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A análise proposta segue seu rumo com o pensamento de Enrique Dussel,

que em sua obra 20 Teses da Política realiza uma análise próxima às preocupações

desenvolvidas por Hannah Arendt em sua obra Da Revolução, conforme tratado no

ponto Sobre Revoluções (1.2.), mas o autor concentra-se na realidade dos

chamados países periféricos, de democracias recentes pós-regimes militares autoritários, em especial nos casos da América Latina e África. Nosso objetivo busca

o detalhamento – a partir da dinâmica apresentada anteriormente de um devir

cooperativo dos movimentos sociais e populares – da estruturação de

transformações da dinâmica de tais países em termos políticos, jurídicos e sociais

desde uma perspectiva de incremento da participação popular.

Dussel assenta sua análise a respeito da concepção política de Estados na

ideia do poder político da comunidade, que poderia ser denominado de potentia, ou

seja, como a motivação dos membros da comunidade em busca de um poder que

lhes assegure a produção, reprodução e desenvolvimento da vida147. Aí reside uma

determinação material da política148. Essa ação deve estar esclarecida em um

147

Ver nota de rodapé n. 132. 148

“Neste sentido, quanto ao conteúdo e à motivação do poder, a „vontade-de-vida‟ dos membros da comunidade, ou do povo, já é a determinação material fundamental da definição de poder político. Isto é, a política é uma atividade que organiza e promove a produção, reprodução e aumento da vida de seus membros. E, enquanto tal, poderia denominar-se „vontade geral‟ – em um sentido mais radical e preciso que o de J. J. Rousseau.” DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 26.

consenso149, que não pode ser fruto de atos de dominação ou violência. Uma preocupação também presente para Hannah Arendt ao trabalhar seu conceito de solidariedade e de fundação de um corpo político, como visto acima (1.2.). Então,

potentia diz respeito

[…] ao poder que tem a comunidade como uma faculdade ou capacidade que é inerente a um povo enquanto última instância da soberania, da autoridade, da governabilidade, do político. Este poder como potentia, que como uma rede se desdobra por todo o campo político sendo cada ator político um nodo […], desenvolve-se em diversos níveis e esferas, constituindo assim, a essência e fundamento de todoo político. Poderíamos dizer que o político é o desenvolvimento do poder político em todos seus momentos.150

Já o poder delegado pelo povo, como forma de organizar a potentia, seria

um momento de institucionalização, o poder político enquanto potestas. O exercício

do poder da comunidade se dá, então, pela delegação de poder a determinados representantes. O exercício do poder é sempre institucional, “[…] porque o poder da

comunidade como potentia em-si não é um momento empírico inicial no tempo, mas

sim um momento fundamental que permanece sempre em ato sob as instituições e

ações(sob a potestas).”151

É justamente aí que reside uma grande ambiguidade, pois as instituições desgastam-se com o tempo, os representantes populares passam a agir conforme

interesses particulares, esquecendo-se de um compromisso obediencial152 em

149

Para Dussel, “o consenso deve ser um acordo de todos os participantes, como sujeitos livres, autônomos, racionais, com igual capacidade de intervenção retórica, para que a solidez da união das vontades tenha consistência para resistir aos ataques e criar as instituições que lhe deem permanência e governabilidade.” DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 27.

150

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 29.

151

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 33.

152

Como nos esclarece Dussel, “o poder da comunidade (potentia) dá-se nas instituições políticas (potestas) que são exercidas delegadamente por representantes eleitos para cumprir com as exigências da vida plena dos cidadãos, com as exigências do sistema de legitimidade, dentro do estrategicamente factível. Ao representante é atribuída uma certa autoridade (porque a sede da

auctoritas não é o governo, mas sempre em última instância a comunidade política […]) para que cumpra mais satisfatoriamente em nome do todo (da comunidade) os encargos de seu ofício; não atua desde si como fonte de soberania e autoridade última, mas sim como delegado, e quanto a seus objetivos deverá trabalhar sempre em favor da comunidade, escutando suas exigências e reclamações. ‘Escutar aquele que se coloca diante’, ou seja: obediência é a posição subjetiva primordial que deve possuir o representante, o governante, que cumpre alguma função de uma instituição política.” (grifo nosso) DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 39-40.

relação à potentia. Há uma burocratização excessiva da vida dos indivíduos e o

exercício do poder torna-se fetichizado153. A representação, ao se corromper diante

do poder delegado, torna-se descompromissada com a comunidade política e passa

a ser um poder de opressão e controle. O poder da comunidade política perde força

e passa a ser ameaçado pela potestas.

