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Capitulo 2 – Os palcos e a música na cidade Campinas

2.1. Os primórdios da atividade musical em Campinas

2.2.1 Sobre a Matriz Provisória e a Matriz Velha

A história de Campinas se iniciou, em 14 de julho de 1774, em uma capela, que funcionou como Matriz provisória, onde foi celebrada a missa de fundação da cidade pelo Fr. Antônio de Pádua. Para tal celebração, devido à precariedade do local, que não possuía os parâmentos sacros nem mesmo um sino, D. Ignacia Buena (s.d.), moradora de Araçariguama, emprestou os itens necessários para a celebração pelo tempo de seis meses, a pedido de D. Luiz Antônio de Souza (1722-1798) (DIAS, 2016).

A falta de parâmentos sacros nos faz supor que também os recursos para a atividade musical eram limitados. Segundo Dias (2016, p. 95), “pela importância da celebração e pelas regras cerimoniais em vigor, a Missa foi cantada, ao menos no que diz respeito ao canto do celebrante”. As palavras de Dr. Francisco Quirino dos Santos (1841- 1886), compartilhadas por Dias (2016) parecem ser a única fonte documental conhecida acerca desse momento da história de Campinas e sua atividade musical:

A primeira missa!

Imaginem que havia de ser num domingo - um domingo lindo e sereno! - aquele solene alvorecer da festiva aldeia. [...] Mas chega, aflui a multidão já para a missa. [...] Entram. A igrejinha é estreita e baixa; inteira coberta de palha. [...] Os sacerdotes entoaram já os sagrados cânticos, e a prece, a mensageira augusta da paz e da alegria, unge os lábios férvidos ao redil contrito dos fiéis. O instante é todo de arroubamento e de esperanças. Como é suave a harmonia, a cadência daquelas vozes singelas, rústicas, mas ternas,

mas penetrantes n’alma, a entoarem os versículos de uma oração, quando ela se chama, por exemplo, a Salve Rainha, e sobe, parece subir, entre as nuvens espraiadas de incenso, para o alto infinito das regiões obscuras onde o vago pensamento vai curvar-se aos pés do Eterno. (DIAS, 2016, p. 95 apud CAMPOS JÚNIOR, 1952, p. 25)

Figura 8: Capela provisória. Óleo sobre tela de Castro Mendes. Acervo do Museu da Cidade, Campinas

Extraído de: DIAS, Clayton Junior Dias. Música sacra em campinas de 1772 a 1870: levantamento histórico e

contribuição da família Gomes. 2016. 187 f. Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas,

Campinas, 2016.

No mesmo dia em que foi celebrada a primeira missa na cidade, foi realizado também o batizado do neto de Barreto Leme (o fundador da cidade). Fr. Antônio de Pádua atuou durante quase cinco anos como pároco da cidade e deixou, como um dos seus importantes legados, a atuação para angariar fundos para a construção de uma nova igreja (NOGUEIRA, 1997a).

Em substituição à capela provisória, que se localizava onde atualmente está o monumento-túmulo de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), foi construída uma igreja maior de terra socada, que serviu como matriz da cidade de Campinas por aproximadamente um século e meio. A Igreja da Nossa Senhora da Conceição, que ficou conhecida como Matriz Velha, foi substituída por uma nova igreja em 1883 (atual Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição). O projeto, idealizado e iniciado pelo Pe. Joaquim José Gomes, levou

Figura 9: Matriz Velha - Desenho anônimo de 1781

Extraído de: DIAS, Clayton Junior Dias. Música sacra em campinas de 1772 a 1870: levantamento histórico e

contribuição da família Gomes. 2016. 187 f. Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas,

Campinas, 2016.

A transferência para Matriz Velha, em 25 de julho de 1781, criou uma oportunidade para se iniciar a consolidação da produção musical da cidade, que ocorreu consistentemente pelas mãos do Maneco Músico, o qual passaria a exercer suas funções de mestre-capela a partir de 1820. No entanto, sobre a inauguração dessa igreja, comentou Clayton Dias (2016, p. 100):

Levando-se em conta estes recursos limitados (financeiro e humano), podemos supor que se ela aconteceu, deve ter sido de modo simples e humilde e que provavelmente a música tenha sido executada somente pelo sacerdote celebrante cantando canto gregoriano, como era práxis na época, de acordo as rubricas litúrgicas.

