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Sobre a letra

No documento 1. INTRODUÇÃO. Jean-Louis Lang. (páginas 69-73)

E OS ELEMENTOS QUE A DEFINEM

3.4. Sobre a letra

No Seminário sobre A Identificação (1961-1962), como já apresentamos, Lacan passa a formalizar uma questão que vem se constituindo há algum tempo e cujo aspecto conceitual primeiro é dado nesse momento, quando a letra surge como um suporte necessário para o significante (p. 54). É na relação do pequeno ser com A

Coisa, que surge a necessidade desta função: “ os significantes não manifestam primeiramente senão a presença da diferença enquanto tal e nada mais. A primeira coisa que ele implica é que a relação do signo à coisa seja apagada” (p. 58). Quando, neste Seminário, Lacan aborda a questão do nome próprio, chega à noção de letra enquanto tal, citando os outros momentos de sua obra em que já a havia trabalhado. Cita então o Seminário sobre a Carta Roubada, onde a letra aparece “como algo determinante até na estrutura psíquica do sujeito”. Em outro texto, A Instância da Letra, a letra aparece, a partir da metáfora e da metonímia, sob uma ênfase muito precisa. Neste seminário sobre a Identificação, Lacan vai mais longe: “só pode haver aí definição do nome próprio, na medida em que percebemos relação da emissão nomeante com algo que, em sua natureza radical, é da ordem da letra” (p. 81). Nesta mesma linha, aparece a função primordial da escrita: “ a característica do nome próprio está sempre mais ou menos ligada a este traço de ligação, não com o som, mas com a escrita” (p. 85).

É no Seminário XVIII, De um discurso que não seria do semblante (1970), particularmente na aula intitulada Lituraterra, que Lacan desenvolve particularmente esta função da letra. Trata-se aí de uma letra que vai fazer uma função definida como de litoral, isto é, “o que coloca um domínio todo inteiro como fazendo para um outro, se vocês querem, fronteira. Mas, justamente, pelo fato de que eles não têm absolutamente nada em comum, nem mesmo uma relação recíproca” (p. 113). A letra aparece como isto que, ao fazer borda, funciona como contorno entre heterogeneidades, instituindo não uma fronteira, mas dois campos totalmente diferentes: o saber e o gozo.

Lacan descreve a trajetória de uma “escrição” diante do real - a partir de um gesto que se impõe como traços do Outro -, para uma “inscrição” - então significante, simbólica -, do que resultaria uma “escrita” . São descritos aí dois tempos: um primeiro, real, onde o sujeito, num processo de antecipação imaginária, será levado ao simbólico. Na borda do simbólico, está a letra já como “efeito de um discurso”. O segundo tempo é, então, propriamente simbólico, onde da junção da letra com o significante haveria um suporte material para este último, tomado já da linguagem. É neste momento que o significante se dobra às leis da linguagem: Castração, pois. Haveria, então, uma escrita lógica, impossível de ser traduzida,

porque primeira. A inscrição do sujeito na linguagem dar-se-ia neste trajeto do impossível do gozo implicado nesta “escrição”, sofreria a operação da castração, para chegar a uma significação possível. Assim, “ entre o gozo e o saber a letra faria o litoral” (p. 113).

A letra é ao mesmo tempo o apagamento e a entrada no real da linguagem e o que fica como resto, testemunha de um gozo incomunicável.

Lacan precisa ainda mais a distinção entre letra e significante: “ nada permite confundir, como se fez, a letra com o significante (...) nem afetá-la com uma primariedade em relação ao significante” (p. 114). Lacan descreve um processo onde, do apagamento da Coisa (mãe primordial), inscreve-se o Um como traço unário e cai o objeto como resto, neste lugar hiante vem a letra, “a”: “Eu falei a propósito do traço unário que é do apagamento da pegada que se designa o sujeito. Isso se observa portanto em dois tempos. É preciso então que aí se distinga a rasura. Litura, lituraterra. Rasura de qualquer marca que seja de antes, é o que faz terra do litoral. Litura pura, é o literal. Aí, produzir essa rasura é reproduzir essa metade da qual o sujeito subsiste” (p. 117). Lacan faz um jogo de letras, a partir das palavras litura (litoral), terre (terra), rature (rasura), lettre (letra) e litter (porcaria), de modo que Lituraterre aglutina esta passagem de uma letra a uma porcaria, passando pela rasura, apagamento da pegada.

