3.2. Microrganismos de interesse clínico relacionados a feridas
3.2.2. Staphylococcus Coagulase Negativo
3.2.2.1. Staphylococcus epidermidis
A espécie Staphylococcus epidermidis, habitante normal da pele e mucosas, também infecta pacientes fisiologicamente imunocomprometidos, como recém-natos prematuros, pacientes idosos ou pacientes que apresentam doença de base causadora de imunossupressão.
Estudos demonstraram que os S. epidermidis estão entre as bactérias de maior incidência nas septicemias em neonatos e um dos mais isolados em infecções hospitalares, os quais apresentam alta resistência à meticilina, podendo a presença do gene mecA chegar a valores que variam entre 60 a 80%, como também tem sido isoladas cepas de S. epidermidis resistente a vancomicina, assim como Staphylococcus capitis e Staphylococcus haemolyticus (RITO, 2008; ROSA et al., 2009)
3.2.3. Pseudomonas aeruginosa
O gênero Pseudomonas são bacilos gram negativos não fermentadores da glicose. Dentre as espécies associadas a infecções humanas, Pseudomonas aeruginosa é uma das maiores causadoras de infecções nosocomiais graves, com elevada letalidade. Este microrganismo é versátil devido a sua baixa necessidade de nutrientes para seu crescimento, possuindo tolerância a uma série de condições físicas adversas, como resistência aos agentes antimicrobianos e desinfetantes de uso habitual, tornando-se um dos principais causadoras de infecções hospitalares (SILVA, 2009).
A disseminação de Pseudomonas aeruginosa multirresistente vem se acentuando no ambiente hospitalar e configura um sério problema de saúde pública, em particular devido à velocidade que estas bactérias têm em adquirir resistência aos novos agentes antimicrobianos, inclusive maior que a capacidade de se desenvolver novos medicamentos. As bactérias relacionadas às infecções hospitalares mostram, em geral, resistência à múltiplos antimicrobianos, os quais são responsáveis por muitos surtos, sendo este um fator crucial na epidemiologia de cepas hospitalares (SOARES, 2005). Outra característica marcante e preocupante desta espécie é a resistência cruzada aos antimicrobianos, que resulta da co- resistência, ou seja, da presença de múltiplos mecanismos de resistência, levando a se tornar não susceptível a múltiplos fármacos (FIGUEIREDO et al., 2007).
3.2.4. Enterobacteriaceae
A família Enterobacteriaceae é constituída por mais de 30 gêneros e 130 espécies. Os gêneros mais freqüentemente isolados de amostras biológicas são Escherichia, Klebsiella,
Proteus, Enterobacter, Citrobacter, Morganella, Salmonella, Shigella, Serratia, Providencia
e Yersinia. São bactérias pouco exigentes encontrando-se amplamente distribuídas na natureza: na água, solo, plantas e na flora intestinal normal de vários animais e no homem. Possuem diversos fatores de virulência e são freqüentemente isolados como agentes etiológicos nos processos infecciosos, quer ao nível hospitalar ou comunitário, tais como: infecções do trato urinário, infecção de ferida cirúrgica, infecções respiratórias e septicemias (DE SÁ, 2010).
As principais Enterobactérias produtoras de ESBLs, (β-lactamases de espectro estendido) são Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Proteus sp, Providencia sp e
Enterobacter sp., amplamente disseminadas, já tendo sido reportado isolamento na França,
Estados Unidos, Reino Unido, Grécia, Holanda, Hungria, Portugal, Bolívia, Peru e Brasil. Alem disso, estas bactérias ESBL apresentam altas taxas de resistência aos antimicrobianos (aminoglicosídeos, β-lactâmicos, furanos, quinolonas e trimetoprima-sulfametoxazol), dificuldade de tratamento e alta virulência, em particular a Klebsiella pneumoniae KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) positivo, que é uma enzima predominante nestas cepas, mas que já tem sido reportada em Enterobacter sp. e Salmonella sp. Ela tem se expandido notavelmente e confere resistência à totalidade dos betalactâmicos, mesmo aqueles associados a inibidores de betalactamases (LAGO et al., 2010; MEYER e PICOLI, 2011).
3.2.5. Enterococcus
O gênero Enterococcus são cocos gram-positivos do grupo D de Lancefield, que antigamente eram pertencentes ao gênero Streptococcus. São comensais do aparelho digestivo e apresentam baixa patogenicidade. No entanto, são causadores de infecções urinárias e intra- abdominais, endocardite e sepse, comportando-se, muitas vezes, como um agente oportunista em infecções hospitalares.
