Análise espacial do uso de álcool entre estudantes do ensino médio de Araraquara (SP)
SPATIAL ANALYSIS OF ALCOHOL USE AMONG HIGH SCHOOL STUDENTES OF ARARAQUARA (SP)
Priscila Milene Angelo Sanches Fernanda Pavarina Mattara
Edson Augusto Melanda Juliana Alvares Duarte Bonini Campos
Resumo
O objetivo desse estudo foi verificar o consumo de bebidas alcoólicas, sua associação com fatores sócio-demográficos e realizar análise espacial do risco de desenvolvimento de alcoolismo entre estudantes do ensino médio na cidade de Araraquara (SP). Trata-se de estudo observacional do tipo transversal, com delineamento amostral probabilístico estratificado. Como instrumento de medida utilizou-se o Teste de identificação de transtornos ao uso de álcool (AUDIT). Realizou-se estatística descritiva. Para a associação entre o “risco de beber” e as variáveis de interesse aplicou-se o teste de qui-quadrado (χ2) e para a determinação da probabilidade do desenvolvimento do alcoolismo realizou-se a regressão logística múltipla, com nível de significância de 5%. A determinação do referenciamento geográfico das residências foi realizada por aparelho receptor de GPS. Para estudo da dependência espacial da probabilidade de ocorrência do alcoolismo entre os adolescentes na cidade elaborou-se semivariograma experimental. Participaram 1.837 estudantes matriculados em escolas públicas com média de idade de 15,93+1,00 anos, sendo 56,94% do sexo feminino. Observou-se alta prevalência de consumo de bebidas alcoólicas pelos adolescentes, tanto do sexo masculino (46,27%; IC95%:42,80- 49,75) quanto feminino (49,04%; IC95%:46,01- 52,07). A probabilidade de beber de risco foi aproximadamente 2 vezes maior em adolescentes do sexo masculino (IC95%:1,42-3,00), 1,8 vezes maior para os adolescentes que os pais consomem bebidas alcoólicas (IC95%:1,16-2,69) e 2,3 vezes maior em adolescentes que têm relacionamento regular/ruim com a mãe (IC95%:1,26-4,26) e a religião atuou como fator de proteção (IC95%:0,42-0,93). Para a distribuição espacial, notou-se que a probabilidade de ocorrência de alcoolismo não apresentou dependência espacial. Conclui-se que grande parte dos adolescentes consomem bebidas alcoólicas sendo o comportamento de risco associado a suas características sócio-demográficas.
Palavras-chave: Álcool, Alcoolismo, AUDIT, Estudantes, Distribuição espacial da população, Saúde Pública.
Abstract
This study aimed to verify the consumption of alcoholic drinks and its association with social-demographic factors, and to perform a spatial analysis of the risk of alcoholism development among high school students in the city of Araraquara (State of São Paulo). It consists of an observational transversal study with stratified probabilistic sample design. The questionnaire AUDIT (Alcohol use disorders identification test) was used as a screening tool. Descriptive statistics were performed. The chi-square test (χ2) was applied in order to verify the associations of the “risk of drinking” and the interest variables, and the multiple logistic regression, with significance level of 5%, was applied to determine the probability of alcoholism development. A GPS was used to determine the geographic referencing of the residences. An experimental semivariogram was elaborated in order to study the spatial dependence of the probability of alcoholism occurrence among teenagers in the city. 1,837 students enrolled in public schools with average age of 15.93+1.00 years old, 56.94% being female, participated in this study. It was possible to observe a high prevalence of alcoholic drinks consumption by teenagers, either male (46.27%; IC95%:42.80-49.75) or female (49.04%; IC95%:46.01-52.07). The risk probability of drinking was approximately 2 times greater in male teenagers (CI95%:1.42-3.00), 1.8 times greater for teenagers whose parents consume alcoholic drinks (CI95%:1.16-2.69), and 2.3 three times greater in teenagers who have a regular/bad relationship with their mother (CI95%:1.26-4.26). The religion has acted as a protection factor (CI95%:0.42- 0.93). In the spatial distribution, it was possible to notice that the probability of alcoholism occurrence did not present spatial dependence. In conclusion, a great part of teenagers consume alcoholic drinks, and the risk behavior is associated to their social-demographic characteristics.
Key words: Alcohol, Alcoholism, AUDIT, Students, Residence Characteristics, Public Health.
