Apenas três artigos associados aos estudo de organizações, trade secrecy: anos 2004; 2009 e 2014.
3 METODOLOGIA/MATERIAIS E MÉTODO
4.1 Survey e Estudo de Caso 1, empresa MOTORES 1 Sobre a pesquisa, comunicação e entrevistas
4.1.2 Análise vertical da pesquisa survey na empresa MOTORES
4.1.2.3 Sobre o comportamento do ator, dentro do ambiente profissional, em sociedade e seu papel de liderança.
O sigilo em sua vertente sociológica tem suas raízes nos trabalhos teóricos de (SIMMEL, 1906; GOFFMAN, 1959, 1963, 1978, 2009) e mais recentemente em (ZERUBAVEL, 2006). Segundo Goffman (1959, 1978) o indivíduo quando está na presença de outros busca adquirir informações sobre si perante estes ou divulga informações sobre si ao grupo. Dessa forma o indivíduo antecipa a seus interlocutores informações úteis que auxiliarão na definição da situação, capacitando seus ouvintes a
entender com antecedência o que ele irá esperar do grupo. Este indivíduo assume portanto o controle e a influência em seu espaço de ação, passando a liderar através de atos voluntários em alinhamento com seus objetivos. O papel exercido pelo indivíduo dentro de determinado grupo, muitas vezes não está sujeito a ações conscientes ou inconscientes. Ocorre uma harmonização, um acordo de aparências onde os sentimentos são controlados de forma a estabelecer um “modus vivendi” em dada sociedade. Esta condição harmonizada e ao mesmo tempo discrepante sinaliza potenciais conflitos entre identidades, a virtual e a verdade social (GOFFMAN, 1963, 2009).
Perguntados sobre quando o ator é apresentado a um novo grupo de pessoas, no trabalho, deseja-se saber se ele(a) informa o que se espera como resultado deste. L1 e L3 bem como L2 e L3 fortemente concordam com esta afirmação. Uma menor interação é observada entre L1 e L2. Já em sociedade somente L2 e L3 sinalizaram o mesmo comportamento no trabalho e em sociedade. A harmonização somente é sinalizada entre L2 e L3, havendo um distanciamento maior entre as demais visões, L1 e L2 e L1 e L3, esse distanciamento sinaliza uma divisão entre o nível executivo L1 e os demais. Esta divisão traz à tona o papel do executivo responsável diretamente pelos resultados da organização, criando uma barreira de autoproteção e distanciamento dos demais níveis L2 e L3 uma vez que decisões difíceis e não necessariamente bem recebidas pelas companhia, mercado e sociedade são tomadas dependendo das situações em que os negócios se encontram, se num momento de crise, o grupo torna-se mais distante ainda, somente deixando transparecer decisões consolidadas, sem necessariamente estas terem sido tomadas com o compartilhamento entre os demais níveis L2 e L3. Decisões difíceis como demissões, cortes de orçamento, mudanças estratégicas são comunicadas por etapas, existem filtros ao longo do tempo.
As relações entre pessoas tem um significado importante que vai além das organizações e seus propósitos, reside nesse espaço as pessoas que se conhecem reciprocamente (SIMMEL, 1906). A palavra “acquaintance” significa familiaridade, conhecimento do outro de forma recíproca, um conhecimento da individualidade da pessoa conforme Simmel (1906) descreveu. O que não é proibido é permitido e o que não é permitido é proibido, o grau de proximidade entre os atores classificados como entre pares não apresentaram grau de correlação entre L1 e L2, já entre L1 e L3 pode ser
observado tal correlação indicando que ambos L1 e L3 tem uma proximidade de “acquaintacne” entre seus pares. Quando analisado entre pares L2 e L3 igualmente entre L1 e L2 não foi detectada uma correlação, quando observado em separado L2 uma concentração maior em haver tal familiaridade com seu par em nível médio, na escala adotada surge com alguma abrangência tal familiaridade com o outro par. Para os demais L1 a concentração ocorre entre com abrangência moderada e grande abrangência e L3 com alta concentração em grande abrangência 61% e 78% se considerarmos as duas mais elevadas em L3 classificadas como abrangência moderada e com grande abrangência. Interpretando L2, classificada dividida entre com algum abrangência e uma pequena parcela representando 50%, sugere um baixo relacionamento interpessoal entre os atores L2, ou seja, como há um baixo conhecimento de seus pares isso pode significar baixa cooperação entre estes atores, prevalecendo o campo de ação estratégica dos incumbentes L1 que possuem esta posição como função hierárquica e ao mesmo tempo impondo sob certo aspecto a direção a seguir, não havendo espaço para possíveis revisões de prioridades ou projetos. L3 apresenta grande similaridade com L1 mas muito mais coesa na proximidade entre pares, o que pode significar a tradução de seu comportamento quanto a execução de projetos e programas. O cenário se revela totalmente diferente, no sentido de haver maior harmonia hierárquica, quando a análise recai sobre haver maior grau de proximidade entre os níveis hierárquicos na estrutura vertical, ou seja, entre L1 e L2, L1 e L3, L2 e L3. Todos eles apresentaram elevado grau de correlação em concordar com a afirmação de haver grau de proximidade entre os níveis de abrangência moderada e grande abrangência sendo esta a que concentrou o maior grau de frequência entre os atores que responderam a survey.
