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I- INTRODUÇÃO

2.3. Sofrimento Trabalho de enfermagem: repercussões sobre o processo de

No setor de saúde, o processo de trabalho não gera, como produto final uma mercadoria específica, mas sim um serviço. Assim, o trabalho de enfermagem é caracterizado pela produção de serviço (cuidado) e como tal, um produto complexo, quando comparado à produção de bens ou mercadoria. Seu produto é com o indivíduo sadio ou enfermo e é um resultado do trabalho dos componentes da equipe de enfermagem e outros profissionais da saúde (Benito, 1994).

Todo trabalho, seja produtor de mercadoria ou serviço, deve gerar satisfação para o trabalhador. Isso é condição para que o ser humano realize-se como ser social. A satisfação é um aspecto que influencia o desenvolvimento, tanto pessoal como o desenvolvimento de seu trabalho.

Lunardi e Lunardi Filho (1999), citando Silva (1992), colocam que o trabalho também poderá significar escravidão, exploração, sofrimento, doença e morte, quando o ser humano é utilizado como meio vivo de produção e no servir, principalmente quando as suas ações forem de obediência e ausência de liberdade e quando ocorre a exploração máxima do trabalho.

Para Santos e col. (1988), a projeção de uma imagem positiva de seu trabalho e a ocupação de um espaço profissional são questões buscadas pela maioria das pessoas que trabalham e isto é um ponto essencial à auto-realização do ser.

do enfermeiro trazem, como conseqüência, sentimentos de frustração, insatisfação e amargura. A questão da imagem profissional da enfermagem faz sentir-se, no dia-a-dia, como conseqüência a baixa remuneração, falta de status, queda do nível de ensino nas escolas de enfermagem, falta de participação política, desvalorização da categoria e desgastes (Santos e col., 1988).

O problema da imagem profissional do enfermeiro diz respeito a todos os enfermeiros e, ao mesmo tempo, a cada um deles em particular, pois a imagem do grupo é reflexo direto da imagem profissional individual. Cabe a cada enfermeiro, individualmente, a responsabilidade da projeção de uma imagem profissional positiva para que a imagem global possa, conseqüentemente, ser transformada (Santos e col., 1988).

Ratificando essa idéia, Clark (1986) diz que é necessário que os enfermeiros examinem a origem de seus sentimentos sobre si mesmos e sua profissão, aliviando toda a bagagem emocional negativa, tomando-se mais ativos e positivos, ao invés de alimentarem auto-compaixão. Assim, estarão contribuindo para mudanças efetivas na imagem profissional.

Os indivíduos com um auto-conceito positivo estão mais aptos a realizarem suas aspirações, seu trabalho e são, geralmente, mais saudáveis e mais produtivos do que aqueles com um auto-conceito mais negativo (Francis & Munjas apud Hammer & Tufts,

1985, in Santos e col., 1988).

O estereótipo do enfermeiro mantido pela sociedade afeta a qualidade de pessoas ingressantes na profissão. Observa-se isso através de alunos que ingressam nos cursos de enfermagem tendo, como primeira opção, outra escolha que não a enfermagem. Isto parece significar desinteresse dos estudantes em ingressarem na profissão, o que por sua vez pode ser resultado de uma imagem profissional estereotipada. A imagem estereotipada,!^^ mais as questões de auto-estima podem acarretar um baixo grau de auto-realização, alterando o processo de viver saudável destes alunos, como profissionais (Santos e col, 1988.)

Lunardi Filho (1998) escreve que o trabalho e a sublimação são pontos fundamentais para uma saúde mental. Quando o trabalho não permite as sublimações, ocorre o impedimento da satisfação e prazer no trabalho. Acrescentado a esta questão da sublimação. Santos (1997) escreve que, mesmo que esta ocorra como mecanismo de

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proteção psíquica, ainda há que se considerar a possibilidade da mesma configurar-se como defesa conservadora, isto é, constituir-se como alienação.

Lunardi Filho (1998) vai além, neste sentido, e escreve que a sublimação não tem vez num trabalho desqualificado o que dificulta a articulação, pelo indivíduo, na busca de seu reconhecimento social.

