PARTE I – PROVA, VERDADE E DECISÃO
2.2 A OPERACIONALIZAÇÃO DO JUÍZO PROBATÓRIO
2.2.3 Sofisticando a abordagem explicacionista: a proposta de Susan Haack
O contexto em que o presente trabalho se insere (como já apontado supra, 1.3.1) é o de justificação, na medida em que o que importa para a tomada de decisão acerca da prova dos fatos é a justificabilidade objetivamente defensável desta decisão (não o convencimento subjetivo imperscrutável de qualquer sujeito).
Nesse contexto, é bastante sofisticada a proposta de Haack182 de que se considerem — simultaneamente — três dimensões, especificadas pela autora, na tomada de decisão sobre a justificabilidade da hipótese fática a ser dada como provada: (a) o grau de segurança independente de cada um dos dados considerados, (b) a medida em que os dados reunidos no processo (somados àqueles que fazem parte do background knowledge) incluem todos os dados pertinentes que haveriam de ser levados ao processo e, ainda, (c) a medida em que estes dados oferecem suporte à decisão. Chamar-se-á “a” de segurança independente; “b” de
compreensividade ou inclusividade ou completude e “c” de suportividade.
179 Em termos semelhantes: LAUDAN, Larry. Aliados... Op. cit., p. 110, acentuando ainda que a melhor
explicação não se sujeita a contexto, sendo a melhor em qualquer caso (no contexto científico, histórico, clínico e, por igual, no processo civil ou no processo penal), ao passo que os standards de prova são sensíveis ao contexto, pois se referem ao grau de força probatória demandado em uma situação específica, variando de acordo com certos fatores a serem considerados em cada qual dos contextos, uma vez que servem ao modo de distribuição de erros (e custos e benefícios associados a erros e acertos) que se considera adequado naquele contexto.
180 FERRER BELTRÁN, Jordi. Prueba… Op. cit., p. 73-78.
181 V. 1.2.1 e 1.2.2 supra.
182 HAACK, Susan. El probabilismo jurídico… Op. cit., p. 78 et seq.; HAACK, Susan. Warrant, Causation and the Atomism of Evidence Law. Episteme, v. 5, n. 3, p. 253-265, 2008, p. 258 et seq.
Haack esclarece183 que sua proposta inclui “integração explicativa” semelhante à da IME, mas adverte para diferenças entre a sua proposta e a de Allen. A primeira é a de que a proposta de Haack não é unidirecional (como seria a IME),
mas expressamente multidirecional, ou seja, procura-se tanto a capacidade
explicativa que a hipótese tem em relação aos dados a serem considerados como evidências (top-down) quanto a capacidade de que os dados potencialmente consideráveis como evidências expliquem a hipótese (bottom-up). Em termos simplificados, na proposta de Haack é expresso que se testa tanto a capacidade explicativa da hipótese em relação à evidência quanto a capacidade explicativa da evidência em relação às hipóteses em competição.
A outra diferença da proposta de Haack é que a autora frisa184 que a integração explicativa por ela proposta não é uma questão de otimização (ou seja, não se está procurando pela melhor explicação), mas de grau. Além disso, Haack defende que a “integração explicativa” por ela proposta desempenha seu papel na explicação do grau de apoio que as evidências dão à hipótese (ou seja, na suportividade), sendo esta apenas uma dimensão do grau de qualidade das provas, de modo que sua proposta inclui considerar ainda a segurança independente das provas e a completude das provas.
Com o recurso a essas três dimensões (segurança independente,
inclusividade ou completude e suportividade) da medida em que a adoção de uma
hipótese é justificada, a proposta de Haack permite uma boa resposta à objeção de circularidade185 que poderia ser oposta a uma teoria da prova que aprecie a qualidade da prova exclusivamente com base no suporte entre provas e hipóteses. Com efeito, na medida em que se há de apreciar não só o suporte entre provas e hipóteses, mas também a segurança independente das provas e a compreensividade da prova colacionada (considerado o conhecimento de mundo que informará a respeito de o que minimamente se deve ser capaz de reunir para a prova de um determinado fato em determinadas circunstâncias), será preciso recorrer ao background knowledge, que encontra fundamentos não na coerência entre os elementos reunidos, mas na experiência.