Adicionalmente, o gênero Enterococcus apresenta resistência intrínseca a vários antimicrobianos e também progressiva resistência adquirida a antimicrobianos comumente utilizados para tratar infecções enterocócicas (ex. ampicilina, aminoglicosídeos) (TAVARES, 2000; GALES et al., 2009).
Neste gênero já foram descritas dezesseis espécies, sendo que há predominância de duas (E. faecalis e E. faecium). O enterococo resistente à vancomicina (VRE) é um dos principais patógenos causadores de infecções hospitalares, e atualmente sua presença é notável em infecções urinárias, infecções de sítio cirúrgico e bacteremias. A resistência à vancomicina é bem mais recente e ocorre basicamente pela produção de precursores das peptideoglicanas na parede celular que se ligam pobremente à vancomicina, impedindo assim sua ação no bloqueio da síntese de parede celular.
Nos últimos anos, havia a preocupação de que o enterococo transmitisse a resistência à vancomicina ao Staphylococcus aureus, um patógeno bem mais prevalente e patogênico, já que esse fato foi realizado in vitro e se concretizou em 2002 (CDC, 2002), quando foi isolado a primeira cepas de S. aureus resistente à vancomicina em dois pacientes que também apresentavam VRE com fenótipo vanA (FURTADO et al., 2005).
3.2.6. Candida
As doenças causadas por fungos passaram a receber maior atenção no século passado, em particular após o aumento dos casos da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Dentre as leveduras responsáveis por doenças em indivíduos imunodeprimidos, e nos aparentemente sadios, encontramos as espécies do gênero Candida (C. albicans, C. tropicalis,
C. parapsilosis, C. krusei, C. guilliermondii, C. glabrata, C. kefyr, C. lusitaniae, C. viswanathii, C. famata, entre outras espécies isoladas de casos clínicos). As espécies de Candida são causadoras da candidíase, micose de importância em saúde pública, incluída
também como doença sexualmente transmissível, que pode causar lesão com espectro clínico bem variável, tendo seu principal agente C. albicans, que constitui 60% dos isolados em clínicas (BARBEDO e SGARBI, 2010; ANVISA, 2004).
Candida fazem parte da microbiota humana normal encontrada no tubo
gastrointestinal de 80% da população adulta saudável e entre as mulheres, cerca de 20 a 30% apresentam colonização por Candida vaginal, e nas infecções hospitalares, o gênero Candida responde por cerca de 80% das infecções fúngicas documentadas. As infecções oportunistas por Candida ocorrem quando há uma ruptura no balanço normal da microbiota ou o sistema imune do hospedeiro encontra-se comprometido, sendo que o gênero Candida representa um grande desafio aos clínicos de diferentes especialidades, devido às dificuldades diagnósticas e terapêuticas das infecções causadas por tais agentes (ZARDO e MEZZARI, 2004).
As infecções levedureformes podem ser divididas em cutâneo-mucosas, sistêmicas, alérgicas e oportunistas. A candidíase cutânea, freqüentemente ocorre quando há condições de umidade e temperatura, como nas dobras da pele, particularmente em climas tropicais ou durante meses de verão, como também em pacientes acometidos de Diabetes mellitus e portadores do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Ainda, no caso de candidíase cutânea aguda, podem apresentar-se de diferentes formas: intertrigo (localizado nas dobras da pele como axilas, virilha, sulco interglúteo, prega submamária, e em pessoas obesas na prega supra púbica) produzindo intenso eritema, edema, exsudato purulento e pústulas; erosão interdigital; foliculite. Na candidíase em mucosas, os tecidos mais atingidos são os do trato digestório e as genitálias. Na sistêmica, a infecção pode atingir diversos órgãos, causando candidíase pulmonar, candidemia, endocardite, nefrite, entre outras. (BARBEDO e SGARBI, 2010; ANVISA, 2004).
3.3. Microemulsões
As microemulsões podem ser definidas como sistemas contendo óleo e água coexistindo em equilíbrio termodinâmico devido à presença de um filme de tensoativos (tensoativo e co- tensoativo) na interface óleo-água (PESTANA et al., 2008). Estes sistemas descritos, inicialmente, por Hoar e Schulman (1943) como transparentes e translúcidos. São obtidos por meio de uma titulação de uma emulsão comum leitosa, por um álcool de cadeia média, que produz clarificação à medida que é adicionado. Numa definição posterior, Danielsson & Lindman (1981) propuseram como um sistema composto de água, óleo e moléculas anfifílicas no qual se apresenta como uma solução líquida, termodinamicamente estável e isotropicamente translúcida.
