• Nenhum resultado encontrado

De acordo com Simmel (2006), durante a trajetória de vida de um indivíduo o círculo social secundário se amplia, tornando-se mais importante que o círculo primário. Tais modificações na ordem de interesses dos indivíduos começam a se manifestar na juventude, quando a busca por experiências a partir de novos interesses se torna mais frequente. Desta maneira, a simples satisfação mútua de estar em sociação, motiva os jovens a buscarem espaços de sociabilidades por meio do lazer.

Para Pais (1990, p. 591) “[...] é no domínio do lazer que as culturas juvenis adquirem uma maior visibilidade e expressão”, pois é no tempo livre, do ócio, da não obrigatoriedade, que encontram o espaço para manifestar suas preferências. Portanto, as interações sociais estabelecidas no campo do lazer pelos jovens acolhidos nos ajudam a compreender suas formas de sociabilidades.

Entre as práticas de lazer mais citadas pelos jovens acolhidos estão os passeios, sobretudo aqueles realizados fora das fronteiras no município de Sapucaia do Sul. São exemplos disso a viagem para conhecer a festa do Natal Luz na cidade de Gramado/RS – consagrada como uma das maiores festas natalinas do país, que aconteceu há cerca de 4 anos; o passeio no parque aquático, em 2017, onde os acolhidos passaram o dia se divertindo entre brinquedos e piscinas e a visita à biblioteca da Unisinos, onde tiveram a oportunidade de conhecer um ambiente universitário. Outros passeios, dentro do município, também foram destacados pelos jovens, como por exemplo a visita ao Posto do Corpo de Bombeiros (atividade realizada pela atendente de biblioteca dentro de um projeto sobre profissões), um momento em que os jovens saíram para jantar numa lanchonete próxima ao Abrigo e, com mais frequência, os passeios na praça no bairro da instituição.

A praça é o espaço de lazer fora do Abrigo que os jovens mais frequentam, sempre acompanhados pelas monitoras e em grupo, não é permitido frequentar a praça sozinho ou sem acompanhamento. Embora a praça seja um lugar importante de encontro entre os jovens, percebemos que os acolhidos não interagem com outros jovens frequentadores do local. Acabam mantendo suas interações dentro do círculo social do Abrigo.

Como podemos perceber as atividades de lazer são organizadas e mediadas pelas trabalhadoras da instituição, em momentos coletivos, onde todos os jovens participam, exceto aqueles que na ocasião das atividades estejam em punição por alguma conduta inadequada. Da mesma forma, também ocorrem atividades promovidas por outros atores, como os voluntários que frequentam o Abrigo. Entre as atividades realizadas pelos voluntários estão eventos organizados em datas comemorativas, partidas de futebol e festas de aniversário. As atividades ocorrem pontualmente, ou seja, não há uma frequência estabelecida que proporcione a constituição de vínculos entre voluntários e acolhidos, de modo que os jovens nem mesmo recordam o nome das pessoas que promovem tais atividades, o que

demonstra a fragilidade dos vínculos sociais possíveis de estabelecer com outros atores durante a experiência do acolhimento institucional.

Já o tempo de fato livre dos jovens, quando não há atividades dirigidas, fica restrito às atividades possíveis de realizar dentro do Abrigo, sob a vigia das monitoras. Neste tempo livre, as principais atividades de lazer são a conversa entre os pares, jogar videogame, assistir ao filme que estiver passando no momento, realizar alguma atividade ao ar livre, como por exemplo jogar bola e, eventualmente, ouvir música e ficar no quarto.

Desta maneira, o domínio do lazer e do entretenimento também pertence à vigia, impedindo os jovens de estabelecerem interações em círculos sociais secundários de acordo com seus interesses por práticas culturais, tais como a música, o esporte, a dança, entre outras manifestações relativas às juventudes. Portanto, as fronteiras sociais também demarcam as sociabilidades dos jovens acolhidos, conforme expressa Pais (1990. p. 641), ao analisar as práticas culturais de jovens em diferentes circunstâncias: “[...] as sociabilidades juvenis apresentam sinais de exclusividade, isto é, a participação dos jovens nas redes de convivialidade não é indiscriminadamente aberta: tem fronteiras sociais, designadamente (mas não só) fronteiras de classe”. Desse modo, os acolhidos vivenciam fronteiras definidas pelos próprios jovens a partir de marcadores sociais, como, por exemplo, a classe, e também possuem fronteiras de sociabilidades demarcadas pelo próprio acolhimento institucional.

Entre as possibilidades de rompimento das fronteiras de sociabilidades dos jovens acolhidos está a internet, como recurso capaz de produzir interações virtuais com outros indivíduos, grupos e instituições. Sendo a cultura digital uma das principais linguagens dos jovens na contemporaneidade, conforme afirmou Gadea (2015, p. 121)

[...] muito a contramão do que alguns pensam, a internet no lugar de diminuir a sociabilidade, a aumenta; no lugar de ‘alienar’, contribui a ‘desalienar’; no lugar de deprimir contribui a controlar melhor a depressão e o estresse [...]. Quanto mais usamos a Internet, mais sociabilidade física temos.

Consequentemente, a Internet como recurso capaz de estabelecer novas interações sociais virtuais fortalece as sociabilidades dos jovens, pois conecta interesses, aproximando indivíduos e grupos. Porém, conforme já vimos na

descrição do Abrigo, a internet é um recurso pouco utilizado pelos jovens, pois seu acesso é restrito ao uso no computador que fica sob domínio da atendente da biblioteca. Sendo que o acesso a qualquer rede social é bloqueado, para evitar o contato dos acolhidos com pessoas que estão impedidas judicialmente de se aproximar dos mesmos. Ao ter o acesso à internet restringido, os jovens também são impedidos de estabelecer novas conexões no campo virtual que poderiam contribuir para novas formas de sociabilidades. A restrição também impede o jovem de desenvolver competências relativas ao mundo digital, tão necessária para o processo de integração por meio do trabalho e da educação.

Portanto, as sociabilidades dos jovens constituídas no domínio do lazer também são restritas pela medida protetiva, impedindo os acolhidos de estabelecer novas interações no mundo real ou virtual, que possibilitariam a ampliação de seus círculos sociais e, consequentemente, produziriam diferenciação aos seus processos identitários.