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ALGUNS ELEMENTOS DO PENSAMENTO ESPINOSANO

4.2 SOBRE POTÊNCIA DE AGIR

“Toda a Ética se apresenta como uma teoria da potência em oposição à moral como teoria de deveres” (Deleuze, 2002:110).

Em Espinosa, todo ser esforça-se ao máximo por persistir na existência (EIII, prop 6 e 7), esforço esse que é denominado conatus e coincide com a potência de agir do ser. Potência esta que se relaciona diretamente com as variações do ânimo em função dos afetos gerados pelo encontro com outros corpos. Assim, pode-se dizer que a potência de agir humana é da

´afeto` é um conjunto composto, pelo que, atualmente, denomina-se por motivação, pulsão, emoção ou sentimento.

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ordem do encontro, pois se relaciona com as infinitas possibilidades de composição entre os afetos nos encontros ativos (ações) e passivos (paixões), ou seja, relaciona-se com a nossa capacidade de afetar e de ser afetado (EIII, prop 59, esc).

Ferreira (1997:474) aponta que a “capacidade de sermos afetados e o modo como o somos são determinantes para a constituição dos valores éticos, pois o que faz a coisa boa ou má é o afeto de que deriva”.

“(...) não desejamos uma coisa por julgá-la boa, mas, ao contrário, dizemos que é boa porque a desejamos. E, consequentemente dizemos que é má a coisa que abominamos. Por isso, cada um julga ou avalia, de acordo com seu afeto, o que é bom ou mau, o que é melhor ou pior e, finalmente o que é ótimo ou péssimo. Assim, o avaro julga que o ótimo é a abundância de dinheiro e o pior, a sua falta. O ambicioso, por sua vez, nada deseja tanto quanto a glória e nada teme tanto quanto a vergonha. Ao invejoso, enfim, nada é tão agradável quanto a infelicidade de um outro e nada tão desagradável quanto a felicidade alheia. E assim, cada um, de acordo com o seu afeto julga uma coisa boa ou má, útil ou inútil. (...)” (EIII, prop 39, esc).

Desse modo, em Espinosa, nada é bom ou mau a priori, pois “nenhuma ação, considerada só em si mesma, é boa ou má” (EIV, prop 59, dem alternativa), pois “(...) Uma única e mesma coisa pode ser boa e má ao mesmo tempo e ainda indiferente. Por exemplo, a música é boa para o melancólico; má para o aflito; nem boa, nem má para o surdo” (EIV, pref).

O bem é compreendido por “aquilo que sabemos, com certeza, nos ser útil (EIV, def 1), (…) aquilo que aplaca uma satisfação, qualquer que ela seja” (EIII, prop 39, esc). E o mal, como “aquilo que sabemos, com certeza, nos impedir que desfrutemos de algum bem (EIV, def 2), (…) todo gênero de tristeza e, especialmente, aquilo que agrava uma frustração” (EIII, prop 39, esc).

Portanto, as noções de bem e mal referem-se à noção de utilidade. O bom, o útil, é o que nos alegra e, portanto, incrementa nossa potência de ação, enquanto o mau é aquilo que nos entristece, que diminui nossa potência de agir, não nos sendo, portanto, útil. Todavia, essa utilidade não pode estar agarrada aos sentidos de egoísmo, individualismo e utilitarismo, mas

ao sentido que envolve a conservação do corpo e da mente(Oliveira, 2002). Dessa forma, o

bem e o mal são destituídos de moralidade, correspondendo respectivamente aos afetos de alegria e tristeza à medida que estamos deles conscientes (EIV, prop 8).

“É útil ao homem aquilo de que dispõe o seu corpo a poder ser afetado de muitas maneiras, ou o que o torna capaz de afetar de muitas maneiras corpos exteriores; e é tanto mais útil quanto mais torna o corpo humano capaz de ser afetado e de afetar

outros corpos de muitas maneiras. E, inversamente, é nocivo aquilo que torna o corpo menos capaz disso.” (EIV,prop 38).

Vale colocar que para o filósofo o inútil é aquilo que me é indiferente, que não me afeta em nada, não gera nem alegria e nem tristeza.

