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CAPÍTULO 1 – SUSTENTABILIDADE, DIREITOS HUMANOS E

1.3 SOCIOLOGIA AMBIENTAL E SUSTENTABILIDADE – ECOLOGIZANDO

A emergência das preocupações acerca da degradação dos recursos naturais e do modelo industrial de desenvolvimento proporcionou o surgimento de diversos movimentos de contestação ambiental. Dentre os movimentos que alcançaram notoriedade na comunidade internacional, destaca-se a escola sociológica ambiental norte-americana.

No entanto, ao mesmo em que discutia-se mundialmente as degradações ambientais provenientes da ingerência ecológica promovida pelo ser humano até então, a Sociologia Ambiental ainda não dispunha de um arcabouço teórico sólido, nem de um acúmulo de experiências de pesquisas que buscassem interpretar na perspectiva ambiental, a relação do homem com a natureza (FERREIRA, 2004)

No campo dos saberes que contribuíram para a sedimentação da Sociologia Ambiental, destaca-se a Ecologia Humana que surgira do estudo das mudanças do rural e urbano; a Sociologia Rural que buscava entender a relação das comunidades, tais como, pescadores, extrativistas, agricultores, lavradores dentre outros; a Sociologia dos Recursos Naturais que passou a dedicar seus estudos à gestão do Meio Ambiente; a Psicologia Social e a Antropologia Cultural pesquisando sobre atitudes e valores; a Sociologia dos Movimentos Sociais com novos sujeitos coletivos e as suas agendas; a Sociologia do Desenvolvimento, sob o prisma do Marxismo questionando o desenvolvimento econômico e a Sociologia Urbana com enfoque no Meio Ambiente construído (HERCULANO, 2000).

Na década de 1950 foram lançados dois livros fundamentais para edificação da Sociologia Ambiental, o primeiro intitulado Energy and Society (1955) de Cottrel que “versava sobre o papel das fontes de energias no formato das estruturas sociais” e o segundo, denominado

Man, Mind e Land (1960) de Firey que “enfocava a interrelação entre cultural, estrutura social

e política e as práticas de conservação” (HERCULANO, 2000, p.02).

Foi a partir da década de 1970, todavia, que a Sociologia Ambiental apareceu enquanto uma subdisciplina acadêmica específica, refletindo a respeito do ambientalismo (movimento e valores) que surgia no mundo. Nascia nos Estados Unidos, segundo Dunlap & Catton (1994), como uma reflexão sobre o despontar da percepção de problemas ambientais na mesma época. No final da década de 1970, os autores Catton e Dunlap, publicaram dois artigos apresentando uma crítica ecológica à Sociologia Contemporânea delineando a proposta da criação da Sociologia Ambiental. Argumentado em ambos artigos sobre a correlação existente entre as questões ambientais e a Sociologia, os autores criticam que historicamente a construção da base ecológica da sociedade não tenha sido nem por um momento, motivo de preocupação sociológica, caracterizando assim uma evidente negligência aos fatores ecológicos, que até então era considerada sinal de maturidade no desenvolvimento nas Ciências Sociais ( LENZI, 2019, p.17-18).

Ou seja, essa visão antropocêntrica geral compartilhada tanto pela Sociologia Clássica quanto pela Sociologia Contemporânea, certamente impediria a inclusão da análise das questões ambientais contemporâneas. Denominada pelos autores como “human exceptionalism

paradigm” ou HEP, essa visão antropocêntrica geral raramente demonstra atenção às questões ambientais, reduzindo a ideia de ambiente a um “ambiente simbólico” ou “social”.

Catton e Dunlap (1978, p.41-49) ressaltam as dificuldades enfrentadas pelos sociólogos quanto a abordagem em relação aos problemas e questões ambientais, reiterando que uma teoria sociológica e evolucionária como a de Parsons, raramente demonstraria uma “atenção” à base de recursos naturais tampouco ao ambiente.