Há situações em que o silêncio fala, na ausência de comentários em uma dada situação fica subentendida a concordância com determinada decisão. Muitas vezes palavras não são necessárias para esclarecer determinados fatos, entre pares de uma mesma área, pares de áreas diferentes e entre superior e subordinado. Claramente não ouve um alinhamento de visões neste ponto, tanto L1, L2 como L3 apresentaram opiniões dispersas, variando de não concordo a concordo totalmente e até mesmo com a ocorrência da opção desconheço. Esse espectro variado nas respostas obtidas indica falta de uma referência, inclusive sugere uma contradição com o observado na avaliação entre pares e principalmente
quando entendido na questão sobre o grau de proximidade entre superiores e subordinados, vide acima, ou seja, os pares se reconhecem uns aos outros, mas principalmente suas proximidades nas relações hierárquicas, são fortes, contudo divergem com grande grau de correlação quando na ausência de concordância com determinada decisão estar subentendida, sendo esta condição na ausência de comentários. A condição de divergência encontrada precisa ser observada pois a organização está sujeita a prejuízos no entendimento recíproco entre os atores (SIMMEL, 1906). No sentido contrário, mas coerente com os resultados anteriores quando a mesma analise é feita entre pares externos a organização o resultado foi de baixa correlação linear, ou seja, não foi observado nenhuma concordância, isso reverbera com maior intensidade a ausência ou a baixa compreensão de contextos, sugerindo fragilidades nas relações com o ambiente externo.
Na esfera púbica a intensidade e o grau de compartilhamento das informações são medidos pelas palavras e ações entre os diferentes tipos de relações sociais (HABERMAS, 2014). Interessa saber para efeito dessa pesquisa se o ator revela ao seu interlocutor as informações necessárias para o entendimento de uma determinada situação comercial, de negócios. Quando o assunto é relacionado aos fornecedores em L1 seus membros entendem que sim tais informações são necessárias e devem ser compartilhadas no entanto essa visão diverge de L2 que em sua maioria entende que a mesma não deve ser revelada, ou ainda há falta de conhecimento a esse respeito, e em L3 ocorre a difusão de opiniões antagônicas com relevância a favor do compartilhamento e também com significativo grupo de atores relatando desconhecer sobre o tema. Sob a perspectiva de haver uma correlação entre os níveis L1 e L2, L1 e L3 e entre L2 e L3 a mesma não foi confirmada com o uso da correlação linear. Não há portanto uma visão homogênea sobre como o que deve ser público possa ser revelado, parte dos gestores entendem que sim deve ser revelado, parte entende que não e outra parcela principalmente nos níveis L2 e L3 desconhecem o assunto, não sabem como proceder.
Aos clientes os respondentes revelam um alinhamento interessante, há correlação forte entre todos os níveis, ou seja, as visões de L1, L2 e L3 estão alinhadas havendo concordância de abrangência moderada e concordância total quanto a revelação de informações necessárias em uma negociação, para que se obtenha sucesso com a mesma.
Sob a perspectiva das relações com os concorrentes, não ficou evidente a existência de visões alinhadas, apenas em L1 e L3 houve correlação forte, no entanto isso se dá em concordância com o compartilhamento de informações “necessárias”. Chama atenção esta visão considerando as leis vigentes (BRASIL, 2013) e (EUA, 2011), em outro estrato da organização L2 sugere compreender melhor esse risco tendo 50% dos respondentes afirmado ser necessário apenas uma pequena parcela ou nenhuma parcela de compartilhamento de informações com os concorrentes. L2 mesmo assim apresenta um grau importante de respondentes declarar desconhecer o tema.