Espinosa reconhece três afetos básicos (EIII, def 4 dos afetos, expl), dos quais todos os outros derivam: desejo, alegria e tristeza. Por desejo, entende-se a própria essência do ser humano (EIII, def 1 dos afetos), é o que nos move, é o esforço consciente que o corpo e a mente realizam conjuntamente para preservar sua existência.

“Esse esforço, à medida que está referido apenas à mente, chama-se vontade; mas à medida que está referido simultaneamente à mente e ao corpo chama-se apetite, o qual, portanto, nada mais é do que a própria essência do homem, de cuja natureza necessariamente se seguem aquelas coisas que servem para sua conservação, e as quais o homem está, assim, determinado a realizar. Além disso, entre apetite e desejo não há nenhuma diferença, excetuando-se que, comumente, refere-se o desejo aos homens à medida que estão conscientes de seu apetite. Pode-se fornecer, assim, a seguinte definição: o desejo é o apetite juntamente com a consciência que dele se tem (...)” (EIII, prop 9, esc).

“A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior” (EIII, def 2 dos afetos) e “A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor” (EIII, def 3 dos afetos)

Neste ponto, cabe abordarmos o que o filósofo compreende por ideia, por graus de perfeição e suas consequências sobre o aumento e/ou diminuição da potência humana. Para tanto, acompanharemos o raciocínio de Deleuze (2009).

Em Espinosa, um dos significados de “ideia” é o de que esta é um tipo de pensamento que representa algo: a ideia de copo representa um copo em geral, não um copo específico, assim como a ideia de mesa representa uma mesa, a ideia de gato representa um gato etc., portanto é um modo representativo de pensamento. Já os afetos, são ideias que não representam nada, por exemplo, se temos um medo, uma esperança ou um amor, essas ideias, do ponto de vista de sua realidade objetiva, não representam nada. O que há é uma ideia da coisa que provoca o medo, ideia da coisa que gera a esperança ou a ideia da coisa amada. Os afetos são, portanto, ideias não representativas. Quando se ama, se ama alguma coisa e aquilo que se ama está representado na ideia da coisa amada, mas o amor em si é um sentimento e não uma representação, portanto, é um modo de pensamento não representativo.

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Assim, ideia e afeto são duas formas de pensar diferentes por sua natureza, irredutíveis uma à outra, mas que estão em um tipo de relação em que o afeto pressupõe a ideia (Deleuze, 2009).

Do ponto de vista da realidade formal da ideia, a ideia é algo em si mesma, pois é um modo do pensamento. E, como nos afirma Espinosa, sempre é possível formar uma ideia de algo, como, de um retângulo, por exemplo. Se a ideia é algo em si mesma é possível formar a

ideia da ideia. A ideia da ideia de retângulo9.

A realidade formal da ideia é o que Espinosa chama de graus de perfeição ou de

realidade10 que a ideia contém. Desta forma, o grau de perfeição ou realidade de cada ideia

está vinculado ao objeto que representa, sendo essa sua verdade intrínseca/interna. A ideia, do ponto de vista formal, não se confunde com o objeto da ideia, ou seja, com o que ela representa (realidade objetiva). Toda ideia é algo em si, não apenas é ideia de algo, ou seja, tem um grau de realidade ou de perfeição que lhe é próprio. A ideia de uma coisa infinita, por exemplo, Deus/Natureza, tem uma realidade formal ou grau de perfeição maior que a ideia de uma coisa finita e singular, como um cão, por exemplo, pois quanto mais complexo o objeto, maior o grau de perfeição ou realidade da ideia.

Em nossas vidas, as ideias se sucedem e/ou coexistem umas com as outras todo o tempo. Por exemplo, se uma pessoa está sentada no banco de uma praça a contemplar os pássaros e, em determinado momento, vira-se para outro lado para proteger-se do sol ela passa a ter outra ideia, pois, agora que se virou, não vê mais os pássaros, mas sim um chafariz – que é uma ideia diferente.

