10 Interessante pensar que, como as vidas infames de que fala M. Foucault, são aqueles que não
falam, mas são falados; não há escuta para sua voz, mas há espaço nos discursos do poder para marcá-los de infâmia. Como diz Agamben, os escribas anônimos que redigiram as notas que fazem parte do “arquivo impiedoso da infâmia”, resgatado por Foucault, “certamente não pretendiam nem conhecer e nem apresentar; seu único objetivo era marcar de infâmia” e “certamente as vidas infames aparecem apenas por terem sido citadas pelo discurso do poder” (G. Agamben, “O autor como gesto”, Profanações, p. 58).
11 R. Arlt, “Los bares alegres del Paseo de Julio”, El Mundo, 28/02/1931, em: OA, p. 255. 12 R. Arlt, “Barranca abajo”, El Mundo, 30/12/1929, em: ED, p. 58.
perder paulatinamente o medo do monstro homem, a se habituar à noite, ao barulho e às luzes: “Es como la domesticación de una bestia”.13
Em busca de uma saída da perspectiva evolucionista e antropocêntrica, Agamben recorre a Jakob Von Uexküll, cujas investigações sobre a variedade de mundos perceptíveis influenciaram a Heidegger e Gilles Deleuze: ao invés de ordenar hierarquicamente todas as espécies viventes, desde as formas mais elementares até os organismos superiores, como o fazia a ciência clássica, Uexküll propõe uma infinita variedade de mundos perceptíveis, todos igualmente perfeitos e conectados entre si, como numa grande partitura musical, embora estejam incomunicados e sejam reciprocamente excludentes. Segundo Uexküll, não existe mundo unitário e nem tempo e espaços iguais para todos; existe um ambiente diferente para cada ser vivente que o habite e perceba. 14 É no âmbito do debate sobre a relação entre a população e seu ambiente que Agamben situa a tese de Martin Heidegger (Ser e Tempo, 1927) sobre o ser-no-mundo.
Em 1929-30, Heidegger ministra um curso em que se dedica a pesquisar a relação do animal com seu ambiente e do homem com seu mundo e na qual analisa o tédio profundo (“aburrimiento profundo”) como tom emotivo fundamental desta última. Segundo o filósofo, o que distingue a pedra, o animal e o homem, seria seu modo de relação com o mundo: “a pedra é sem mundo, o animal é pobre de mundo, o homem é formador de mundo”.15
A pobreza de mundo do animal refere-se a seu modo “aturdido” de se relacionar com o ambiente; quer dizer, o animal reage a seu ambiente de forma absorta e entorpecida, sem manifestar capacidade de “obrar” ou de “ter uma conduta”;16
o animal estaria aberto ao mundo, mas não teria uma percepção de seu agir no mundo.
O aberto se coloca como conceito importante para pensar o ser- no-mundo. Segundo Heidegger, o animal está no aberto, mas não se vê, não se percebe, não se revela como ente, como ser; ele está no aberto de modo aturdido e seu entorpecimento o impede de ver, torna opaco o seu entorno. Como, por exemplo, a mariposa noturna que se deixa atrair pela chama que a queima. Paradoxalmente, o aturdimento animal implica uma entrega integral ao aberto, mas não seu revelamento; ele
13 Op.cit., p. 60.
14
Agamben, Lo abierto, 2007, p. 80-1.
15 Agamben, op. cit., p. 95. 16 Agamben, op. cit., p. 97.
permanece, ao mesmo tempo, turvo e atraente (este seria o paradoxo da pobreza de mundo animal).
O ponto de inflexão é a aproximação entre o aturdimento animal e o tédio profundo humano. A compreensão do mundo humano passa por este entorpecimento animal, esta exposição sem revelação (“exposición sin develamiento”), numa relação de vizinhança extrema, embora possa ser enganosa. O espaço de vizinhança é o “estar encantado-acorrentado” do ser no mundo.
La esencia de la animalidad, el aturdimiento, se encuentra aparentemente en una vecindad extrema en relación con lo que hemos examinado como elemento característico del aburrimiento profundo, y que hemos denominado el estar encantado- encadenado [gebannt sein] del ser-ahí al interior del ente en su totalidad.17
Segundo a leitura de Agamben, a abertura do mundo humano só pode ser alcançada por uma operação efetuada sobre o não-aberto do mundo animal. E o lugar desta operação (na qual a abertura humana ao mundo e a abertura animal ao ambiente parecem se tocar) é o “aburrimiento”, o tédio.
Heidegger analisa 3 momentos estruturais do tédio profundo: o abandono no vazio (onde Antelo já situara o esgunfiado de Arlt: “el ser- abandonado-vacío, el abandono mismo en su vacío, es justamente el esgunfiado de Arlt, alguien que, ante el mundo, sólo puede demostrar un estupor casi animal”18
): estar absorto pelas coisas de modo indiferente, sem que as coisas tenham nada a oferecer; estar encantado e acorrentado ao que nos entedia. O vazio aqui é a indiferença, o tom emotivo fundamental do Dasein, do ser, que está aferrado a algo que lhe escapa, como o animal, que está entorpecido, exposto em um não revelado. Ambos, o homem e o animal se vêem, assim, expostos a um enclausuramento, abertos a sua prisão.
O segundo momento é o do ser tido em suspensão: as possibilidades estão diante do ser indiferente, mas elas estão tão presentes quanto inacessíveis. As possibilidades jazem inativas para o ser entediado. A suspensão é a desativação das potenciais possibilidades do poder-ser do Dasein (a potência de vir-a-ser-ser é desativada e ele jaz não-sendo). E o terceiro, o ser e nada, onde “ser ahí significa: ser
17 Heidegger Apud Agamben, op.cit., p. 114-5. 18 R. Antelo, op.cit., p. 7, mimeo.
tenidos en suspenso en la nada”.19
O ser está atravessado desde a origem pelo nada, como destacam Agamben e Antelo. Com o qual, o ser termina sendo apenas um animal que aprendeu a se entediar e que passeia seu tédio pelo mundo:20
El Dasein es simplemente un animal que ha aprendido a aburrirse, se ha despertado del própio aturdimiento y al própio aturdimiento. Este despertarse del viviente a su própio ser aturdido, este abrirse, angustioso y decidido, a un no abierto, es lo humano.21
Aquilo de que o homem procura fugir, de sua animalidade, de seu entorpecimento diante do mundo, parece ser o que o persegue. Como o narrador das aguafuertes porteñas, sempre esgunfiado e entediado, para quem toda paisagem é enfadonha e repetitiva; ele não flana, mas vaga, num movimento de inércia e repetição, em que percorre e se arrasta pelas ruas, mas também se deixa esmagar, sucumbir, girar na nória repetitiva de todos os dias até exaurir suas forças, esgotar a última gota de ar, esvaziar, restar oco. O tédio do flanar se combina com o esvaziamento do vagar.
Como no Spleen de Paris, de Baudelaire,22 se lê nas águas-fortes de Arlt o “tédio na bruma”. Cansado de passear seu próprio enfado por Buenos Aires, pergunta-se: “Uno, todos los días hace lo mismo, dice las mismas mentiras y las idénticas verdades; aburre a unos y distrae a otros, molesta a alguno y se hace odioso a vários, ¿vale la pena de vivir? ¿Para qué? [...]”.23
O ambiente se torna cada vez mais opaco e o tédio abruma até exaurir a vida:
La neblina se vuelve más espesa. Las campanas de los tranvías resuenan más alarmantes; los hombres van y vienen, y en realidad, morirse es casi como