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1. O ensino da leitura nas concepções do Estado: na prática, a teoria é outra?

1.1 Sobre o Programa São Paulo Faz Escola (SEE-SP)

Na tentativa de desenvolver as habilidades de leitura dos educandos, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo elabora uma série de documentos dirigidos aos professores e gestores de toda a rede escolar. No que diz respeito aos conteúdos e objetivos a serem desenvolvidos pela escola, era disponibilizada, até meados de 2007, a

Proposta Curricular, que propunha aos responsáveis pela educação estadual conteúdos

a serem trabalhados em cada ano (série).

Em agosto de 2007, o governo do Estado de São Paulo criou o Programa São Paulo Faz Escola, cujo foco é a implantação de um único currículo pedagógico a todas as escolas da rede estadual. O Programa envolve o Ciclo II do Ensino Fundamental e o Ensino Médio3. Tal medida não apenas prevê uma educação de base comum a todos os

educandos da rede, como também evita o grande prejuízo corrente, até então, aos alunos que precisavam mudar de escola, os quais muitas vezes deixavam de aprender determinado conteúdo ou reviam conteúdos já aprendidos na instituição de ensino anterior.

O Currículo (2011) se completa com um conjunto de materiais didáticos, dirigidos especialmente a gestores, professores e alunos, que consideram exatamente as habilidades, as competências, os objetivos e os conteúdos exigidos para cada disciplina. Esses materiais - os Cadernos do Gestor (2009), Cadernos do Professor (2013) e

Cadernos do Aluno (2013) - são organizados por área, disciplina, ano e bimestre.

Os Cadernos do Gestor têm por objetivo principal subsidiar a ação dos gestores. São quatro4 volumes que, em geral, priorizam: 1) os procedimentos para a construção da Proposta Pedagógica da escola, com ênfase na implantação da Proposta Curricular e na organização dos processos de avaliação; 2) a análise e elaboração de planos de aula (aqueles que fazem parte do material do professor); e 3) a adequação da Proposta Pedagógica para a identidade de cada escola em particular.

Já os Cadernos do Professor e os do Aluno são os materiais didáticos5 utilizados

em sala de aula. Trata-se de materiais bimestrais, distribuídos, por sua vez, em quatro

3 Concomitantemente, foi criado o Programa Ler e Escrever, destinado ao Ensino Fundamental I. Do mesmo modo, o objetivo é implantar uma base curricular comum ao ensino.

4 Há, também, edições especiais. Em 2010, por exemplo, foi distribuída uma edição sobre o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP).

5 Preferimos utilizar, neste trabalho, o termo “material didático” ou “material” referindo-nos ao Caderno do Professor e/ou Caderno do Aluno, a fim de evitar equívoco com relação ao livro didático distribuído

volumes, sob o título Caderno do Aluno, para cada aluno de todo ano escolar. Na mesma lógica, cada professor recebe quatro volumes, intitulados Caderno do Professor, por ano em que leciona. Os materiais são divididos em quatro grandes áreas (Ciências da Natureza; Ciências Humanas; Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; e Matemática), cada qual engloba as disciplinas específicas do campo, todas em consonância com os conteúdos e objetivos propostos pelo Currículo. A disciplina de Língua Portuguesa faz parte da área denominada “Linguagens, Códigos e suas Tecnologias”.

O Caderno do Aluno traz atividades de leitura, análise de textos, análise linguística, análise de gêneros e estudo de tipologias. Abarca ainda atividades de “Lição de casa” e dicas de estudo. Ao passo que o Caderno do Professor serve para auxiliar o trabalho do docente no ensino dos conteúdos disciplinares específicos e na aprendizagem dos alunos. Esses conteúdos, habilidades e competências são acompanhados de orientações para a gestão da aprendizagem em sala de aula. O material oferece sugestões de métodos, estratégias de trabalho para as aulas e avaliação. Cada volume inicia com uma orientação sobre os conteúdos contemplados, especificando seus conteúdos gerais bem como os que serão desenvolvidos a longo prazo.

Todo volume é dividido em unidades, chamadas de Situação de Aprendizagem. No caso do material elaborado para o ensino de língua materna, cada volume consta de, em média, cinco Situações. No material do 6.º ano - nosso corpus de análise - há vinte Situações de Aprendizagem, distribuídas conforme mostra a tabela abaixo:

Quadro 5 – Quantidade de volumes e Situações de Aprendizagem

Número do Volume Quantidade de Situações de Aprendizagem

Volume 1 (primeiro bimestre) 06

Volume 2 (segundo bimestre) 05

Volume 3 (terceiro bimestre) 05

Volume 4 (quarto bimestre) 04

Total de 4 volumes Total de 20 Situações de Aprendizagem

Fonte: Dados da pesquisa, 2014.

pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Nas escolas, é também chamado de “caderninho”, “apostila” ou “material do Currículo”.

As Situações de Aprendizagem trazem o objetivo geral, o tempo previsto para sua realização em número de aulas, conteúdos e temas, competências e habilidades, estratégias, recursos e avaliação e o roteiro para aplicação da Situação (passo a passo). Das 20 Situações de Aprendizagem presentes no material do 6.º ano, 15 contêm um item denominado “estudo da língua”.

Ao final dos volumes 2, 3 e 4, há considerações sobre expectativas de aprendizagem e grade de avaliação. Da mesma maneira, ao final de todos os volumes, há uma proposta de questões para aplicação em avaliação, uma proposta de situações de recuperação e recursos para ampliar a perspectiva do professor e do aluno para a compreensão do tema (inclusive contendo sugestões de referenciais que subsidiam a prática docente).

Para organizar esse material, a Secretaria Estadual da Educação convidou uma professora doutora aposentada na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), que, por sua vez, formou uma equipe responsável por toda preparação. Um desses elaboradores, que foi por nós entrevistados, tem bacharelado em Linguística e Português pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), licenciatura em Português pela FE-USP, especialização em Psicopedagogia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e mestrado e doutorado em Educação pela FE-USP, ambos com ênfase em produção de textos. Os autores do material fizeram reuniões diárias com a professora responsável e também participaram de encontros com o pessoal da Secretaria, que dava as orientações e parâmetros bases que deveriam ser considerados.

Nesta pesquisa, nossa análise documental contemplou os oito Cadernos destinados ao 6.º ano para a disciplina de Língua Portuguesa bem como as páginas do Currículo de “Linguagens, Códigos e suas Tecnologias” que abarcam a mesma disciplina. Portanto, quando mencionamos o material “Linguagem, Códigos e suas Tecnologias: língua portuguesa”, referimo-nos ao conjunto de materiais elaborado pelo Programa São Paulo Faz Escola para a disciplina de língua materna. Tal análise compreendeu, em primeiro lugar, as concepções de linguagem e texto em que o material se fundamenta, para, então, adentrarmos na especificidade da leitura e de estratégias de leitura, sequência essa que se inicia no próximo item deste capítulo.