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A Sociedade Civil

No documento 2006 Nestor Claudio David Catera (páginas 84-91)

Numa brevíssíma perspectiva histórica, pode se dizer que nossas tradições escravistas e coloniais têm grande influência no bloco regional às liberdades civis e políticas. Estas têm sido, em nossa região, uma forte influência nas relações instituidas entre cidadãos e governantes. Desta forma, como salienta Alves dos Santos, a ausência de participação política era contrastada pela existência de um comportamento participativo comunitário da população em outras esferas, principalmente em torno das grandes festas, da religião e da assistência mútua. (In Teixeira, 2004 : 45)

Afortunadamente, América Latina deixa de ser um continente de regímes militares, onde a participação é limitada à reivindicação dos Direitos Humanos, para transitar sistemas de direito e regímes pluralistas, mas que ainda enfrentam profundos desafíos político-culturais e econômicos. Como esclarece Celiberti, o fim dos regimes ditatoriais deixa, porém, profundas feridas sociais e políticas que ainda não estão fechadas. Esta autora salienta que a exclusão social de milhões, a marginalização e o retraso econômico e social das populações de América Latina constituiem o principal obstáculo para a consolidação democrática. (In Teixeira. 2004:51)

Ao respeito, é interesante observar a postura de Touraine quem salienta que o problema na América latina, havida conta da dependência e das formas que tem tomado o Estado, é que não têm se constituido atores sociales puros (nem movimientos sociais no sentido estrito), o que explica a fragilidade da democracia representativa. (Touraine, 1995:260)

Não obstante, uma das principais transformações das ultimas décadas reside na eliminação dos límites da política que acarreta sua reestructuração. Assim, a lacuna entre as instituições e as demandas crescentes de uma sociedade auto-reflexiva e individualizada, apresenta o político além das estruturas e jerarquía formais, revisando os problemas ecológicos e ambientais, a divisão do público-privado, as relações de gênero, as formas de fazer política, a cultura de direito, a diversidade, as relações de poder, mas também os acordos comerciais, o papel das instituições financeiras e a dívida externa.

Celiberti destaca o papel ativo da cidadania e a existência de múltiplos atores sociais que contribuem para criar uma institucionalidade em permanente processo de mudança, simbólicamente rica (defensorias, orçamentos participativos, descentralização municipal e participação cidadã, leis de participação e controle social, etc).

O ponto central está dado em que esta institucionalidade coexiste com uma política prática empobrecida e auto-referenciada incapaz de conduzir o debate das restricções e

85 condicionantes que a economia capitalista e a inserção de América Latina na economia

global. (In Teixeira. 2004:54)

Por isso, como diz Albuquerque (2004:13), não existe um conceito único de cidadania na hora de tomar posição na problemática entre cidadania e democracia. A autora salienta que não existe um conceito único porque há distintas visões e concepcões da cidadania. Albuquerque conclui:

Esquematizando um pouco, poderia se afirmar que, na sua versão mais liberal, corresponde- lhe à sociedade civil exercer ações corretivas sobre o Estado a efeitos que éste expanda as liberdades, enquanto numa versão socialdemocrata, corresponde- lhe à sociedade civil lutar por expandir os direitos não só políticos senão sociais perante ao Estado, com o propósito de morigerar as tendências à desigualdade que gera o mercado (na verdade, mais precisamente, o sistema capitalista mundializado ou globalizado). (Albuquerque, 2004:34)

Para Albuquerque, com o período de democratização na região se inicia a construção duma nova cultura focada nos direitos e na participação, em definitiva, a autora argumenta que se constrói um novo paradigma democrático, baseado no pluralismo, as relações horizontais, a autonomia dos atores sociais em relação aos partidos e ao Estado, a heterogeneidade, a universalidade dos dereitos.