Devido à capacidade de liberação do fármaco de forma controlada, as microemulsões estão sendo consideradas como sistemas reservatórios no qual, a fase interna, constitui um microambiente dimensionalmente restrito, com propriedades particulares, podendo ligar ou associar moléculas com diferentes polaridades (OLIVEIRA et al., 2004). Além disso, as microemulsões possuem características que permitem aos fármacos serem administrados em várias vias de administração tais como: oral, parenteral, tópica, pulmonar, ocular e vaginal no campo farmacêutico (DAMASCENO et al., 2011)
Do ponto de vista macroestrutural, as microemulsões podem ser do tipo água-em-óleo (A/O), óleo-em-água (O/A) ou estruturas bicontínuas (LAWRENCE e REES, 2000). Assim, quando o sistema possui gotículas esféricas de água bem reduzidas e envolvidas por moléculas de tensoativos em um meio contínuo de óleo, a fase aquosa é a interna ou dispersa, ao passo que o óleo compõe a fase externa ou contínua, tendo o tipo A/O. Inversamente, quando gotículas de óleo estão localizadas no interior de um meio contínuo aquoso, a fase oleosa é a interna ou dispersa, e a água compõe a fase externa ou contínua, sendo então do tipo O/A (Figura 4) (CONSTANTINIDES e YVIS, 1995).
FIGURA 4. Tipos de Microemulsões
Fonte: FORMARIZ et al., 2005
Também devido ao pequeno tamanho das partículas, ao contrário das emulsões, as microemulsões são geralmente caracterizadas como agregados esféricos e com diâmetros menores do que 1400 Å (LANGEVIN, 1988; OLIVEIRA et al., 2004). O tamanho da partícula da microemulsão é muito pequeno e corresponde a aproximadamente 100 vezes menor do que o tamanho médio das partículas de emulsões (LANGEVIN, 1988; KAWAKAMI et al., 2002a); KAWAKAMI et al., 2002b) (Tabela 2). Por esta razão, microemulsões são opticamente translúcidas, que é justificado por fato do diâmetro das partículas do sistema, serem menores do que ¼ do comprimento de onda da luz incidente. Com isso, as mesmas não espalham a luz e o sistema fica transparente (LANGEVIN, 1988; ROSANO, 1974).
TABELA 2. Tamanho e aspecto físico-químico das emulsões.
Denominação Diâmetro da Partícula Aspecto Soluções Micelares 0,0035-0,0075 µm Transparentes
Microemulsões 0,01-0,2 µm Transparentes/Translúcidas
Emulsões 0,2-10 µm Opaca/Esbranquiçada
Fonte: FORMARIZ et al., 2005
O planejamento e o desenvolvimento de novos sistemas de transportes de moléculas visando aumentar a eficácia de fármacos existentes têm recebido grande atenção na pesquisa farmacêutica. Neste sentido, todos os componentes da microemulsão devem ser escolhidos de acordo a sua biocompatibilidade com os tecidos em que serão aplicados. De outra forma, deve-se considerar que as concentrações de tensoativos e co-tensoativos utilizados são necessariamente elevadas devido à necessidade de se manter a estabilidade termodinâmica do
sistema, fato este que pode gerar uma toxicidade. Portanto a escolha das fases oleosa e aquosa assim como dos tensoativos envolvidos, correspondem a etapas cruciais para o desenvolvimento do sistema microemulsionado (SILVEIRA, 2009).
Quanto às características que credenciam às microemulsões como carreadores ideais para a administração de fármacos, estão por possuírem estabilidade termodinâmica e um pequeno tamanho de partícula da fase interna menor que 1,0 µ m. Estes sistemas oferecem ainda, como vantagens adicionais, baixos valores de viscosidade e alta capacidade em incorporar tanto fármacos hidrofílicos quanto lipofílicos, atuando também como promotores para a sua absorção. De igual forma, a produção é simples, de baixo custo, não requerendo muita energia ou equipamentos especiais para ser preparado e podendo ser esterilizada por filtração (FIALHO e SILVA-CUNHA, 2004).
Devido as características intrínsecas do sistema microemulsionado, a utilização de extratos de plantas (ExP) com potencial farmacológico e terapêutico torna-se possível, uma vez que as microemulsões aparecem como uma alternativa biocompatível, do ponto de vista farmacêutico, para solubilizar e carrear os ExP obtidos por extrações de diferentes polaridades (GOMES et al., 2006). Na composição dos extratos de plantas encontram-se substâncias polares, pouco polares e/ou apolares, extraídas com solventes que podem ser agressivos aos tecidos e que devem ser retirados por mecanismo não lesivo aos metabólitos secundários do extrato, a exemplo da rota-evaporação a vácuo a baixa temperatura (SARAIVA, 2007).
3.4. Referências
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