3.3. SOBRE DIREITOS HUMANOS, INCOMPLETUDES E IMPUREZAS
3.3.3. UNIVERSALISMO vs. PARTICULARISMO; ABSOLUTISMO vs
Outro ponto sensível da teoria e prática dos Direitos Humanos diz respeito à defesa do universalismo de seus valores e conteúdo – alguns dos quais já acima discutidos, a exemplo da tríade liberdade, fraternidade e igualdade.
Primeiramente, aportamo-nos na análise realizada pelas professoras Claudia
Mahler e Reetta Toivanen374, ambas professoras e pesquisadoras do projeto
“Teaching Human Rights in Europe”375
: “[…] wollen wir betonen, dass
Menschenrechte aber nicht absolut sind: Es gibt nicht nur einen richtigen Weg, die gleichen Standards zu erreichen. Für uns bedeutet dies aber keineswegs eine
Relativierung der Menschenrechte, sondern eher eine kontext-sensible
Umsetzung.”376
O professor Herrera Flores também argumenta no sentido de que “[…] aceitar uma posição relativista não supõe afirmar a igual validade de todos os pontos de vista, mas sim a importância do contexto e das experiências discrepantes.”377
Nesse sentido, as duas autoras apontam, inclusive,
questionamentos sobre o próprio uso das expressões universalismo e relativismo, e
Assim, esta expressão, traduzida em português como “empoderamento”, será por nós utilizada conforme a visão de Freire, ou seja, levando em consideração sua etapa individual, mas antes de tudo, enquanto elemento de um projeto político maior de libertação por parte dos oprimidos.
Inclusive, a professora Ana Maria Araújo Freire, que fora casada com Paulo Freire, alertou, durante o “XII Fórum de Estudos: leituras de Paulo Freire”, realizado de 20 a 22 de maio de 2010, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre, que a noção “empoderamento” não integra propriamente o pensamento de Paulo de Freire. Para ela, Freire somente pensou a respeito quando perguntado durante suas conversas com Ira Shor, que resultou na obra Medo e Ousadia.
374
Agradeço o acesso a esta obra à Professora Doutora Vera Karam de Chueiri, que foi pesquisadora-visitante junto ao “MenschenrechtsZentrum der Universität Potsdam” (“Centro de Direitos Humanos da Universidade de Potsdam”), na Alemanha, durante o inverno de 2007, à época coordenado pela Professora Doutora Claudia Mahler.
375 O projeto “Teaching Human Rights in Europe” (“Ensinando Direitos Humanos na Europa”) iniciou em 2003 e foi finalizado em 2006. Esteve sob a coordenação de Anja Mihr, além de ambas as professoras mencionadas.
376 “[...] Gostaríamos de enfatizar, que os Direitos Humanos não são absolutos: não há somente um caminho certo para alcançar os mesmos padrões. Para nós isso não significa, entretanto, uma relativização dos Direitos Humanos, mas sim uma aplicação sensível ao contexto.” MAHLER, Claudia; TOIVANEN, Reeta. Menschenrechte im Vergleich der Kulturen. Nordhausen: Traugott Bautz, 2006. p. 39.
377
FLORES, Joaquín Herrera. A (re)invenção dos Direitos Humanos. Tradução de Carlos Roberto Diogo Garcia; Antonio Henrique Graciano Suxberger; Jefferson Aparecido Dias. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2009. p. 145.
acreditam que não há uma contraposição entre ambas, pois relativismo seria uma concepção oposta à noção de absolutismo, e não à de universalismo. 378 De fato, relativiza-se o que é absoluto, e nesse momento passa-se a demonstrar uma incompletude, impureza de determinada prática ou discurso. Já a oposição ao
universalismo estaria na concepção de algo local, particular.