INTRODUÇÃO
Os adolescentes são o grupo populacional que apresentam os maiores riscos em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, devido à sua vulnerabilidade, sob o ponto de vista social e psicológico (GALDURÓZ et al., 2010). Em todo mundo, há uma preocupação especial com esse grupo e o monitoramento do padrão de beber é uma das medidas mais importantes a serem desenvolvidas.
As bebidas alcoólicas são as substâncias psicoativas mais consumidas por adolescentes (WHO, 2004). No Brasil, o álcool também é a droga mais consumida em todas as faixas etárias e a sua utilização entre adolescentes vem crescendo (CARLINI et al., 2007).
O I Levantamento Nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira, realizado por Laranjeira et al. (2007), estimou que 35% dos adolescentes menores de idade consomem bebidas alcoólicas ao menos 1 vez no ano e 24% deles bebem pelo menos 1 vez no mês. Quanto à intensidade de beber, 16% dos adolescentes relataram ter consumido bebidas alcoólicas em “binge” durante os últimos 12 meses, sendo que 51% o fez menos de 1 vez por mês e 18% em 1 vez por semana ou mais.
O consumo indevido e desenfreado de álcool entre os adolescentes acarreta além da deterioração da saúde, altos custos para a sociedade (HUURRE et al., 2010; VARGAS, 2005). Tal comportamento aumenta o risco de uma série de problemas sociais e de saúde, incluindo doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, infarto do miocárdio, acidentes de trânsito, problemas comportamentais, violência e ferimentos não-intencionais (HUURRE et al., 2010; REBOUSSIN et al., 2006).
O abuso de álcool por adolescentes pode ser atribuído à facilidade de consumo de bebidas alcoólicas (GALDURÓZ et al., 2010; GOMES; ALVES; NASCIMENTO, 2010), além de fatores como, contexto familiar e social, baixo custo e propaganda televisiva agressiva (LARANJEIRA, 2004; NEWMAN et al., 2008; STRAUCHI et al., 2009; VIEIRA et al., 2007). Outro aspecto que deve ser considerado é a relação do espaço com o consumo de álcool segundo Ellaway et al. (2010), além do acesso e comportamento da compra de bebidas alcoólicas.
Para viabilizar a construção de modelos explicativos do padrão de consumo de álcool em função de variáveis espaciais pode-se utilizar técnicas de geoprocessamento que é um conjunto de ferramentas que permitem o mapeamento e localização das áreas de risco (BARCELLOS; RAMALHO, 2002; HINO et al., 2006;
SAKABA et al., 2004).
Considerando que o consumo de álcool na adolescência é um sério problema de saúde pública por sua magnitude, transcendência e viabilidade de controle, entende-se que estudos espaciais podem ser de grande importância para saúde pública, a fim de direcionar e/ou subsidiar programas e políticas públicas que visem à redução dos problemas decorrentes do uso de álcool. Além disso, no Brasil não foram encontrados estudos relacionando o ambiente e o padrão do uso de álcool entre adolescentes. Deste modo, desenvolveu-se este estudo com o objetivo de verificar o consumo de bebidas alcoólicas, sua associação com fatores sócio- demográficos e realizar análise espacial do risco de desenvolvimento de alcoolismo entre os estudantes do ensino médio na cidade de Araraquara (SP).
MATERIAL E MÉTODOS Delineamento Amostral
Trata-se de estudo observacional do tipo transversal com delineamento amostral probabilístico estratificado segundo número de alunos por série do ensino médio matriculados em instituições públicas da cidade de Araraquara, SP.
O tamanho da amostra foi estabelecido por meio do processo de amostragem para população finita. Os dados referentes ao total de jovens matriculados no ensino médio em escolas públicas na cidade de Araraquara (SP) foram obtidos junto à Secretaria da Educação, de modo que, este valor foi de 5.997 estudantes.
O nível de significância adotado foi de 5% e considerou-se como estimativa preliminar da verdadeira proporção de dependentes de álcool entre estudantes o valor de 7,20% encontrado na região Sudeste no Levantamento Nacional realizado por Galduróz et al. (2005). A margem relativa de erro amostral foi fixada em 15,00%.
Nessas condições o tamanho amostral mínimo ficou estimado em 1.606 indivíduos. Tendo-se admitido um absenteísmo da ordem de 20,0%, o tamanho da amostra foi corrigido para 2.008 adolescentes.
Cabe ressaltar que este estudo foi conduzido após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara da Universidade Estadual Paulista – UNESP (ANEXO D).
