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1.1.3 A região do Médio Solimões

É uma área geográfica do rio Solimões, que está situada na sub- região do Rio Negro-Solimões. Conforme estudos da Fundação Getúlio Vargas (2007) para a elaboração do Plano diretor de Coari, fazem parte do Médio Solimões seis cidades, a saber: Anori, Beruri, Anamã, Caapiranga e, principalmente, Coari e Codajás. A terminologia Médio Solimões foi mais difundida após os empreendimentos da Petrobrás na bacia petrolífera de Urucu e no Terminal do Médio Solimões, que colocaram em evidência a cidade de Coari no cenário econômico regional. Das seis cidades dessa região geográfica, três foram selecionadas para compor os pontos de inquérito de nossa pesquisa. São elas: Anamã, Codajás e Coari, da qual selecionamos mais quatro pontos de inquérito: Ariri, Saubinha, Itapéua e Costa do Juçara.

Nos parágrafos seguintes retrataremos os aspectos históricos somente dos pontos de inquérito selecionados para compor a amostra de nossa pesquisa.

1.1.3.1 Aspectos históricos da cidade de Anamã

A cidade de Anamã com uma área 2.454 km2 está localizada na região geográfica do Médio Solimões e dista em torno de 162 km da Capital Manaus. A cidade é bastante pequena em termo de urbanização e possui uma população rural com 6.019 habitantes, que supera a urbana com 4.174 habitantes perfazendo um total de 10.193 habitantes segundo dados do Censo do IBGE 2010. Uma das peculiaridades da cidade de Anamã são suas casas de madeira construídas sobre palafitas. A cidade foi construída em terras de várzea, de modo que está sujeita ocasionalmente às inundações das grandes cheias que ocorrem na região anualmente. Embora exista possibilidade de mudar a sede do município para terra firme mais próxima, os moradores preferem permanecer na área de várzea. Quantoà etimologia do topônimo “Anamã”, o dicionário tupi-português/português-tupi (MELLO, 2003) apresenta três significações: “espesso”, “coalhado”e “lotado”. Quanto à emancipação político- administrativa, ocorreu primeiramente com decreto-lei estadual no. 176, de 01.12.1938, que elevou a vila de Anamã à categoria de Distrito, que por sua vez pertenceu ao município de Anori criado pela lei estadual no. 117 de 29 de dezembro de 1956. Pela emenda constitucional nº 12 de 10.12. 1981, o Distrito de Anamã foi desmembrado de Anori. O município foi estabelecido em 1º de janeiro de 1983, após a realização das eleições de 15 de novembro de 1982. A economia dessa cidade gira em torno dos serviços da prefeitura, do pequeno comércio local, de atividades autônomas, da pesca e de atividades agrárias. O acesso à cidade de Anamã pode ser feita somente via fluvial pelo Rio Solimões em barcos médios e lanchas rápidas.

Figura 4 Vista da frente da cidade de Anamã Fonte: Pesquisa de campo, 2011.

1.1.3.2 Aspectos históricos da cidade de Codajás

A cidade de Codajás, com uma área territorial de 18.711,544 km2, está localizada à margem esquerda do rio Solimões e a 03º 50‟ 13‟‟ de latitude sul e a 62º 03‟ 25‟‟ de longitude oeste. A cidade dista em torno de 297 km da capital Manaus e possui população urbana de 15.808 habitantes e a rural 7.311, totalizando 23.119 segundo dados do Censo do IBGE 2010.

Os barcos, que saem de Manaus com destino a Coari ou a Tefé, navegam o rio Solimões passando pelo encontro das águas na época das secas ou pelo furo do Paracuuba na época das cheias e costumam fazer escala na cidade Codajás no período entre as duas e oito horas da manhã do dia seguinte ao da partida de Manaus.

O nome Codajás faz alusão aos índios cudaiás (ALMEIDA, 1965, p. 31), os primeiros habitantes indígenas da localidade, e a uma fruta curucudaiá apreciada de forma cozida ou assada pelos moradores locais (MELLO, 2003, p. 40). Na obra Panoramas Amazônicos de Jobim (1934) há citação da chegada de um nordestino nascido no Maranhão e de pais cearenses nas proximidades da atual cidade de Codajás. Era o coronel José Manoel da Rocha Thury, da cidade maranhense de Turiaçu, acompanhado de um de seus irmãos, objetivava explorar o rio Purus e o lago de Codajás, e acabou por ser o fundador da atual cidade do Médio Solimões. O coronel maranhense criou campos para a criação de gado – umas 300 cabeças nessa época – e fundou estabelecimentos. Codajás foi

um porto de escala dos barcos a vapor da Companhia Comércio e Navegação do Amazonase passou a ser freguesia em 30 de junho de 1868. Em 1874 foi elevada à categoria de vila com a denominação de Vila de Codajás (JOBIM, 1934, p. 6).