Os atores em todos os níveis indicam desconhecer o papel das entidades de classe e governo nas relações institucionais que envolvem a MOTORES, o mercado, o governo e a sociedade. Não foi detectada correlação linear entre nenhum nível pesquisado, em Pena (2016, p. 429) é possível entender a importância de tais instituições “ E a ênfase na propriedade privada como condição da liberdade individual inspira Hume e Adam Smith a criarem a ciência econômica, sem a qual não poderíamos imaginar o tripé que sustenta a sociedade livre moderna, o tripé do político, do cultural/moral e do econômico.” Numa pesquisa é importante testar o contraditório, pensando nisso e entendendo ser importante despertar a reflexão nos entrevistados foi perguntado se os mesmos tem consciência sobre a preservação de informações sensíveis, ou seja o secretum existe em uma organização além de ser uma reconhecida condição aplicada ao estado. O segredo de estado nos tempos modernos tem na emancipação dos cidadãos e no pleito pela transparência um conflito em sua gênese, o conflito de aplicar o padrão moral da esfera privada no mundo político, como Horn (2011, p.112) descreve que a modernidade substituiu a arcana imperii com sua lógica do secretum, estabelecendo uma relação mais complicada do segredo e seu uso político.
Os respondentes em todos os níveis de cruzamento das visões L1 e L2, L1 e L3 e em L2 e L3 apresentaram consistentes evidências de que os assuntos sensíveis nas relações com fornecedores e clientes devem ser preservados. Já nos assuntos relacionados aos concorrentes houve uma baixa correlação r = 0,61 entre L1 e L2 sinalizando em L1 que uma abrangência moderada de cuidado deveria ser aplicada neste caso com 50% dos respondentes defendendo esta posição em contraste com L2 onde 90% classificou esta situação como sendo de grande abrangência, ou seja, muito sensível para ser considerada
possivelmente revelável a um concorrente. Em L2 10% declararam desconhecer o tema, L3 67% estão alinhados com a visão de L2, ainda em L3 28% declararam desconhecer o assunto e 5% apenas concordam com L1 de que tais informações podem até um certo nível ser compartilhadas com o concorrente.
Quanto ao compartilhamento de informações sensíveis nos ambientes de Entidades de Classe e Governo apenas L2 e L3 concordam em fazê-lo, r = 0,98 em ambos, mesmo assim nos três níveis L1, L2 e L3 possuem percentuais elevados cerca de 1/3 dos respondentes classificando estas instituições e as relações de sua organização com elas como desconhecidas. O compartilhamento de informações com tais entidades pode ser entendido aqui como um elemento importante na visão da maioria dos entrevistados contudo um percentual elevado dos respondentes declararam desconhecer o tema, opinião relevante pois permeia toda a estrutura do corpo diretivo da MOTORES, em L1, L2 e L3.
4.1.2.4 Sobre o indivíduo, a empresa - o público e o privado
O sigilo de uma organização e sobre o indivíduo devem ser preservados, “ferramenta essencial à segurança, usada na proteção de informações sensíveis ao abuso”, nos dias de hoje o Arcanum é conhecido sob o termo classificado, ou classification do original em inglês, como descreve Horn (2011, p.108). Isso remete às fronteiras sobre o conhecido e o desconhecido (COSTAS; GREY, 2014; HORN, 2011) sobre a lógica de sigilo político deduz existir duas lógicas fundamentais que envolvem o sigilo, são derivadas dos termos em Latin “arcanum” e “secretum”. Uma forma de legitimar a governança, nos regimes pre-modernos, era classificada de “arcana imperii”, (HORN, 2011, p. 104) cita o exemplo do governo dos EUA em se “dissociar das atividades de seu próprio serviço de inteligência”.
O sucesso da empresa, deve ser do conhecimento público de todos os funcionários, não paira qualquer sombra de dúvida de que tal informação é desejada por todos os respondentes em todos os níveis e em suas comparações L1 e L2, L1 e L3 e entre L2 e L3 os coeficientes de correlação obtidos foram máximos. O mesmo resultado foi