Considerando que para a construção de um objeto de pesquisa faz-se necessário também buscar outras construções, passo agora a apresentar um mapeamento das pesquisas realizadas em nível nacional, cujo objeto se insere dentro das categorias analíticas do meu objeto de estudo, quais sejam: juventudes, culturas juvenis, projetos de vida e ensino médio.
Para facilitar a busca, utilizei como categorias de inclusão os trabalhos que contemplassem as/os estudantes do ensino médio, etapa de ensino dos/as jovens participantes desta pesquisa na época em que participaram do Projeto. Dessa forma, estabeleci como categorias de exclusão trabalhos com estudantes nos níveis de ensino da educação infantil à segunda fase do ensino fundamental. Isso não desconsidera a relevância das pesquisas nos níveis excluídos, uma vez que os temas abordados nelas certamente terão implicações nos temas de pesquisa no nível de ensino médio.
Para uma realização sistemática das buscas, utilizei os seguintes bancos de dados:
Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e a plataforma SciELO (Scientific Eletronic Library Online/Biblioteca Eletrônica Científica Online). No entanto, a busca por trabalhos que incluíssem as categorias analíticas citadas, mesmo com o objeto de estudo ainda não totalmente definido, se deu desde o início do curso de mestrado, já em 2020, quando passei a conhecer melhor as/os autoras/es que se debruçavam sobre a temática das juventudes e projetos de vida.
Neste momento, então, faço uma busca mais apurada e sistematizada, agora, estabelecendo um recorte temporal no intervalo entre os anos 2013 e 2020. Esse recorte temporal foi escolhido considerando um marco sobre as juventudes, a criação do Estatuto da Juventude (Lei n. 12.852), sancionado em 05 de agosto de 2013. A partir desse Estatuto, no
Brasil, as(os) jovens passam a ser considerados “sujeitos de direitos” (CAETANO;
AZEVEDO, 2017), trazendo um debate mais contundente e busca de ações para demandas, como acesso à educação, emprego e o combate a todas as formas de violência.
Tais ações, vieram, se não sanar, ao menos amenizar as questões relativas especificamente à população juvenil. Segundo as considerações de Helena Wendel Abramo (1997), apesar de que a temática das juventudes vem se desenvolvendo desde os anos 1980, movida também pela expansão da globalização e dos movimentos sociais, ela alcançou uma maior visibilidade a partir dos anos 1990, seja no âmbito da sociedade em geral ou no meio acadêmico. A esse respeito, Caetano e Azevedo (2017) ressaltam que esse período foi marcado por “lutas, movimentos e práticas sociais coletivas nas diferentes classes e camadas da sociedade” (CAETANO; AZEVEDO, 2017, p. 8), de forma a ter garantidos os direitos conquistados.
Dessa feita, passo a sintetizar e refletir sobre a produção acadêmica relativa ao meu objeto de estudo em âmbito nacional, considerando o intervalo de tempo entre 2013 e 2019.
Conforme mencionado anteriormente, o recorte se deu por considerar o marco da criação do Estatuto da Juventude, em 2013.
Tomando como base, portanto, o período escolhido, disponibilizado no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, e usando as categorias analíticas sistematizadas na tabela 2, no idioma português e, ainda, fazendo o refinamento para pesquisas dentro da Grande Área de Ciências Humanas e da Área de concentração/conhecimento/avaliação da Educação, foram encontrados os seguintes resultados, obtidos em março de 2021:
Tabela 2 - Pesquisa no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes
Fonte: Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, 2021.
Descritores Resultados
“juventudes” 97
“juventudes” + “projetos de vida” 98
“juventudes” + “ensino médio” 633
“jovens do ensino médio” + “projetos de vida” 72
“Culturas juvenis” 19
“Culturas juvenis” + “Ensino médio” 755
Devido ao grande número de resultados, fiz uma seleção preliminar, em que analisei os títulos das pesquisas, a fim de listar aquelas que tivessem alguma sinalização de diálogo com o meu objeto de investigação, ou para descartar os títulos que se repetiam. Após essa seleção, restaram 8 (oito) trabalhos, os quais apresentam minimamente os temas “juventudes”,
“projetos de vida”, “escola/ ensino médio”, entre os quais destaco 4 por apresentarem mais elementos que convergem para o interesse da minha pesquisa. Além desses, 2 (dois) trabalhos tratam do tema “intercâmbio cultural”, dos quais escolhi destacar 1 (um), apesar de que nenhum deles conversa diretamente com os aspectos de intercâmbio acadêmico-cultural que menciono na minha pesquisa.