Fato curioso aconteceu com a grafia da palavra Codajás, porque de início era falada Cudajás e escrita também dessa forma, pois essa terminologia derivou de cudaiás, os índios que habitavam a localidade, e curucudaiá, a fruta comestível do cipó. A semivogal “i” de cudaiás sofreu um processo de fortalecimento ao transformar-se em [], ou seja, graficamente em um “j”; e o /u/ sofreu abaixamento para [o]. Portanto, de cudaiás, temos Codajás. Aconteceu que para evitar o cacófato, certamente se escrevia com “o”, e muitos falantes da região do Médio Solimões se esforçam para pronunciar de acordo com a grafia atual. Por conta disso, houve, em 1878, um projeto de lei da autoria de Estevam José Bezerra, que propunha a mudança do nome Codajás para Solimões. Entretanto, não foi bem sucedido o projeto, permanecendo o nome atual (JOBIM, 1934. p. 6). Codajás foi elevada à categoria de cidade em 31.03.1938 pelo decreto-lei nacional no 68 (BELTRÃO; BELTRÃO, 1999, p. 269).

A economia da cidade é baseada na agricultura, na pesca, na produção de hortifrutigranjeiros, extração de madeira, pecuária, produção de tijolos, frigorífico para pescado, produção de móveis para atender a clientela local, comércio varejista e atacadista, serviços bancários, serviços de transporte fluvial através de barcos regionais e lanchas rápidas, serviços de moto-taxistas etc.Vista da cidade de Codajás na Figura 5 abaixo:

Figura 5 Vista da frente da cidade de Codajás Fonte: Pesquisa de campo, 2011.

1.1.3.3 Aspectos históricos da cidade de Coari

Coari é um município amazonense localizado no Médio Solimões, de que fazem parte também Anori, Anamã, Beruri, Codajás e Caapiranga, que estão localizados na grande Sub-Região do Rio Negro- Solimões, que agrega um total de quinze municípios. A frente da cidade de Coari em qualquer época do ano é muito movimentada pelas pequenas, médias e grandes embarcações (canoas, rabetas, catraias, lanchas, barcos, grandes recreios), que saem diretamente do porto, localizado no Lago de Coari, para o rio Solimões.

A população urbana, segundo o censo 2010 do IBGE, é de 49.638,e a rural é de 26.271, totalizando 75.909 habitantes, sendo por isso o quinto município mais populoso do Estado do Amazonas, depois de Manacapuru, Itacoatiara, Parintins e Manaus.

Coari tem uma origem parecida com a de outras cidades amazônicas, que surgem às margens de um rio ou de um lago, e que tiveram como primeiros habitantes tribos indígenas. O nome de origem das cidades se remete a uma terminologia indígena e hoje como se vê no surgimento das comunidades ribeirinhas, juntam ao nome indígena nomes religiosos como São João do Ariri, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro Vila do Itapéua.

Figura 6Vista da frente da cidade de Coari Fonte: Pesquisa de campo, 2010.

Coari tem uma história que atravessa quase cinco séculos até se tornar uma cidade legalmente constituída. E tudo começou em 1540, com a expedição de Francisco Orellana ao longo do rio Amazonas, trazendo consigo Frei Carvajal, o primeiro cronista a escrever sobre a Região Amazônica. A expedição, ao passar pelo Médio Solimões em um percurso entre Tefé e Coari, Carvajal, na ocasião, chamou uma área de Província de Machiparo, onde avistou uma grande povoação que reunia 50 mil homens, os primeiros habitantes da região, onde surgiria a cidade de Coari.

Os frades carmelitas, a serviço da coroa espanhola, foram os precursores da cidade de Coari. O jesuíta Samuel Fritz fundou em 1689 a missão religiosa Santana de Coari, reunindo as tribos Catauxis, Irijus, Jumas, Jurimaguas, Auapes, Purupurus e outros.