Entretanto, Albuquerque coincide com Celiberti em que esta transição para um paradigma democrático gera ainda uma enorme dificuldade na elaboração de novos projetos e estratégias, pois, as novas ideologias neoliberais seqüestram os significados de conceitos centrais para a elaboração de um projeto democrático e popular. Albuquerque (2004:19) esclarece que:

Estas novas práticas de cidadania, entretanto, desenvolvem-se em meio de lógicas nacionais predominantemente neoliberais, razão pela qual devem disputar espaços com outras noções de cidadania de caráter liberal, que enfatizam nos direitos individuais, a liberdade econômica, a democracia representativa e a política social como política compensatória ou apoiada na assistência e a caridade pública.

Assim, contra uma cidadania ampla e política, propõe-se uma cidadania limitada ao consumo; contra a participação com controle social sobre ou Estado, propõe-se uma participação filantrópica e substitutiva das responsabilidades sociais dou Estado, contra a radicalização da democracia, vemos democracias de baixa intensidade.

Ao respeito, Ballart ressalta a vital importância que a participação dos novos atores abranja equilibradamente os diversos campos de ação cultural – a preservação do patrimônio, a

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difusão das manifestações culturais e a criação de condições adequadas para a expresão cultural contemporánea – e os diversos setores da população, evitando a concentração excesiva de esforços em determinadas esferas e o descuido de outras. (Ballart,.op. cit.:165)

E em nossos paises? Começando pela Argentina, pode se dizer que ela tem uma longa história acumulada por organizações com trajectórias políticas e sociais, e uma conciência cultural muito forte em torno aos direitos sociais e políticos. O movimento de ONGs e organizações sociais tiveram um forte crescimento a partir dos anos oitenta, e o debate em torno do seu papel continua ainda vigente.

Para Albuquerque (2004: 67), estes movimentos e organizações sociais se caraterizam por sua heterogeneidade, horizontalidade, porque não pretendem a toma do poder senão a afirmação de identidades – como primeiro passo de resistência –, a defesa de setores determinados, a construção de cidadania, constituindo avanços importantes no caminho de consolidação da democracia. A politização de todos os espaços converte estes movimentos e associações em lugares de democracia participativa, o que não significa outra coisa que a transformação, em cada um deles, das relações de poder em relações de autoridade compartilhada.

A partir de dezembro de 2001, com a desordem social e a falência do Estado, aparece no povo argentino um novo fenômeno social forjado na última década e que inclui a trabalhadores, desocupados, piqueteros, e a setores da classe média cujas poupanças foram expropriadas. Estes “nuevos movimientos” mais plurais e desvinculados dos partidos políticos se articulam, no periodo de reconstrução democrática pós-ditaduras, com outros atores sociais que não agem usualmente numa perspectiva de luta pelos direitos, como por exemplo as organizações culturais, organizações empresariais e profissionais, os círculos intelectuais, etc. gerando expectativas positivas que crescem ao ritmo da recuperação econômica.

No Brasil, a construção democrática ao longo do século XX, tem como uma das suas principais caraterísticas a presença significativa da sociedade civil organizada que consegue forjar espaços públicos de negociação, reivindicação, participação e conquista de direitos. (In Albuquerque, 2004:87)

Ao respeito, a sociedade civil organizada brasileira vem forjando espaços privilegiados nos quais estão se gestando novas formas de se relacionar o Estado e a Sociedad Civil. Nesse cenário, como se já foi mencionado no capítulo anterior, destaca-se a criação dos Conselhos de Gestão de Políticas Setoriais, os processos de Orçamento Participativo, e as diversas iniciativas de foros de discusão, formulação e proposição de políticas públicas, quanto de controle dos orçamentos públicos por parte da sociedade civil.

87 As ONGs brasileiras surgem a partir dos años setenta, em forma paralela aos movimentos

que buscam melhorar os serviços de saúde, educação, transporte coletivo, estabilização dos preços da cesta básica alimentar, entre outros. Na década seguinte as ONGs assumem o papel de mediadoras entre os movimentos sociais e o Estado, contribuindo tanto à organização da sociedade civil quanto ao processo de democratização das instituições políticas.

