CAPÍTULO I – UM PAÍS CHAMADO BOLÍVIA: E/IMIGRAÇÃO ENTRE MEDOS
CAPÍTULO 2 – UM DESTINO CHAMADO SÃO PAULO: ANGÚSTIAS
2.1 SOCIEDADE DE “ACOLHIMENTO”: CHEGADA E INSTALAÇÃO
As teias da rede se desenharam do ponto de origem, como mencionado no capítulo anterior, até o destino final. Mas ao chegar a São Paulo o e/imigrante ainda necessitava de apoio para se estabelecer na cidade, para conseguir o primeiro emprego e iniciar sua caminhada até o sonho do “El dorado paulista”. Para muitos o primeiro contato com a metrópole foi viabilizado pelas redes, fossem de associações ou de parentesco. Outras histórias revelaram a força da rede de amigos e parentes num primeiro momento e, após a estabilidade do e/imigrante, uma aproximação com as associações voltadas para a comunidade migrante – “Sim, quando eu estava
mais o menos estável. Aí eu conheci um monte. Na associação dos bolivianos tenho um monte de amigos.”240
O fator tempo é o critério que delimita esse processo da acolhida.241 Dentro das instituições de apoio esse tempo é predeterminado em no máximo 90 dias242, prazo para que o hóspede se estabeleça em um emprego e em uma nova hospedagem. Rompe-se assim o vínculo entre o anfitrião e o hóspede. “O status de hóspede encontra-se no meio do caminho entre o de estrangeiro hostil e o de membro da comunidade.”243 Um status temporário e predefinido nas instituições de
apoio pelas regras de imigração do território receptor.
Entre as associações mencionadas em relatos destacam-se os trabalhos do Centro de Apoio ao Migrante (CAMI), do Projeto Si Yo Puedo na Praça Kantuta e da Pastoral do Imigrante, voltados para o atendimento e acolhimento de migrantes e e/imigrantes. O CAMI244 iniciou suas atividades em 2005 com uma perspectiva de atendimento aos latino-americanos. Um acordo entre o Brasil e a Bolívia propiciou o início dos trabalhos, tendo como intuito principal a inserção sociopolítica do e/imigrante. Para isso oferece aulas de português, informações para a regularização migratória, auxílio em questões trabalhistas e violência doméstica. Possui convênios com o Comitê para Democratização da Informática (CDI)245 para aulas de informática e português.
240 Depoimento de Santiago Tordoya, em entrevista concedida à autora em 08/11/2012.
241 A noção da acolhida passa por dois momentos: um da hospitalidade (anfitrião e hóspede) e outro
da integração do hóspede com a comunidade receptora, o tornando um membro integral. Hospitalidade: relacionamento entre anfitrião e hóspede. LASHLEY, Conrad; MORRISON, Alison (Orgs.). Em busca da hospitalidade: perspectivas para um mundo globalizado. Barueri, SP: Manole, 2004, p.21. Por hospitalidade entende-se: “[...] ato humano, exercido em contexto doméstico, público e profissional, de recepcionar, hospedar, alimentar e entreter pessoas temporariamente deslocadas de seu habitat natural.” CAMARGO, Luis Octavio de Lima. Hospitalidade. São Paulo: Aleph, 2004, p.52.
242 Tempo estabelecido pelas leis de imigração para validade da concessão do visto de turista. Após
90 dias o estrangeiro deve regularizar sua situação migratória, seja retornando ou solicitando um visto temporário para trabalho. Assim, as leis da hospitalidade estão subjulgadas às formas políticas e jurídicas de cada Estado.
243 MONTANDON, Christiane Binet. Uma construção do vínculo social. In: MONTANDON, Alain (Dir.).
O Livro da Hospitalidade: Acolhida do estrangeiro na história e nas culturas. Tradução de Marcos
Bagno e Lea Zylberlicht. São Paulo: Editora SENAC, 2011, p.1.173.
244 CAMI - Centro de Apoio ao Migrante, localizado na Rua Guaporé, 353, Ponte Pequena. E-mail:
[email protected] / tel.: (11) 2694-5428. Entrevista com a advogada Marina Novaes, concedida à autora em 04/03/2013.
245 Comitê para Democratização da Informática (CDI): ONG com cursos de informática que objetiva
Observa-se que são parceiros na luta contra o trabalho em condições análogas à de escravo. A depoente destaca a ação dos agentes sociais, que identificam os e/imigrantes que saem do centro e vão para as periferias para trabalhar e morar. A interlocução com os e/imigrantes é facilitada por quatro agentes sociais bolivianos.
