Antes de adentrarmos nas partes e no objeto da relação de consumo, será necessário, primeiro, entender do que se trata uma relação de consumo, levando em consideração que o Código de Defesa do Consumidor irá atuar e reger justamente tais relações consumeristas.
Contudo, como iremos observar no decorrer do estudo, o próprio Código de Defesa do Consumidor não apresenta de maneira explícita qual seria o conceito de relação de consumo, indicando apenas alguns dos seus elementos que formariam essa relação, quais sejam: seu sujeito e objeto.
Com relação ao sujeito como elemento da relação de consumo, leva em consideração o fato de que seja necessário que em um dos polos da relação esteja o fornecedor e, em contrapartida, do outro lado esteja a parte mais vulnerável da relação, o consumidor. Relativamente ao objeto, refere-se ao produto ou serviço prestado. Portanto, a relação de consumo estará relacionada diretamente com esses dois elementos, os sujeitos da relação e o objeto da relação consumerista.
Esses elementos da relação de consumo podem ser, ainda, entendidos como elementos subjetivos e elementos objetivos.
Considerando o que foi exposto acima, os elementos subjetivos seriam justamente as figuras do consumidor e do fornecedor, enquanto que os elementos objetivos seriam o produto ou serviço prestado.
Em outras palavras, para que estejam presentes os elementos subjetivos, é necessário que haja um consenso entre o fornecedor e o consumidor, na medida em que ambas as partes irão celebrar um acordo.
Da mesma forma, para que os elementos objetivos estejam presentes, há a necessidade de que determinado produto ou serviço esteja em causa a fim de que possa ser estipulado um negócio jurídico entre as partes envolvidas, sendo esse objeto ou serviço o objeto central para a formalização do vínculo jurídico.
Como foi possível perceber, não há necessariamente um conceito específico do que seja uma relação de consumo, mas a presença de elementos que assim o caracterizam. Por este motivo, para que determinada situação possa ser caracterizada como uma relação de
consumo, será necessário que os elementos aqui elencados estejam presentes, na medida em que a falta de qualquer um desses elementos irá descaracterizar a relação consumerista.
Apesar do Código de Defesa do Consumidor não trazer o conceito do que seria essa relação de consumo, ele traz em sua legislação o conceito de consumidor, consumidor este que pode ser o consumidor padrão ou o consumidor por equiparação.
É de suma importância a compreensão do conceito de consumidor sobretudo porque o âmbito de aplicação do Código de Defesa do Consumidor irá levar em consideração justamente a delimitação desse conceito. Assim, a correta delimitação do que venha a ser considerado consumidor permitirá que a relação jurídica de consumo se estabeleça de forma correta, bem como que possa ocorrer a devida aplicação do CDC em comento.
Como já mencionado, o Código de Defesa do Consumidor não adota tão somente um único conceito de consumidor. Há quatro tipos de consumidores possíveis que são previstos na legislação consumerista, todos os quatro integrados as situações nas quais determinada pessoa poderá usufruir da proteção oferecida pelo Código de Defesa do Consumidor.
Nessa perspectiva, o consumidor padrão está previsto no Art. 2º, caput do CDC, enquanto que o consumidor por equiparação apresenta-se no parágrafo único do referido artigo ora mencionado. Vejamos:
Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo. (BRASIL, 1990, grifo nosso)
Inclusive, sobre esse mesmo tema cumpre destacar que igualmente equiparam-se a consumidor todas as vítimas do evento, como prevê o Artigo 17.º e 29.º, respectivamente, do Código de Defesa do Consumidor.
Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento.
*
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas
EXPLICANDO MELHOR
Importante ressalvar que o tipo de consumidor previsto no parágrafo único do Artigo 2°, bem como os consumidores apresentados nos artigos acima transcritos, tratam-se de consumidores por equiparação e, por este motivo, são mais amplos e genéricos.