Sendo um dos primeiros trabalhos que fizeram parte das minhas leituras iniciais no mestrado, a tese de Maurício Perondi - “Narrativas de jovens: experiências de participação social e sentidos atribuídos às suas vidas” (PERONDI, 2013) - analisa os sentidos que as(os) jovens expressam sobre suas experiências de participação social em diferentes coletivos. O autor utilizou uma metodologia qualitativa e teve a participação direta das(os) jovens na produção do material empírico. Essa atuação das(os) jovens foi, no meu entender, um dos pontos relevantes e mais interessantes da sua pesquisa. Ao decidir trabalhar também com jovens, por um momento, cogitei seguir os seus passos. No entanto, devido à pandemia do covid-19, percebi que esse caminho seria mais tortuoso. A pesquisa de Perondi me apresentou para os primeiros referenciais teóricos sobre as juventudes. Igualmente a este autor, dialogo com Marília Pontes Sposito, José Machado Pais, dentre outras(os) ao trabalhar as categorias analíticas. Além do referencial teórico, a pesquisa de Perondi foi fonte inspiradora para a elaboração do roteiro das entrevistas com as(os) participantes da minha pesquisa.
Na dissertação intitulada “Projetos de vida dos jovens do ensino médio de escola pública” (SILVA, A., 2013), Amanda Félix da Silva busca analisar a função da escola na construção de projetos de vida, na percepção de jovens do ensino médio. A autora discute os diversos conceitos de juventude e segue a mesma perspectiva quanto ao conceito adotado na pesquisa, ou seja, juventude como uma categoria socialmente construída, sendo assim considerada na sua pluralidade – juventudes. Além dessa similaridade, destaco ainda os instrumentos utilizados para a geração do material empírico, em que consta um estudo exploratório para identificar o perfil das(os) jovens, bem como as entrevistas semiestruturadas, com um roteiro orientador para a entrevista.
Um dos aspectos que considero pertinentes ressaltar na dissertação de Silva é o fato de as/os jovens considerarem a escola como importante para a construção de seus projetos de vida. As categorias de análise trabalhadas na pesquisa mostram o papel salutar da escola e, no
meu entender, do ensino médio, não somente como etapa escolar, mas como etapa de vida, na construção dos projetos de vida das/os jovens participantes.
Silva também apresenta em seus resultados que atividades pedagógicas que estimulavam a criatividade, o pensamento e a ação fora dos conteúdos curriculares fixos, como as feiras de ciências, aulas de campo e atividades em grupos, foram consideradas como motivadoras na elaboração dos projetos de vida das/os jovens estudantes. Nesse aspecto, compreendo que o estudo dialoga com a pesquisa que desenvolvo, no sentido em que, ao se envolverem no projeto, as/os jovens vivenciaram diversos momentos fora dos muros da escola, o que naturalmente gera uma motivação para conduzir as tarefas, proporcionando aprendizados como os que foram explicitados na pesquisa de Silva. Para Pais, Lacerda e Oliveira (2017, p.304), “a satisfação intrínseca pela aprendizagem, dando vida ao mundo da escola, é também a melhor forma de fazer do mundo da vida uma escola”.
Ainda no Catálogo de Dissertações e Teses da Capes, dentro do mesmo período de 2013-2019, realizei uma busca utilizando os descritores “jovens do ensino médio” +
“intercâmbio cultural”. Tal busca se deu pelo fato de considerar a experiência do intercâmbio acadêmico-cultural internacional como de suma importância para as/os participantes do projeto realizado. Por ter sido a primeira experiência de intercâmbio estudantil no âmbito do IFPB, senti a necessidade de buscar pesquisas com experiências semelhantes. Foram encontrados 72 resultados. Apesar do número alto de resultados, as pesquisas não contemplam uma experiência semelhante, o que já era esperado, em face das características específicas da experiência com o Projeto.
Dentre as pesquisas encontradas, destaco a dissertação de mestrado de Tanani Boll Diehl, intitulada “Mais do que um tour e estudo do idioma: intercâmbio cultural como processo de aprendizagem” (DIEHL, 2013). Apesar de a pesquisa estar inserida na área de religião e educação, ela traz reflexões sobre se os intercâmbios culturais estão contribuindo para fortalecer o espírito de busca pelo conhecimento de outras culturas por parte das/os adolescentes/jovens participantes, ou seja, estudantes da primeira e segunda série do Ensino Médio de uma escola da Rede Sinodal de Educação, localizada na cidade de Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul. Na sua pesquisa, a autora aborda a abrangência acadêmica, pessoal e social dos programas de intercâmbio. Neste sentido, a pesquisa dialoga com a minha, uma vez que também entendo o intercâmbio como uma ferramenta de transformação para as/os jovens.
Em busca realizada na plataforma SciELO, também em março de 2021, e utilizando os mesmos filtros da busca no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, com o descritor
“juventudes”, foram encontrados 20 artigos, dos quais 5 (cinco) estão mais alinhados com a
temática da minha pesquisa, incluindo autores com os quais dialogo ao tratar das categorias analíticas do meu estudo – José Machado Pais e Paulo Carrano, conforme ilustra o quadro 1.
Quadro 1 – Pesquisa na Plataforma SciELO
Autora/autor Título Revista Ano Tipo
OLIVEIRA, V. H. N.
et al.
