Introdução e objetivos da pesquisa
Ao estabelecer, neste projeto, como objetivo de pesquisa estudar as estruturas linguísticas que, no dizer do psicótico, permitem dizer o que seria propriamente um distúrbio da linguagem na psicose ou qual o modo do psicótico habitar a linguagem, respondo à necessidade de dar prosseguimento às pesquisas que venho desenvolvendo desde 2005.
Daquela época à pesquisa de mestrado207, minha atenção esteve voltada ao estudo do estatuto da “palavra nova” do psicótico e de sua especificidade nessa psicopatologia. Minha proposta, na verdade, foi a de não tomá-la como um neologismo, mas como um efeito neológico. Essa proposta se sustenta no fato de que a palavra nova do psicótico só é semanticamente opaca se a retirarmos do dizer delirante em que irrompeu. Quando a tomamos, como veremos abaixo, nas relações formais que estabelece com as demais palavras que a cercam e como uma construção que é perfeitamente coerente com o tema do delírio, percebemos que o insólito é efeito da diferença estrutural entre o dizer na psicose e o dizer dito normal ou, do ponto de vista psicanalítico, o dizer na neurose. O psicótico, diferentemente do neurótico, crê no poder das palavras. Dito de outro modo, ele dá primazia à reiteração linguística entre as palavras, não na relação delas com as coisas do mundo. A palavra de efeito neológico não pode circular no discurso ordinário porque só tem sentido no delírio em que irrompe; ela tem efeito neológico porque tem eficácia no delírio: ela organiza o material significante na formação delirante do psicótico segundo o tema de seu delírio e conforme a crença que ele tem na excepcionalidade de seu poder e de seu corpo. Isto é, a palavra de efeito neológico tem eficácia porque tem efeitos significativos na formação delirante: abriga a excepcionalidade do psicótico no mundo de tal modo que apazigua as perseguições que o fazem sofrer. É por isso que ela é uma peça importante na construção delirante.
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Período em que desenvolvi três projetos de pesquisa: dois de iniciação científica, financiados pelo CNPq (processo no: 109304/2005-5 – 2005-2007), e um de mestrado, financiado pela FAPESP (processo no: 07/52599-2 – 2007-2009).
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Essas elaborações retomam uma questão primeira, qual seja: que escuta emprestar à fala do psicótico?; questão essa que me levou à interrogação do que produz a opacidade do dizer psicótico. Ela surgiu quando, na graduação em Linguística, em 2005, me vi diante do impasse de transcrever as falas de uma paciente psicótica, em que buscava neologismos. Como decidir sobre algumas construções sintáticas e sobre a pontuação a ser imposta ao texto falado por um psicótico? Nessa decisão não estaria forjando dados, no caso neologismos? De fato, essa fala tanto me convocava enquanto sujeito falante como também exigia que eu lidasse com a angústia de ter que dar conta de sentidos que me escapavam e com a exclusão que ela comportava. Tudo o que eu sabia sobre a língua foi ponto em xeque.
O caminho tomado na época foi o de não destituir a fala do psicótico de seu estatuto de dizer e, além disso, assumir a tese psicanalítica de que existe uma diferença estrutural entre psicose e neurose. De um lado, essa assunção levou ao fato de que o efeito neológico deixa entrever que o psicótico habita a linguagem de um modo diferente do neurótico e que o delírio serve a ele como uma construção, um abrigo em que se situa no mundo com um ser poderoso. De outro lado, contudo, emerge a necessidade de apreender melhor e com mais consistência qual é esse modo específico ou particular do psicótico habitar a linguagem. Essa questão, certamente, se desdobra em outras, a saber: quais são os distúrbios na ordem da linguagem que expressam qual é a especificidade da estrutura psicótica e como a expressam? Afinal, o que é propriamente desviante na psicose? Responder a essas questões é o objetivo da pesquisa de doutoramento.
Sobre as estruturas clínicas e a estrutura psicótica
Cabe lembrar que na psicanálise, diferentemente da psiquiatria, as estruturas clínicas – neurose, psicose e perversão – não são desvios patológicos em relação a uma suposta normalidade, mas possibilidades de estruturação. “As estruturas dizem a proeminência do desejo sobre a norma social. O que regula as estruturas, o desejo, já é um desvio em relação à norma da necessidade208.” (Porge, 2006a, p.51) De que desejo
208 A noção de ‘necessidade’, grosso modo, se refere às funções biológicas vitais da espécie. Ver a nota
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se trata? Do desejo do Outro, tesouro dos significantes.209 Portanto, essas estruturas “não são localizáveis a não ser no campo da linguagem e em função da fala do sujeito”. (Ibid.)