Inclusive, a respeito da possibilidade de o consumidor ser pessoa jurídica, já se manifestou o Superior Tribunal de Justiça relativamente ao tema, adotando a teoria finalista pela qual há a necessidade de comprovação da vulnerabilidade da pessoa jurídica para que esta possa se enquadrar no conceito de consumidor previsto no artigo acima supracitado. Sobre referido entendimento, temos o seguinte julgado:
CONSUMIDOR. DEFINIÇÃO. ALCANCE. TEORIA FINALISTA.
REGRA. MITIGAÇÃO. FINALISMO APROFUNDADO.
CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO. VULNERABILIDADE. 1. A jurisprudência do STJ se encontra consolidada no sentido de que a determinação da qualidade de consumidor deve, em regra, ser feita mediante aplicação da teoria finalista, que, numa
exegese restritiva do art. 2º do CDC, considera destinatário final tão somente o destinatário fático e econômico do bem ou serviço, seja ele pessoa física ou jurídica. 2. Pela teoria finalista, fica excluído da proteção do CDC o consumo intermediário, assim entendido como aquele cujo produto retorna para as cadeias de produção e distribuição, compondo o custo (e, portanto, o preço final) de um novo bem ou serviço. Vale dizer, só pode ser considerado consumidor, para fins de tutela pela Lei nº 8.078/90, aquele que exaure a função econômica do bem ou serviço, excluindo-o de forma definitiva do mercado de consumo. 3. A jurisprudência do STJ, tomando por base apresentar frente ao fornecedor alguma vulnerabilidade, que constitui o princípio-motor da política nacional das relações de consumo, premissa expressamente fixada no art. 4º, I, do CDC, que legitima toda a proteção conferida ao consumidor. 4. A doutrina tradicionalmente aponta a existência de três modalidades de vulnerabilidade: técnica (ausência de conhecimento específico acerca do produto ou serviço objeto de consumo), jurídica (falta de conhecimento jurídico, contábil ou econômico e de seus reflexos na relação de consumo) e fática (situações em que a insuficiência econômica, física ou até mesmo psicológica do consumidor o coloca em pé de desigualdade frente ao fornecedor). Mais recentemente, tem se incluído também a vulnerabilidade informacional (dados insuficientes sobre o produto ou serviço capazes de influenciar no processo decisório de compra). 5.
A despeito da identificação in abstracto dessas espécies de vulnerabilidade, a casuística poderá apresentar novas formas
de vulnerabilidade aptas a atrair a incidência do CDC à relação de consumo. Numa relação interempresarial, para além das hipóteses de vulnerabilidade já consagradas pela doutrina e pela jurisprudência, a relação de dependência de uma das partes frente à outra pode, conforme o caso, caracterizar uma vulnerabilidade legitimadora da aplicação da Lei nº 8.078/90, mitigando os rigores da teoria finalista e autorizando a equiparação da pessoa jurídica compradora à condição de consumidora. 6. Hipótese em que revendedora de veículos reclama indenização por danos materiais derivados de defeito em suas linhas telefônicas, tornando inócuo o investimento em anúncios publicitários, dada a impossibilidade de atender ligações de potenciais clientes. A contratação do serviço de telefonia não caracteriza relação de consumo tutelável pelo CDC, pois o referido serviço compõe a cadeia produtiva da empresa, sendo essencial à consecução do seu negócio.