Variáveis de Estudo e Instrumento de Medida
Para identificar o padrão do consumo de álcool foi utilizada a versão em português do questionário Teste de identificação de transtornos devido ao uso de álcool (AUDIT) validada por Méndez (1999) (ANEXO E). A classificação dos adolescentes frente ao consumo de bebidas alcoólicas foi realizada segundo a proposta de Babor et al. (2001) em “beber moderado” (0 a 7 pontos), “beber de risco” (8 a 15 pontos), “beber de alto risco” (16 a 19 pontos) e “possível dependência” (20 a 40 pontos).
Para caracterização da amostra, foram coletadas informações referentes à idade, sexo, relacionamento familiar, presença ou não de religião, prática esportiva e trabalho (APÊNDICE A). O nível econômico e de escolaridade foram classificados segundo o Critério Brasil 2008 (ABEP, 2008) (ANEXO F).
Procedimentos
Os questionários, não identificados, foram entregues aos estudantes em sala de aula, em horários de atividades escolares previamente agendados com a direção de cada instituição.
Geoprocessamento
A determinação do referenciamento geográfico das residências dos estudantes participantes do estudo foi realizada por um examinador devidamente treinado. Para tanto, utilizou-se um aparelho receptor GPS modelo eTrex LegendCx configurado para o fuso 22, datum SAD 69.
De posse destas informações, elaborou-se, com auxílio do programa SPRING 4.2 (INPE, 2005), uma base de informações georreferenciadas contendo os dados referentes à localização das moradias dos adolescentes bem como as informações sócio-demográficas e a probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo estimada por meio de regressão logística múltipla. Utilizou-se como referência a base cartográfica digital da cidade de Araraquara, fornecida pelo Departamento de Água e Esgoto na escala 1:2000 na projeção SAD69.
Planejamento Estatístico
Para avaliação da confiabilidade do AUDIT, realizou-se estudo piloto com a participação de 141 estudantes de ensino médio matriculados em escola pública na cidade de Araraquara (SP). A confiabilidade foi estimada pela estatística Kappa com ponderação linear (κp).
Realizou-se a estatística descritiva. A pontuação final obtida no AUDIT permitiu a classificação dos participantes em dois grupos, beber moderado (G1) e beber de risco (G2). No G1 foram incluídos os adolescentes que bebem moderadamente e no G2 aqueles classificados com o comportamento de beber de risco, alto risco e possível dependência. A partir desta dicotomização realizou-se a organização e apuração de todas as variáveis de estudo. Para as associações de interesse aplicou-se o teste de qui-quadrado (χ2), adotando-se um nível de
significância de 5% para tomada de decisão. As variáveis que apresentaram significância estatística ou p<0,15 compuseram o modelo de regressão logística múltipla para estimativa da probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo. Estes dados foram incorporados ao projeto SIG, inicialmente para mapeamento dos pontos amostrados e em seguida para realização da análise geoestatística.
Para verificar se a probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo é uma variável do tipo regionalizada, ou seja, se seu valor é influenciado por sua posição no espaço, elaborou-se semivariograma experimental.
Para estudo da existência de associações espaciais locais utilizou-se o Índice Local de Associação Espacial (LISA Map) considerando um nível de significância de 5%.
RESULTADOS
No estudo piloto verificou-se boa concordância da classificação de risco de beber segundo o AUDIT (κp=0,75; IC95%:0,56-0,94) (ANEXO G).
Participaram do estudo 1.837 adolescentes, sendo 1.046 (56,94%) do sexo feminino. A média de idade dos participantes foi de 15,93±1,00 anos.
Em relação às características sócio-demográficas, 1.392 (75,78%) adolescentes não trabalhavam, 1.001 (54,49%) praticavam esportes e 1.415 (77,03%) pertenciam a alguma religião. Quanto à classe econômica, 1.091 (59,39%) pertenciam às classes A e B (renda estimada: R$ 2.327,00 a R$ 14.366,00) e 746 (40,61%) pertenciam às classes C, D e E (renda estimada: R$ 403,00 a R$ 2.327,00).
Dos participantes, 1.680 (91,45%) relataram boa convivência com a mãe e 1.306 (71,09%) com o pai. Dos adolescentes, 977 (53,18%) afirmaram que seus pais consumiam bebidas alcoólicas.
Na Tabela 1 encontra-se a freqüência das respostas a cada questão do AUDIT.