Freud, a propósito, notou desde cedo que o psicótico fala justamente o que o neurótico esconde como um segredo. (cf. Freud, 1896, p.55 e 60; 1911, p.14; 1915, p.45) Isto é, notou que, na psicose, o inconsciente está a descoberto / à superfície / a céu aberto e que, na neurose, está recalcado. Em termos estruturais, na “loucura”, diz Julien (1999, p.17), “o sujeito está na linguagem mas ele não fala, se entendermos por isso a tentativa de se fazer reconhecer por e em sua própria língua”. Na estrutura neurótica, diferentemente, “graças ao retorno do recalcado, que são as formações do inconsciente, linguagem e fala se reencontram, se dialetizam, uma se movendo em função da outra.” (Ibid.)
Mas o que faz com que um homem passe à psicose? O que faz com que o chamado pré-psicótico, que se comporta como o homem moderno (preso em identificações puramente conformistas com personagens que lhe darão o sentido do que é preciso fazer para ser um homem ou uma mulher), caia na psicose? Um acontecimento suplementar que vem transgredir as regras e modelos até então admitidos e reconhecidos (Julien, 1999, p.20). Quando esse acontecimento, esse “encontro com o real” (Ibid.) se dá ocorrem, diz Julien, simultaneamente duas elisões. A primeira, no registro do imaginário, devido a uma impossibilidade de tomar a palavra, isto é, de passar do lugar do outro – apoio especular – ao Outro – apoio da fala – para fazer face ao acontecimento.210 Contudo, para que essa passagem ocorra é preciso que no Outro, lugar dos significantes, “sejam inscritos pelo sujeito os significantes fundamentais da existência humana, em particular o da paternidade: o Nome-do-Pai.” (Ibid., p.21; ênfase do autor) Na psicose, a relação imaginária entre o eu e o outro é fechada, o que impede a passagem à relação entre o Outro e o sujeito. Então a psicose advém, dado que os modelos não mais bastam para responder a questão do que é ser um homem ou uma mulher. A segunda elisão ocorre no simbólico: falta ao “sujeito” um significante de base para fazer face a um apelo vindo de uma autoridade dita paterna ou, nas palavras de Calligaris (1989, p.23), à
209 “O desejo, em Lacan, se define de fato e em primeiro lugar, epistemologicamente, em sua relação
intrínseca com a ordem biológica das necessidades e com a ordem linguajeira da demanda de amor. O homem deseja porque a satisfação de suas necessidades vitais passa pelo apelo dirigido a um Outro, o que de imediato altera a satisfação, transforma assim em demanda de amor.” (David-Ménard, 1996, p.120)
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Lacan, a propósito, alerta que uma análise pode desencadear uma psicose se o analista se tornar um emissor que faz o analisando ouvir o dia todo o que deve ou não fazer; porque tomar a palavra, diz ele, é o que se pode propor de mais árduo a um homem, e ao que seu ser no mundo não enfrenta tão frequentemente. (Lacan, 1955-56, p.285)
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injunção a se referir a uma instância paterna: a instância da Lei simbólica. Por causa dessa falta no simbólico, “o sujeito não pode responder: há elisão no simbólico” (Julien, 1999, p.24). Diz-se, com isso, que os significantes estão foracluídos. O significante fundamental no simbólico é o Nome-do-Pai.
Uma vez desencadeada a psicose, acrescenta Julien, ocorrem dois “tempos
sucessivos”, a saber: perplexidade e convicção. A perplexidade é caracterizada pelas palavras ou falas impostas e pelos sinais que são pessoalmente endereçados ao psicótico. Concerne, em suma, à ‘intrusão do significante’: “isso fala por si próprio, automaticamente, segundo uma sonoridade específica, com o sentimento que tem o sujeito de que isso diz respeito a si próprio, isso fala por ele.” (Ibid., p.27; ênfase do autor) A questão que aflige o psicótico é, nesse tempo, esta: “o que é que, ao me dizer isso, isso quer? Nada de resposta!” (Ibid.) O segundo tempo, o da convicção, é caracterizado por uma resposta ao enigma: o delírio. “O delírio dá significação às vozes, estando os significantes reduzidos à pura função de exprimi-las.” (Ibid.)
