3.7
Solu¸c˜oes de onda de choque e propriedade de irre-
dutibilidade
Utilizando a propriedade de irredutibilidade e o Teorema 3.6.1, apresentaremos um resultado de existˆencia de perfil viscoso para sistema de leis de conserva¸c˜ao assintoti- camente lineares. Os resultados descritos nesta Se¸c˜ao encontram-se em [11].
Sejam f : Rn→ Rn e h : Rn→ Rn fun¸c˜oes de classe C1 e consideremos a equa¸c˜ao
Dt(h(u)) + Dx(f (u)) = 0, (3.29)
sendo que Dte Dx representam as derivadas parciais em rela¸c˜ao a t e x respectivamente
e u = u(t, x)∈ Rn ´e uma fun¸c˜ao de t∈ R e de x ∈ R.
A equa¸c˜ao (3.29) ´e chamada sistema de leis de conserva¸c˜ao. Na maioria dos casos, a fun¸c˜ao h ´e tomada como fun¸c˜ao identidade.
Sejam u0, u1 ∈ Rne s∈ R. Por uma solu¸c˜ao de onda de choque de (3.29), denotada
por (u0, u1, s), entenderemos uma fun¸c˜ao ¯u : R× R → Rnconstante por partes definida
por ¯ u(t, x) = u0, para x− st < 0 u1, para x + st > 0 (3.30) e que satisfaz a condi¸c˜ao
s· (h(u1)− h(u0)) = f (u1)− f(u0). (3.31)
A condi¸c˜ao acima ´e freq¨uentemente chamada condi¸c˜ao de Rankine-Huguniot e o n´umero s ´e chamado velocidade da onda.
A equa¸c˜ao (3.29) ´e uma equa¸c˜ao diferencial parcial de primeira ordem. Sejam ǫ0 > 0, ǫ ∈ (0, ǫ] e P uma aplica¸c˜ao suave com dom´ınio em Rn e que assume valores
no conjunto das matrizes definidas positivas. Consideremos uma perturba¸c˜ao de (3.29) atrav´es da adi¸c˜ao de um termo de viscosidade ǫDx(P Dxu):
84 Cap´ıtulo 3 — Propriedades do ´ındice de Conley Uma fun¸c˜ao (t, x, ǫ) 7→ ˜u(t, x, ǫ) ´e chamada solu¸c˜ao de onda progressiva de (3.32) se existem s∈ R e uma aplica¸c˜ao u : R → Rn de classe C1 tais que
˜
u(t, x, ǫ) := u((x− st)/ǫ)
e, para todo ǫ∈ (0, ǫ0], ˜u(·, ·, ǫ) satisfaz (3.32) no sentido cl´assico.
Apresentaremos a seguir uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma dada fun¸c˜ao u gere uma solu¸c˜ao de onda progressiva.
Lema 3.7.1. A aplica¸c˜ao ˜u ´e uma solu¸c˜ao de onda progressiva de (3.32) se, e somente se, a aplica¸c˜ao u satisfaz a equa¸c˜ao diferencial ordin´aria
˙u = P−1(u)(−s · h(u) + f(u) + c), (3.33) para alguma constante c∈ Rn.