A partir destas interpretações, vale considerar, ainda, o seguinte argumento de Mahler e Toivannen, para quem:
Mit dem Universalismus der Menschenrechte werden zwei Aspekte angesprochen. Einerseits ist jegliche Differenzierung zwischen unterschiedlichen Geschlechtern, Hautfarbe, gesellschaftlichem Hintergrund oder aus anderem Grund verboten. Gleichzeitig ist damit gemeint, dass Menschenrechte überall in der Welt die gleiche Gültichkeit haben. Es stellt sich die Frage, wie weit man von universellen Menschenrechtsstandards sprechen kann. Das Verständnis dieser Rechte steht immer in einem engen Wechselspiel mit den jeweiligen sozioökonomischen und politischen Kontexten in denen sie ausgehandelt werden.379
O que nos leva a observar a importância em se considerar os contextos concretos nos quais buscamos efetivar os Direitos Humanos. Não há como defender o universalismo, sem condicioná-lo às especificidades sociais, econômicas, culturais, jurídicas e políticas de determinado país, comunidade. E, o mais importante, o
universalismo só terá uma significação relevante para os Direitos Humanos, enquanto sua definição ocorrer “[…] em função da seguinte variável: o fortalecimento de indivíduos, grupos e organizações na hora de construir um marco de ação que permita a todos e a todas criar as condições que garantam de um modo igualitário o
378
A respeito da temática, consultar: GEERTZ, Clifford. Distinguished Lecture: Anti Anti-Relativism. Disponível em: <http://www.scribd.com/doc/2629449/Anti-AntiRelativism-by-Clifford-Geertz> Acesso em: 16 jan. 2010. Neste estudo, o antropólogo estadunidense busca rechaçar posições anti-relativistas, que acabam confundindo a verdadeira essência do debate acerca do relativismo, mas não o faz em defesa do relativismo em si, mas sim para chamar atenção à complexidade que devemos encarar na discussão acerca da ideia de diferentes comportamentos humanos.
379 “Com o Universalismo dos Direitos Humanos dois aspectos serão abordados. Por um lado, diz respeito àquela proibição da diferenciação baseada em sexo, cor da pele, razões sociais ou outras. Ao mesmo tempo, remete à ideia de que os Direitos Humanos têm a mesma validade em todo o mundo. E apresenta-se a pergunta de quão longe se é possível ir para falar de padrões universais dos Direitos Humanos. A compreensão destes direitos depende sempre de uma estreita interação com os contextos políticos e sócio-econômicos nos quais eles serão negociados.” MAHLER, Claudia; TOIVANEN, Reeta. Menschenrechte im Vergleich der Kulturen. Nordhausen: Traugott Bautz, 2006. p. 41.
acesso aos bens materiais e imateriais que fazem com que a vida seja digna de ser vivida.”380
Podemos pensar, então, em um universalismo que se encontre no particular,
na realidade específica na qual serão pensados os Direitos Humanos. E neste
sentido é que poderemos pensar em uma contextualização cultural. Como nos
explica o professor Herrera Flores:
En concreto, cuando hablamos culturalmente de contexto estamos haciéndolo de tres cosas estrechamente imbricadas: a) de las diferentes formas de producción de riqueza (y, por supuesto, de pobreza); es decir, de las circunstancias económicas de creación de valor. b) de las diferentes, jerárquicas y desiguales posiciones que ocupamos en los procesos de división social, sexual, étnica y territorial del hacer humano; o, lo que es lo mismo, de las formas que adopta la explotación y la injusticia. c) de las diferentes formas de adaptarse a los dos elementos anteriores o de enfrentarse de un modo antagónico a las mismas; en otros términos, de la toma de posición política frente a la producción/extracción del valor y los procesos de explotación del hacer. A partir de la inserción en un “contexto” determinado, los seres humanos comienzan a reaccionar frente a los entornos de relaciones que en él priman, sea para reproducirlos, sea para transformarlos.381
Portanto, nessa perspectiva crítica dos Direitos Humanos, universalismo
(reconhecer o processo de empoderamento382 dos sujeitos, movimentos sociais ao
redor do mundo) e relativismo (aceitar o diferente, outras perspectivas com
diferentes abrangências) podem vir a ser entendidos como a afirmação da ação dos seres humanos na busca pela realização de seus desejos e necessidades vitais, ações estas que antecedem a positivação dos Direitos Humanos. Um compromisso anterior com a dignidade humana.
Justamente nesse movimento de busca pela dignidade humana, devemos levar em consideração a impureza e incompletude dos discursos acerca dos Direitos Humanos, momento em que se torna clara a necessidade de encararmos o mundo a partir de sua complexidade (impura, incompleta), sem termos a intenção de explicá-lo por completo, reduzindo-o a teorias fechadas.
380
FLORES, Joaquín Herrera. A (re)invenção dos Direitos Humanos. Tradução de Carlos Roberto Diogo Garcia; Antonio Henrique Graciano Suxberger; Jefferson Aparecido Dias. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2009. p. 25.
381
FLORES, Joaquín Herrera. Cultura y Derechos Humanos: la construcción de los espacios culturales. In: MARTÍNEZ, Alejandro Rosillo (et al.). Teoria Crítica dos Direitos Humanos no Século XXI. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008. p. 252.
382