Culturas juvenis e temas sensíveis ao contemporâneo: uma entrevista
com Carles Feixa Pampols
Educar em Revista 2018 Artigo
Oliveira, Victor Hugo Nedel et al.
Juventudes contemporâneas, cotidiano e inquietações de pesquisadores em Educação - uma entrevista com José Machado Pais
Educar em Revista 2018 Artigo
SALES, Celecina Veras;
VASCONCELOS, Maria Aurilene de
Deus Moreira
Ensino Médio Integrado e Juventudes: desafios e projetos de
futuro
Educação & Realidade 2016
Artigo
CARRANO, Paulo Ensino Médio e Juventudes Educação & Realidade 2016 Apresentação de livro GIL, Carmem Zeli
Vargas; SEFFNER, Fernando.
Dois Monólogos Não Fazem um Diálogo: jovens e ensino médio
Educação & Realidade 2016 Artigo
Fonte: Plataforma SciELO, 2021.
Para pesquisar na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações mantida pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, decidi buscar estudos no repositório da UFPB, utilizando o mesmo recorte temporal – 2013 a 2019, na Grande Área das Ciências Humanas, dentro do Programa de Pós-graduação em Educação. Os resultados encontram-se na tabela 3 a seguir.
Tabela 3 - Pesquisa na Biblioteca de Teses e Dissertações (BDTD)
DESCRITORES RESULTADOS DISSERTAÇÕES TESES
“juventudes” 9 2 7
“juventudes” + “projetos de vida” 4 1 3
“juventudes” + “ensino médio” 0 0 0
“jovens do ensino médio” + “projetos de vida” 0 0 0
“Culturas juvenis” 0 0 0
“Culturas juvenis” + “Ensino médio” 0 0 0
Fonte: BDTD, 2021.
Ao efetuar o levantamento bibliográfico nos Bancos e Plataforma mencionados, observei que alguns trabalhos dialogam com o tema do meu estudo, mesmo que não abordando direta e especificamente os sentidos atribuídos a partir de uma experiência de intercâmbio. Dessa forma, acredito que esta pesquisa trará uma contribuição para os estudos das juventudes, em termos gerais e, mais especificamente, para as pesquisas voltadas para as/os jovens do ensino médio, por se tratar de uma pesquisa exclusiva, em relação ao contexto em que o seu objeto se inscreve.
Ademais, esta pesquisa contribui com a produção de conhecimentos sobre jovens da região do Seridó paraibano, meu local de inserção profissional e local de realização da pesquisa. Penso ainda poder contribuir com a rede federal de ensino, no sentido de estimular a internacionalização, a partir dos resultados dessa pesquisa e de todas as lacunas que nela ficarão, como forma de novas possíveis problemáticas para serem tratadas por colegas dessa rede.
No capítulo a seguir, desenvolvo as bases da construção da pesquisa realizada, tendo as juventudes, as culturas juvenis e os projetos de vida das/os jovens do ensino médio como foco principal. Sigo com a construção, olhando agora, para as suas bases sustentadoras.
4 AS BASES TEÓRICAS DA CONSTRUÇÃO DA PESQUISA
Estar envolvida em uma pesquisa dentro do campo dos Estudos Culturais me coloca na posição de participante politicamente engajada, considerando que o objeto de estudo aqui abordado – as juventudes, traz em si a necessidade de um olhar transformador e político, comprometido em criar condições que permitam às/aos estudantes desenvolver e ampliar seu papel como cidadãs/os críticas/os (GIROUX, 2003).
Além da posição de pesquisadora, coloco-me também, não poderia separar, a minha posição como docente de uma escola pública, envolvida com todas as implicações de ordem social, cultural e política que esta posição possa trazer, buscando reconhecer e valorizar as especificidades das/os jovens que chegam à escola, como sujeitos de direitos, o que se torna uma tarefa desafiadora, da mesma forma como é desafiador o reconhecimento das/os docentes também como sujeitos de direitos (ARROYO, 2014).
No caso da escola pública de uma região do interior do Estado onde trabalho, com jovens oriundas/os de contextos sociais e econômicos desfavoráveis, em sua maioria, esse desafio é ainda maior. As/Os jovens não são simplesmente sujeitos “moldados” pelo meio social em que vivem. São criadoras/es de seu próprio mundo, interagem ativamente e se (re)constroem continuamente, dentro e a partir das relações com o outro (DAYRELL, 2003).
Compreendo que conviver e estar implicada com jovens e seus aprendizados e com suas histórias de vida, significa aprender também com elas/es. Sigo, então, com a construção, buscando agora as juventudes e as culturas juvenis. Pretendo, a partir deste momento, mostrar como a “juventude”, no singular, se tornou “juventudes”, no plural, trazendo junto com elas a diversidade e a riqueza de suas culturas juvenis e de suas próprias construções de projetos de vida. Portanto, juventudes e culturas juvenis são categorias que se encontram emaranhadas entre si e, dessa forma, torna-se impossível falar de uma, sem mencionar a outra.