Demonstra¸c˜ao. Seja u : R → Rn uma fun¸c˜ao de classe C1 e seja s ∈ R. Definamos
˜
u(t, x, ǫ) := u((x− st)/ǫ) e suponhamos que ˜u seja uma solu¸c˜ao de (3.32). Portanto, Dt(h(˜u)) + Dxf (˜u) = ǫDx(P (˜u)· Dxu). Calculando as derivadas, temos˜
Dh(˜u(t, x))∂ ˜u ∂t(t, x) + Df (˜u(t, x)) ∂ ˜u ∂x(t, x) =ǫDP (˜u(t, x)) · ∂ ˜u ∂x(t, x) ¸2 + ǫP (˜u(t, x)∂ 2u˜ ∂x2(t, x) Ent˜ao −sǫ−1Dh µ uµ x − st ǫ ¶¶ u′µ x − st ǫ ¶ + ǫ−1Df µ uµ x − st ǫ ¶¶ u′µ x − st ǫ ¶ = ǫ−1DP µ uµ x − st ǫ ¶¶ · u′µ x − st ǫ ¶¸2 + ǫ−1P µ uµ x − st ǫ ¶¶ u′′µ x − st ǫ ¶ . Fazendo a mudan¸ca de parˆametros τ = (x− st)/ǫ, temos
−sDh(u(τ))u′(τ ) + Df (u(τ ))u′(τ ) = DP (u(τ ))(u′(τ ))2+ P (u(τ ))u′′(τ ). (3.34)
Observemos agora que a equa¸c˜ao (3.34) ´e a equa¸c˜ao (3.33) quando derivada de ambos os lados em rela¸c˜ao a τ . Segue u ´e solu¸c˜ao de (3.34) se, e somente se, u ´e solu¸c˜ao de
3.7 Solu¸c˜oes de onda de choque e propriedade de irredutibilidade 85 (3.33). Isto significa que ˜u ´e solu¸c˜ao de onda progressiva se, e somente se, u satisfaz (3.33), o que termina a demonstra¸c˜ao do lema.
A solu¸c˜ao de onda de choque (u0, u1, s) de (3.29) ´e dita admiss´ıvel se existe uma
solu¸c˜ao de onda progressiva ˜u(t, x, ǫ) de (3.32) tal que a fam´ılia
˜
uǫ(t, x) := ˜u(t, x, ǫ) = uµ x − st
ǫ ¶
converge pontualmente para a solu¸c˜ao da equa¸c˜ao de choque (3.30) quando ǫ → 0. Neste caso, a fun¸c˜ao u ´e chamada perfil viscoso da onda de choque.
Lema 3.7.2. Uma solu¸c˜ao de onda choque (u0, u1, s) ´e admiss´ıvel se, e somente se,
existe uma solu¸c˜ao u de (3.33) para algum c∈ Rn tal que
u(τ )→ u0 quando τ → −∞ e u(τ ) → u1 quando τ → ∞.
Demonstra¸c˜ao. Consideremos uma solu¸c˜ao de onda de choque admiss´ıvel (u0, u1, s) e
seu perfil viscoso associado u. Da hip´otese de admissibilidade, uµ x − st
ǫ ¶
→ ¯u(t, x) quando ǫ → 0. (3.35)
Logo, se x− st < 0, (3.35) implica que u(τ) → u0 quando τ → −∞. Se x − st > 0,
ent˜ao (3.35) implica que u(τ )→ u1 quando τ → ∞.
Reciprocamente, suponhamos que exista uma solu¸c˜ao u de (3.33) e u0, u1 ∈ Rntais
que u(τ ) → u0 quando τ → −∞ e u(τ) → u1 quando τ → ∞. Se x − st < 0, ent˜ao
(x− st)/ǫ →
− ∞ quando ǫ → 0. Pela nossa hip´otese, isso implica que u((x − st)/ǫ) → u0 = ¯u(t, x)
quando ǫ→ 0. Analogamente, se x − st > 0, ent˜ao u((x − st)/ǫ) → u1 = ¯u(t, x) quando
ǫ→ 0. Isto prova o lema.
Nas condi¸c˜oes do Lema 3.7.2, os pontos u0 e u1 devem ser pontos cr´ıticos de (3.33),
ou seja,
86 Cap´ıtulo 3 — Propriedades do ´ındice de Conley Usando a teoria desenvolvida no cap´ıtulo, apresentaremos condi¸c˜oes que garantam que, para um dado (v, s)∈ Rk× R, exista um vetor ˜v ∈ Rn, ˜v 6= v, tal que (v, ˜v, s) ou
(˜v, v, s) seja uma solu¸c˜ao de onda de choque admiss´ıvel. Teorema 3.7.3. Assumamos as seguintes hip´oteses:
(H1) Sejam F : Rn → R e H : Rn → R fun¸c˜oes de classe C2 e u 7→ P (u) uma
aplica¸c˜ao de classe C2 que assume valores no conjunto das matrizes definidas positivas.
