3. Da educação e formação de adultos ao desenvolvimento vocacional e da cidadania
4.5. Análise da qualidade psicométrica dos questionários utilizados
4.5.2. A Sociopolitical Control Scale, de Zimmerman & Zahniser (1991)
A Sociopolitical Control Scale (SPCS) é uma escala composta por duas subescalas: competência de liderança, relacionada com competências específicas, e controlo
político, referente às expectativas de participação. Convirá notar que, ainda que não meçam todos os seus aspectos, as duas subescalas, associadas, representam uma parte significativa do controlo sociopolítico (Zimmerman & Zahniser, 1991).
De acordo com os autores, a SPCS possibilita a determinação de quatro perfis teóricos:
(1) Elevada competência de liderança e elevado controlo político: indicará provavelmente indivíduos que revelam já um desenvolvimento de competência participativa e de empoderamento135 psicológico.
(2) Elevada competência de liderança e reduzido controlo político: dirá respeito àqueles que, mesmo portadores de competências de liderança, não crêem que um indivíduo possa influenciar decisões políticas.
(3) Reduzida competência de liderança e elevado controlo político: caracteriza aqueloutros que, podendo ser activistas, não são promotores da acção de outrem.
(4) Reduzida competência de liderança e reduzido controlo político: este perfil é congruente com a alienação, não envolvimento ou até desinteresse por aspectos da comunidade.
O controlo sociopolítico refere-se às crenças acerca das capacidades e eficácia pessoais nos sistemas social e político, tal como, crença de que o indivíduo pode influenciar as decisões políticas, liderar um grupo ou organizar um conjunto de vizinhos. Um baixo
controlo sociopolítico indicia alienação da vida da comunidade, apreensão relativamente à participação nas organizações comunitárias e não envolvimento nas decisões políticas locais. Será importante referir, todavia, que o controlo sociopolítico é apenas um de três factores do controlo percebido [dimensão que inclui componentes da personalidade, cognitivas e motivacionais (Zimmerman, 1986)], bem como o controlo pessoal e o interpessoal (Paulhus, 1983). Na verdade, um indivíduo pode ter um elevado controlo interpessoal e um reduzido controlo sociopolítico. (Zimmerman & Zahniser, 1991)
A SPCS distingue-se de outras medidas globais do controlo percebido pelo facto de as suas subescalas se referirem à acção no domínio público e se relacionarem com o construto teórico de competência participativa, que consiste numa combinação de atitudes, entendimentos e capacidades necessárias a um desempenho efectivo no ambiente sociopolítico (Kieffer, 1984). Ainda de acordo com o mesmo autor, a competência participativa compreende três elementos que se interseccionam: (i) competência percebida e auto-eficácia, (ii) construção de um entendimento crítico do ambiente sociopolítico e (iii) conjunto de recursos pessoais e colectivos para a acção política. De facto, prevê-se que a participação na vida comunitária esteja directamente relacionada com o controlo sociopolítico, que é provavelmente uma componente crítica do empoderamento psicológico, que se caracteriza por competência pessoal, controlo e vontade de exercer controlo sobre a própria vida. (Zimmerman & Zahniser, 1991)
Concluindo, interessará relevar que a SPCS representa dois aspectos centrais da competência participativa, a competência percebida e a auto-eficácia, bem como dois aspectos do empoderamento psicológico, crença na competência e eficácia pessoais e
vontade de envolvimento em actividades tendo em vista uma satisfação intrínseca, o exercício de controlo no ambiente social e político (op. cit.).
Como antes mencionado, a escala original de Zimmerman & Zahniser (1991) recorria a uma escala Likert de 6 pontos (variando entre “discordo fortemente” e “concordo fortemente”); neste estudo, passou a utilizar uma escala de 7 pontos, também quanto à concordância, mas substituindo o advérbio “fortemente” por “totalmente”.