Nos anos 1990 se observa uma mudança na ação política dos atores sociais, dos setores populares e das ONGs, que passam da lucha social direta, reivindicativa – típica das duas décadas anteriores –, para o campo da participação, cada vez mais, no âmbito institucional e pela procura da democratização e controle social do Estado. Nesse novo contexto, os movimentos e as organizações sociais se vêm perante o desafío de manter não somente sua autonomia e poder de pressão sobre o Estado, senão também desenvolver sua capacidade propositiva para implementar uma nova lógica e novos mecanismos de gestão pública, baseados no protagonismo da sociedade. (In Albuquerque, 2004:93)

O Chile, por sua parte, é um país rico em tradições organizativas e de participação social. Estas, que alcanzam seu ponto culminante na década de 1960 e particularmente nos anos do governo da Unidade Popular, sofrem um duro embate após o golpe de estado em 1973.

Os movimentos sociais, neste contexto, são progressivamente excluidos dos processos de redemocratização que começava a vivir o país, sendo substituidos pela emergente classe política, que privilegia acordos partidários de cúpulas e uma política baseada nos consensos, por sobre as demandas de participação e justícia de um setor maioritário da cidadania.

Pese a que a participação cidadã é uma necessidade para aprofundar no processo democrático, as cifras demonstram que esta diminui. Isto se reflete principalmente no progressivo aumento da abstenção ou do voto nulo nas eleições municipais, presidenciais ou parlamentares, assim como também nas organizações gremiais, sindicais, sociais e políticas.

Na atualidade, nas organizações sociais populares existe fragmentação e dispersão, desencantos e frustrações frente a um sistema político, econômico e social excluinte, que não tem conseguido aminorar as desigualdades nem as brechas sociais existentes, assim como a desconfiança e distância para o sistema de partidos políticos, incluidos os da esquerda extraparlamentar.

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Por isso, a sociedad civil no Chile ainda apresenta importantes fraquezas para se constituir em um interlocutor forte frente ao Estado e aos atores econômicos, e assim gerar demandas “audíveis”. Contreras, amplia:

O período de ausência [democrática] provocou que as regras elementais de participação, tenham se esquecido. Em efeito, atualmente os cidadãos vislumbram na participação cidadã, sua única opção para fazer valer todos seus direitos. Portanto carregam nela a totalidade de suas expectativas e anseios, inclusive aqueles que não têm relação direta com os temas consultados. Desta forma, a realização de reuniões se reduz à definição de grupos opostos sobre um determinado assunto, mais que a constituição de uma assembléia onde se obterá um consenso cidadão.9

Em síntese, pode se dizer que os atores sociais que implantam as experiências de democracia participativa questionam a identidade que lhe for atribuida externamente por um Estado autoritário e discriminador e reivindicam, ao mesmo tempo, direitos de participação, direitos a bens públicos distribuidos localmente e direitos de reconhecimento da diferência e propôem como alternativa, uma gramática social e estatal mais inclusiva.

Por isso, como ressalta Sousa Santos, a percepção de inovar entendida como uma ampliação da participação dos diferentes atores sociais no proceso da tomada de decisões, faz com que éstes incluam temáticas até então ignoradas pelo sistema político, redefinam identidades e vínculos e aumentem a participação, especialmente no nível local. (Santos, 2002:59)

Devido a que o presente trabalho pode se extender para várias direções, considero necessário circunscribir o assunto da participação cidadã dos casos estudados. Para isso, tomo os dados publicados pelas Nações Unidas (Ver anexos 1, Tabelas 1 e 2), onde é possível quantificar e posteriormente comparar dita participação.