Escrevamos f :=∇F e h := ∇H.
(H2) Existem trˆes matrizes quadradas L1, L2 e L3 de ordem n tais que
P−1(u)→ L1 quando ||u|| → ∞
h(u)− L2u
||u|| → 0 quando ||u|| → ∞ f (u)− L3u
||u|| → 0 quando ||u|| → ∞. (H3) Seja (v, s)∈ Rn× R um ponto arbitr´ario e definamos
g(u) = g(u, v, s) = P−1(u)(f (u)− f(v) + s · h(v) − s · h(u)).
Definamos A0 = g′(v) e A∞ = L1(L3 − sL2). Suponhamos que a parte real dos au-
tovalores de A0 e A∞ seja n˜ao nula. Denotemos por d+(A0) e d+(A∞), respectiva-
mente, o n´umero de autovalores com parte real positiva de A0 e A∞ e suponhamos que
d+(A
0)6= d+(A∞). Al´em disso, suponhamos tamb´em que o conjunto
B(v, s) ={u ∈ Rn : f (u)− s · h(u) = f(v) − s · h(v)}
seja discreto.
Ent˜ao existe um vetor ˜v 6= v tal que (v, v, s) satisfaz a condi¸c˜ao Rankine-Huguniot (3.29) e de modo que (v, ˜v, s) ou (˜v, v, s) ´e uma solu¸c˜ao de onda de choque admiss´ıvel. Demonstra¸c˜ao. Consideremos a equa¸c˜ao diferencial ordin´aria
˙u = g(u), (3.36)
3.7 Solu¸c˜oes de onda de choque e propriedade de irredutibilidade 87 Afirmamos que πg ´e do tipo gradiente com respeito `a fun¸c˜ao
V (u) =−F (u) + s · H(u) + hf(v) − s · h(v), ui. Mostraremos este fato em dois passos.
Seja u uma solu¸c˜ao de (3.36). Mostremos que a fun¸c˜ao V ´e n˜ao crescente ao longo de u. De fato, derivando V ◦ u, temos
d dt(V◦u)(t) = − n X j=1 ∂Fj ∂xj(u(t)) duj dt (t)+s· n X j=1 Hj ∂xj(u(t)) duj dt (t)+ ¿ f (v)− s · h(v),du dt(t) À =− n X j=1 ∂Fj ∂xj(u(t))· duj dt (t) + s· n X j=1 Hj ∂xj(u(t))· duj dt (t) + n X j=1 (fj(v)− s · hj(v))· duj dt (t) =− n X j=1 (fj(u(t))− fj(v)− s · hj(u(t))− s · hj(v))· duj dt (t) =− ¿ f (u(t))− f(v) − s · h(u(t)) + s · h(v),du dt(t) À . Ent˜ao d dt(V ◦ u)(t) = −ξ(t), P −1(u(t))ξ(t)® , (3.37)
sendo ξ(t) := f (u(t))− f(v) − s · h(u(t)) + s · h(v). Como a matriz P−1(u(t)) tamb´em
´e definida positiva, segue que
d
dt(V ◦ u)(t) ≤ 0
para todo t ∈ I, sendo I o intervalo maximal da solu¸c˜ao u. Logo, t 7→ V (u(t)) ´e n˜ao crescente.
Seja u uma solu¸c˜ao de (3.36) por u0. Suponhamos que V ◦ u seja constante.
Mostremos que u0 ´e ponto de equil´ıbrio de πg. De fato, se V ◦ u ´e constante, ent˜ao
d
dt(V ◦ u)(t) = 0
para todo t∈ I, sendo I o intervalo maximal da solu¸c˜ao u. De (3.37), temos que
88 Cap´ıtulo 3 — Propriedades do ´ındice de Conley Pela defini¸c˜ao de g, isto implica que u0´e ponto de equil´ıbrio. Isto prova nossa afirma¸c˜ao.