A Matriz Velha foi um importante espaço para a socialização e a consolidação de Campinas, e, portanto, também um importante palco para a música. Segundo Dias (2016), embora houvesse a exigência do Te Deum nas solenidades e missa de Requiem nos

acontecimentos fúnebres ligados à corte, não há registros de cerimônias com acompanhamento musical na Matriz provisória, nem durante a primeira década de existência da Matriz Velha, por isso a hipótese desse pesquisador é que os próprios clérigos executavam em canto gregoriano tais celebrações (DIAS, 2016).

A partir de 1812, esse panorama, aparentemente, começou a se transformar e essa “modestíssima” igreja, passou a ampliar sua atividade musical, como demonstram os registros de pagamentos da Câmara. Destacado por Nogueira (1997), observamos dois músicos mineiros entre aqueles que recebiam esses pagamentos: Gomes da Graça, que recebeu a quantia de 4$000 reis e Manuel Julião da Silva Ramos, que recebeu 6$000 reis, pela ocasião das festas reais.

Manuel Gomes da Graça (Minas Gerais 1777 - Campinas c.1850) foi um músico mineiro, radicado em Campinas. Segundo Nogueira (1997), embora esteja declarado em seu inventário que Gomes Graça tenha chegado a Campinas no ano de 1806, os censos registram sua presença a partir de 1813 como: “pardo, casado, 35 anos e três filhos” (NOGUEIRA, 1997a, p. 28). Em 1825, os registros mostram que o pardo Manuel Gomes da Graça4 tinha uma botica que rendia 100$000 réis anuais, aos quais se somavam mais ou menos 50$000 réis de sua outra ocupação como músico (MARTINS, 2004). Além de boticário e músico, Manuel Gomes tinha fama de bom curandeiro, como nos compartilha Martins (2004), ao citar os relatos coletados por Jolumá Brito (1965) em História da cidade de Campinas:

Manoel Gomes da Graça, vivendo da arte de música bem como assistindo alguns enfermos e aplicando remédios de sua botica, há vinte anos, mais ou menos, aqui mora e tem se aplicado à arte da medicina pela falta que há de quem cure, tem usado ainda dessa ocupação com felicidade, e, ainda, mesmo nesse tempo em que há dois professores de representação, seu nome vive chamado frequentemente, não só dentro da vila como dos sítios e engenhos, atende com toda a exatidão e presteza e com especialidade aos pobres com toda caridade e por ser merecedor de toda a honra e ser também distinto o seu comportamento sendo que não há família das mais distintas desta vila, que não faça dele entrada em sua casa e como vejo marcada sua reputação pela intriga e ignorância passo em seu abono o presente documento, indo devidamente assinado.

Manoel José Fernandes Pinto.

Presbítero secular e Escrivão do Eclesiástico desta Comarca de São Carlos [Campinas], em 7 de abril de 18305.

Outro músico citado nos registros da Câmara foi Manuel Julião da Silva Ramos (Santa Luzia de Sabará c.1763 - ?), que, embora tivesse se estabelecido em Atibaia por volta de 1815, teve sua passagem registrada em Campinas em 1812, como destacado anteriormente.

4 C.C., 1825, 1ª Cia, fogo 113

5 BRITO, Jolumá, História da cidade de Campinas. 20º v. Campinas, Ind. Gráfica Saraiva (SP), 1965, p. 91,

apud, BERTUCCI, Liane Maria. Saúde: arma revolucionária. São Paulo - 1891/1925, Campinas: Publicações CMU/UNICAMP, Campinas, p. 7.

Não se pode afirmar que ele tenha fixado residência em Campinas, já que não foi encontrado nenhum registro nos censos da Vila de São Carlos (NOGUEIRA, 1997a).

Segundo Nery (2007), no entanto, durante o período em que esse compositor esteve em Campinas, foi composta umas Matinas de Natal, pois existem manuscritos copiados por Manuel José Gomes, pai de Antônio Carlos e Sant’Anna Gomes, que indicam isso.

Localizada no Museu Carlos Gomes, a música contém 55 folhas distribuídas em coro (soprano, alto, tenor e baixo), violinos I e II, clarinetes I e II, Trompas I e II, trombone e baixo. Incluindo um frontispício em que se lê: “Matinas do Menino Deos composto por Manoel Jullião de Manoel Jozé Gomes”. Ainda segundo Nery (2007, p. 6):

nas Matinas o clarinete apresenta uma escrita comum à Banda de Música, em um registro agudo e estridente, de difícil afinação e timbragem com as vozes do coro, levando-nos a crer que foi adicionado posteriormente à composição de Manoel Julião. Da mesma forma, o trombone, que realiza uma base harmônica por vezes diferente do baixo instrumental, com notas mais graves fato bastante incomum para a época.