Por essa razão, seria difícil aos sociólogos que se mantivessem fiéis a HEP, considerar a influência das leis naturais no contexto social das relações humanas, bem como, a “capacidade de suporte” do ambiente, ou ainda quando considerassem tais fatos, estabeleceriam uma certa elasticidade dessa capacidade quanto aos recursos naturais, hoje certamente questionável, dada a escassez destes dada a utilização irresponsável pelos seres humanos em nome do progresso.

Como alternativa quanto aos pressupostos apresentados pela HEP, Catton e Dunlap (1978, p.41-49) propuseram um conjunto de pressupostos extraídos, segundo os autores, de vários escritos que um pequeno número de sociólogos ambientais tinham produzido durante a década de 1970, e que tornariam a Sociologia mais sensível aos problemas ambientais, os quais eles chamaram de “New Environmental Paradigm” ou NEP.

Para uma melhor compreensão, Catton e Dunlap, estabeleceram um quadro sobre os pressupostos paradigmáticos entre o HEP e o NEP, destacando as diferenças entre ambos, o qual segue na sequência:

QUADRO 04 – PROPOSTA DE MUDANÇA PARADIGMÁTICA POR CATTON E DUNLAP

Pressupostos do Human Exceptcionalism Paradigm – HEP

Pressupostos do New Environmental Paradigm – NEP

1. Seres Humanos são os únicos entre as criaturas da terra devido a sua cultura.

1. Os seres humanos são apenas uma espécie entre muitas outras interdependentemente envolvidas na comunidade biótica que modela a nossa vida

2. A cultura pode variar indefinidamente e pode mudar mais rapidamente que os traços biológicos.

2. Ligações intrincadas de causa e efeito e feedback na rede da natureza produzem consequências imprevistas da ação humana. 3. Muitas diferenças são socialmente induzidas

antes do que congênitas, elas podem ser socialmente alteradas quando vistas como inconvenientes

3. O mundo é finito, assim há limites físicos e biológicos potenciais constrangendo o crescimento econômico , o progresso 4. A acumulação cultural significa que o

progresso pode continuar sem limites, tornando todos os problemas solucionáveis.

social e outros fenômenos societais.

Fonte: Catton e Dunlap (1978).

Segundo os autores, “estudo da interação entre o meio ambiente e sociedade é o núcleo da Sociologia Ambiental” (CATTON; DUNLAP, 1978, p.44), constituindo assim, uma definição generalizada a partir de uma concepção bastante ampla sobre a Sociologia Ambiental,

dando prosseguimento em suas ideias em um novo artigo produzido no ano de 1979, inaugurando uma distinção entre a “Sociologia das Questões Ambientais”(SQA) e a “Sociologia Ambiental” (SA), tentando fornecer uma classificação do que a Sociologia já havia produzido em relação à temática ambiental (CATTON, DUNLAP, 1979, p.243-273).

Sugerindo que os estudos advindos das áreas sociológicas tradicionais teriam servido de mola propulsora para o surgimento da Sociologia Ambiental (SA), Catton e Dunlap (1979, p.244), afirmam que a Sociologia das Questões Ambientais (SQA) serviu como uma diretriz para os trabalhos realizados na SA, ressaltando que:

[...] problemas de uso excessivo (de recursos) conduziram sociólogos dos estudos de problemas de administração e comportamento recreacional, a estudos ecologicamente mais significativos da capacidade de suporte do meio ambiente. Uma sociologia [...] do lazer em áreas selvagens e da administração de recursos começou então, a tornar- se numa sociologia verdadeiramente ambiental (1979, p.248).