Também não se verifica nenhuma vulnerabilidade apta a equipar a empresa à condição de consumidora frente à prestadora do serviço de telefonia. Ainda assim, mediante aplicação do direito à espécie, nos termos do art. 257 do RISTJ, fica mantida a condenação imposta a título de danos materiais, à luz dos arts. 186 e 927 do CC/02 e tendo em vista a conclusão das instâncias ordinárias quanto à existência de culpa da fornecedora pelo defeito apresentado nas linhas telefônicas e a relação direta deste defeito com os prejuízos suportados pela revendedora de veículos. 7. Recurso especial a que se nega provimento. (STJ, 2012)
A necessidade de que fique comprovado a vulnerabilidade coaduna com o que estabelece o próprio Art 5.º da Constituição Federal, ao prezar por um sistema mais protetivo ao consumidor, estando a vulnerabilidade de forma implícita nessa necessidade de proteção e que pode ser observado no Art. 4º, I, do CDC:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios: (Redação dada pela Lei nº 9.008, de 21.3.1995)
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo. (BRASIL, 1990)
Diante do exposto, é possível perceber que essa variedade, no que diz respeito ao conceito de consumidor, é uma forma de buscar proteger cada vez mais a parte que, comprovadamente, se mostre a mais vulnerável na relação de consumo. Inclusive, convém ressaltar que essa proteção ao consumidor não é observada apenas na fase contratual, mas, também, durante a fase pré-contratual e pós-contratual, como veremos mais detalhadamente em unidade própria. Vamos agora para uma breve análise acerca de outro elemento dessa relação de consumo:
o fornecedor.
Do fornecedor
Tratando agora do que pode ser considerado como fornecedor, o Código de Defesa do Consumidor apresenta referido conceito em seu Artigo 3°:
Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. (BRASIL, 1990)
É bem verdade que tal conceito não é tão amplo como o conceito de consumidor, fazendo com que não haja interpretações diversas sobre o conceito de fornecedor, dado sua delimitação suficientemente precisa no artigo acima mencionado.
Se pararmos para analisar com atenção, chegamos à conclusão de que o conceito de fornecedor busca abarcar todas as pessoas que, de alguma forma, forneçam algum tipo de oferta de determinado produto ou serviço no mercado de consumo. Assim, possuem uma maior abrangência, incluindo até os entes despersonalizados, por exemplo.
EXPLICANDO MELHOR
Quando falamos em entes despersonalizados, estamos nos referindo a uma coletividade de seres humanos ou de bens que não possuem personalidade jurídica própria.
Podemos citar como exemplos grupos de consórcio, grupos de convênio médico, massa insolvente (empresário individual), entre tantos outros.
Convém ressaltar o fato de que o conceito de fornecedor apresentado pelo Código de Defesa do Consumidor inclui, ainda, as pessoas jurídicas de direito público, nomeadamente quando da prestação de serviços públicos. Assim, quando o Estado, por exemplo, presta um serviço, de forma indireta ou direta, poderá ser configurado uma relação de consumo. A jurisprudência confirma tal entendimento:
AGRAVO DE INSTRUMENTO – Indenização por acidente sofrido em passarela por pedestre. Existência de relação de consumo entre a concessionária que presta o serviço e o pedestre. Não há regra exigindo que a contraprestação pelo serviço prestado seja feita pela própria pessoa que irá usufruí-lo. REGRA A SER CONSIDERADA QUANDO DA VALORAÇÃO DA PROVA, NÃO NO CURSO DO Processo. Inversão do ônus
da prova. HONORÁRIOS PERICIAIS. Artigo 33 do Código de Processo Civil. Devido pela parte que requereu a prova.
Recurso provido em parte. (TJSP, 2001)
O conceito de fornecedor atribuído pelo Código de Defesa do Consumidor buscou concentrar esse conceito levando em consideração a atividade de prestação, e não necessariamente a natureza desta. Dessa forma, não leva obrigatoriamente em consideração se é uma produtora, uma construtora, por exemplo, para configurá-la como fornecedora, mas, ao contrário, leva em consideração a atividade de prestação quando aos serviços. Assim, passa a ser fornecedor aqueles que estão envolvidos na produção, montagem, criação quando da prestação de algum tipo de serviço.
Por isso, pode haver aquele tipo de fornecedor que participa do processo de fabricação de determinado produto, como também pode existir um tipo de fornecedor que apenas coloca o produto no mercado, sem que necessariamente tenha participado desse processo de produção, por exemplo. Por isso vale a pena ficar atento a esses detalhes!