Tabela 1. Distribuição dos adolescentes segundo as respostas do AUDIT. Araraquara, 2009.
Respostas
AUDIT 0 1 2 3 4
1. Com que freqüência o(a) Sr.(a)
toma bebidas de álcool?(a) 1.016 (55,34) 518 (28,21) 215 (11,71) 65 (3,54) 22 (1,20) 2. Nas ocasiões em que bebe,
quantas doses, copos ou garrafas
o(a) Sr.(a) costuma tomar?(b) 833 (68,28) 220 (18,03) 95 (7,79) 37 (3,03) 35 (2,87)
3. Com que freqüência o(a) Sr.(a) toma “seis ou mais doses” em uma
ocasião? (c) 1.476 (80,44) 210 (11,44) 82 (4,47) 59 (3,22) 8 (0,44) 4. Com que freqüência, durante o
último ano, o(a) Sr.(a) achou que não seria capaz de controlar a quantidade
de bebida depois de começar?(c) 1.687 (91,88) 88 (4,79) 32 (1,74) 18 (0,98) 11 (0,59) 5. Com que freqüência, durante o
último ano, o(a) Sr.(a) não conseguiu cumprir com algum compromisso por
causa da bebida?(c) 1.779 (96,84) 38 (2,07) 11 (0,60) 7 (0,38) 2 (0,11) 6. Com que freqüência, durante o
último ano, depois de ter bebido muito, o(a) Sr.(a) precisou beber pela
manhã para se sentir melhor?(c) 1.797 (97,88) 23 (1,25) 9 (0,49) 6 (0,33) 1 (0,05)
7. Com que freqüência, durante o último ano, o(a) Sr.(a) sentiu culpa ou
remorso depois de beber?(c) 1.699 (92,49) 102 (5,55) 16 (0,87) 5 (0,27) 15 (0,82) 8. Com que freqüência, durante o
último ano, o(a) Sr.(a) não conseguiu se lembrar do que aconteceu na noite
anterior por causa da bebida?(c) 1.675 (91,23) 112 (6,10) 27 (1,47) 12 (0,65) 10 (0,54) 9. Alguma vez na vida o(a) Sr.(a) ou
alguma outra pessoa já se machucou, se prejudicou por causa de o Sr.(a) ter
bebido?(d) 1.661 (90,47) - 112 (6,10) - 63 (3,43) 10. Alguma vez na vida algum
parente, amigo, médico ou outro profissional da saúde já se preocupou com o(a) Sr.(a) por causa de bebida
ou lhe disse para parar de beber?(d) 1.727 (94,01) - 56 (3,04) - 54 (2,94) (a)0: nunca, 1: uma vez por mês ou menos, 2: duas a quatro vezes por mês, 3: duas a três vezes por semana, 4: quatro ou mais vezes por semana.
(b)0: 1 ou 2 “doses”, 1: 3 ou 4 “doses”, 2: 5 ou 6 “doses”, 3: 7 a 9 “doses”, 4: 10 ou mais “doses”.
(c)0: nunca, 1: uma vez por mês ou menos, 2: uma vez ao mês, 3: uma vez por semana, 4: todos os dias ou quase todos. (d)0: não, 2: sim, mas não no último ano, 4: sim, durante o último ano.
Observa-se uma alta freqüência de adolescentes que bebem mais do que 1 vez por semana (16,45%), além do alto consumo de bebidas alcoólicas nas ocasiões
em que bebem (13,69%), sendo que para 8,13% dos participantes esses episódios de abusos acontecem uma ou mais vezes ao mês. Dos entrevistados, 3,26% não foram capazes de controlar a quantidade de bebida a ser ingerida depois de começar pelo menos uma vez ou mais vezes ao mês e 1,09% não conseguiram cumprir seus compromissos pelo menos uma vez ou mais por mês. O fato de que 2,12% dos adolescentes afirmarem já ter precisado beber pela manhã para se sentir melhor e que 7,51% apresentarem o sentimento de culpa ou remorso depois de beber no último ano merece atenção. Outros acontecimentos também devem ser destacados, como a perda da memória em relação ao que aconteceu na noite anterior por causa da bebida (8,76%), o fato de ter se prejudicado ou prejudicado outra pessoa por causa do consumo de bebida alcoólica (9,53%) e o relato da preocupação de parentes, amigos e profissionais da saúde com você devido ao uso de álcool (5,93%).
