que a pesquisa possa se realizar acabam por gerar constrangimentos no momento de descrever e analisar os dados.

Trata-se também de uma característica que o objeto assume pela lógica mercadológica (e estratégica): um dos argumentos das empresas é que a interação leitor-jornal (especialmente as enviadas por e-mail ou fale conosco) inclui manifestações que fogem à lógica dos comentários sobre o conteúdo jornalístico. Inclui reclamações enquanto cliente, opiniões, dados e sugestões (e até denúncias) que, a pedido do leitor, estão direcionadas única e exclusivamente ao jornal e, portanto, confidenciais.

O modelo de negócio - fator relevante para a pesquisa - está descrito obviamente que considerando as distinções de um jornal local de pequeno porte e outro de médio porte integrado a um grupo que atua no mercado midiático regional. Desta forma, importa saber das estruturas e das condições de produção.