As Nações Unidas realizaram um estudo em toda a América Latina, denominado Latinobarômetro, onde se analiza a participação cidadã mediante a variável de modos de participação. Para isso, o estudo distingue quatro dimensões a serem estudadas: a eleitoral, a gestão política, a participação em manifestações coletivas e a participação social, sobre a qual se obtêm os dados utilizados neste relatório. Esta última dimensão, denominada coeficiente PSO, mede o grau em que as perssonas colaboram para ressolverem, junto com outros concidadãos, problemas do seu entrono, a este coeficiente acrescenta-se o modo de participação cidadã (MPC) ou modo de intervenção em que os cidadãos realizam sua vida social e política. Desta forma se obtém o índice de participação cidadã, cujo quadro completo é apresentado no anexo final.

89 Pois é, se for analisada a participação cidadã na América Latina, por país e por atividades,

podem ser estabelecidas interessantes conclusões quefornecem um marco geral ao objeto de estudo. No caso argentino a amostra recolhida indica uma colaboração de 50,3 % da população em atividades sociais seja com trabalho, dinheiro ou reuniões, enquanto que para o caso brasileiro estas cifras chegam até 67,6%. O caso chileno sofre uma merma que chega a 49,5 %; sendo a média latinoamericana 60,4% é possível sustentar que só o Brasil supera com folga a intenção de seus moradores de participar em atividades sociais. Esta tendência aparece também quando se desgrana a informação em participação com o contato com os funcionários e a participaçãon em manifestações coletivas. Não obstante, estes dados se invertem quando se pergunta pelo voto e se este tem sido emitido sob alguma pressão, o Brasil fica debaixo da média latinoamericana (só acima da Bolivia e do México) o que indica uma forte incumbência do poder político na opinião dos cidadãos.

Ao analisar a participação cidadã por setores e tipos de organizações nos quais as pessoas participam existe uma excelente aproximação que define o perfil e as preferências da cidadania nos países estudados. O caso argentino se reparte quase igualitariamente entre os quatro ítens mencionados, começando com a participação no desenvolvimento comunal, continuando com a defesa dos direitos aos mais despossuídos, as atividades educativas, artísticas e culturais, para finalizar com a participação em igrejas. Se bem no primeiro caso há maior participação, esta se encontra muito embaixo da média latinoamericana, sendo quase a metade dos dados do resto dos países. É notório o caso brasileiro, onde aparece com muita força a participação das pessoas em organizações religiosas, dobrando práticamente a média latinoamericana, deixando para um segundo lugar a participação no desenvolvimento comunal e a junta de vizinhos, para seguir com as atividades educativas, artísticas e culturales, finalizando com o apoio para a defesa dos direitos dos mais necessitados. O caso chileno amostra uma notória participação da cidadania no desenvolvimento comunal e a junta de vizinhos ao ficar quase na média latino-americana, uma semelhança entre a participação em organizações eclesiásticas e a defesa dos direitos dos mais desprotegidos deixando para o último lugar, embaixo da média dos países latinoamericanos a vocação de colaborar em eventos culturais, artísticos, musicais ou educativos.

Circunscribendo estes dados na área de objeto de estudo, isto é, somando a participação cidadã no desenvolvimento comunal ou junta de vizinhos junto com a colaboração dos cidadãos em eventos artísticos, culturais ou educativos, obtêm-se os seguintes resultados: Na Argentina participa 46,6% e dentro da área de estudo o faz tão só o 19,9%; no Brasil participa 58,3% ficando 21,1% restringido ao objeto de estudo; finalmente Chile com uma participação de 48,7% dedica 21,2% de suas atividades da área de estudo. Em outras

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palavras, o estudo reflete que se bem existem diferenças nos grandes números (populaçionais, históricos, de participação em diferentes organizações, assim como na vida eleitoral) é possível encontrar um valor médio entre os três países dos casos de estudo que está por volta de 20% das pessoas que participam em torno da gestão do patrimônio cultural, mas fica longe de 30%, que é a média que dá a participação latinoamericana para este caso.

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