A classificação do consumo de álcool realizado pelos adolescentes segundo a proposta de Babor et al. (2001) encontra-se na Tabela 2.
Tabela 2. Classificação do consumo de álcool por ponto e por intervalo de 95% de confiança (IC95%) segundo proposta de Babor et al. (2001). Araraquara, 2009.
Sexo Masculino Feminino Classificação % IC95% % IC95% Abstêmio 53,73 50,25-57,20 50,96 47,93-53,99 Beber moderado 34,26 30,95-37,57 41,78 38,79-44,77 Beber de risco 9,73 7,67-11,80 4,97 3,65-6,29
Beber de alto risco 1,64 0,76-2,53 1,72 0,93-2,51
Possível dependência 0,63 0,08-1,18 0,57 0,12-1,03
Observa-se alta prevalência de consumo de bebidas alcoólicas pelos adolescentes, tanto do sexo masculino (46,27%; IC95%:42,80- 49,75) quanto feminino (49,04%; IC95%:46,01- 52,07). Houve maior prevalência de beber moderado entre as meninas e de beber de risco entre os meninos.
Entre os 1.837 participantes obteve-se uma perda de 302 indivíduos no momento de captação dos pontos de referencial geográfico. Sendo assim, pode-se contabilizar 1.535 adolescentes, desses 791 eram abstêmios e, portanto, foram excluídos da amostra no estudo de associação e geoprocessamento para avaliar o risco do desenvolvimento de alcoolismo.
O padrão de consumo de bebidas alcoólicas segundo as variáveis sócio- demográficas de interesse encontra-se na Tabela 3.
Tabela 3. Padrão de consumo de bebidas alcoólicas segundo as variáveis sócio- demográficas de interesse. Araraquara, 2009.
Padrão de consumoa Características G1 G2 Total χχχχ2 P Sexo Masculino Feminino 225 371 82 65 307 436 15,811 <0,001* Escolaridade do chefe da família
Baixa Alta 265 332 67 80 332 412 0,068 0,795 Classe social A e B C, D e E 367 230 85 62 452 292 0,659 0,417 No de pessoas que moram em casa
< 4 > 4 389 207 92 54 481 261 0,262 0,609 Seus pais tomam bebidas alcoólicas?
Não Sim 217 380 37 110 254 490 6,555 0,010* Você segue alguma religião?
Não Sim 137 460 51 96 188 556 8,618 0,003* Como é o relacionamento com seu Pai?
Bom Regular/Ruim 394 123 110 23 504 146 2,565 0,109 Como é o relacionamento com sua Mãe?
Bom Regular/Ruim 567 24 104 38 671 62 76,191 <0,001* Como é o relacionamento entre seus Pais?
Bom Regular/Ruim 489 67 0 108 489 175 360,402 <0,001* Você pratica esporte?
Não Sim 267 330 71 76 338 406 0,608 0,435 Você trabalha? Não Sim 417 180 109 38 526 218 1,053 0,305 aG1: beber moderado (abstêmio e beber moderado); G2: beber de risco (beber de risco, alto risco e possível dependência). *Diferença estatística significante para α=0,05.
Houve associação significativa entre o padrão de consumo de bebida alcoólica e sexo, consumo de bebidas alcoólicas pelos pais, religião e relacionamento do adolescente com a mãe e entre os pais, sendo a maior prevalência de beber de risco para o sexo masculino, para os adolescentes cujos
pais fazem uso de bebidas alcoólicas e que possuem um relacionamento regular/ruim com seus pais. Ressalta-se também, o efeito protetor da religião e do bom relacionamento do adolescente com a mãe no comportamento de beber de risco.
A Tabela 4 apresenta o modelo de regressão logística múltipla para as variáveis que apresentaram associação com o consumo de bebida alcoólica ou p<0,15.
Tabela 4. Análise de regressão logística múltipla das variáveis relacionadas à probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo entre os adolescentes. Araraquara, 2009.
Variáveis Coeficiente ORa IC
95%b p
Intercepto -1,898
Sexo masculino 0,725 2,064 1,420-3,002 0,0001* Pais tomam bebidas alcoólicas 0,570 1,769 1,163-2,691 0,0077*
Religião -0,472 0,624 0,417-0,934 0,0218*
Relacionamento com o pai -0,244 0,783 0,465-1,320 0,3589 Relacionamento com a mãe 0,842 2,320 1,262-4,265 0,0067* Relacionamento entre os pais 0,239 1,271 0,801-2,015 0,3088 aOR: odds ratio.
bIC
95%: intervalo de 95% de confiança. *Diferença estatística significante para α=0,05.