Em 1759, o primeiro governador da capitania de São José do Rio Negro elevou a aldeia à categoria de lugar, recebendo o nome de Alvelos. Em 1833, foi o Lugar Alvelos elevado à Freguesia de Nossa Senhora de Santana de Coari. Mas pelo decreto no. 146 de 24.10.1848, o nome Alvelos se mantinha, sendo o lugar considerado como Freguesia ou Colégio Eleitoral subordinado ao termo da cidade de Tefé.

Em 01.05.1874, foi elevada à Vila pela lei provincial no 287 com o nome de Coari. Em 15.11.1890, foi instalado o termo judiciário da Vila de Coari e, em 10.04.1891, a Comarca. Em 30.10.1913, foi suprimidaa Comarca de Coari, ficando o termo subordinado à Comarca de Tefé. Em 1916, em virtude da Lei n° 844, de 14 de fevereiro do mesmo ano, foi instalada a Comarca de Coari e, suprimida novamente, pela Lei n° 133, de 7 de fevereiro de 1922. A Comarca foi restaurada, outra vez, pela lei estadual no. 122 em 10.03.1924, compreendendo, os

termos de Coari, Manacapuru e Codajás, até a instalação das Comarcas desses termos. Em 02.08.1932, pela Lei Estadual nº 1665, Coari foi elevada à categoria de cidade.

No século passado a economia girava em torno da indústria extrativista e cultura da seringueira, com destaque para a produção da banana, sendo a cidade conhecida como terra da banana. Mas com a descoberta do gás natural e do petróleo de Urucu a partir de 1986, esse título mudou drasticamente, e Coari passou a ser conhecida como a terra do gás, a cidade mais importante da região do Médio Solimões e uma das mais ricas da região Norte.

Devido ao desenvolvimento na infraestrutura urbana promovido pelos Royalties pagos pela Petrobrás à prefeitura municipal, ocorreu o “boom” do gás. Por isso muitas pessoas de várias partes do Brasil (por exemplo: nordestinos, sulistas) foram atraídas pelo trabalho em empresas que prestam serviços terceirizados à Petrobrás. O comércio envolvendo produtos industrializados e hortifrugranjeiros cresceu bastante, favorecendo os moradores da própria cidade e das comunidades ribeirinhas do rio Solimões e do rio Coari Grande. O Estado do Amazonas destaca-se na produção de petróleo e gás natural no Brasil, pois com a quantidade de petróleo extraído em Coari, na Província Petrolífera de Urucu, é o segundo maior produtor terrestre de petróleo e o terceiro produtor nacional de gás natural, conseguindo abastecer, com isso, os estados do Pará, Amazonas, Rondônia, Maranhão, Tocantins, Acre, Amapá e parte do Nordeste.

Atualmente, como política de interiorização da Universidade Federal do Amazonas-UFAM, existe o Instituto de Saúde e Biotecnologia-ISB,o Campus avançado de Coari, que funciona com seis cursos: Licenciatura conjunta em Ciências: Química e Biologia, Ciências: Matemática e Física, e bacharelados em Biotecnologia, Fisioterapia, Enfermagem e Nutrição, os quais atraem estudantes de Parintins, Itacoatiara, Tefé, Codajás, Manaus e de outras partes do Estado e de outros lugares do Brasil.

1.1.3.4 Aspectos históricos da comunidade São Francisco do Saubinha

São Francisco do Saubinha é uma das comunidades do município de Coari e não tem nenhum documento sobre sua própria origem. Por isso, nos baseamos nos relatos do morador antigo da localidade, que afirmava ser um dos fundadores dessa comunidade e nos passou

informações importantes sobre a constituição do Saubinha, que é o nome mais conhecido pelos moradores locais. O lugar já dispõe de estabelecimentos comerciais e de uma escola que oferece o ensino fundamental completo. O ensino médio é completado na cidade de Coari, que fica em torno de 13 quilômetros do Saubinha pela estrada Coari-Itapéua, a qual fica praticamente intrafegável durante os dias chuvosos devido ao excesso de barro, que vem se sobrepondo ao asfalto. A comunidade vive de atividades ligadas à terra e escoa sua produção para a cidade de Coari.