Julien assevera que a perplexidade e a convicção são desencadeadas pela
foraclusão. Elas, acrescenta, mostram como psicose e neurose têm estruturas
diferentes, visto que aquela não se origina do inconsciente como sede do recalcado e de seu retorno como na neurose (Ibid., p.29). Na psicose o que ocorre é uma abolição, uma elisão. “Lacan dirá: foraclusão, isto é, ausência de Bejahung [afirmação] incidindo sobre um significante e podendo permitir, em seguida, um recalque por Verneinung [negação].” (Ibid.) Isto é, o termo ‘foraclusão’ dá nome a uma exclusão primordial de um significante de base, o Nome-do-Pai, no processo de estruturação do infans em sujeito falante; exclusão que tem por efeito uma estrutura psicótica.
A propósito, cabe lembrar sucintamente o que se pode extrair de Die Verneinung de Freud (1925) para especificar o mecanismo específico da neurose e, por consequência, traçar uma diferença estrutural em relação ao que acontece na psicose. Freud, logo no início do texto, destaca a particularidade do modo como o paciente apresenta ao analista determinadas ideias que lhe assaltam ao longo da sessão: “Agora o sr. deve estar pensando que eu queria dizer algo ofensivo, mas realmente não é essa minha intenção.” (Op. cit., p.147) A negação do paciente é uma maneira dele, por projeção, repelir a ideia que acaba de aflorar em sua consciência. Disso resulta que o recalcado inconsciente pode penetrar na consciência desde que seja sob a forma negativa. Então, conclui Freud, a negação é uma forma de tomar conhecimento do recalcado em um plano apenas
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intelectual, deixando o essencial do recalque intocado (Ibid., p.148). “A atitude de condenar algo nada mais é do que um substituto intelectual do recalque e o “não” é sua marca, um certificado de origem, como se fosse um “made in Germany”.” (Ibid.) Grosso modo, o símbolo de negação desvela uma afirmação anterior (Bejahung): o sujeito, ou melhor, o eu só pode negar algo que entrou para o campo simbólico e se constituiu como uma realidade para ele. É o que afirma Aparicio: “A análise do mecanismo de defesa da Verneinung (negação) lança luz sobre o fato de que o recalcado inconsciente já pertence ao universo simbólico do sujeito: é pelo fato de que isso existe que isso pode aparecer sob a forma de negação no discurso.” (1984, p.91)
O mecanismo específico da neurose é, pois, o recalque, que, dentre outras formas de manifestar seus efeitos (seu retorno), se desvela na negação de uma representação que repentinamente aflora na consciência. O eu, que é a instância psíquica – denominada por Lacan como uma função de desconhecimento (1953-54, p.67): “esta série de defesas, de negações, de barragens, de inibições, de fantasias fundamentais que orientam e dirigem o sujeito.” (Ibid., p.27) – em que tem curso e lugar as defesas e resistências, se protege afastando essa representação da consciência. O sintoma é efeito da tentativa de sufocar e desalojar uma representação inconciliável e/ou reprovável da consciência, mas cujo logro não foi exitoso (cf. Freud, 1984, 1986). A essência do sintoma é que o recalcado conserva seus efeitos. Os distúrbios neuróticos, ou seja, as neuroses são, assim, consequências do processo do recalque (Verdrängung).
Se o conceito de Verdrängung está no centro da teoria das neuroses e responde sobre a origem dos sintomas neuróticos, ele, porém, encontra seu limite de aplicação no domínio das psicoses. E é a questão de saber por que o inconsciente está recalcado na neurose e à superfície na psicose ou de saber qual é o mecanismo, análogo ao recalcamento, que especifica a particularidade do desprendimento do eu do mundo exterior nos psicóticos, que ficou sem resposta em Freud (cf. Aparicio, 1984; Rabinovich, 2001; Fellahian, 2005). Isso, contudo, afirma Aparicio (1984, p.83), exigia a criação de um novo conceito, que é o de ‘foraclusão’, criado por Lacan em 1956.
