10 PROCEDIMENTOS ÉTICOS
11.4 SUBCATEGORIA DE CUIDADOS
A presente subcategoria demonstra o cuidado dispensado a quem precisa da atenção necessária no momento delicado pelo qual está passando, de forma evidente como apresentado na fala abaixo.
a. “(...) Eu jamais vou deixar ela jogada, jamais, eu não faço isso
não. Eu tento dar o meu melhor e tento organizar as coisas... Sou muito grata a ela que sempre cuidou de mim e dos meus irmãos ela foi nosso e pai e nossa mãe eu jamais vou abandoná-la Eu não sou melhor do que ninguém, eu não faço melhor do que ninguém, eu só peço [aos meus outros parentes] atenção naquilo que se faz, [para] fazer direito...”(C 9).
A fala apresentada reforça a importância dos cuidados que são indispensáveis para aqueles que tanto necessitam do apoio de quem cuida. A própria sensação de cuidado apresentado pelo familiar cuidador reforça a ideia de atenção e carinho pelo idoso com DP. Este entendimento, Boff (1999) reforça que:
Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto abrange mais que um momento de atenção, de zelo e desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro (BOFF, 1999, p. 33).
a. “(...) Eu cuido porque não tem outra pessoa para cuidar e nem
tenho dinheiro para isso, mas não gosto...( C 16).
b. “(...) Eu cuido dele mais é muito cansativo sabe? É muito
estressante...( C 17).
Cattani e Girardon-Perlini (2004) ensinam que cansaço emocional se reflete na perda progressiva de energia, fadiga constante e esgotamento emocional, transmitindo uma situação em que as pessoas não se doam efetivamente no campo afetivo. É experiência de desgaste psicológico, acarretado pela assistência cotidiana prestada a usuários que demandam ajuda – onde são vivenciados conflitos e sentimentos ambivalentes.
Figura 17 – Sentimentos dos familiares frente ao cuidado com idoso
O fato de você cuidar do idoso te faz sofrer ou te deixa
triste
Quantidade Porcentagem
Triste 12 60%
TOTAL 20 100% Fonte: A autora 2014.
Na figura 17 observa-se 12 (60%) dos 20(100%), dos familiares entrevistados sentem-se tristes pelo fato de ter que cuidar do idoso com a DP e 8 (40%) destes familiares relatam que sentem sentimentos de sofrimento.
A doença traz consigo um fator emocional de regressão, no sentido de acentuar sentimentos de fragilidade, dependência e insegurança. O estado de doença acarreta algumas repercussões psíquicas inevitáveis, como preocupações, angústias, medos, alterações na auto- imagem e algum nível de dependência (DIOGO, DUARTE, 2002).
As falas seguintes buscam retratar esta realidade apresentada de sentimentos e sofrimentos.
a. “(...) Eu sinto muita fraqueza porque eu durmo muito pouco.
Alimento, eu não tenho vontade de come sinto uma grande tristeza.” (C 1).
b. “(...) Eu me sinto tão triste infeliz que isso esta me afetando fui
no medico ele passou medicações pra que eu fique mais calma , mais quando eu tomo os remédios durmo de mais e ai vem a minha preocupação quem vai cuidar dele já que eu estou dormindo, e com isso me sinto desgastada mais , eu ando mais porque eu tenho que dar tudo na mão... (...) Meu sono vai embora, assim, eu fico sem sono só durmo com remédios – eu não tinha isso antes... Isso perturba um pouquinho a mente da gente, não é? (...) Eu esqueço algumas coisa, já até consultei com a neurologista.”. (C 2).
c. “...o físico, eu me judiei muito porque apareci diabética depois
disso (depois que começou a cuidar do idoso com DP)... Eu acho que fiquei mais nervosa e me alimentei pior. (...) Eu estou nervosa, estou mais nervosa, isso eu tô” (C 3).
d. “(...) Eu estou estressada, tão cansada... estou ficando
esquecida também.” (C 6).
e. “(...) Tem dia que sinto a mente mais cansada porque acarreta
muito...”. (C 9).
Uma demonstração clara de perda de interesse em se cuidar, cuidar pelo seu bem- estar físico e mental em face dos problemas decorrentes do cuidado. Esta perda de interesse reflete na dificuldade apresentada pelo cuidador em manter sua saúde física e mental em condições mínimas aceitáveis acarretando, com isso, mudanças e alterações em sua vida.