Muitas vezes, a quebra de um corpo político corrompido, se torna a única solução de resgate de uma luta pela criação, reprodução e melhora da vida de uma comunidade. Tal momento, entretanto, tende sempre a ser traumático, como é o

caso das revoluções. Justamente porque esta quebra revolucionária assume uma

postura radical de eliminação de uma realidade descomprometida com a vontade inicial do povo, reivindicando e executando o fim de instituições corruptas, afastamento de representantes que agem em nome de interesses particulares, bem como tantas outras medidas que objetivem finalizar o poder (que veio a ser) autoritário e corrupto.

Assim, para Dussel, quando os atores sociais tomam consciência do não cumprimento de suas reivindicações, do afastamento do poder institucional diante da

questão social, estabelece-se, então, uma crise, um problema de legitimidade, a ser solucionado, inclusive e primordialmente, no âmbito da política, como tomada de posição e assunção de responsabilidade pelo povo diante de sua vida (ao contrário

de Arendt, para quem a solução da questão social não se daria diretamente pela via

da política154).

É justamente a pobreza que impossibilita a concretização (enquanto um

processo sempre inacabado, mas que por isso mesmo se mantém) da liberdade,

esta entendida como participação livre no espaço público, na tomada coletiva de

decisões. Portanto, o problema social, resultante de uma teia de questões

envolvidas – por exemplo, a falta de acesso a bens materiais básicos (alimentos, moradia), à educação, à justiça, à exclusão constante e sistemática de uma rede de

direitos fundamentais – é também sintoma de um enfraquecimento, ou mesmo da

153

Ver nota de rodapé n. 121.

154 “Nenhuma revolução jamais resolveu a „questão social‟, libertando os homens do estado de necessidade (...). E embora todos os registros das revoluções passadas demonstrem, sem sombra de dúvida, que todas as tentativas para resolver a questão social com meios políticos levaram ao terror, e que é o terror que condena as revoluções à perdição, dificilmente pode-se negar que é quase impossível evitar esse equívoco fatal, quando uma revolução irrompe sob as circunstâncias de pobreza do povo.” ARENDT, Hannah. Da Revolução. Tradução de Fernando Dídimo Vieira. Brasília: Editora UNB; Editora Ática, 1988. p. 88-89.

ausência absoluta, da participação popular no que já apresentamos como potestas

(o poder de um povo, institucionalizado e delegado a certos indivíduos). A liberdade,

então, é por nós apreendida enquanto um requisito para fundação da potestas. “Esta

faculdade (e direito) [liberdade] permite ao cidadão operar com autonomia e sem ataduras, escolhendo o melhor. Entretanto [...] a pobreza, por exemplo, impede os cidadãos necessitados („o problema social‟) de operar livremente, porque não têm possibilidade objetiva de intervir na vida pública, acossados que são pela vulnerabilidade cotidiana.”155

A política não promotora de uma discussão sobre a

factibilidade das ações sociais de um governo, comprometidas com o povo, e de suas instituições está fadada a excluir sempre mais indivíduos do corpo político, enfraquecendo qualquer sistema democrático.