A noção de ‘foraclusão’ responde à necessidade de especificar o mecanismo da psicose. Surge a partir da leitura que Lacan faz dos textos de Freud Die Verneinung
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(1925), o caso Schreber (1911) e o caso O homem dos lobos (1918).211 Resumidamente,
Lacan retira dessas leituras três termos que são tomados, por ele, como aqueles que fazem referência às negações constitutivas do sujeito, ou seja, que se referem às três estruturas clínicas. São eles: Verdrängung, recalque (neurose), Verleugnung, renegação212 (perversão), e Verwerfung, foraclusão (psicose)213. O neurótico nega o que existe. O perverso não o reconhece, embora não afirme que não exista. A atitude do psicótico é rejeitar radicalmente, como se o recusado jamais estivesse estado lá.
A partir disso tudo, Lacan relê a afirmação feita por Freud no caso Schreber de que não é correto “dizer que a sensação internamente suprimida é projetada para fora; vemos, isto sim, que aquilo internamente cancelado retorna a partir de fora.” (1911, p.95) Se, para Lacan, a questão não é tanto a de saber se o inconsciente na psicose está à superfície, mas por que aparece no real (1955-56, p.20); se “uma Verdrängung é algo diferente de uma Verwerfung” (Freud, 1918, p.107) e a alucinação não expressa um juízo sobre a existência de algo a ser negado, mas de algo que comparece como se jamais tivesse existido (Ibid., p.114); então, reformula Lacan: “o que é recusado na ordem simbólica, no sentido da Verwerfung, reaparece no real.” (1955-56, p.21).
Com isso, Lacan distingue a Verneinung da Verwerfung, entendendo-as como as negações constitutivas do ser humano, isto é, do ser como habitante da linguagem, portanto marcado pelo significante e destinado à morte. Cada uma delas determina retornos distintos. Assim, “a Verwerfung aponta então ao não simbolizado, ao que não foi deixado ser.” (Escars, 2005, p.125) O “fora” de Freud é tomado por Lacan como um fora da simbolização: uma abolição simbólica. O que na neurose retorna articulado no discurso sob a forma negativa e/ou sob a forma de um lapso, um chiste ou um esquecimento, entre outras formações do inconsciente que atropelam o eu do sujeito, desvela uma simbolização primeira que admitiu o que se atualiza na fala como uma negação. Na psicose, o que aparece na fala é estranho ao próprio psicótico por surgir no exterior: a aparição do foracluído no real pega o psicótico “absolutamente desarmado, incapaz de
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Para uma análise mais alentada do longo e complexo percurso que levou Lacan, a partir dessas leituras, a tomar o termo Verwerfung, em Freud sem carga conceitual, como um conceito na teoria psicanalítica, traduzindo-o por foraclusão (forclusion), ver Aparicio, 1984, e Rabinovich, 2001.
212 A Verleugnung é um “mecanismo de defesa frequente nas crianças, distinto do recalcamento, observado,
sobretudo, a partir das reações provocadas nelas pela descoberta da diferença anatômica dos sexos” (Aparicio, 1984, p.89). Na perversão, leva ao fetichismo. O fetichista é aquele que não reconhece ter percebido a ausência do pênis no corpo feminino: não afirma não tê-lo visto, mas cria um substituto. (Ibid.)
213 Que até a aula do dia 11/01/1956 fora traduzido por retranchement – amputação ou cerceamento – e rejet
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fazer dar certo a Verneingung com relação ao acontecimento. O que se produz então tem o caráter de ser absolutamente excluído do compromisso simbolizante da neurose” (Lacan, 1955-56, p.104). A linguagem se desvela ao psicótico em sua face real e invasora, isto é, em sua dimensão de voz de um outro/terceiro que fala algo para ele e dele, produzindo nele, nos termos de Lacan, uma dolorosa “perplexidade concernente ao significante” (Ibid., p.219).
Contudo, se, de um lado, não é difícil dizer quais são os distúrbios da linguagem típicos à neurose em relação ao recalque, ou seja, observar na fala dos neuróticos manifestações das formações do inconsciente, de outro, o mesmo não acontece com a psicose em relação à foraclusão. Como relacionar o delírio, enquanto fato de linguagem, com o que na teoria psicanalítica é tomado como a estrutura psicótica com relação à foraclusão? Ou ainda, que estruturas atualizadas sob a forma de distúrbios na ordem da linguagem na psicose exprimem o retorno do foracluído de tal modo que manifestem o próprio dessa psicopatologia?