[...] estes vão até as oficinas conversar com proprietários e funcionários, verificam as condições de trabalho e moradia. Verificam as instalações, a legalidade dos contratos e percebem as necessidades dos imigrantes. Deixam contatos para conversas posteriores. Informam sobre o Centro de apoio, sobre a rádio A Voz do Migrante e sobre o jornal Nosotros. Percebe-se um número maior de homens do que de mulheres nas oficinas e nos atendimentos.246
Nota-se a relevância das parcerias com outras redes de apoio:
Trabalhamos conjuntamente com o Centro de Estudos Migratórios (CEM)247, Comissão Estadual para Erradicação do
Trabalho Escravo (COETRAE)248 [...] e o Ministério do trabalho.
246 Entrevista com a advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013.
Trabalha com atendimento e apoio jurídico aos e/imigrantes que procuram o CAMI.
247 CEM - Centro de Estudos Migratórios.
“O Centro de Estudos Migratórios (CEM) surgiu em 1969. Pertence à Congregação dos Missionários de São Carlos / Escalabrinianos, cuja finalidade é atuar junto aos migrantes. Integra a Federação dos Centros de Estudos Migratórios João Batista Scalabrini, que congrega os demais Centros de Estudos da Congregação, presentes em vários países (São Paulo, Nova York, Paris, Roma, Buenos Aires, Manila). Conta com uma biblioteca especializada em migrações e desde 1988 publica TRAVESSIA - Revista do Migrante.” USP. FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Diversitas - Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos. CEM - Centro de Estudos Migratórios. 30/01/2012. Disponível em: <http://diversitas. fflch.usp.br/cem>. Acesso: 17/04/2015.
248 COETRAE -
Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo. “O Decreto nº 57.368, de 2011, instituiu junto à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, a Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo - COETRAE/SP, que tem como objetivos: I - avaliar e acompanhar as ações, os programas, projetos e planos relacionados à prevenção e ao enfrentamento ao trabalho escravo no Estado de São Paulo, II - elaborar e acompanhar o cumprimento das ações constantes do Plano Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo, propondo as adaptações que se fizerem necessárias; III - acompanhar a tramitação de projetos de lei relacionados com a prevenção e o enfrentamento ao trabalho escravo; IV - apoiar a criação de comitês ou comissões assemelhadas nas esferas regional e municipal para monitoramento e avaliação das ações locais; V - manter contato com setores de organismos internacionais, no âmbito do Sistema Interamericano e da Organizações das Nações Unidas, que tenham atuação no enfrentamento ao trabalho escravo, dentre outros.” SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania. Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Comissão Estadual para Erradicação do Trabalho Escravo. Disponível em: <http://www.justica.sp.gov.br/portal/site/SJDC/menuitem.7e46e7e22f62a4d7d30d0cf6390f8ca0/?vgne xtoid=a7d80195a1d70410VgnVCM10000093f0c80aRCRD&vgnextfmt=default>. Acesso: 17/04/2015.
Também realizamos uma parceria com ONGs, uma delas em Guarulhos, com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS)249 e com as Unidades Básicas de Saúde.250
Verifica-se ainda a participação em fóruns sobre a temática da imigração e exploração, além do trabalho de divulgação do CAMI nos consulados. A rede de contatos do Centro de Apoio ao Migrante se formou a partir dos comitês de que participa, como enfrentamento ao tráfico em nível municipal, agentes do Ministério do Trabalho, ONGs, a Pastoral, as associações de saúde, os albergues.
Agora estamos ampliando a rede com associações que cuidam de imigrantes de Angola, Equador, porque nós somos um lugar para atender imigrantes, e não só para latinos. Temos materiais em todos esses locais e temos deles também para fazer a divulgação dos serviços e apoio prestado.251
Um diferencial do trabalho do CAMI é a preocupação em estabelecer uma aproximação entre os estrangeiros e o Centro de Apoio. Para tal, utiliza um questionário como ferramenta de comunicação, em que o e/imigrante aponta seus interesses, sendo o material produzido de acordo com a demanda. Esse trabalho é realizado em organizações dos bairros e igrejas aos finais de semana.