A política deve estar dotada de materialidade em suas discussões, o que implica dizer que todas as normas, as ações, de todas as organizações e instituições

enquanto atuantes de um poder obediencial, devem ser pautadas pela

[…] Produção, reprodução e aumento da vida dos cidadãos da comunidade política, em última instância de toda a humanidade, sendo responsáveis também desses objetivos no médio e longo prazo […]. Desta maneira, a ação política e as instituições poderão ter pretensão política de verdade prática, na sub-esfera ecológica (de manutenção e acréscimo da vida em geral do planeta, em especial com respeito às gerações futuras), na sub-esfera econômica (de permanência e desenvolvimento da produção, distribuição e intercâmbio de bens materiais) e na sub-esfera cultural (de conservação da identidade e crescimento dos conteúdos linguísticos, valorativos, estéticos, religiosos, teóricos e práticos das tradições culturais correspondentes).156

Toda essa discussão deve partir do povo, enquanto ator coletivo político, que

constrói o poder de baixo, como no exemplo da Revolução Haitiana (1.2.1). Ator que é alvo de diversas exclusões, nos mais diferentes campos (social, econômico, político, cultural, jurídico), mas que detém em si a “[…] vontade-de-viver contra todas as adversidades, a dor e a iminente morte”157

, simbolizando uma infinita fonte de criação do novo. Pois “aquele que nada tem a perder é o único absolutamente livre

155

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 72.

156

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 78.

157

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 97.

diante do futuro.”158

Aí se instaura um consenso crítico, um poder de resistência e libertador, porque denuncia uma exclusão, uma injustiça sistemática praticada pelas instituições de um poder corrompido – a denúncia de uma crise de legitimidade que anuncia uma nova ordem.

Neste momento Dussel aponta um terceiro momento em relação ao poder político, que estaria para além da potentia e potestas. É o surgimento do que

denomina hiperpotentia. Para ele, “se a potentia é uma capacidade da comunidade

política, agora dominante, que organizou a potestas em favor de seus interesses e

contra o povo emergente, a hiperpotentia é o poder do povo, a soberania e

autoridade do povo [...] que emerge nos momentos criadores da história para inaugurar grandes transformações ou revoluções radicais.”159

Estabelecer-se-ia um

estado de rebelião, momento no qual o povo busca retomar a potestas, para que seja exercida obediencialmente.160

Assim, a partir das ideias até aqui tomadas, podemos afirmar que a luta a ser travada, e que já se encontra em curso a partir dos movimentos sociais e populares, em suas mobilizações, sobretudo, políticas, deve buscar uma

transformação e não uma inclusão, posto que esta resultaria em uma identificação

com um sistema que perpetua injustiças e ausência de participação popular. A luta pelo reconhecimento inicial dos atores dos movimentos sociais e populares traz

consigo uma libertação estratégica diante de um sistema democrático que se

encontra em uma crise de legitimidade a partir do momento em que o poder popular é exercido de forma corrupta161. Tal libertação, em consonância com a noção de

hiperpotentia, apresenta um novo projeto político, formado desde um consenso crítico democrático162, que parte de uma afirmação inicial da vida dos oprimidos e excluídos.

158 Idem. 159

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 100.

160

Aqui o autor relembra o episódio argentino de 2001, no qual o povo saiu às ruas desobedecendo a um decreto que declarava o estado de exceção no país. O estado de rebelião das massas em oposição a um poder corrompido. Ver o documentário: MEMORIA del Saqueo. Direção de Fernando Solanas. Argentina: Cinesur S.A. / ADR Productions / Thelma Film AG, 2004. 1 filme (120 min.): son., color. Disponível em: <http://vodpod.com/watch/1258780-argentinas-economic-collapse-full-version> Acesso em: 22 fev. 2010.

161

Ver nota de rodapé n. 3.