Nesse sentido então, de acordo com Catton e Dunlap (1979, p.244-245), o conceito de Sociologia Ambiental pressupõe, na verdade, não o estudo que tem como maior interesse a relação entre sociedade e meio ambiente, mas sim, a relação específica entre a sociedade e os “ambientes naturais”. A Sociologia Ambiental apresenta uma tendência em ver áreas como os estudos sobre a escassez de recursos “naturais”, desastres “naturais” e áreas “selvagens” com maior relevância do que, por exemplo estudos sobre o “ambiente construído”. Ambos os autores, incorporaram acepções do pensamento ambientalista readaptando-as a partir de uma perspectiva sociológica.

Por exemplo, a concepção de Catton e Dunlap (1978) em que os seres humanos vivem em um mundo finito e que portanto, os recursos físicos e biológicos são limitados (pressuposto n. 3º do NEP, disposto no quadro supracitado) não pode ser considerada nem original, tampouco moderna. A relação que os autores Catton e Dunlap estabeleceram a partir do desenvolvimento de suas ideias entre as áreas as quais consideravam-se representantes do “ambiente natural” e a relevância que ambos atribuíram a essas áreas na Sociologia Ambiental, são muito semelhantes as preocupações com a ecologia profunda.

Barry (1999) afirma que “o objetivo geral da ecologia profunda pode ser declarado como sendo a preservação da natureza “selvagem e livre” e a limitação do impacto humano sobre a natureza como um modo de alcançar este objetivo”. Em consonância com o mesmo pensamento, para Catton e Dunlap, a Sociologia Ambiental genuína deveria se debruçar sobre os “recursos naturais” e as “áreas selvagens”, demonstrando que ao mesmo tempo em que a ecologia profunda dá-se em meio ao plano político e da experiência individual, Catton e Dunlap

abordam as mesmas perspectivas no plano sociológico.

A tentativa de ecologizar a Sociologia realizada por Catton e Dunlap se perfaz a partir da tentativa da inserção direta das ideias especificamente associadas ao pensamento ambiental assim como os conceitos provindos da ciência biológica diretamente no arcabouço conceitual da Sociologia.

Dentre as principais abordagens estabelecidas pelos autores que estariam por ecologizar a Sociologia, destacam-se: o Desenvolvimento Sustentável, a Modernização Ecológica e a Teoria da Sociedade de Risco. No caso do Desenvolvimento Sustentável e da Modernização Ecológica, ambos fornecem um discurso criativos de integração entre a economia e a ecologia, enfatizando a relação direta existente entre as atividades econômicas, industriais e os problemas ambientais.

A Modernização Ecológica parece estar em perfeita sintonia com muitos interesses esboçados para a agenda de uma Sociologia Ambiental (BARRY, 1999b), podendo ser vista a partir do uso de três tipos de conceitos. O primeiro conceito, preceitua que a Modernização Ecológica trata-se de um novo conceito que traz contribuições teóricas para um novo ramo da Sociologia – a Sociologia Ambiental. A segunda vertente, concebe a Modernização Ecológica como um conjunto de estudos da Ciência Social em geral que busca analisar as diferentes linhas de políticas ambientais propiciando um padrão mais ecológico de produção, exercendo um novo discurso ecológico que levaria a um novo “paradigma da política ambiental” (LENZI, 2019, p.44-45).

Em sua dimensão sociológica, a teoria da Modernização Ecológica pressupõe uma série de conhecimentos que buscam fornecer o entendimento quanto ao surgimento da degradação ambiental moderna avaliando de que forma tais sociedades reagem a estes problemas (MOL, 1995). A importância da Modernização Ecológica para a Sociologia Ambiental parece residir tanto na possibilidade que o tema confere quanto a integração entre economia e ecologia e a relevância que ela confere ao Estado como “condutor” dessa mudança. De certa forma, a Modernização Ecológica parte de uma crítica ao caráter fragmentário burocrático e reativo das políticas estatais ecológicas dos anos 1970, quando ela busca estabelecer um modelo de regulação estatal mais flexível e mais participativo na geração da política ecológica (YOUNG, 2000; GOULDSON; MURPHY, 1997).