Figura 18– Religião dos familiares cuidadores de idosos com Doença de Parkinson
Religião dos
entrevistados Quantidade Porcentagem
Católicos 10 50%
Evangélicos 6 30%
Nenhuma 2 10%
TOTAL 20 100%
Fonte: A autora 2014.
De acordo com figura 18 a religião dos familiares cuidadores dos idosos com DP, 10 (50%) são católicos, sendo que 6 (30%) são evangélicos, 2 (10%) são espíritas e 2 (10%) relatam não ter nenhuma religião.
A palavra religião na sua etimologia latina significa religare, religar, restabelecer ligação. Segundo Socci (2006), há uma distinção entre religiosidade e espiritualidade. Religiosidade pode ser considerada como crenças associadas a alguma seita ou instituição religiosa, caracterizada pela prática de alguns rituais religiosos públicos que são compartilhados com pessoas que possuem as mesmas crenças religiosas. Já a espiritualidade refere-se às atividades solitárias como preces e leituras religiosas.
O sentimento de solidariedade está presente em praticamente todos os discursos. Os cuidadores demonstram dedicarem-se plenamente às suas atividades de cuidado alegando para isso as próprias necessidades afetadas dos clientes. O cuidado representa atitude de desvelo, solicitude e atenção para com o próximo, mas também preocupação e inquietação a partir do momento que o cuidador se sente envolvido e afetivamente ligado ao cliente. É perceptível que eles, ao se esforçarem ao máximo para obter a satisfação e o bem-estar de seus familiares cuidados, reconhecem seus limites não deixando de aceitar ajuda externa. Ao cuidar nos conciliamos com forças geradoras de vida tornando o corpo um lugar de encontro e expressão, assim obtendo base para ajudar o próximo a viver, aprendendo a conciliar diversas forças aparentemente opostas, mas de fato complementares, e partindo desses conhecimentos o cuidador poderá, então, desenvolver seu espírito empático. Além disso, por ser cuidador, ele acredita também em uma possível recompensa por seus esforços, ao se imaginar na situação do cliente (GOMES, RESCK, 2009).
Moreira-Almeida (2009; 2010) concluiu, através de uma amostra nacionalmente representativa, em seu levantamento nacional no Brasil, que o envolvimento religioso independe da renda, nível educacional, ocupação ou o estado civil. No Brasil são observados altos níveis de envolvimento religioso, especialmente entre mulheres e idosos, por possuírem necessidades especifica de cuidados em saúde, e por utilizar a religiosidade para auxiliar no modo de lidar com situações estressantes, como o adoecimento. A religiosidade está associada ao bem estar psicológico, a redução da incidência de depressão, ideação suicida e abuso de drogas, diminuindo sua incidência em pessoas religiosas ou espiritualizadas. Destaca-se ainda, a constatação de que as populações de risco (como idosos ou doentes terminais) demonstram
melhor qualidade de vida quando têm a espiritualidade ou religiosidade desenvolvidas em seu cotidiano. Um censo realizado em 2000 aponta que apenas 7% dos brasileiros se declararam sem religião (STROPPA, MOREIRA-ALMEIDA, 2008).
Para Gomes (2008), é cada vez mais comum que as pessoas através da religiosidade busquem um suporte para que possa vencer os problemas da vida com mais vigor com uma força, um sentido para suas vidas, e influencia na forma de suportar os sofrimentos, a dor e os sintomas.
Conforme Bruscagin (2004), o interesse sobre a espiritualidade e a religiosidade sempre existiu no curso da história humana, independente de épocas ou culturas. Essa constatação contraria estudiosos e intelectuais que pensavam que a modernidade acabaria com as religiões, e com o interesse pelo assunto. É surpreendente ver o crescimento e o envolvimento das pessoas com a espiritualidade e a religião.
Segundo o IBGE (2010), o Brasil é o maior país católico do mundo (aproximadamente meio milhão de pessoas que seguem a religião), e é o terceiro maior do mundo em número de protestantes.
Surge o conceito de religião que pode ser definido como a crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais. Refere-se a um processo de interligação dos seres humanos com o Criador, possibilitando uma relação com o transcendente, com o inefável. Essa transcendência é tão forte, que povoa a cultura humana. O processo de religare nada mais é do que o desenvolvimento das faculdades psíquicas que tornam o ser humano sensível à percepção da sua relação com Deus (BRUSCAGIN, CERVENY, 2004).