162 “A democracia crítica, libertadora ou popular (porquanto o povo é o ator principal), põe em questão o grau anterior de democratização alcançado; já que a democracia é um sistema a ser reinventado

A “transformação” política significa, pelo contrário, uma mudança em vista da inovação de uma instituição ou que produza uma transmutação radical do sistema político, como resposta às interpelações novas dos oprimidos ou excluídos. A transformação se efetua, embora seja parcial, tendo como horizonte uma nova maneira de exercer delegadamente o poder. As instituições mudam de forma (transformam) quando existe um projeto distinto que renova o poder do povo. No caso de uma transformação de

todo o sistema institucional [...] podemos falar de revolução, que a priori é sempre possível (porque não há sistema perpétuo), mas cuja factibilidade empírica acontece alguma vez durante séculos. Acreditar que a revolução é possível antes do tempo é tão ingênuo como não advertir, quando começa o processo revolucionário, sua empírica possibilidade.”163

Assim, a ação concreta política, enquanto práxis política de libertação, deve

estar preocupada em esboçar um modelo de transformação possível no aqui-agora,

com uma ampla participação popular, com (i) o resgate de identidades nacionais (aqui a importância de pensarmos, em especial em países que sofreram nas mãos de ditaduras militares, o direito à memória e à verdade como forma de “passar a história a limpo”), (ii) incentivo a formas de resistência econômica (papel das cooperativas populares, redes de agricultura familiar), (iii) criação de espaço públicos para incentivar o debate político (não seriam as redes virtuais um caminho para somar forças nos movimentos sociais?; não seriam os governos eletrônicos uma maneira de possibilitar a participação, desde que preocupada em ampliar o acesso digital a todas as classes?). Talvez essa transformação seja a forma concreta de

pensarmos a revolução no mundo atual.

Marx já concluíra, quando de sua crítica ao pensamento de Hegel sobre o papel do Estado e da Constituição, pela necessidade de um poder construído pelo

povo. Assim escreveu ele: “[…] tem o povo o direito de se dar uma nova

constituição? O que de imediato tem de ser respondido afirmativamente, na medida em que a constituição, tão logo deixou de ser expressão real da vontade popular,

perenemente. Deve ficar claro, já que existe grande confusão a respeito, que a democracia crítica

(social, que inclui igualmente a esfera material, os conflitos ecológicos, econômicos e culturais que produzem crises: „o problema social‟), por um lado, é um princípio normativo (uma obrigação do político de vocação, e do militante, do cidadão, em favor do povo), mas também é um sistema institucional que terá de saber transformar permanentemente. Na inovação ou criatividade institucional dos momentos superados, fetichizados ou que não respondem à realidade do democrático, estriba a possibilidade real do desenvolvimento político, que nunca se interrompe (e, além disso, nunca alcança a perfeição; trata-se, novamente de um postulado: „lutemos por um sistema sempre mais democrático!‟, cuja perfeita institucionalidade empírica é impossível).” DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 110.

163

DUSSEL, Enrique. 20 Teses da Política. Tradução de Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular, 2007. p. 135.

tornou-se uma ilusão prática.”164

Quando a institucionalização do poder popular (potentia potestas), sua organização, que ocorre essencialmente a partir de uma

Constituição, enquanto documento aglutinador de vontades múltiplas, deixa de estar comprometida com a real vontade popular165, rivalizando com esta, encontra-se o momento crítico de legitimidade de um Estado, mas, também, a afirmação de algo

que está para além deste sistema corrupto: a hiperpotentia que persegue a

transformação.

Esta já se manifesta, por exemplo, quando uma senhora rodeada por seis policiais armados, que buscavam reprimir o povo argentino que saiu às ruas por reprovar o estado de sítio proclamado em 2001 pelo então presidente Fernando de

la Rúa, lhes pergunta em desespero: “Quem lhes tem dado ordens? São capazes de

matar uma mulher? São capazes de matar um povo porque lhes estão dando ordens?” O Estado que ataca ao povo com chicotes, o ameaça com cavalos e armas, que impõe políticas de repressão e que fecha os olhos à miséria de milhões,

já vive em crise de legitimidade e passa a ser transformado criticamente pelo povo,

em um processo de afirmação e retomada de seu poder, que se dá, a nosso ver,

através de um giro pedagógico que se estabelece na práxis dos movimentos sociais

e populares, sem ignorar a importância de pensarmos as relações que se estabelecem, também, individualmente, ou seja, desde uma sensibilização interna

que fortaleça o movimento de ir-para-o-mundo.166