Seja Jg o conjunto de todas as ´orbitas limitadas de πg. Mostremos que
g(u)− A∞u
||u|| → 0 quando ||u|| → ∞.
Para tanto, definamos a aplica¸c˜ao E : Rn → Rn dada por E(u) = L
1u− P−1(u).
Pela hip´otese (H2), temos que E(u)→ 0 quando ||u|| → ∞. Al´em disso, g(u)− A∞u ||u|| = 1 ||u||¡P −1(u)(f (u) − f(v) + s · h(v) − s · h(u)) − L1(L3− s · L2)u ¢ = 1 ||u||¡P −1(u)(f (u)
− f(v) + s · h(v) − s · h(u)) − (P−1(u) + E(u))(L3− s · L2)u
¢ = P−1(u)·µ f (u) − L3u ||u|| − s · h(u)− L2u ||u|| + s· h(v) − f(v) ||u|| ¶ + E(u)· (L3− s · L2) µ u ||u|| ¶ .
Pela hip´otese (H2), segue que g(u)− A∞
||u|| → 0 quando ||u|| → ∞.
Utilizando o Exemplo 3.6.1, ´e f´acil ver que h(πg, Jg) est´a definido e h(πg, Jg) = Σd,
sendo d = d+(A
∞). Mais ainda, como g(v) = 0, a hip´otese (H3) e o Exemplo 3.6.1
implicam que {v} ´e um conjunto πg-invariante isolado e h(πg,{v}) = Σd ′
, sendo d′ = d+(A
0).
Afirmamos que existem um equil´ıbrio ˜v 6= v de πg e uma solu¸c˜ao completa u de πg
tais que u(τ ) → v quando τ → −∞ e u(τ) → ˜v quando τ → ∞ ou ent˜ao tais que u(τ )→ ˜v quando τ → −∞ e u(τ) → v quando τ → ∞.
Com efeito, o Teorema 3.2.4 implica que existe uma solu¸c˜ao limitada t 7→ x(t) em (−∞, ∞) tal que x0 = x(0) 6= v e x(t) → v quando t → −∞ ou x(t) → v quando
t→ ∞.
A hip´otese (H1) implica que πg ´e do tipo gradiente. Logo, pelo Teorema 2.2.10, os
conjuntos ω(x0) e ω∗(x0) s˜ao n˜ao vazios e contˆem apenas pontos de equil´ıbrio de πg.
Al´em disso, afirmamos que o campo g possui apenas um n´umero finito de singularidades em qualquer conjunto compacto K que contenha x ([0,∞)). De fato, assumamos que
3.7 Solu¸c˜oes de onda de choque e propriedade de irredutibilidade 89 a afirma¸c˜ao seja falsa. A compacidade de K garante a existˆencia de um ponto de equil´ıbrio de πg que tamb´em ´e ponto de acumula¸c˜ao de pontos de equil´ıbrio de πg. Mas
isto contradiz o fato de B(v, s) ser discreto. Isto prova a afirma¸c˜ao.
Sem perda de generalidade, suponhamos que x(t) → v quando t → ∞. Mostremos que ω∗(x
0) ´e um conjunto unit´ario. Assumamos que existam pelo menos dois pontos
distintos, x1 e x2, no conjunto ω∗(x0).
Consideremos uma seq¨uˆencia (tn)n em (−∞, 0) tal que tn → −∞ quando n → ∞.
Seja d2 := 12d(x1, x2). Como a solu¸c˜ao ´e limitada, temos que existe um ponto x3 ∈ Rn
tal que x(tnm)→ x3 quando m → ∞ para alguma subseq¨uˆencia (x(tnm))m de (x(tn))n.
Logo, x3 ∈ ω∗(x0). Al´em disso, x3 6= xi, i = 1, 2.