Os termos Desenvolvimento Sustentável e Sustentabilidade são termos popularizados mundialmente. No caso do Desenvolvimento Sustentável, embora considerado um termo relativamente novo no vocabulário das Ciências Sociais Contemporâneas, suas origens remontam o início do século. O conceito de Desenvolvimento Sustentável integra o interesse

pelo meio ambiente e a proteção ambiental com obrigações às gerações humanas presentes e futuras, e que na visão de autores como Barry (1999a) haveria vários aspectos que estariam em sintonia com a teoria social ecológica.

Dentre estes aspectos podem ser citados: a independência humana em relação ao ambiente natural; preocupação com a existência de limites naturais externos sobre a atividade econômica humana; consideração dos efeitos perniciosos de certas atividades industriais sobre ambientes locais e globais; a consideração da fragilidade desses ambientes locais e globais à ação humana coletiva; o reconhecimento que iniciativas ligadas ao “desenvolvimento” devem ser ligadas as suas próprias precondições ambientais; e por fim, a tentativa de considerar nas decisões sobre desenvolvimento as consequências para as gerações futuras e para aqueles que vivem em outras partes do planeta (BARRY, 1999a).

Desta forma, tanto o discurso inerente ao Desenvolvimento Sustentável quanto a Modernização Ecológica, buscam a integração dos interesses econômicos com as exigências ambientais, vislumbrando uma possibilidade de reconciliação entre as atividades econômicas com a necessidades dos sistemas ecológicos num nível global.

Nessa interação de conceitos, os autores Anthony Giddens e Ulrich Beck, são considerados como os sociólogos que mais têm contribuído para a aproximação entre a Sociologia e a temática ambiental. Suas obras têm sido consideradas como ponto de partida quanto ao entendimento da degradação ambiental moderna e das mudanças e dos conflitos a ela inerentes no seio da sociedade. Pode-se salientar três pontos básicos de abordagem de ambos os autores, que podem ser vistos de alta relevância para a Sociologia Ambiental.

O primeiro deles refere-se a questão dos perigos ambientais, em que Giddens e Beck, buscam salientar o aspecto global das ameaças que a própria sociedade criou ao meio ambiente e aos seres humanos. Em segundo lugar, Giddens e Beck, ressaltam a discussão sobre os objetivos da Sociologia Ambiental, ressaltando a dependência da sociedade em relação ao conhecimento científico no que diz respeito aos problemas ambientais. Em terceiro lugar, ambos procuram extrair as consequências políticas dessas mudanças e do próprio ambientalismo nas sociedades contemporâneas (LENZI, 2019, p.47-48).

Tanto o Desenvolvimento Sustentável quanto a Sustentabilidade não são temas que tenham recebido a atenção merecida pela literatura sociológica contemporânea. Normalmente nos estudos apresentados o que se percebe é o silêncio dos autores ou então uma crítica evidente subestimando o tema diante do conceito amplo sobre Sustentabilidade, embora seja perceptível a mudança de postura por alguns cientistas sociais importantes na atualidade considerando a relevância deste debate na atualidade.

A crítica evidente é justamente quanto as definições sobre a Sustentabilidade e a falta de consenso e unicidade em torno de uma definição específica, afinal nem todos os cientistas sociais veem nessa pluralidade a importância do conceito à sua capacidade analítica e descritiva. Para Jacobs (1999a) por exemplo, a busca por um significado único sobre Desenvolvimento Sustentável é equivocada e baseada numa visão distorcida da natureza e da função dos conceitos políticos, e que a diversidade quanto a sua definição não deveria ser interpretada como sinal de falta de precisão, já que tal contestação, segundo o autor, constitui “a luta política pela direção do desenvolvimento social e político”(JACOBS, 1999a, p.26. tradução nossa).

O Desenvolvimento Sustentável, por sua vez, é um conceito contestável ao lado de muitos outros conceitos das Ciências Sociais, como a democracia, a justiça, a liberdade, o poder, a responsabilidade, o interesse, entre outros, mas que têm em comum a capacidade de se mostrarem conceitos nucleares para a vida política9. Assim como lembra Dryzek (1997) que a

relevância destes conceitos, surge exatamente da controvérsia.