O informante começa a narrativa desde o lugar chamado Ipixuna no rio Copeá, de onde vieram várias pessoas, incluindo os cunhados dele, para a atual localidade. Um dos primeiros desbravadores do lugar já havia morrido segundo o relato do informante. Vieram com ele também seus irmãos, que andavam por um pequeno caminho ou trilha para chegar, após seis horas de caminhada, até a cidade de Coari. O informante, na época, já era assalariado e resolveu ajudar seus irmãos Francisco Nunes, Sebastião Nunes e Raimundo Nunes. Enquanto os irmãos trabalhavam a terra, o informante ajudava-os com mantimento. Depois de haver seis famílias no lugar, resolveram formar a comunidade com o nome de São Francisco do Saubinha sendo o primeiro líder comunitário Florenço Vilhena Praia.

A origem do nome Saubinha foi em referência ao Igarapé do Saúba, que corre por detrás da comunidade, onde havia bastante saúva cortando abacaxi. Os primeiros moradores acabaram com as saúvas em 1980. O informante foi também o primeiro professor do Saubinha e trabalhou como líder durante treze anos. Nessa época, os primeiros desbravadores mediram 200 metros de terra entre eles para trabalhar e, segundo o informante, não tinham a pretensão de tomarem a terra do verdadeiro dono, a quem diziam:

...rapaz, nós só quê trabalhá, que ninguém tem onde trabalhá e tal, né! E fui enfrentando. Fomo até que ente conseguiu, e aí o cara passou essa estrada aqui. Aí aqui eu fui ameaçado de bala, veio gente aqui com capangas pra tirá a gente daqui. É veio gente com 12 capanga munidos de armas de fogo pra tirar daqui. Mandei que me atirasse, mandei que me matassem. A única coisa que vocês podem fazeré me matá, né! Porque outra coisa mesmo, prendê! vocês podem me prendê, mas depois me solta eu venho prá cá de novo. (Informante de 59 anos coma 8ª. série)

Segundo o informante, vivem na comunidade cerca de 80 famílias, que trabalham em atividades agrícolas. Como maneira de demonstrar hospitalidade, o informante encerrou a entrevista dizendo: “A gente tem um feitiço com a mão do macaquinho, quando o visitante vai dá as costas e a gente faz assim com a mão (chama fechando a mão), aí ele volta e não sai mais”. Abaixo na Figura 7 está a foto da comunidade Saubinha.

Figura 7Vista da comunidade Saubinha Fonte: Pesquisa de campo, 2010.

1.1.3.5 Aspectos históricos da comunidade N. Sra. do Perpétuo Socorro (Itapéua)

O nome completo da comunidade é Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mas conhecida como Itapéua. A etimologia da palavra é do tupi sendo transcrita como [i’ta], que significa pedra, e [pewa] ou [bewa], que significa chato, plano, liso, largo, achatado (HOUAISS, 2009). Logo, Itapéua significa literalmente pedra chata. A comunidade fica em torno de 20 km de distância de Coari pela estrada Coari-Itapéua e está localizada à margem direita do rio Solimões. Durante nossa viagem feita de Manaus a Coari em julho de 2011, a rua da frente do Itapéua, onde passa o rio Solimões, estava literalmente sendo “engolida” pelo fenômeno chamado voçoroca. A comunidade dispõe de serviços comerciais, de escola, e seus moradores, em média umas 100 famílias, vivem de atividades agropastoris, da pesca etc.

Para retratar a história da comunidade, conseguimos encontrar a leitura de um documento gravada em um gravador de voz sobre a

origem do Itapéua, porque os moradores locais demonstravam não saber a história de origem do lugar. Por isso, devido às dificuldades em encontrar fontes, nos ativemos somente ao achado.

A narrativa no documento faz referência ao ano de 1938 com o pai do narrador chegando ao lugar, onde é o Itapéua. O nome da comunidade foi dado pelos antigos moradores na época da cabanagem. O lote de terra antigo era chamado Santarém e era de propriedade de um coronel chamado Francisco do Arial Souza, que transferiu o referido lote para José Manoel de Souza. Durante a posse de José Manoel de Souza, surgiu o nome Itapéua. O novo dono trabalhou na agricultura plantando cana-de-açúcar, cultivando outras atividades rurais e desenvolvendo um pequeno comércio, que amenizava as necessidades dos moradores, que viviam às margens do rio Solimões. Dessa forma, o desenvolvimento começou nessa área, e a família do narrador aumentou para oito pessoas, das quais cinco eram homens e três eram mulheres. O pai do narrador morreu e deixou todos os filhos ainda pequenos. Na época da morte do pai, o narrador tinha 12 anose era o filho mais velho. Por isso, a mãe dele o colocou na cidade para estudar atéa 5ª. série do antigo primeiro grau. No final da narrativa,o narrador se revela como alguém de 34 anos e com o nome de Inércio Braga de Souza.