183 HAACK, Susan. El probabilismo jurídico… Op. cit., p. 79, nota 78.
184 Ibidem
185 Idem. Evidence and Inquiry: a Pragmatist Reconstriction of Epistemology. 2. ed. Amherst: Prometeus, 2009, p. 14.
Para ilustrar as virtudes de sua teoria, Haack se utiliza da metáfora das palavras-cruzadas186: as pistas fornecidas pelo jogo de palavras-cruzadas para o preenchimento de cada campo são equivalentes às provas concretamente produzidas; as letras já completadas por quem está resolvendo as palavras-cruzadas equivalem ao suporte mútuo entre evidências e hipóteses. As pistas fornecidas pelo jogo de palavras-cruzadas fornecem segurança independente a cada palavra que se pode sustentar como cabível em determinado campo diante daquelas pistas. Por sua vez, cada preenchimento feito por quem está resolvendo as palavras cruzadas é interdependente dos outros preenchimentos já feitos por ele ou por fazer, ou seja, dependem de suporte mútuo. O suporte é tanto maior quanto menos espaço resta para hipóteses alternativas. E, ainda, quanto mais segurança individual uma pista dá de que uma certa hipótese de preenchimento do campo deva ser efetivada, mais essa hipótese dá suporte para palavras que cruzem com ela e que sejam com ela compatíveis e mais suporte ela retira de possíveis palavras que cruzem com ela e que são com ela incompatíveis.
Como observa Haack, a metáfora das palavras-cruzadas não ajuda muito na compreensão do papel da compreensividade ou inclusividade ou completude da prova produzida. Esta dimensão da qualidade da prova é mais negativa: a falta de completude da prova aponta quando não está justificado aceitar uma hipótese como provada, por causa da ausência de alguma prova relevante.187
O que é uma prova relevante (e a respectiva ausência que faz do conjunto probatório incompleto) e se a prova contém segurança individual são avaliações a serem feitas a partir de um conhecimento de mundo compartilhado (background
knowledge), o que permite o contato com a realidade e uma resposta à circularidade
da suportividade.
A proposta de que as três dimensões (segurança independente, inclusividade
ou completude e suportividade) devam ser apreciadas para a avaliação da medida em
que a adoção de uma hipótese é justificada denota o caráter gradativo da justificação: será tanto mais justificado adotar uma hipótese quanto mais as provas que a suportam tenham segurança individual e sejam completas. A força ou a fraqueza de cada uma destas três dimensões aumenta ou diminui a justificabilidade da hipótese.
186 HAACK, Susan. Evidence and Inquiry… Op. cit., p. 126-130.
Em última análise, portanto, ainda uma proposta epistemológica sofisticada e multidimensional acerca dos fatos que levam à maior ou menor qualidade da evidência reunida não é hábil a fornecer uma “receita” para a complexa apreciação jurídica da prova.
No contexto de justificação da decisão, como já apontado ao final da seção 2.2.2, supra, a pergunta relevante é o que deve ser aceito como provado188 ou tido
como verdadeiro189 para fins de tomada de decisão.190 E responder a esta pergunta
inclui decidir (também fundamentadamente) qual é o standard de prova a ser concretizado no caso e se ele foi preenchido pelo material produzido nos autos, aliado
ao background knowledge. A par da questão epistêmica, que oferece ferramental para
o conhecimento acerca dos fatos (o que é da maior importância na medida em que se assume191 que a finalidade institucional da instrução probatória é a busca da verdade dos fatos pertinentes à decisão da causa),192 o processo de decisão acerca dos fatos envolve também decisão. E essa decisão, além de fundamentos epistêmicos, tem também fundamentos político-morais, que devem coincidir com os albergados pelo ordenamento jurídico em que a decisão se insere.