Com isso, mostramos indutivamente que a existˆencia de dois pontos distintos em ω∗(x
0) implica a existˆencia de uma infinidade de pontos distintos em ω∗(x0). Pelo
Teorema 2.2.10, todos estes pontos s˜ao equil´ıbrios de πg. Como estes pontos formam
um conjunto limitado, existe um equil´ıbrio y que ´e limite de uma seq¨uˆencia de pontos de equil´ıbrio distintos. Isto contradiz o fato de B(v, s) ser discreto, o que demonstra que o conjunto ω∗(x
0) ´e unit´ario.
Seja ˜v 6= v o ´unico ponto de ω∗(x
0). Temos, portanto,
x(t)→ ˜v quando t → −∞.
Cap´ıtulo
4
A equa¸c˜ao de Morse
Neste cap´ıtulo, apresentamos a Equa¸c˜ao de Morse associada a uma decomposi¸c˜ao de Morse de um conjunto invariante isolado.
Iniciaremos o cap´ıtulo apresentando a decomposi¸c˜ao de Morse mais simples: o par repulsor-atrator. Em seguida, demonstramos resultados b´asicos. Na Se¸c˜ao 4.2, definimos decomposi¸c˜ao de Morse e apresentamos suas proprieadades b´asicas. Na Se¸c˜ao 4.3, o conceito de par bloco para um par atrator-repulsor ´e apresentado. Fazendo uso do trio-´ındice, constru´ımos a Equa¸c˜ao de Morse associada a uma decomposi¸c˜ao de Morse. Finalizamos o cap´ıtulo com uma aplica¸c˜ao da Equa¸c˜ao de Morse para obter resultados de multiplicidade de solu¸c˜oes.
Neste cap´ıtulo, X denota um espa¸co m´etrico e π, um semifluxo local em X. A exposi¸c˜ao a seguir ´e baseada em [10] e [12].
92 Cap´ıtulo 4 — A equa¸c˜ao de Morse
4.1
Par atrator-repulsor
Defini¸c˜ao 4.1.1. Seja Y ⊂ X tal que ωx=∞ para todo x ∈ Y . O conjunto
ω(Y ) :=\
t≥0
Cl(Y π[t,∞))
ser´a chamado conjunto ω-limite dos elementos de Y .
Proposi¸c˜ao 4.1.2. Seja Y ⊂ X um subconjunto de X. As seguintes afirma¸c˜oes s˜ao verdadeiras:
(1) Para todo y∈ X, temos y ∈ ω(Y ) se, e somente se, existem seq¨uˆencias (xn)n em
∈ Y e (tn)n em [0,∞) tais que tn→ ∞ e xnπtn→ y quando n → ∞.
(2) O conjunto ω(Y ) ´e fechado.
(3) Se Cl(Y π[0,∞)) ´e um conjunto compacto, ent˜ao ω(Y ) ´e compacto e invariante. Demonstra¸c˜ao. Suponhamos que y ∈ ω(Y ) e seja (τn)n uma seq¨uˆencia em [0,∞) com
τn → ∞ quando n → ∞. Ent˜ao, para todo n ∈ N, existe um yn ∈ Y π[τ, ∞) tal que
d(y, yn) < 1/n.
Al´em disso, para cada n∈ N, existem um xn∈ Y e um tn ≥ τn tais que yn= xnπtn.
Como τn→ ∞, segue que tn→ ∞ quando n → ∞.
Reciprocamente, suponhamos que existam seq¨uˆencias (xn)n em Y e (tn)nem [0,∞)
tais que tn→ ∞ e xnπtn → y quando n → ∞. Mostremos que y ∈ ω(Y ).
Fixemos t0 ∈ [0, ∞). Dado ǫ > 0, existe um n0 ∈ N tal que, para todo n ≥ n0,
temos tn≥ t0 e
d(xnπtn, y) < ǫ. (4.1)
Portanto, xnπtn∈ Y π[t0,∞) para todo n ≥ n0 e (4.1) implica que y ∈ Cl(Y π[t0,∞)).