Figura 8Vista da vila Itapéua Fonte: Pesquisa de campo, 2010.

1.1.3.6 Aspectos históricos da Costa do Juçara

A Costa do Juçara (Figura 9) é muita extensa territorialmente e está localizada na frente de Coari, do outro lado do rio Solimões. Não se trata apenas de uma comunidade, mas de várias espalhadas por toda extremidade da Costa. Esse lugar não tem nenhum registro sobre o começo de sua povoação, por isso o histórico se limita à constituição de cada comunidade formada recentemente com o consentimento de famílias com grau de parentesco bastante próximo comoa de famílias envolvendo cunhados, irmãos etc. Mas ao que tudo indica, os primeiro habitantes podem ter se fixado no começo do século passado. Ao entrevistar um senhor de 75 anos da comunidade Nossa Senhora da Conceição, ele fez referência ao ano de 1960 como data em que fixou moradia na Costa. Existem mais de 100 famílias cujos ascendentes vieram de várias regiões interioranas do Médio Solimões. O senhor de 75 anos citou, ainda, o nome de algumas comunidades que formam a Costa do Juçara como Nossa Senhora de Fátima, São Francisco, Comunidade do Saúba, Inanindé, Nossa Senhora da Conceição, Aparecida, Menino Deus, Padre Lima, Santa Maria, Espírito Santo etc. As famílias, que vivem na Costa do Juçara, cultivam produtos hortifrutigranjeiros como alface, pimentão, mari, pepino, melancia, milho, feijão, e produzem farinha, e pescam, e criam gado, e fazem vinho de açaí etc. O excedente da produção é escoado para a cidade de Coari.

Figura 9Vista da Costa do Juçara Fonte: Pesquisa de campo, 2010.

1.1.3.7 Aspectos históricos da comunidade São João do Ariri A comunidade São João do Ariri possui uma dimensão territorial de 3.000 m de frente por um comprimento ainda não calculado, mas bastante extenso segundo a versão dos moradores locais. Vivem na comunidade dezoito famílias, que professam o adventismo e trabalham em atividades agropastoris. Raramente caçam e pescam de caniço nas proximidades da comunidade, porque o uso de malhadeira e de outras redes de pesca é proibido. Não conseguimos desvendar o significado do topônimo “Ariri”, que, segundo os moradores locais, trata-se de um vocábulo de origem indígena. Como Ariri é um vocábulo curto, resolveram chamar a localidade de São João do Ariri, em homenagem ao apóstolo bíblico João.

Essa localidade fica situada dentro do rio Coari Grande e, para ter acesso a ela, o mais viável é viajar durante a época das cheias dos rios e lagos do Médio Solimões. A viagem da cidade de Coari até lá dura em média 5 horas em um rabeta de 5 HP.

A comunidade não tem nenhum registro escrito sobre sua origem. Por isso, nos baseamos nos relatos de um informante que é o morador mais antigo e um dos desbravadores desse lugar. A narrativa do informante sem escolaridade, embora soubesse ler, começa se reportando ao ano de 1953, data da vinda a remo do informante e de sua família da cidade de Tefé para Coari, pois nem reboque havia naquela época. Durante a noite, os viajantes paravam para dormir, porqueo Solimões tinha muitos troncos de madeira, que poderiam bater na canoa e afundá-la. Eles só prosseguiam viagem durante o dia. O informante ainda era garoto naquela época e partiu com sua família da cidade de Tefé em uma segunda-feira.

Chegaram à cidade de Coari em uma quarta-feira, às 10:00 horas da manhã. Os pais do informante queriam trabalhar para sustentar a família deles, por isso resolveram aceitar a proposta de um trabalho sem saber para onde iam. A única certeza era que iam para uma comunidade. Viajaram atrás de um motor que levava muitas canoas. Enquanto não chegavam ao destino final, estava tudo tranquilo para eles. Depois de sete dias de viagem, chegaram à colocação, que eles pensavam que nunca iriam chegar. Ao chegarem à colocação, foram surpreendidos por uma quantidade enorme de insetos. Eram tantos que os moradores daquele local se vestiam dos pés à cabeça. Todos ficavam cobertos com mosquiteiros, só a parte dos olhos ficava exposta.

Como não tinham roupas adequadas para enfrentar os insetos, a família ficou à mercê daquelas pragas. Recém-chegados de Coari,

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