É... e aí a gente faz aos finais de semana. Este ano ainda não começou, mas o semestre passado foi assim. Todo final de semana com oficinas informativas. De temas: regularização de situação imigratória, regularização de pessoa jurídica, segunda via de documentos, via definitiva de documentos. E para isso
249 CRAS -
Centro de Referência de Assistência Social “é uma unidade pública estatal descentralizada da Política Nacional de Assistência Social (PNAS). [...] atua como a principal porta de entrada do Sistema Único de Assistência Social (Suas), dada sua capilaridade nos territórios e é responsável pela organização e oferta de serviços da Proteção Social Básica nas áreas de vulnerabilidade e risco social. O principal serviço ofertado é o de Proteção e Atendimento Integral à Família (Paif), cuja execução é obrigatória e exclusiva. Este consiste em um trabalho de caráter continuado que visa fortalecer a função protetiva das famílias, prevenindo a ruptura de vínculos, promovendo o acesso e usufruto de direitos e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida”. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome. Centro de Referência de Assistência
Social - Cras. 22/06/2015. Disponível em: <http://mds.gov.br/assuntos/assistencia-social/unidades-
de-atendimento/ cras>. Acesso: 17/04/2015.
250 Depoimento da advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013. 251 Depoimento da advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013.
eles precisam comprovar meios de subsistência, abrir uma empresa. Então eles usam o manual, que acaba sendo um guia para essas oficinas e palestras, porque aí tem como se regularizar, como se manter no Brasil... Enfim, fala também sobre cidadania, arte. Tudo isso a partir da vontade do entrevistado, porque os cursos são montados de acordo com o que eles têm de dúvida.252
Quanto à participação dos e/imigrantes nas oficinas, aumenta gradativamente com o passar dos finais de semana, pois, ao se identificarem com os temas, fazem a divulgação dentro das comunidades.
No começo foi boca a boca mesmo. Também temos o jornal, cerca de 10 mil exemplares, também temos a rádio que faz a divulgação, na Kantuta e em festas e outras rádios também. Além da própria organização. Temos feito em Carapicuíba, Itaquaquecetuba e em outras localidades também.253
Alguns relatos mencionam a busca por ajuda financeira para se estabelecer no Brasil ou mesmo para retornar à Bolívia: “Fui até a associação, mas, é aquela coisa, eles te ajudam orientando, mas eles não dão ajuda financeira ou trabalho. Hoje não sei, mas na época eles orientavam, só isso.”254 Sobre esse fato, a
representante do Centro de Apoio comenta:
É difícil, a gente direciona para o consulado e vê o que pode fazer, nós não temos verba pra isso. É uma ação pública que vai ajudá-lo. Mesmo para se regularizar, ele que deve conseguir o dinheiro, nós não temos como. As taxas somam em torno de 200 reais, se tiver cinco pessoas na família, eles muitas vezes não têm como pagar.255
252 Depoimento da advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013. 253 Depoimento da advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013. 254 Depoimento de Franz Ever Quety Rada, em entrevista concedida à autora em 12/05/2012. 255 Depoimento da advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013.
Além do trabalho realizado nas oficinas, o Centro de Apoio executava em média 40 atendimentos por dia sobre as mais variadas necessidades dos e/imigrantes, incluindo assuntos de relacionamento com a vizinhança, reclamações de maus-tratos em serviços públicos, como escolas e departamentos de polícia, e solicitações de ordem trabalhista. Os bolivianos que efetuavam reclamações de ordem trabalhista as faziam quando deixavam de receber pela produção entregue.
[...] eles só reclamam algum direito quando deixam de pagar. Aí sim eles falam em muito trabalho, exploração e reclamam da falta de pagamento. Mas trabalho escravo, não, aqui eu nunca ouvi essa palavra. Eu ouvi uma vez de uma pessoa do Ministério Público, mas dos imigrantes não. Eles vêm reclamando por dívidas pequenas, 1.000 reais, 500 reais. Tem pessoas que falam que o patrão fala que o Brasil é muito perigoso, “Deixa que eu guardo seu dinheiro”, e depois não devolve. Ao invés de pagar, dão vales, 50 reais por final de semana. E aí eles nunca sabem quanto têm para receber. Os valores que o patrão apresenta não batem, e aí vêm reclamar porque se sentem lesados.256
As instituições religiosas que acolhem e orientam também são destacadas em depoimentos, entre elas a Igreja Nossa Senhora da Paz257, sede da pastoral do e/imigrante, mencionada por todos os colaboradores, que em algum momento de suas vidas a visitaram, participaram de missas, cultos e festas ou até cederam um pouco de seu tempo em trabalhos voluntários para acolher conterrâneos.