Sobre o distúrbio da linguagem e o procedimento linguístico
Na primeira lição do seminário as psicoses, Lacan marca a distância da obra freudiana relativamente à Psicologia. Se, diz ele em clara referência à psicologia científica, o psicológico é o etológico, isto é, “o conjunto dos comportamentos do indivíduo, biologicamente falando, nas suas relações com seu meio natural”, então a Psicanálise não é psicogênese (Lacan, 1955-56, p.16).
Ao fazer essa afirmação, Lacan, essencialmente, se contrapõe às teses da psiquiatria francesa, sobretudo a representada por Henri Ey, a quem dirige uma crítica radical no Colóquio de Bonneval de 1946. Se Ey acerta em recusar tomar a alucinação como uma sensação anormal e um objeto localizado no cérebro, erra ao localizar nele o fenômeno da crença delirante. Ora, se a crença pode enganar o mais alto pensamento sem vacilar, ela não é um déficit (cf. Palem, 1999, p.9). Para Lacan, quando se trata de psicologia humana é preciso ir mais além:
Da psicologia humana, é preciso dizer o que dizia Voltaire da história natural, a saber: que ela não é tão natural assim, e, em resumo, que ela é o que há de mais antinatural. Tudo o que, no comportamento humano, é da ordem psicológica está submetido a anomalias tão profundas, apresenta a todo instante paradoxos tão evidentes, que surge o problema de saber o que é preciso nela introduzir para que a gata encontre seus filhotes. (Lacan, 1955-56, p.16)
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O diálogo que Lacan estabelece com a Linguística, a Antropologia e, entre outras disciplinas científicas, com a Filosofia e as Artes visa introduzir o humano no campo que o define como tal: a linguagem. Segundo Melman, o reconhecimento de que o humano está alienado à linguagem, essa “estrutura cujas propriedades e fisiologia sobrepõem suas leis e sua topologia à mecânica do organismo e a desnaturam em uma psique” (2009, p.19), faz com que Lacan ultrapasse a querela, a seu ver, estéril entre partidários da organogênese e da psicogênese. Não há, para Lacan, separação entre sujeito e linguagem. O sujeito, pelo contrário, é efeito de linguagem. Ou ainda, a linguagem é causa de haver sujeito: “Eu insisto – a ordem simbólica deve ser concebida como alguma coisa de superposto, e sem o que não haveria vida animal possível para esse sujeito estrambótico que é o homem.” (Lacan, 1955-56, p.114)
Com isso, a noção de ‘distúrbio de linguagem’ deixa de significar um déficit no sujeito e/ou seu cérebro que afeta a linguagem para significar que o sujeito está na linguagem de uma forma perturbada. Ou melhor, que a linguagem está de uma forma perturbada para o sujeito, pois, como assinala Viltard (1993, p.33), as perturbações da linguagem na psicose se produzem à revelia do doente e de forma invasiva. Nesse sentido, é mais correto falar em distúrbio da, e não de, linguagem. Nas neuroses, essa relação se manifesta nas chamadas formações do inconsciente, que deixam ver um debate do eu do sujeito com um dado significante recalcado. Porém, e na psicose? Qual é o modo do psicótico habitar a linguagem?
A propósito, segue-se uma afirmação de Lacan que, de um só golpe, desqualifica o critério da perda da realidade para diagnosticar uma psicose, como também, e isto é importante, estabelece que o diagnóstico de psicose só deve ser dado se houver distúrbios da linguagem:
Eu deixei minhas ocupações aqui na última sexta-feira para ver uma paciente que evidentemente tem um comportamento difícil, conflituoso com o seu meio. Faziam-me vir em suma para dizer que era uma psicose, e não, como parecia à primeira vista, uma neurose obsessiva. Eu me recusei a dar o diagnóstico de psicose por uma razão decisiva, é que não havia nenhuma dessas perturbações que constituem o objeto de nosso estudo este ano, e que são os distúrbios na ordem da linguagem. Devemos exigir, antes de dar o diagnóstico de psicose, a presença desses distúrbios.
(Lacan, 1955-56, p.109-10; ênfases minhas)
Diante tudo isso, o que Lacan está chamando de “distúrbios de/da linguagem”, uma vez que seriam eles necessários para que se esteja na psicose? Estaria ele sugerindo que as formações do inconsciente, tão presentes na neurose, não qualificariam distúrbios