Segue que
y ∈\
t≥0
Cl(Y π[t,∞)). A demonstra¸c˜ao de (1) est´a completa.
A defini¸c˜ao de conjunto ω-limite de Y claramente implica que ω(Y ) ´e fechado, o que mostra (2).
4.1 Par atrator-repulsor 93 Mostremos (3). Suponhamos que Cl(Y π[0,∞)) seja compacto. Por (2), o conjunto ω(Y ) ´e fechado. Al´em disso, ω(Y )⊂ Cl(Y π[0, ∞)). Portanto, ω(Y ) ´e compacto.
Afirmamos que ω(Y ) ´e um conjunto positivamente π-invariante. De fato, seja x ∈ ω(Y ). Devemos mostrar que xπs∈ ω(Y ) para todo s ∈ [0, ωx). Como x∈ ω(Y ), segue
de (1) que existem seq¨uˆencias (xn)n em Y e (tn)n em [0,∞) tais que
tn → ∞ e xnπtn → x quando n → ∞.
Notemos que ωxn =∞ para todo n ∈ N. A continuidade do semifluxo π implica que
xnπ(tn+ s)→ xπs quando n → ∞.
Al´em disso, tn+ s→ ∞ quando n → ∞. Por (1), temos que xπs ∈ ω(Y ). A afirmativa
est´a demonstrada.
Como xπ[0, ωx)⊂ ω(Y ) para todo x ∈ ω(Y ), segue da Proposi¸c˜ao 2.2.5 que ωx =∞
para todo x∈ ω(Y ).
Afirmamos que ω(Y ) ´e um conjunto negativamente π-invariante. De fato, seja x ∈ ω(Y ). Devemos mostrar que existe uma solu¸c˜ao σ : (−∞, 0] → X por x tal que σ((−∞, 0]) ⊂ ω(Y ). Segue de (1) que existem seq¨uˆencias (xn)n em Y e (tn)n em [0,∞]
tais que
tn → ∞ e xnπtn → x quando n → ∞.
Como Cl(Y π[0,∞)) ´e compacto e tn → ∞ quando n → ∞, existem subseq¨uˆencias
(x1
n)n de (xn)n e (t1n)n de (tn)n satisfazendo t1n ≥ 1 para todo n ∈ N e x1nπ(t1n− 1) →
x−1 quando n → ∞ para algum x−1 ∈ Cl(Y π[0, ∞)). Al´em disso, (1) implica que
x1 ∈ ω(Y ). Indutivamente, dado k ∈ N, encontramos subseq¨uˆencias (xkn)n de (xk−1n )n e
(tk
n)n de (tk−1n )n tais que tnk ≥ k para todo n ∈ N e xknπ(tkn− k) → x−k quando k → ∞
para algum x−k ∈ ω(Y ).
Como ωx−k =∞ para todo k ∈ N, segue que x−kπt est´a definido para todo t∈ [0, k].
Definamos σ−k : [−k, 0] → ω(Y ) por σ−k(t) = x−kπ(t + k). Segue que σ−k(0) = x
para todo k ∈ N e, al´em disso, σ−k(t) = σ−k′(t) para 0≤ k < k′ e k ≤ t ≤ 0.
Definamos σ : (−∞, 0] → X por σ(t) = σ−k(t) para t > −k. Temos que σ(s) ∈
94 Cap´ıtulo 4 — A equa¸c˜ao de Morse As duas afirma¸c˜oes mostram que ω(Y ) ´e um conjunto invariante, o que encerra a demonstra¸c˜ao do teorema.
Defini¸c˜ao 4.1.3. Seja S um subconjunto compacto de X (n˜ao necessariamente isolado) e π-invariante. Um subconjunto A ⊂ S ´e chamado atrator (em S) se existe uma vizinhan¸ca U de A em X tal que ω(U∩ S) = A. Se A ´e um atrator, ent˜ao o conjunto
A∗ :={x ∈ S : ω(x) ∩ A = ∅}
´e chamado repulsor dual de A relativamente a S e o par (A∗, A) ´e chamado par repulsor-
atrator em S.