Acho importante para manter a cultura. A igreja tem bastante força com a comunidade. Todo último domingo do mês tem o culto em espanhol. Outros peruanos, paraguaios... também frequentam as missas. Não são só bolivianos.258
256 Depoimento da advogada Marina Novaes, em entrevista concedida à autora em 04/03/2013. 257 Localizada na Rua do Glicério, 225, Liberdade. Site: http://www.missaonspaz.org /
tel.: (11) 3340-6950.
Depois do ato litúrgico é oferecido almoço com comidas típicas e realizam-se apresentações de dança de cada país participante, dando principal destaque ao país escolhido para organizar o evento.
Eu ajudei outras pessoas, fui tocar nas associações de imigrantes de graça, para arrecadar dinheiro para ajudar. Lá no Glicério. O trabalho das associações é importante, dão orientação, ajudam a arrumar trabalho. Orientam com a documentação, dão apoio mesmo.259
O trabalho realizado pela pastoral dos imigrantes latino-americanos na Igreja Nossa Senhora da Paz de São Paulo teve início nos anos 70 com os missionários scalabrinianos. Inicialmente atendia exilados políticos do Cone Sul, chilenos, uruguaios e argentinos. E atualmente acolhe e atende paraguaios, bolivianos, colombianos, peruanos, africanos, haitianos, ganeses e outros.260
Além do serviço religioso, a pastoral oferece orientação jurídica e psicológica gratuita e disponibiliza seus espaços para manifestações culturais de diferentes tradições religiosas. Como as festas organizadas pelos e/imigrantes chilenos em julho em homenagem a Nossa Sa. do Carmo; a de Nossa Sa. de Copacabana e Urkupiña em agosto por bolivianos; a de Santa Rosa de Lima e Senhor dos Milagres em agosto e outubro por peruanos; e a de Nossa Sa. de Caacupê em dezembro pelos peruanos. Esses encontros propiciam uma maior integração entre os e/imigrantes e demais frequentadores da igreja, desencadeando outros eventos, como as novenas realizadas nas residências dos participantes no primeiro sábado de cada mês.
259 Depoimento de Clemente Amadeo Loyaza (músico), em entrevista concedida à autora em
24/11/2012.
260 Essa Pastoral surgiu de uma preocupação da Igreja Católica com a mobilidade humana e foi
expressa no documento Pastoralis Migratorum Cura, do Papa Paulo VI, em 1969. Antes desse documento a iniciativa de assistência social e religiosa a migrantes foi do Bispo de Piacenza (Itália) João Batista Scalabrini, que em 1887 fundou uma Congregação de Missionários e Irmãs para acompanhar os imigrantes italianos rumo à América. No Brasil esses grupos estão presentes em várias cidades, como: Caxias, Porto Alegre, Curitiba, Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, Guajará-Mirim, Cuiabá e podem se expandir de acordo com os interesses da igreja e necessidades apresentadas pelas comunidades. SILVA, Sidney A. da. Bolivianos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.
Eu participo das festas, por exemplo, a de Nossa Senhora de Copacabana, que é em agosto, que tem que fazer novenas. Começa em novembro e vai até agosto. Recebo a santa da Igreja da Paz, vem o padre fazer a missa aqui. E às vezes até alugo um salãozinho.261
Identifica-se na igreja a constante prática da hospitalidade262, pois acolhe a comunidade de fiéis para aproximá-los da Divindade. Considerada um lugar de hospitalidade espiritual, as práticas ali estabelecidas remetem aos ensinamentos cristãos de amar, acolher e respeitar o próximo. Uma acolhida fraternal que ajuda a inserir o e/imigrante no novo contexto.
As obras realizadas pelas instituições religiosas, sejam católicas ou não, propiciam aos e/imigrantes um pouco do conforto necessário a essa nova jornada, por se basearem nos atos da misericórdia – dar de comer, de beber, recolher, vestir, visitar e encontrar os necessitados.263 A exemplo da Assembleia de Deus do bairro
do Bom Retiro, que realiza cultos em espanhol aos sábados e domingos. Após o culto de domingo, oferece um almoço comunitário aos participantes. E inclui os e/imigrantes nas visitas realizadas aos presídios.