A análise factorial em componentes principais, após rotação varimax, da SPCS, evidenciou uma nova estrutura da escala composta por três factores bem definidos e teoricamente consistentes: (i) competência e interesse político (confiança), (ii) alienação pessoal e (iii) desconfiança na responsividade do sistema. Foram eliminados os itens 3 e 15, pelo facto de não saturarem qualquer factor, bem como o item 12, uma vez que a sua inclusão no novo factor não oferecia consistência teórica nem tão-pouco interna (além do mais, a sua saturação era reduzida e semelhante em dois dos factores, .313 e .296). (Quadro 4.09)
Pode considerar-se que a análise confirmatória (Figura 4.02) atestou a validade da estrutura interna da escala, com índices de ajustamento bastante satisfatórios (Quadro 4.10).136 Para além disso, motivou a eliminação dos itens 16 e 11, na medida em que a
saturação de ambos era inferior a .30. No que respeita aos valores de alfa de Cronbach, convirá salientar que são satisfatórios (superior a .60), à excepção do verificado para a
136 Também aqui se testou a estrutura teórica original do instrumento, no entanto, os índices de
subescala da “desconfiança na responsividade do sistema”, que, contudo, é constituída apenas por 3 itens (Quadro 4.11).
Pelo facto de nenhum item ter apresentado uma concentração de respostas superior a 60%, pode concluir-se que todos os itens revelam um elevado poder discriminativo.
Quadro 4.09
Análise factorial da SPCS em componentes principais com rotação varimax (N=168).
Factor
Escala original 1 2 3
10 líder nos grupos Liderança ,689 7,253E-02 -8,975E-02 13 organizar pessoas fazer coisas Liderança ,619 1,603E-02 -,126 4 outras pxas seguem ideias Liderança ,584 ,150 -,159 14 pxas como eu bem qualificadas participar Controlo político ,554 -,182 ,234
1 líder a seguidor Liderança ,522 -8,729E-02 -,205
16 mtas formas influenciar governo faz Controlo político ,495 -9,730E-02 ,269 11 gosto de participar politica/ funciona/ governo Controlo político ,443 -,399 8,325E-02 9 eleições locais importantes preocupar c/ elas Controlo político 9,916E-03 ,705 ,110 8 prefiro n/ tentar bom a fazê-la Liderança 8,104E-02 ,631 ,135 7 assuntos orgs locais participo ou não Controlo político 1,649E-03 ,625 5,744E-02 6 problema outra px resolver n/ me incomodar Liderança -2,504E-03 ,608 1,443E-02 3 compreensão boa assuntos políticos Controlo político ,296 -,308 -6,562E-02 15 difícil falar em frente a um grupo Liderança -,126 ,213 ,108 2 políticos governo complicados perceber o q se passa Controlo político -,129 -7,380E-03 ,658 5 quem ganha eleições faz o q quer Controlo político -5,066E-02 ,141 ,649 17 > parte políticos n/ me ouviria independente/ fizesse Controlo político 9,383E-02 ,209 ,629 12 outra px assumisse liderança grupo Liderança -,163 ,296 ,313
Figura 4.02. Diagrama da SPCS obtido através da análise confirmatória. Quadro 4.10 Índices de ajustamento da SPCS. SPCS RMR .191 GFI .954 AGFI .929 CFI .982 RMSEA .020
Quadro 4.11
Valores do alfa de Cronbach para os 3 factores da SPCS.
Cronbach Factores Exemplos Nº de itens 1ª adm. N=168 Competência e interesse político (confiança)
Sou frequentemente um líder nos grupos.
As pessoas como eu são geralmente bem qualificadas para participar em actividades e tomadas de decisão políticas relativas ao nosso país.
5 .62
Alienação pessoal
Prefiro não tentar fazer alguma coisa quando sinto que não sou bom(a) a fazê-la.
Há tantas pessoas que se envolvem em assuntos e organizações locais, que não é importante se participo ou não.
4 .63
Desconfiança na responsividade do sistema
Dificilmente faz alguma diferença em quem eu voto, uma vez que quem quer que ganha as eleições faz aquilo que quer. Por vezes, os políticos e o governo parecem tão complicados que uma pessoa como eu não consegue realmente compreender o que se passa.
3 .51
4.5.3. O Questionário sobre Experiências de Participação, de Ferreira & Menezes