O aparecimento de músicos mineiros nesse período no atual estado de São Paulo coincide com a decadência do ciclo do ouro em Minas Gerais, o que mostra a direção do êxodo desses músicos, em busca de melhores postos de trabalho. Embora tenha sido constatada a presença de, ao menos, dois músicos em atividade no início da formação da cidade de Campinas, não se constituiu o cargo de mestre- capela até 1820. Na ocasião, segundo Nogueira (1997), graças à influência do vigário Joaquim José Gomes, foi nomeado o jovem músico Manuel José Gomes como primeiro mestre-capela da Vila de São Carlos.

A existência dessa função na cidade é um importante indício da consolidação da produção musical da cidade, pois Maneco tinha como função “compor, reger e executar como instrumentista e cantor a música das cerimônias e festividades religiosas” (NOGUEIRA, 1997a, p. 28). Além disso, deveria também manter uma escola de música para meninos, dentro da mesma tradição em que aprendera música com o padre Lara em Parnaíba. Segundo a pesquisadora L. Nogueira (1997a), suspeita-se que, para as funções musicais, José Gomes tivesse coro à disposição, mas não um organista, atividade que o próprio Maneco teria desempenhado. Não é possível afirmar também se o músico tinha uma orquestra desde seus primeiros anos de atividade musical, porém, certamente, a posteriori sim.

Segundo Castagna (2002, p. 21), a função de mestre-capela exigia responsabilidades como:

O mestre da capela deveria, entre outras funções, atuar como uma espécie de fiscal da prática musical religiosa em sua comarca, solicitando que os músicos que exercessem seus ofícios na jurisdição do mestre da capela apresentassem a ele seus papéis, ou seja, os manuscritos musicais que utilizavam, para que o mestre os examinasse, aprovando-os ou não. Tais papéis não poderiam conter composições com letras profanas ou outras que não tivessem relação direta com a Missa e o Ofício Divino. Cabia ainda, ao mestre da capela, cuidar para que os textos de uma festa não fossem cantados em outras.

No entanto, ainda nos alerta Castagna (2002, p. 19), que a função de mestre- capela no Brasil possuía características diferenciadas das existentes originalmente na Europa:

De acordo com as informações ora disponíveis, os mestres da capela brasileiros normalmente não administravam música polifônica aos moços do coro, como se poderia imaginar, mas arregimentavam um conjunto musical, pago às suas expensas, no qual, via de regra, incluía discípulos que cantavam em troca do próprio ensino. Esse conjunto, constituído por pessoas externas à igreja, é referido nos regimentos catedralícios brasileiros apenas como “seus músicos”, “sua música” ou expressão equivalente.

É possível deduzir, portanto, que a nomeação de Manuel José Gomes incrementou sobremaneira a atividade musical campineira. Porém a existência dessa função não significou a conservação do próprio prédio. Segundo Nogueira (1997a), a igreja estava em um estado lastimável no início do século XIX e, já em 1846, quase em ruínas. Nem mesmo a visita do imperador nesse ano ou a proposta para que o próprio Manuel José Gomes consertasse e afinasse o órgão da igreja por 80$000 (réis) motivaram qualquer remodelação ou retificação dos problemas da construção, visto que todos os recursos estavam sendo direcionados para a construção da nova matriz. Por ocasião da visita do Imperador, foi necessário transferir a matriz para a Igreja do Rosário, tal era lastimável a condição da Matriz Velha. Essa condição se estendeu até 1852, quando voltou para o antigo prédio onde permaneceu até sua transferência para a nova e suntuosa edificação.

Maneco Músico iniciou sua experiência musical ainda como auxiliar do mestre- capela da Villa da Parnaíba, aos 16 anos. Seu aprimoramento teria sido feito com o mestre- capela da Sé de São Paulo, André da Silva Gomes (1752 - 1844). Essa hipótese ganha força, ao observarmos um possível prévio conhecimento da obra de Silva Gomes por Maneco, sugerido por duas obras copiadas por esse, anteriormente à sua possível transferência para São Paulo. Além disso, algumas semelhanças entre esses compositores também podem ser apontadas, como por exemplo, a caligrafia musical e a caligrafia na assinatura ao escrever

“Gomes”. R. Duprat também corrobora essa hipótese em seu livro Música na sé de São Paulo colonial (1995), ao observar a obra desses dois compositores:

Não estranha a afirmação de Arquimedes Pereira Guimarães de ter sido André mestre de Manuel José Gomes, pai de Antônio Carlos Gomes. O prestígio enorme daquele e o respeito e amizade que lhe tributaria, conforme sugere a documentação, juntam-se à solida formação de Manuel José Gomes para consolidar a hipótese. Tendo compulsado os originais de autoria deste último, podemos afirmar não apenas ele ter copiado diversas obras de André, mas possuir também uma caligrafia musical extremamente semelhante à do presumido mestre. (DIAS, 2016 p. 109 apud Duprat, 1995, p. 88-90)

Como compositor, Maneco atuou massivamente na cidade de Campinas, deixando, após sua morte, um rico acervo, com cerca de 700 manuscritos. Dias (2016) nos apresentou em sua dissertação de Mestrado uma série de recibos referentes a serviços prestados por ele à cidade. Embora não se saiba, claramente, a natureza de todos os serviços, pelos quais Manuel José Gomes tenha recebido (composição, realização musical ou ambos), pode-se observar que ele recebeu pagamentos por 12 missas e sete Te Deum. Um dado interessante, também destacado por Dias (2016), é que, a partir do cruzamento do valor avaliado de seu arquivo com os recibos assinados por José Gomes, fica claro que não somente suas composições foram utilizadas nesses serviços.

A obra musical de Manuel José Gomes encontra-se preservada no Museu Carlos Gomes, abrigado no Centro de Ciências, Letras e Artes em Campinas. Observamos pelos títulos que são obras sacras para coro misto SATB a cappella ou com acompanhamento instrumental.

Podemos supor que essa igreja já possuía um órgão desde pelo menos a nomeação de José Gomes, porém como nos alerta Dias (2016), a ausência de documentos que atestassem a compra e/ou a venda desse instrumento não nos permite saber detalhes sobre fabricação e modelo. Nogueira (1997a, p. 56) ainda nos compartilha fatos acerca da conservação desse órgão anos após a inauguração da matriz: “Em 1841 o órgão estava completamente deteriorado, impossibilitando o seu uso nas cerimônias religiosas, inclusive as da Semana Santa o que era inadmissível”.

A ampla contribuição de Manuel José Gomes para a cidade de Campinas se encerrou repentinamente em 11 de fevereiro de 1868, data de seu falecimento. A respeito de seu sepultamento, podemos observar um relato compartilhado por Nogueira (1997a):

E no dia 11 de fevereiro de 1868, as ruas de Campinas assistiam o lento caminhar de quatro pobres, que por 20$000 réis transportavam o ataúde que

levava Maneco. Os músicos, surpresos ante a morte repentina de seu líder, cabisbaixos, o seguiam pela última vez. Ao chegarem ao local do sepultamento, a música silenciou para as palavras do vigário, que já não era, há muito tempo, Joaquim José Gomes. A pequena vila de São Carlos da chegada de Maneco já não existia. Era agora uma cidade que se enriquecia com a cultura da cana-de-açucar e do café. A atividade musical se transformara. [...] No sepultamento de Maneco, os acordes lamentosos da banda emolduraram o fim de uma época. (NOGUEIRA, 1997a, p. 72)

O fazer musical, na época de Manuel Gomes, era circunscrito à atividade religiosa e visava à manutenção das relações de poder colonial (MONTEIRO, 2008). Sendo assim, sustentou as relações sociais e religiosas, pretendendo, principalmente, uma contribuição à liturgia.

As relações de conquista e de manutenção coloniais são as mesmas. Criam mecanismos que pretendem assegurar o controle sobre a vida social dos colonos e que forjam uma verdade metafísica, uma vida mítica que controle também a alma. Regras e sanções a serem cumpridas e estabelecidas são tão necessárias quanto um estímulo religioso, quanto uma divulgação pública de uma realidade única na vida espiritual. Os homens da colônia teriam que ser vassalos do rei, aceitar e respeitar a hierarquia colonial e deveriam ir às missas, às festas religiosas de suas irmandades e àquelas previstas no calendário civil; nelas, ouviam suas músicas e se sociabilizavam compartilhando o mesmo universo. Não participar dessas atividades significava marginalizar-se socialmente e, no plano das sensibilidades, conviver com a exclusão moral e religiosa. A música foi parte de um processo maior, um dispositivo a mais nas relações de colonização. (MONTEIRO, 2008, p. 40-41)