Em The notion of sustentainability and its normative implications, Skirbekk (1994b) explica que a Sustentabilidade, devido a sua complexidade, requer uma visão interdisciplinar, e argumenta que “a noção de sustentabilidade é essencialmente normativa, exigindo uma discussão contínua sobre prioridades éticas” (SKIRBEKK, 1994b, p.04). Visão essa que também é compartilhada por autores como Lafferty e Languelle (1999, p.25), os quais consideram que os conceitos de Desenvolvimento Sustentável “ são todos voltados para o futuro; são todos normativos a medida em que eles dizem algo sobre como o futuro deveria ser”. Já para Jacobs “nenhum conceito de proteção ambiental é capaz de evitar juízos de valor”, portanto, “sustentabilidade é um conceito ético” (JACOBS, 1991, p.78).

Para Dobson (1998) existem duas formas básicas de trabalhar o conceito de

9 O conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, é considerado contestável diante da contradição que ambos os

termos representam. A categoria “desenvolvimento” advém da área da economia, obedecendo a lógica da maximização dos lucros, agilizando nas últimas décadas, todas as forças produtivas para extrair da Terra literalmente tudo o que é consumível, gerando uma produção fantástica de bens materiais distribuídos, explorando e empobrecendo as pessoas, dilapidando e degradando os recursos naturais. A categoria voltada a “sustentabilidade”, por sua vez, provém do âmbito da biologia e da ecologia, cuja a lógica é totalmente contrária a esta abordagem de “desenvolvimento”, uma vez que, a mesma sinaliza a tendência dos ecossistemas ao equilíbrio dinâmico, enfatizando a interdependência de todos, até dos mais fracos, constituindo juntamente ao desenvolvimento econômico, o desenvolvimento ambiental e social, de maneira integrada. Ou seja, a categoria mestra é a sustentabilidade, uma vez que, precisamos da Terra, da sociedade e da vida humana sustentáveis, para em seguida pensar em um desenvolvimento de forma plena. Entender tal equívoco, é entender o impasse enfrentado nos amplos debates inerentes às Cúpulas Internacionais, reiterando a necessidade de um despertar urgente na condução de um progresso efetivamente responsável para as próximas décadas (BOFF, Leonardo.

Desenvolvimento (in)sustentável? Disponível em : http://www.hortaviva.com.br/midiateca/bg_polenizando/

sustentabilidade. Uma delas é centrar-se a partir do conceito e outra é a que ele chama de discursiva. Nessa perspectiva discursiva, a sustentabilidade é vista como um discurso impregnando uma política ecológica contemporânea. Entretanto, considerar a Sustentabilidade ou o Desenvolvimento Sustentável um discurso, como destaca Dobson (1998), parece eximir os cientistas sociais de chegar a uma definição precisa dela. Assim, por exemplo, Lafferty e Meadcrowcroft (1999) argumentam que “este estudo não parte de uma interpretação (seja lógica ou filosófica) do que o Desenvolvimento Sustentável ‘realmente’ significa”. Posição semelhante é a de Baker et al. (1997, p.07, tradução nossa) ao sugerirem que :

Se concentrarmos nossa atenção sobre o desenvolvimento sustentável enquanto conceito social e político, ela poderá ser desviada de debates estéreis sobre o significado preciso do termo, e dirigida, ao invés disso, ao processo contemporâneo de implementação de políticas de desenvolvimento sustentável [...]. O foco é o modo específico como o significado do DS é interpretado em meio a uma diversidade de modos, desenvolvido em políticas e programas, e então reinterpretado à luz da experiência da implementação (BAKER et al.,1997, p.07, tradução nossa)

Enquanto a estratégia que busca uma definição do conceito manteria o objetivo de definir o que é o Desenvolvimento Sustentável é, procurando enquadrá-lo em alguma definição específica, a estratégia discursiva se limitaria a descrever a forma pela qual o conceito é utilizado por agências, governos e atores sociais dos mais diferentes tipos.