Observa¸c˜ao 4.1.4. Como S ´e compacto e π-invariante, a Proposi¸c˜ao 2.2.5 implica que ωx=∞ para todo x ∈ S. Deste modo, ω(U ∩ S) est´a bem definido.
Proposi¸c˜ao 4.1.5. Seja (A∗, A) um par repulsor-atrator em S. Ent˜ao valem as
seguintes propriedades:
(1) Se V ´e um conjunto aberto em X com V ⊃ A, ent˜ao existe um t0 = t0(V )∈ [0, ∞)
tal que xπt∈ V para todo x ∈ U ∩ S e t ≥ t0;
(2) Se B ´e um conjunto fechado disjunto de A, ent˜ao, para todo ǫ > 0, existe um t0 = t0(ǫ) tal que d(x, A∗) < ǫ sempre que x∈ S e t ≥ t0 s˜ao tais que xπt∈ B.
Demonstra¸c˜ao. Mostremos (1). Suponhamos que o resultado seja falso. Ent˜ao existem um aberto V ⊃ A e seq¨uˆencias (xn)nem U∩S e (tn)nem [0,∞) tais que tn → ∞ quando
n → ∞ e xnπtn ∈ V para todo n ∈ N. Sem perda de generalidade, a compacidade de/
S implica que a seq¨uˆencia (xnπtn)nconverge para algum y∈ S \ V . A proposi¸c˜ao 4.1.2
implica que y∈ ω(U ∩ S) = A, o que ´e uma contradi¸c˜ao.
Para mostrar (2), suponhamos que o resultado n˜ao seja v´alido. Ent˜ao existem um conjunto fechado B, com B∩ A = ∅, um ǫ > 0, e seq¨uˆencias (xn)n em S e (tn)n em
[0,∞) tais que tn → ∞ quando n → ∞ e
4.1 Par atrator-repulsor 95 Podemos assumir que existe um x ∈ S tal que xn → x quando n → ∞. Portanto,
d(x, A∗)≥ ǫ. Logo, x /∈ A∗ e, conseq¨uentemente,
ω(x)∩ A 6= ∅.
Logo xπt1 ∈ U ∩ S para algum t1 ≥ 0. A continuidade de π implica que existe um
n0 ∈ N tal que n ≥ n0 implica
xnπt1 ∈ U ∩ S para todo n ≥ n0.
Definindo V := X\B e t0 = t0(V ) como em (1), obtemos xnπt∈ V para todo t ≥ t0+t1
e todo n≥ n0. Portanto, xnπtn ∈ V ∩ B para todo n suficientemente grande, o que ´e
uma contradi¸c˜ao.
A dinˆamica dentro de um conjunto invariante S que possui um par repulsor-atrator ´e bem simples, como mostra o resultado a seguir.
Teorema 4.1.6. Seja (A∗, A) um par repulsor-atrator em S. Ent˜ao:
(1) A e A∗ s˜ao conjuntos disjuntos, compactos e invariantes;
(2) Se σ : R→ S ´e uma solu¸c˜ao completa por y, ent˜ao valem as seguintes afirma¸c˜oes: (a) Se y ∈ A∗ ou se ω(y)∩ A∗ 6= ∅, ent˜ao σ(R) ⊂ A∗.
(b) Se ω∗(σ)∩ A 6= ∅, ent˜ao σ(R) ⊂ A.
(c) Se y /∈ A∗∪ A, ent˜ao ω∗(σ) ⊂ A∗ e ω(y)⊂ A.