Um trabalho por suas características próprias, muitas vezes, já é fonte de tensões e ' isso, aliado a uma imagem “indesejada”, leva a um incremento das dificuldades e a um esgotamento da energia, resultando em pouca saúde laborai. Aparecem o cansaço, as somatizações, os hábitos prejudiciais (vícios), o que acaba gerando sofrimento no profissional.

Chanlat (1993), citado por Lunardi e Lunardi Filho (1999), afirma que a qualidade de vida nas organizações atuais deixa muito a desejar. Estes locais, muitas vezes, são propícios ao sofrimento, á violência física e psicológica, ao tédio e, mesmo ao desespero. Isso porque na maioria das organizações, ocorre um acelerado crescimento tecnológico, sem, no entanto, ocorrer um crescimento humanístico equivalente (Lunardi Filho, 1998).

Esta realidade não é muito divergente da realidade das instituições hospitalares, na qual valorizam mais a tecnologia de ponta do que as pessoas que ali labutam diariamenté.

Retomando Lunardi Filho (1999), este autor apresenta que as relações entre sofrimento e organização não se direcionam sempre no sentido da promessa de felicidade no mundo exterior e promessa de infelicidade, enquanto no interior da empresa. Neste sentido, Dejours (1993) apud Lunardi Filho (1995) relata que existem dois tipos de sofrimento: o sofrimento criativo (em que o sujeito elabora situações priativas para mediar

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o processo do trabalho-sofrimento, e aí o trabalho passa a ser fonte de prazer) e o sofrimento patológico (as soluções não são criativas, a produção fica baixa e a saúde fica abalada). Isto ocorre, quando o trabalho se opõe á livre atividade do aparelho psíquico, uma vez que este depende do seu livre funcionamento, dialeticamente articulado com o conteúdo da tarefa, expresso, por sua vez, na própria tarefa e revigorado por esta.

Santos (1997) acrescenta que a percepção do desgaste com as condições de trabalho, a sensação de esgotamento psíquico, que as auxiliares de enfermagem expressam, revelam seu sofrimento com os limites da organização. Também, relata que a ocorrência de freqüentes doenças entre este grupo profissional, assim como o uso de psicotrópicos

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podem ser indicadores de fraturas nos mecanismos de defesa .

/P a r a Lunardi e Lunardi Filho (1999) o trabalho da enfermagem, caracterizado pelo predomínio do cuidado de pessoas doentes, é desenvolvido de modo contínuo, ou seja, é um trabalho cotidiano. Nele os profissionais se deparam com dores, perdas, sofrimento e morte, impondo sofrimentos e desgastes tanto físicos como mentais a quem o executa. Estes sofrimentos e desgastes, aliados à forma de organização do trabalho, que muitas vezes é percebida como autocrática e autoritária, portanto limitadora da criatividade, levam os trabalhadores a não serem sujeitos de seu próprio comportamento e fazer profíssional^

Em estudos anteriores (1995, 1997), o autor afírma que a percepção da realidade vivenciada por enfermeiros em relação ao trabalho, somada à impossibilidade de prestar

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um atendimento dentro das condições mínimas de qualidade, criam sentimentos que contribuem, num movimento de circularidade, para o sofrimento no trabalho, com repercurssões tanto na qualidade de vida do profíssional enfermeiro, como no trabalho e fora dele, como nos seus sentimentos de bem-estar.

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Ao meu ver, uma forma de sublimação utilizada pelo enfermeiro é preocupar-se mais com a saúde do cliente, ao invés de preocupar-se com a sua própria saúde. É expressar cotidianamente seu bem estar, parecendo que é um super herói, sem dor, uma “estátua de ferro”, que não sofre desgastes. Em relação a isto, Lunardi e Lunardi Filho (1999^ escrevem que, “o sofrimento, no cotidiano das exigências da profíssão, leva, historicamente, muitos trabalhadores a (des)cuidarem-se de si como um ser (humano) que também tem possibilidades de viver, ser e sentir-se saudável”.