Desta forma, ambas as perspectivas de abordagem ao conceito apontam problemas. A estratégia que busca uma definição precisa para o Desenvolvimento Sustentável, arrisca introduzir uma nova concepção em meio a uma infinidade de outras já existentes, enquanto a estratégia discursiva, por sua vez, não aponta qualquer direcionamento futuro do conceito de Sustentabilidade, correndo o risco de simplesmente refletir seu uso corrente, sem iluminar suas fraquezas e potencialidades futuras.

Em razão dessas fragilidades Dobson (1998), propõe outra abordagem tipológica para a Sustentabilidade com a vantagem de tornar explícitos os componentes que todo e qualquer conceito de Sustentabilidade contém, sendo estruturada a partir das questões e respostas que perpassam pela literatura sobre o tema. Segundo o autor, todas as concepções de Sustentabilidade que hoje existem poderiam ser resumidas em apenas três tipos: a Sustentabilidade como manutenção do capital natural crítico; a Sustentabilidade como preservação da natureza irreversível; e por fim, a Sustentabilidade como manutenção do valor natural.

O conceito “A” inerente a Sustentabilidade como manutenção do capital natural crítico, vislumbra inserida em seu conceito, algumas definições de grande relevância. Para

Dobson (1998), o capital natural crítico, é antes de tudo, uma forma de capital, que articulada a partir da visão de Marx, é considerada:

[...] matéria-prima, instrumento de trabalho e meios de subsistência de todos os tipos, que são empregados para produzir novas matérias-primas, novos instrumentos de trabalho e novos meios de subsistência de todos os tipos (MARX apud DOBSON, 1998, p.40).

A dimensão natural desse capital diz respeito às propriedades do meio ambiente que não são produzidas pelo ser humano. Como o autor observa, a natureza é “considerada como ‘matéria-prima’ e, então, como um ‘bem econômico’ na concepção ‘A’ da sustentabilidade ambiental (DOBSON, 1998, p.41).

A dimensão crítica contida nesse discurso sobre Sustentabilidade se deve ao caráter precondicional que essas formas de capital possuem para a vida e as práticas sociais humanas, conforme Dobson (1998) esclarece :

[...] essa concepção de sustentabilidade ambiental (SA) está interessada em sustentar um aspecto ou traço particular do capital natural, qual é o melhor modo de descrever este aspecto ou traço? As respostas a esta questão que emergem da literatura são melhor capturadas, indubitavelmente, pelo termo “capital natural crítico” [...]. “Crítico” deve ser entendido aqui, primariamente, em termos de “crítico” para a produção e reprodução da vida humana, e isto nos chama a atenção na direção do capital natural cuja presença e integridade é precondicional para a sobrevivência (DOBSON, 1998, p.43, tradução nossa).

Desta forma, o capital natural crítico diz respeito a materiais, processos ou serviços ambientais que são essenciais à sobrevivência e ao bem-estar humano e que não podem ser produzidos pelos seres humanos. O que não impede que eles não possam vir a sofrer o impacto de nossas práticas ou a ser objeto de nosso controle.

O conceito “B”, denominado Sustentabilidade como preservação da natureza irreversível, destaca que o que deve ser sustentado são os processos ou as propriedades do meio ambiente natural que são considerados irreversíveis. Irreversíveis, no entanto não necessariamente vitais para a sobrevivência e o bem-estar humanos, mas sim aspectos inerentes ao ambiente, que uma vez destruídos ou consumidos, não podem mais ser recriados de modo algum. Natureza irreversível, segundo Dobson (1998, p.47), diz respeito a

[...] objetos naturais, substâncias que surgem naturalmente, natureza orgânica e