Donde conclui: “a escrita, a letra é no real, e o significante, no simbólico” (p. 118). Distingue assim o conceito de letra do conceito de traço: “É a letra e não o signo que aqui dá apoio ao significante. (...) Em outros termos, o sujeito é dividido pela linguagem, mas um de seus registros pode se satisfazer pela referência à escrita e o outro pelo exercício da palavra” (p. 121).

Esta função da escrita vai nos interessar particularmente, já que é a partir dela que Lacan trabalha, no seminário sobre O sinthoma, de 1975/1976, a idéia de que “uma escritura é um fazer que dá suporte ao pensamento” (p. 162), no estudo que faz sobre James Joyce e sobre a função de suplência no não desencadeamento da psicose.

Lacan situa o objeto pequeno a, a letra, como “testemunha da intrusão de uma escritura como outra (...) A escritura em questão vem de outro lugar que não do significante”(p. 163). Trata-se justamente do que provém do real e funda

basicamente um furo no simbólico, donde a necessidade de uma circulação pelos objetos para finalmente fundar imaginariamente um corpo. Temos aí os três registros articulados, é a fundação do nó borromeu5.

Lacan aborda, mais uma vez, a relação entre o traço unário - simbólico, e a função da letra - real. A partir de seu trabalho topológico com o nó borromeu, formula este traço como suportado pela reta infinita: “é o princípio do nó borromeu. É que, ao combinar duas retas com um círculo, temos o essencial do nó borromeu. Por que a reta infinita teria esta virtude, esta qualidade? Porque é a melhor ilustração do furo” (p. 164). E o furo, como sabemos, é o Simbólico.

O homem é definido como um “composto trinitário” (p. 164) de um elemento - letra - que seria o que faz Um, o traço unário, e permite a substituição, isto é, uma combinatória de significantes. Trata-se de uma relação entre “ um corpo que nos é estranho” que é suportado por uma imagem, um ego; “algo que faz círculo e reta infinita”, e “algo que é o inconsciente” - temos aí Imaginário/Real/Simbólico. Falta ainda definir o lugar do falo, este operador essencial para instaurar a estrutura, que Lacan vai trabalhar em seus últimos seminários.

No Seminário XX (1972-1973), Lacan afirma: “A letra lê-se” (p. 39), mas avisa que não é a mesma coisa ler uma letra, ou ler. O que diz respeito ao discurso analítico é “o que se lê”, já que “todo efeito de discurso é feito da letra” (p. 51). Há uma aplicação clínica para isto: “ao que se enuncia de significante, vocês dão sempre uma leitura outra que não o que ele significa” (p. 52).

Angela Vorcaro (1997) ressalta: “o significante nasce destes traços apagados” (p. 163). O bebê que começa a falar, apropria-se - através da letra - do traço escrito pelo Outro, apagando-o na medida em que ao real da letra superpõe-se o significante. Podemos situar aí a passagem que dá título ao Seminário XVI de Lacan: de um Outro ao outro, onde, como assinala Vorcaro, “Essa reinscrição é a ligação

5 Nó que servia de brasão à família dos Borromeus, do qual Lacan se utiliza para enodar os três registros do Real, Simbólico e Imaginário, pois tem as seguintes características: cortando um dos aros, os outros dois se desfazem; os três aros são equivalentes. Nos diferentes momentos de sua teoria, Lacan faz várias proposições sobre o nó: primeiramente, toma-o como escritura, representação de uma idéia; num segundo momento, o nó é imaginário, isto é, há uma consistência em RSI; por fim, o nó é real, uma apresentação do real da estrutura.

pulsional ao outro de quem depende o infans, onde os traços escritos são substituídos pelo seu rasuramento na fala” p.163).

4. DE UMA TEORIA SOBRE AS PSICOSES

No documento 1. INTRODUÇÃO. Jean-Louis Lang. (páginas 69-73)