Nota-se que a probabilidade de beber de risco foi aproximadamente 2 vezes maior em adolescentes do sexo masculino, 1,8 vezes maior para os adolescentes que os pais consomem bebidas alcoólicas e 2,3 vezes maior em adolescentes que têm relacionamento regular/ruim com a mãe. A presença de religião atuou como fator de proteção (OR=0,624).
A distribuição da localização geográfica dos estudantes na amostra completa (n = 1.535) e excluindo-se os abstêmios (n = 744) encontra-se na Figura 1.
Figura 1. Distribuição espacial de todos os participantes do estudo (A) e dos participantes que consumiam bebidas alcoólicas (B). Araraquara, 2009. A B Aná lis e es pec ial do us o de álc oo l e ntr e es tuda ntes d o ens in o m édi o d e Ar ar aqu ar a ( SP) Sanc hes , P. M. A.; Matt ar a, F. P.; Me lan da, E. A.; Cam pos , J . A. D. B. 57
Observa-se que o número e a distribuição dos adolescentes que afirmaram consumir bebidas alcoólicas (Figura 1B) é representativa em todo território urbano de Araraquara.
A probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo entre os adolescentes não apresentou dependência espacial o que pode ser constatado no semivariograma experimental apresentado na Figura 2.
Distância (m)
γ
γ
γ
γ
Distância (m)γ
γ
γ
γ
Figura 2. Semiraviograma experimental para a probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo. Araraquara, 2009.
Nota-se efeito pepita puro, ou seja, existe completa ausência de correlação espacial entre os pontos amostrados. Nesse caso, não se podem identificar agrupamentos, assim, as amostras não podem ser diferenciadas apenas por sua
localização no espaço. Isso implica que a ocorrência de alcoolismo em adolescentes não é uma variável regionalizada, sendo assim, seus valores não possuem dependência espacial direta.
Com a hipótese nula de dependência espacial para a probabilidade de desenvolvimento de alcoolismo entre os adolescentes, elaborou-se a LISA Map (Índice Local de Associação Espacial) indicando as regiões que apresentam correlação local significativamente diferente (Figura 3).
Figura 3. Mapa de significância da associação espacial, LISA Map para o desenvolvimento de alcoolismo em adolescentes, considerando α=0,05. Araraquara, 2009.
Observa-se a existência de pequenas regiões com padrões espaciais locais, que podem ser vistas por bolsões de não-estacionariedade. Essas áreas apresentam dinâmica espacial própria e merecem análise individual e detalhada.
DISCUSSÃO
O importante consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes demanda a realização de estudos com adequada confiabilidade e validade interna e externa para caracterização desse consumo e sua associação com variáveis de interesse. Assim, realizou-se esse trabalho com intuito de apresentar dados significativos para o conhecimento da realidade da cidade de Araraquara (SP). A validade externa desse estudo pode ser constatada pela observação da Figura 1.
Na Tabela 1 pode-se observar uma alta freqüência de adolescentes que bebem mais do que 1 vez por semana, o que representa quase duas vezes mais do que o encontrado por Laranjeira et al. (2007). Esses dados merecem destaque, considerando que a quase totalidade desses jovens não possui idade mínima legal para aquisição de bebidas alcoólicas. O sentimento de culpa ou remorso depois de beber e a perda de memória por causa da bebida alcoólica são conseqüências do uso exagerado de bebidas alcoólicas relatadas que vão ao encontro do observado em estudos realizados com estudantes como o de McKinnon et al. (2004) em El Paso (Texas), Vieira et al. (2007) no município de Paulínia, Martins et al. (2008) no interior de São Paulo e Almeida (2009) na cidade de Passos.
A alta prevalência do consumo de álcool entre os adolescentes (Tabela 2) é apontado na literatura nacional (ALAVARSE; CARVALHO, 2006; ALMEIDA, 2009; GALDURÓZ et al., 2005; SOUZA; ARECO; SILVEIRA FILHO, 2005; VIEIRA et al., 2007) e internacional (ANDERSEN et al., 2003; GALLEGO et al., 2005; LÓPEZ et al.
2001; MCCOY et al., 2010; REBOUSSIN et al., 2006) o que insere esse comportamento entre os problemas de saúde pública de maior destaque.