André & Silva (1999, p. 370), em seu artigo, escrevem que a

“felicidade não está centrada no trabalho e nos ganhos obtidos se o emocional, que sustenta a vida cotidiana, entrar em desequilíbrio. O trabalho, por si só, não lhes garante a harmonização subjetiva:(...). A auto-imagem estruturada no é pelo trabalho esconde muitas situações signifícativas pelo seu duplo papel com reflexo profundo na vida, expresso em sofrimento e desgaste biopsíqúico”.

|Lunardi Filho (1997), quando se refere ao trabalho em saúde e ao trabalho da enfermagem, reflete que a falta de eco aos apelos e o descaso para com os problemas sentidos, o trabalho tendo que ser realizado, mesmo sem condições ou dispondo de alguma

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condição, somente após muita insistência, geram sentimentos de indignação. Continua este autor relatando que a relação autocrática e ameaçadora dos superiores em relação aos sulbaltemos, gera sentimentos hostis. A impotência e o medo de atitudes de represálias e/ou punitivas e a necessidade de manter o emprego abafam qualquer manifestação, conduzindo a um sofrimento intenso, traduzido por tristeza, mágoa e arraso. Percebe-se assim o descrédito e a falta de reconhecimento, colocando o sujeito num processo de castração que inviabiliza as tentativas de mudança e inovações.

Lopes (1988), afirma que a enfermagem vive uma realidade de dupla opressão: realiza seu trabalho a partir de uma visão idealizada da profissão que se contrapõe a um dia-a-dia que nada tem de poético. A realidade mostra um ramo de trabalho explorado, gerador de tensões, com carga excessiva de trabalho, mal remunerado e com pouco poder de barganha, frente à classe dominante.

As influências do trabalho não se atrelam somente ao seu âmbito. Têm repercussões extra-trabalho, na vida pessoal e privada do trabalhador. Na enfermagem, esta realidade é bem evidente. O horário noturno é desgastante e gera transtornos orgânicos, como alteração do sono, da alimentação, etc. Os plantões de doze horas, são percebidos como um sofrimento, principalmente, aos domingos e feriados porque impõe restrições á vida familiar e social, cuja organização se dá em função dos horários de trabalho, bem como as justificativas para não se fazer presente aos diversos eventos, também são do âmbito do trabalho. Acrescidos a isto tudo, vem a relação com o salário, que se constitui em fator de sofrimento, pelo baixa remuneração oferecida ao enfermeiro (Lunardi Filho, 1997).

Na enfermagem, outro fator de angústias e sofrimento, são as constantes trocas de setores que, na maioria das vezes, não passa pela discussão com o enfermeiro que vai ser remanejado. A falta de material disponível, o excesso de tarefas e de deveres, as cobranças recaem sobre a categoria em detrimento de outras, ou seja, o pouco tempo para o contato direto com o paciente e as críticas constante ao trabalho de enfermagem, tanto interna como externamente, fazem o enfermeiro sofrer.

Com efeito, Lunardi Filho (1997) afirma que grande parte do sofrimento do trabalho da enfermagem reside na organização do trabalho e, especialmente, nas condições de trabalho, de forma real, dramática e quase absoluta. As condições de trabalho são impeditivas do prazer e geradoras de sofrimento e parecem suplantar ou relegar a um plano

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secundário, até mesmo, os sofrimentos decorrentes de sua forma de organização.

A organização do trabalho atinge dois pontos: o conteúdo das tarefas e as relações humanas. Observa-se que não só ataca o corpo das pessoas, mas também a cabeças delas, bem como sua própria alma. O estudo sobre organização do trabalho mostra um paradoxo: de um lado, a organização do trabalho e do outro o funcionamento mental, mostrando que há organizações que são hábeis e perigosas para o funcionamento mental .Estas organizações atacam o funcionamento mental, ou seja, o desejo do trabalhador. E quando este desejo é atacado, provoca perturbações, sofrimentos e, eventualmente, doenças mentais e físicas (Dejours, 1986).

Medeiros e Tavares (1997) acrescentam a isso que, de fato , a maior parte dos enfermeiros ainda se concentra nos serviços de caráter institucionais, que exigem deles um trabalho alienado e que atenda aos seus interesses das instituições. Por outro lado, o trabalho em saúde parece não ser ainda um trabalho em equipe, pois não se articula de forma harmoniosa em que as categorias busquem um planejamento de atividades conjuntas para elaborarem uma melhor assistência.

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