Assim como nossas ideias, nossas emoções/sentimentos/afetos variam constantemente, por exemplo, suponhamos que eu tenha medo de cães – se estou a andar pela rua e, bem em frente ao café onde marquei um encontro com um amigo aparece um cão a passear sozinho e este aproximasse de mim, sinto medo; mas, se o cão passa e, ao olhar para o café, vejo meu amigo tranquilizo-me e sinto-me alegre – experimento nesse momento outro tipo de afeto/sentimento. Nesse exemplo, foram vivenciadas diferentes emoções/sentimentos que se

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Cabe colocar que a ideia também possui um aspecto expressivo, que se relaciona com o conhecimento intuitivo. De acordo com Ezcurdia (2011:27): “A passagem da substância ao atributo pensante, e deste às leis da natureza e aos modos finitos de dito atributo, ordena-se numa relação imediata pelo qual a substância mesma identifica-se com (…) a própria ideia que aparece como seu âmbito expressivo e domínio de sua determinação”. contudo, neste texto nos restringuiremos a citar sua existência.

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sucederam. Houve aqui uma variação do meu conatus, da minha força de existir, da minha potência de agir. E, ao longo de nossas vidas, essas variações acontecem continuamente.

Em Espinosa, os sentimentos são um tipo particular de ideia ou ideias não representativas, podemos dizer que à medida que as ideias se sucedem em nós, cada uma tendo seu grau de perfeição, seu grau de realidade ou de perfeição intrínseca, aquele que tem essas ideias não cessa de passar de um grau de perfeição a outro (aumento ou diminuição). Essa variação ocorre simultaneamente nos afetos/sentimentos e nas ideias representativas. Voltando ao exemplo anterior: quando, na porta do café, vejo o cão a passear sozinho (tenho a ideia de cão) sinto medo, um tipo de tristeza – houve aqui uma diminuição da minha potência –, mas quando o cão passa, e vejo meu amigo (tenho a ideia do meu amigo) sinto alegria – aqui minha potência é aumentada. Conforme uma ideia sucede a outra, passa-se de um grau de perfeição ou de realidade a outro, essa variação contínua da força de existir ou potência de agir é determinada pelas ideias que se tem.

Desse modo, a nossa potência de agir pode ser aumentada ou diminuída de acordo com os encontros que temos com outras pessoas, com animais, com vegetais, com minerais… Se o encontro gera alegria, a potência é aumentada; no caso de o encontro gerar tristezas, a potência é diminuída. E o que gera alegria ou tristeza é a forma como nos relacionamos com as coisas. No exemplo anterior, se eu previamente não tivesse fobia de cães, não teria sentido medo (um tipo de tristeza) antes de encontrar meu amigo no café. E o modo como nos relacionamos com as coisas é idiossincrático e construído ao longo de nossas vidas.

O aumento ou diminuição de nossa potência de agir ou força de existirrelaciona-se

com a nossa capacidade de afetar e de seremos afetados pelo que está a nossa volta, isso é, como a nossa capacidade de influenciar e sermos influenciados. Como vimos anteriormente, isso pode acontecer de forma a gerar alegrias ou tristezas – o cão me afetou, diminuindo minha potência, gerando em mim tristeza, ao passo que meu amigo no café afetou-me de alegria, aumentando minha potência.

Tendo entendido, de modo geral, a relação da nossa potência de agir com os nossos afetos/sentimentos, podemos passar adiante. De acordo com Espinosa, podemos aumentar nossa potência na medida em que compreendemos a causa dos nossos afetos. Ou seja, ao percebermos o porquê temos determinado sentimento por uma coisa/pessoa/animal/etc. o próprio ato de compreender nos alegra e nos coloca em situação diferente em relação àquela coisa/pessoa/animal/etc. O que significa dizer que passamos a ter uma outra ideia e, portanto, um outro sentimento em relação àquela coisa/pessoa/animal/etc. Uma vez que este

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entendimento gera alegria, por menor que seja, promove em nós a passagem de um grau de realidade/perfeição menor para um maior, aumenta nossa força de existir ou potência de agir.

Tudo o que foi dito até agora sobre as ideias e sentimentos que provocam continuamente o aumento ou a diminuição de nossa força de existir ou potência de agir acontece sempre na relação com o outro – tive medo porque vi o cão, senti alegria quando encontrei meu amigo no café.