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Sobre o amor ao blooper: Morelli, Freud e Goffman

Talvez seja possível com preender m elhor a causa do sucesso m aci­ ço do

blooper

(a popular “videocassetada” no universo da m ídia brasileira contemporânea),3 se ele é concebido como a irrupção do acaso na cuidado­ sa teleologia humana, especificam ente no decoro humano. A atual fascina­ ção com o

blooper

radica no fato de ele ser um documento audiovisual que registra tecnologicam ente um acidente Ou erro na execução de um papel social que, de algum modo insólito, estourou na cara do sujeito na cena coletiva, ante outrem. No começo foi o gênero esportivo e espetacular dos atletas profissionais, depois, graças à câmara de vídeo doméstico, o prota­ gonista foi a pessoa comum junto à sua predisposição a film ar as celebra­ ções familiares. Em ambos os casos, se assiste divertido a um a invasão já quase ritual do elemento de insegurança, o mesmo que nosso discurso ver­ bal e gestual tenta, com grande esforço, conjurar: o m ovim ento que term ina com todo resto de decoro no chão, a torpeza que faz que esse bolo m agnífi­ co de aniversário receba o rosto do aniversariante, como nos velhos filmes mudos de Hollywood. A atração do

blooper

radica no fato de que, por um

A representação do self na obra de Goffman: sodosemiótica da identidade 133

3 O dicionário Merriam- Webster Online define o termo btoopen&únx. “an embarrassing public blunder”, que pode ser traduzido como “uma torpeza pública que causa vergonha”. O aspecto público virou espetacular graças à popularidade crescente da tecnologia visual caseira da videocâmara.

instante, são expostos os sagrados mecanismos com os quais produzimos coletivam ente as sensações de euforia tanto pública quanto privada. A cena registra o instante preciso no qual ainda não se conseguiu achar a cara ade­ quada com a qual se acom odar ao desastre das aparências, à ruína irreversí­ vel na condução das impressões. A nível popular, o

blooper é

um a evidência forte do caráter fabricado de tudo aquilo que norm alm ente rola com apti­ dão pela estrada do natural e do espontâneo. Vamos agora considerar uma versão científica do

blooper.

M uito antes da atual paixão m undial pelo

blooper o u

(vídeo) cassetada, Goffman lhe dedicou um extenso capítulo intitulado

Radio Talk

no seu últi­ m o livro publicado em vida

ÇForms o f Talk,

de 1981). O eloqüente subtítulo desse texto é um a boa descrição de um aspecto substancial da m etodologia de Goffman ao longo de sua carreira: “Um estudo das m aneiras de nossos erros”

(A study o f the ways o f our errors).

Nesse texto dedicado à análise de

bloopers,

G offm an não utiliza m aterial visual, com o o citado acim a, mas

baseia-se nas coletâneas de erros verbais comercializadas em discos. Trata- se de coletas de desacertos ou erros verbais, de enganos acontecidos duran­ te a transm issão de program as de rádio da época. Proponho pesquisar bre­ vem ente a história não tão conhecida da vertente científica dessa paixão pelo falido, por tudo isso que acontece além ou mesmo contra nossa vonta­ de. O assunto então é a significação do acidente e sua utilidade no estudo do humano em geral.

Tudo começa com um método para detectar quadros falsificados que desenvolveu um homem misterioso de nome Morelli, ao qual o próprio Freud se reconhece como devedor em seu desenvolvimento do método analítico da mente humana. A técnica de Morelli não carecia de engenho. Ele aconselha­ va observar as zonas não comuns ou não típicas das imagens célebres, por exemplo, as orelhas dos modelos representados em uma pintura. Era ali, nes­ se subúrbio pictórico, onde o falsificador mais provavelmente se descuidaria, e iria cometer um erro, porque não era um aspecto célebre da pintura imitada por ele. Os detalhes que escapam normalmente à atenção do espectador m é­ dio, acreditava Morelli, seriam os mesmos que aqueles artífices do ilegal iriam descuidar na execução de sua cópia. Um especialista em iconografia comenta o seguinte sobre M orelli e seu singular método: “Nossos

pequenos gestos não

advertidos revelam nosso caráter

de um modo muito mais autêntico que qualquer

atitude formal” (Ginzburg, 1989:120, grifo meu).

M orelli parece assim apontar a centralidade do m arginal

blooper

ou

lapsus

para diversos pesquisadores posteriores. De fato, esse contemporâneo

de Freud mereceu um elogio cálido do fundador da psicanálise no texto O

Moisés de Michelangelo

(1914): “N a minha opinião, seu procedimento mostra

grandes afinidades com a psicanálise. Também a psicanálise acostuma a de­ duzir a partir de rasgos pouco estimados ou não observados coisas secretas ou encobertas” (Freud, citado por Ginzburg, 1989:120).

A metáfora utilizada por Freud é eloqüente: isso que foi revalorizado por Morelli e depois pela psicanálise é apenas um resíduo ou detrito para a ciência oficial. Não é à toa que esse aspecto residual ou insignificante vai cons­ tituir a base do método de pesquisa psicanalítico e do método microsociológico goffmaniano. As célebres páginas sobre o

lapsus linguae

e sobre sua significação com respeito ao reprimido na

Psicopatologia da vida quotidiana

— cujo título pode bem ser lido como um eco dissimulado dentro do título do texto clássico de Goffman — parecem fornecer uma antecipação ou adiantamento, desde o cam­ po da psique, do material que o jovem candidato doutorai vai coletar nas Ilhas Shedand, para sua tese. Suas observações dos pequenos gestos automáticos, das sutis mudanças que esses camponeses exibem quando eles são vistos por estrangeiros, e quando eles estão somente entre as pessoas da ilha, sem dúvida teriam sido jogadas na lixeira metodológica por muitos de seus colegas. Até Goffman, ninguém tinha pensado em coletar esses materiais que Freud e More­ lli aquilataram, pelo simples motivo de que eles não tinham uma teoria sufici­ entemente desenvolvida com a qual ordená-los e analisá-los.

O capítulo XV de

Comtmtnication conduct in an island commtinity

, a tese

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