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SOBRECARGA DO CUIDADOR FAMILIAR DE IDOSOS DEPENDENTES

No documento alcimarmarcelodocouto (páginas 31-34)

Segundo Luzardo, Gorini e Silva (2006), o cuidador pode apresentar um alto nível de ansiedade, tanto pelo sentimento de sobrecarga quanto por constatar que a sua estrutura familiar está sendo afetada pela modificação dos papéis sociais. No cotidiano, o cuidador é testado em sua capacidade de discernimento e adaptação à nova realidade, o que exige dedicação, responsabilidade, paciência e abnegação.

Nascimento et al. (2008, p. 516) apontam que:

O ato de cuidar, dentro de sua complexidade, gera sentimentos diversos e contraditórios, como: medo, angústia, cansaço, tristeza e choro. Esses sentimentos devem ser compreendidos, fazendo parte da relação entre cuidador e a pessoa cuidada, devendo-se ainda, avaliar a presença de fatores estressantes entre esses cuidadores, haja visto que, o estresse pode fomentar risco de ocorrências de situações de violência contra os idosos ou de adoecimento do próprio cuidador (NASCIMENTO et al., 2008, p. 516).

Cuidar de idosos dependentes, de acordo com Ricarte (2009), pode acarretar aspectos negativos ao cuidador como solidão, tensão, tristeza, angústia, alterações no seu bem estar, nas condições de saúde, na vida social, na rotina familiar, nas condições econômicas e no próprio desempenho profissional, ocasionando o surgimento de níveis elevados de sobrecarga.

A sobrecarga do cuidador - expressão traduzida da língua inglesa e conhecida internacionalmente como caregiver burden – similar ao estresse, é compreendida como uma reação negativa aguda à prestação de cuidados, que surge quando novas demandas de cuidados são introduzidas ou quando demandas de cuidados já existentes se intensificam (PAPASTAVROU et al., 2007).

Essa sobrecarga pode ser observada através de repercussões objetivas, que são resultantes da prática dos cuidados e apresentam-se de forma mais visíveis, e subjetivas, que são menos explícitas, uma vez que se manifestam através de estresse ou sofrimento (RICARTE, 2009):

A carga objetiva é definida como toda alteração observável e verificável, e a subjetiva como o sentimento de uma obrigação originada pelas tarefas desempenhadas. A carga relaciona-se com a tensão própria do ambiente das relações interpessoais, e pode ser vivenciada de forma diferente pelos cuidadores, pois enquanto que para alguns não é sentida como um fardo, para outros pode provocar sentimentos de grande intensidade (RICARTE, 2009, p. 47).

Para a avaliação da sobrecarga do cuidador, nesse estudo, foi adotada a escala de Zarit (Burden Interview) criada por Zarit, Reever e Bach-Peterson (1980) e validada no Brasil por Scazufca et al. (2002), por ser um referencial com boa aceitação científica e frequente utilização em pesquisas tanto nacionais como internacionais, possibilitando a comparação dos resultados obtidos entre os

diferentes estudos já realizados.

A escala de Zarit possibilita refletir as tensões do cuidador e avaliar os aspectos, tanto da sobrecarga objetiva quanto da subjetiva, apresentados pelo cuidador informal. É constituída por 22 questões e inclui informações sobre quatro fatores: “Impacto de prestação de cuidados”, “relação interpessoal”, “expectativas face ao cuidar” e “percepção de auto eficiência”.

O impacto de prestação de cuidados agrupa os itens que se referem à sobrecarga relacionada com a prestação de cuidados diretos, em que se destacam a alteração do estado de saúde, o elevado número de cuidados, a alteração das relações sociais e familiares, a falta de tempo, o desgaste físico e mental. A relação interpessoal apresenta e agrupa os itens que se relacionam à sobrecarga entre cuidador e pessoa dependente alvo de cuidados, sendo avaliado o impacto interpessoal resultante da relação da prestação de cuidados, principalmente associados às dificuldades interrelacionais. As expectativas face ao cuidar relacionam-se com a prestação de cuidados relativos ao cuidador, no que diz respeito aos medos, receios e disponibilidades. Por fim, a percepção de auto- eficácia relaciona-se com a opinião do cuidador face ao seu desempenho (RICARTE, 2009).

Muitos pesquisadores têm avaliado e descrito, de maneiras diferentes, as características individuais, tanto do paciente quanto do cuidador, que predispõem os cuidadores a apresentarem níveis de sobrecarga.

Entre esses pesquisadores, destaca-se Gratão (2010) que, em seu trabalho realizado em Ribeirão Preto, encontrou que 57,6% dos cuidadores de idosos que vivem na comunidade apresentaram de leve a moderada sobrecarga, sendo que as características dos cuidadores, que foram estatisticamente significantes para a existência de sobrecarga, foram relacionadas às horas diárias de cuidado e ao gênero.

As mulheres tiveram maior pontuação de sobrecarga. Tal achado corrobora com outros estudos e pode ter várias explicações, desde cultural que, muitas vezes, impõe à mulher o papel de cuidadora sem levar em conta a escolha pessoal, além de ter que desempenhar vários papéis sociais (mãe, esposa, dona de casa, dentre outros), até a frequente disponibilidade de um outro cuidador para dar suporte e ajuda quando o cuidador principal é o homem (PAPASTAVROU et al, 2007; GRATÃO, 2010).

Em relação aos fatores relacionados ao idoso, a incapacidade cognitiva e o comprometimento das atividades da vida diária acarretaram implicações na vida do cuidador, contribuindo para elevados níveis de sobrecarga e desconforto emocional. (GRATÃO, 2010).

Em outro trabalho, realizado por Ricarte (2009), tendo Portugal como contexto, foi encontrado em nível de cotação global da escala de sobrecarga, adotando como ponto de corte a versão portuguesa da escala, um predomínio de sobrecarga intensa em 41% dos cuidadores informais, seguido pela ausência de sobrecarga com 35,9% e pela sobrecarga ligeira com 23,1%.

Esse pesquisador verificou em seu estudo maior sobrecarga no sexo feminino, no grupo etário de 50 a 59 anos e em cuidadores casados. Concluiu que, em relação às atividades básicas e instrumentais de vida diária, quanto maior é a dependência do idoso, maior será a sobrecarga apresentada pelo cuidador, sendo que os itens que mais contribuíram para o aparecimento de sobrecarga intensa foram a dependência no banho e na higiene corporal (RICARTE, 2009).

Em um trabalho desenvolvido por Moreira (2009), no interior de Minas Gerais, os cuidadores de idosos que apresentaram maior grau de sobrecarga apresentaram piores avaliações com relação a diversos aspectos da sua vida nas escalas de qualidade de vida. Outros estudos também correlacionam a qualidade de vida com a sobrecarga, estabelecendo uma relação de causa e efeito, em que, quanto maior a sobrecarga, pior a qualidade de vida (LAHAM, 2003).

A sobrecarga do cuidador, segundo Caldas (2000), muitas vezes está relacionada ao longo tempo de cuidado e ao grau de dependência do idoso, o que leva o cuidador a um nível de aceitação da doença e da sua própria situação em prover os cuidados, ou a ultrapassar os obstáculos, apesar das dificuldades, por não haver outra saída.

No documento alcimarmarcelodocouto (páginas 31-34)