Demonstra¸c˜ao. Mostremos (1). ´E claro que A∩ A∗ =∅. Como S compacto, segue da
Proposi¸c˜ao 4.1.2(3) que A ´e compacto e invariante. A Defini¸c˜ao de A∗ implica que A∗
´e invariante com rela¸c˜ao a π. Como A∗ ⊂ S, para completar a demonstra¸c˜ao de (1),
mostremos que A∗ ´e um conjunto fechado. Seja (x
n)n uma seq¨uˆencia em A∗ tal que
xn → x quando n → ∞. Afirmamos que ω(x) ∩ A = ∅. Caso contr´ario, existe um
t ∈ [0, ∞) tal que xπt ∈ U e, portanto, existe um n0 ∈ N tal que xnπt ∈ U para todo
n≥ n0. Conseq¨uentemente, ω(xn) = ω(xnπt)⊂ ω(U ∩ S) = A para todo n ≥ n0. Isto
96 Cap´ıtulo 4 — A equa¸c˜ao de Morse Passemos `a demonstra¸c˜ao de (2). Seja σ : R → S uma solu¸c˜ao completa por y∈ S. Suponhamos y ∈ A∗ ou ω(y)∩ A∗ 6= ∅. Seja B uma vizinhan¸ca fechada de A∗
satisfazendo B∩ A = ∅. Ent˜ao existe uma seq¨uˆencia (tn)n em [0,∞), com tn → ∞
quando n→ ∞, tal que
σ(tn)∈ B para todo n ∈ N.
Sejam t∈ R e ǫ > 0. A Proposi¸c˜ao 4.1.5(2) implica que existe um t0(ǫ)∈ [0, ∞) tal que
d(x, A∗) < ǫ sempre que x ∈ S e t ≥ t
0 s˜ao tais que xπt∈ B. Seja n0 = n0(t, ǫ) ∈ N
tal que
tn− t ≥ t0(ǫ) para todo n≥ n0.
Seja n ≥ n0. Como σ(t)π(tn− t) = σ(tn) ∈ B, conclu´ımos que d(σ(t), A∗) < ǫ.
Como ǫ > 0 ´e arbitr´ario, temos σ(t)∈ A∗. Isto demonstra (a).
Assumamos agora que ω∗(σ)∩ A 6= ∅. Ent˜ao existe uma seq¨uˆencia (t
n)n em [0,∞)
tal que tn→ ∞ quando n → ∞ e
σ(−tn)∈ U ∩ S para todo n ∈ N,
sendo U como na Defini¸c˜ao 4.1.3. Se t∈ R, existe um n0 ∈ N tal que tn+ t≥ 0 para
n ≥ n0. Portanto, σ(−tn)π(tn+ t) = σ(t) para todo n ≥ n0. Ent˜ao σ(t) ∈ ω(U ∩ S),
isto ´e, σ(t)∈ A. Ou seja, σ(R) ⊂ A. Isto demonstra (b).
Finalmente, assumamos que y /∈ A∗ ∪ A. Seja x ∈ ω∗(σ). Portanto, existe uma
seq¨uˆencia (tn)n em [0,∞) tal que tn → ∞ e σ(−tn) → x quando n → ∞. Definamos
B ={y}. Segue da Proposi¸c˜ao 4.1.5(2) que, para todo ǫ > 0, existe n0 = n0(ǫ)∈ N tal
que d(σ(−tn), A∗) < ǫ para todo n≥ n0. Logo, x∈ A∗.
Se x∈ ω(y), ent˜ao existe uma seq¨uˆencia (tn)nem [0,∞) tal que tn → ∞ e σ(tn)→ x
quando n→ ∞.
Afirmamos que existe um n0 ∈ N tal que σ(tn0) ∈ U, sendo U como na Defini¸c˜ao
4.1.3. De fato, suponha que a afirma¸c˜ao seja falsa. Isto implica que σ(tn)∈ S \ U para
todo n ∈ N. Tomando B = S \ U, conclu´ımos que y ∈ A∗, contradizendo a hip´otese
sobre y. Como σ(tn0) ∈ U ∩ S e ω(U ∩ S) = A, segue que x ∈ A. Isto encerra a