A religião é entendida como um sistema organizado de crenças, que incluem valores morais e a crença na existência de Deus ou de um ser superior, o qual é capaz de nos julgar por nossos atos. Partilhada e institucionalizada, leva as pessoas que a vivenciam a se envolverem em uma comunidade. Na religião, o ser humano percebe que está ligado a um além da vida como um todo. Ele vive essa relação com essa instância superior, através de símbolos e rituais em comunhão uns com os outros (SCHNEIDER-HARPPRECHT, STRECK, 1996).
A religiosidade pode ser definida como a extensão na qual o indivíduo tem uma fé, segue e pratica uma religião. É um fenômeno que faz parte da vida do ser humano e que aparece, especialmente, quando o mesmo se confronta com os limites do seu ser, da sua moral e da sua capacidade de sofrer (SCHNEIDER-HARPPRECH, STRECK, 1996). A religião preza uma relação com um ser superior através de símbolos e rituais; a religiosidade é um comportamento específico, como ir à igreja, rezar em família, entre outros. O conceito de
espiritualidade apresenta alguns pontos de encontro com o conceito de religiosidade, mas eles se referem a diferentes domínios: a religiosidade está relacionada à prática pública da religião, vinculada a uma religião estabelecida e institucionalizada.
A questão da religiosidade também dá a sua contribuição social para os indivíduos e as famílias, pois pertencer a um grupo religioso e participar do mesmo pode trazer consequências psicossociais protetivas. A religiosidade promove a coesão social, a sensação de pertencimento, a incorporação e participação em grupo. Sanciona a continuidade dos relacionamentos, dos padrões familiares e outros sistemas de apoio (NABUCO, 2003).
A cultura individualista, característica da contemporaneidade, orienta para que cada um seja “o melhor”, contribuindo para a quebra da noção de comunidade e para a fragilização da vida familiar. Na tentativa de promover o bem-estar familiar, os profissionais de saúde, muitas vezes, têm negligenciado um recurso adicional que está disponível, porém é pouco reconhecido como útil, que seria a religião (BRUSCAGIN, CERVENY, 2004).
Para muitas pessoas, religião, crença e vida familiar estão interligadas. Indicam que crenças, valores e práticas espirituais partilhadas pela família, são ingredientes para um funcionamento saudável. Famílias saudáveis têm um sistema de valores e crenças partilhadas que transcendem os limites da sua experiência e conhecimento, além de um sistema claro de confiança compartilhada. Isto possibilita aos membros da família aceitar os riscos inevitáveis e perdas que ocorrem ao longo da vida. Possibilita, também, definir a vida como tendo sentido e significado. Assim, as famílias precisam de um sistema de valores e crenças que transcendam os limites de sua experiência e conhecimento. Com esse sistema, a família, ao enfrentar a sua realidade particular, que pode ser dolorosa, incerta e assustadora, pode ter uma perspectiva que oferece sentido aos eventos e uma visão mais esperançosa e menos vulnerável das crises e problemas (CERVENY, BRUSCAGIN, 2004).
Crenças e valores acabam por influenciar as pessoas em como definem seus problemas, entendem as causas e soluções, dão sentido ao sofrimento e à dor. Influenciam, também, como os membros da família se relacionam, como encaram as mudanças e onde vão quando precisam de ajuda. Deixar de lado as questões de fé das famílias religiosas é deixar de lado o aspecto central da dinâmica de muitas delas, a razão e o motivo de muitas de suas escolhas e comportamentos, que afetam diretamente seus problemas e dificuldades (BRUSCAGIN,CERVENY, 2004).
Dentro dessa perspectiva, a religiosidade influencia cinco aspectos da vida familiar: a) ampliação da rede de apoio social da família; b) oferta de atividades familiares e de recreação; c) doutrinação em apoio à família e valores a ela associados; d) oferta de serviços sociais e de
ajuda; e) encorajamento das famílias a buscarem ajuda divina para problemas pessoais e familiares (CERVENY, BRUSCAGIN, 2004).
Um aspecto específico que pode estar sendo afetado pela religiosidade nos dias atuais, refere-se à parentalidade e à maneira como esta é vivenciada. Sabe-se que a parentalidade sofreu alterações ao longo da história da humanidade, moldada por mudanças demográficas, normas e valores sociais, sistemas de estratificação, desenvolvimentos familiares e mudanças na estrutura e organização social. Ela está intrinsecamente relacionada ao modo como a sociedade e as culturas definem a família, diferenciando e atribuindo papéis a homens e mulheres. Assim, a parentalidade é uma experiência psicológica configurada por um contexto social que a define e significa (BERTHOUD, 2003).