Nessa perspectiva, os encontros também contribuem para ampliar as redes de solidariedade entre os e/imigrantes, bem como para manter e difundir as tradições culturais dentro e fora do grupo. Desse modo, auxiliam na criação e manutenção de outras associações, como a Associação dos Residentes Bolivianos (ADRB), fundada em 1969, tendo por objetivos a promoção cultural, recreativa e social de seus compatriotas – possui uma publicação mensal e gratuita, o jornal La
Puerta del Sol. Também com os mesmos objetivos, em 1975 foi fundado o Círculo
Boliviano. Já com o aumento de costureiros em São Paulo, em 2001 fundou-se a Associação Comercial Bolívia-Brasil (Bolbra), a fim de minimizar e resolver os conflitos entre bolivianos e coreanos, empregadores e empregados do ramo das confecções. Em 2003 surgiria outra, a Federação Única dos Residentes Bolivianos
261 Depoimento de Francisca Tordoya, em entrevista concedida à autora em 08/11/2012.
262 PEROL, Céline. Amar e Agir. In: MONTANDON, Alain (Dir.). O Livro da Hospitalidade: Acolhida
do estrangeiro na história e nas culturas. Tradução de Marcos Bagno e Lea Zylberlicht. São Paulo: Editora SENAC, 2011.
263 Seis atos da misericórdia enunciados por São Mateus, enumerados nos livros de Jó (29,12-17; 31,
no Brasil (FURBRA), com o objetivo de superar as diferenças sociais e ideológicas entre os bolivianos em São Paulo.
No âmbito cultural também podem ser encontradas várias agremiações em São Paulo. O primeiro grupo foi fundado na cidade em 1976, o Raza Índia. Interpreta músicas e danças tradicionais de várias partes da Bolívia, utiliza instrumentos de sopro como a quena e a zampoña, instrumentos de corda como o charango e para percussão, o bombo.264 Um dos seus fundadores comenta o trabalho realizado pelos
atuais componentes para manter e divulgar a cultura boliviana:
Todos os grupos nasceram praticamente do meu. Eu os conheço desde o começo, conheço os mais velhos, as pessoas que começaram a dançar e a cantar a música boliviana. Obviamente que os mais velhos já não dançam, mas continuam cuidando dos grupos. Conheço seus filhos, netos, é muito bom ir aos encontros e as pessoas te reconhecerem, te cumprimentarem. Às vezes me chamam e eu toco com eles. São muito importantes, com eles a cultura não acaba. Estão sempre pesquisando para ensinar os mais jovens e dão continuidade ao trabalho que comecei. Fico feliz, eu particularmente me orgulho de ser boliviano e de trazer o orgulho para o povo boliviano.265
A fim de divulgar a cultura da Bolívia, outros grupos surgiram, com destaque para o Kantuta, fundado em 1988, que foca suas apresentações em danças tradicionais266 como a diablada, a morenada, tinkus, caporales e cueca. Já em 2003
nasceu o Sociedad Folklórica Boliviana, formado por dissidentes do Kantuta e do
264 Instrumentos musicais de sopro dos Andes (quena e zampoña), as flautas podem ser de cana,
osso ou madeira; o bombo leguero é um bumbo de couro de ovelha ou guanaco; e o charango é um instrumento cordófono de dez cordas ou mais feito com carapaça de tatu (chamado de "Quirquincho") ou de madeira.
265 Depoimento de Clemente Amadeo Loyaza, em entrevista concedida à autora em 24/11/2012. 266 As danças tradicionais bolivianas apresentadas pretendem contar um pouco da história do povo,
do processo de colonização, do cotidiano, da mineração e do cortejo entre os namorados. Como: Caporales, uma dança que se inspirou nos passos da morenada, do tundiquis, do negritos; e Saya afro – ambas satirizam o período colonial e a escravidão, representam os negros e o capataz no cotidiano das fazendas, no trabalho nas minas e na agricultura. A Cueca é dançada em pares e representa o cortejo entre os casais; já a Diablada é uma dança inspirada na lenda de Huari, um deus que representa a força do fogo e das montanhas e quis destruir os urus (um povo), mas uma divindade do bem ñusta o derrota e espanta o mal, materializado nas figuras de um sapo, um lagarto, uma víbora e formigas. A dança tem origem com os mineradores e expressa a rebeldia do povo andino em aceitar a imposição do catolicismo estabelecida pelos colonizadores. A constante luta entre o bem e o mal e os sete pecados capitais fazem parte da Diablada. INTEGRACIÓN NACIONAL: VIRGEN MARÍA ASUNCIÓN. Bolívia, nº 2, Ano 2, Difusion Nacional, agosto de 2011.
Raíces de Bolívia. A coordenadora e dançarina do Sociedad Folklórica rememorou seu primeiro contato com a dança e a música boliviana:
Quando eu tinha 6 anos, meu pai me levou à comemoração feita no Memorial da América Latina pelo Dia da Independência