A relação entre pais e filhos, na atualidade, está sob a influência de inúmeros fatores internos e externos à família. Estes fatores, contínua e constantemente, desafiam a adaptação e o desenvolvimento harmonioso desta relação (BERTHOUD, 2003). Por isso, o exercício da parentalidade exige dos pais, atualmente, flexibilidade e capacidade de adaptação. Apesar deste desafio, ainda considera-se a família o espaço psicológico no qual as crianças formam seus vínculos essenciais e desenvolvem suas identidades (MOREIRA-ALMEIDA, 2008). Dentre as tarefas que competem à família, a educação dos filhos é sem dúvida a mais complexa, principalmente em tempos de pós-modernidade.
Estruturas familiares diversas, muitas vezes rompendo com inúmeros padrões estabelecidos pelas culturas, e gerando, assim, várias questões que ainda continuam sem respostas, são observadas nos dias atuais. As dúvidas mais comuns para os pais podem ser resumidas em duas questões principais: como e “para quê” educar os filhos, visto que a família passa por um momento de perda de referenciais e de modelos (WAGNER, 2005). Estudos sobre a parentalidade procuram investigar os vínculos de parentesco e os processos psicológicos que se desenvolvem a partir daí. É de grande importância a maneira como esta parentalidade é vivenciada, pois o seu funcionamento está diretamente relacionado às expectativas da sociedade e o modo como a cultura define a família (BERTHOULD, 2003).
a. “(...) Se não fosse minha religião acho que eu não ia conseguir
sabe?...( C 10).
b. “(...) A melhor coisa que aconteceu com a doença do meu
marido foi que começamos ver as coisas diferente fomos para os cultos até a doença melhorou mais...( C ).
c. Eu não tenho nenhuma religião e nem acredito em nada porque
faço tudo certo não robô e nunca matei ninguém e tudo só da errado sabe?...( C).
d. “(...) Eu não acredito em nenhuma religião pra mim todas
Figura 19 – Religião e o cuidado realizado por familiares cuidadores
Você acredita que de alguma forma a religião ajuda você a conseguir cuidar do idoso
Quantidade Porcentagem
Sim 18 90%
Não 2 10%
TOTAL 20 100%
Fonte: A autora 2014
Na figura 19 em relação se à religião esta ligada na ajuda em cuidar do idoso, se observa 18 (90%) dos cuidadores familiares de idosos com DP, acreditam que de alguma forma a religião ajuda no cuidado com o idoso e somente 2 (10%), dos familiares acreditam que a religião não ajuda neste cuidado.
Muitas pessoas atribuem a Deus o aparecimento ou a resolução dos problemas de saúde que acometem e recorrem a ele como recurso cognitivo, emocional ou comportamental para enfrenta-los (PEREIRA, 2008).
Abordagens a respeito do tema “Fé”, como têm sido recobradas nos dias atuais, nos mostra que a mesma é considerada como sendo um sentimento universal, independente da crença e da cultura. O homem por sua vez, busca respostas em algo que está além da sociedade, além das regras impostas pelo cotidiano e muitas vezes, além da medicina e da ciência (PEREIRA, 2008). O homem tem fé na existência de uma dimensão divina, mas, ainda que seja incapaz de concebê-la, sente a necessidade de estabelecer uma relação com este mistério. A base da religião seja qual for o nome que chamemos, não pode desintegrar-se, diminuir ou desaparecer, porque é eterna e infinita. A religião recobrou hoje o caráter existencial que possuía nos tempos bíblicos: não lhe interessam as teorias religiosas, senão a experiência cotidiana. O que interessa ao homem é aprender a viver de acordo com as suas potencialidades, a suportar o sofrimento inevitável, a viver diante de uma constante incerteza e a encontrar sentido e conteúdo em sua existência individual (FABRY, 1984).
Para Pereira (2008), a fé é tida como um sentimento universal, independente da crença e da cultura. O homem por sua vez, busca respostas em algo que está além da sociedade, além das regras impostas pelo cotidiano e muitas vezes, além da medicina e da ciência. Tentando compreender o sentido do termo, o Larousse da língua Portuguesa define a fé como:
De acordo com a Bíblia Sagrada Cristã (1997), no livro do novo testamento carta aos Hebreus capítulo 11 e versículo 1º, o autor aborda a fé da seguinte maneira:
“Ora, a fé é firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” (PEREIRA, 2008).
Neste contexto temos a fé como o agir sobrenatural, ou seja, a crença em algo que não existe leva o homem a conquistar seu objetivo através da fé. De acordo com Fabry (1984), em “A Busca do Significado”, o homem tem fé na existência de uma dimensão divina, mas, ainda que seja incapaz de concebê-la, sente a necessidade de estabelecer uma relação com este mistério. A base da religião seja qual for o nome que chamemos, não pode desintegrar-se, diminuir ou desaparecer, porque é eterna e infinita. A religião recobrou hoje, o caráter existencial que possuía nos tempos bíblicos: não lhe interessam as teorias religiosas, senão a experiência cotidiana. O que interessa ao homem é aprender a viver de acordo com as suas potencialidades, a suportar o sofrimento inevitável, a viver diante de uma constante incerteza e a encontrar sentido e conteúdo em sua existência individual (PEREIRA, 2008).
Pereira (2003) procurou compreender a problemática da fé no âmbito da psicologia e o psicológico como elemento presente no ato de crer. Para ele, a fé é um fenômeno pessoal e exclusivo do sujeito que crê, vinda de áreas profundas de seu inconsciente, e é impulsionada pelo luminoso, independentemente da vontade. Logo, ela não é senão um fenômeno psicológico, embora seja transcendente e tenha sua origem primordial no divino.
Ainda na visão de Pereira (2003), os conteúdos conscientes e inconscientes são o que constituem a fé em um nível da relação do sujeito que crê com a divindade, ou seja, uma realidade exterior, o meio ambiente e, uma realidade interior, o eu. O ato de crer, que se constitui na fé, não é processado somente por uma decisão consciente e espontânea do sujeito, mas é movido por impulsos mais profundos, oriundos de substratos inconscientes podendo muitas vezes se manifestar como ação volitiva ou decisão racional. Isto nada mais é do que racionalizações, para alívio das tensões produzidas por sentimentos não compreendidos.
A fé, segundo o autor, é inseparável do ser humano, pois se constitui em atributo essencial da existência, pela própria natureza, está intimamente ligada à realidade psicológica do ser que crê, pois envolve sentimentos, emoções, vontade, desejos, atitudes e demais aspectos da personalidade (PEREIRA, 2003). Alguns autores ao abordar o tema sobre a fé demarcam-na em territórios específicos como fé cristã, fé judaica, isto é, trabalham sob a visão de religiões específicas.
Pesquisadores do Hospital McLean em Massaschusetts (EUA) inscreveram 159 homens e mulheres em um programa de terapia cognitivo comportamental de dez sessões de terapia em grupo, individual e, em alguns casos, utilizando medicamentos. Cerca de 60% dos participantes estavam em tratamento de depressão, enquanto outros tinham transtorno bipolar e ansiedade. Todos tiveram que classificar sua espiritualidade respondendo à seguinte questão: “até que ponto você acredita em Deus”. Resultados revelaram que cerca de 80% dos participantes relataram alguma crença em Deus (PEREIRA, 2008).
A força da fé não estava relacionada à gravidade dos sintomas iniciais. Acima de tudo, os que classificaram sua crença espiritual como mais importante pareciam ser menos deprimidos após o tratamento, em comparação com aqueles com pouca ou nenhuma crença. Eles também pareciam menos propensos a se envolver em comportamentos de automutilação. Pacientes com mais crença em Deus apresentaram resultados melhores no tratamento - disse o líder do estudo, David Rosmarin, psicólogo do Hospital Mc Lean e diretor do Centro de Ansiedade em Nova York (PEREIRA, 2008).
Uma possível razão para este fenômeno , segundo ele, é que “pacientes com mais fé em Deus também têm mais fé no tratamento. Eles têm mais probabilidade de achar que o tratamento pode ajudar, e têm mais tendência a ver esta possibilidade como real”. Nossa crença em Deus é uma crença de fé. Cremos em Seu Filho para a salvação, temos fé em Sua Palavra para instrução e fé em Seu Santo Espírito para orientação. Nossa fé em Deus deve ser absoluta, pois quando colocamos nossa fé em Deus, confiamos em um Criador perfeito, onipotente e onisciente. Nossa crença na ciência deve ser intelectual, e nada mais. Podemos contar com a ciência para fazer muitas coisas importantes, mas também podemos ter por certo que a ciência cometerá erros. Se colocarmos fé na ciência, confiamos no homem imperfeito, pecador, mortal e limitado. A ciência através da história tem se equivocado a respeito de muitas coisas, como o formato da terra, vacinas, transfusões de sangue e até mesmo reprodução. Deus jamais se equivocou (PEREIRA, 2008).
Grande parte da ciência apoia a existência da obra de Deus. Salmos 19:1 nos diz: “Os