4. RESULTADOS
5.1 Subida
Na transição do terreno plano para os primeiros degraus durante a subida da escada, os idosos com menor funcionalidade apresentaram menores picos de força e taxas de carregamento e descarregamento e maiores impulsos. A modulação da intensidade das FRS está relacionada à forma com que a interação como o meio ambiente ocorre, ou seja, de como as forças aplicadas pelo membro inferior são transmitidas ao solo. A aplicação dessas forças depende da capacidade dos indivíduos em produzir tensão. Logo, a redução da capacidade de produzir elevados níveis de força muscular que acompanham o processo de envelhecimento podem ter diminuído a capacidade de gerar torques articulares para a subida da escada (BOUISSET, 2008; BASSEY et al., 1992; MASUDA et al., 2002). Portanto, a diferença nos picos e taxas de desenvolvimento de força entre os idosos mais e
0 20 40 60 80 100 0 20 40 60 80 100 D esl oc amento an gu lar ( o) % Ciclo GBF GAF Ex te n s ã o Fl e x ã o
menos funcionais podem estar relacionadas a uma maior potência muscular do grupo com maior nível de funcionalidade. Assim, a produção adequada e suficiente de força e potência ao redor das articulações do tornozelo e joelho é determinante para o desempenho de idosos durante a subida da escada e são necessárias para uma transposição segura de planos (BEAN et al., 2003; 2007; BEAN et al., 2002;
CAVANAGH; MULFINGER; OWENS, 1997; LARSEN et al., 2009, 2011). Dessa
forma, idosos com alto nível de funcionalidade (GAF) tendem a apresentar maiores capacidades de gerar potência muscular e, consequentemente, mais facilidade para transitar em diferentes terrenos e planos. Sendo assim, a hipótese H1 de que os grupos apresentariam diferenças nas forças aplicadas no solo foi parcialmente aceita, pois foram encontradas diferenças apenas nas forças verticais.
Uma maior capacidade de produzir força e potência muscular também pode
alterar a velocidade e tempo de deslocamento (BOUISSET, 2008; LARSEN et al.,
2008). De fato, foram encontradas menores velocidades e maiores tempos para o grupo de menor capacidade funcional (GBF). Larsen et al. (2011) realizaram um treino de potência de 12 semanas com 23 idosos (69.7 ± 3.4 anos) e detectaram melhoras na potência muscular, nas taxas de carregamento e descarregamento, os quais foram associados a um aumento da velocidade de subida da escada. Aumentos na velocidade e diminuições no tempo de subida têm sido associados à diminuição do risco de quedas na transposição de planos (LARSEN et al., 2009;
MONTERO-ODASSO et al., 2005; OH-PARK; WANG; VERGHESE, 2011). Logo, a
hipótese H2 de que os grupos revelariam diferenças nos parâmetros
espaço-temporais na subida foi aceita.
Além de apresentar menor velocidade de deslocamento, o grupo de menor capacidade funcional (GBF) apresentou maior ângulo do vetor resultante das forças de reação do solo durante a perda de contato do pé com o solo. Uma menor velocidade de deslocamento permite um melhor controle do equilíbrio
(MICHEL-PELLEGRINO et al., 2008) e possibilita uma melhor aproximação do obstáculo, o
que demanda um maior ângulo do vetor resultante durante a saída do pé da plataforma. O estudo de Michel-Pellegrino et al, (2008) aponta que em maiores velocidades de deslocamento da marcha, a distância do pé em relação ao primeiro degrau é maior, o que pode levar a um menor ângulo do vetor resultante das forças de reação do solo (MICHEL-PELLEGRINO et al., 2008). A necessidade de projetar o
centro de massa mais horizontalmente (menor ângulo do vetor resultante das forças de reação do solo) requer respostas rápidas nas articulações do joelho e maior controle na articulação do quadril da perna de balanço. Dessa forma, o controle da flexão do quadril e do joelho demonstra ser importante na determinação de tropeços (CHOU; DRAGANICH, 1998; MCFADYEN; MAGNAN; BOUCHER, 1993). Assim, a
hipótese H4 de que existem diferenças entre os grupos no ângulo do vetor resultante
das forças verticais e horizontais foi aceita.
As diferenças funcionais dos grupos resultaram em discrepâncias nos tempos percentuais das fases de apoio e balanço, no qual o grupo com menor funcionalidade apresentou as maiores durações. Essas discrepâncias podem caracterizar modificações nos mecanismos de controle postural. Uma diminuição do tempo de balanço minimiza o tempo gasto na fase de apoio simples, onde o controle do equilíbrio é precário e aumenta o tempo gasto em duplo apoio, favorecendo a
manutenção do equilíbrio (MICHEL-PELLEGRINO et al., 2008; PERSCH et al.,
2009). Apesar dessa estratégia auxiliar no controle postural, diminuições no tempo de balanço acarretam na aceleração da perna de balanço, o que restringe o tempo para flexão das articulações e reflete em uma menor distância de passagem do pé em relação ao obstáculo, aumentando o risco de tropeços (CHOU; DRAGANICH,
1998; PERSCH et al., 2009). Assim, reitera-se a aceitação da hipótese H2 de que os
grupos revelariam diferenças nos parâmetros espaço-temporais na subida.
A magnitude do impulso necessário para elevar o centro de massa está relacionada à duração do apoio. O maior tempo de apoio do grupo de menor funcionalidade pode ser interpretada como uma importante estratégia para aumentar o impulso vertical. Maiores impulsos verticais e, consequentemente, impulsos resultantes do grupo de menor funcionalidade (GBF) sugerem uma maior demanda de energia para desempenhar a mesma tarefa que o grupo mais funcional (GAF)
(MICHEL-PELLEGRINO et al., 2008). As forças musculares requeridas durante a
fase de apoio e o tempo disponível para desenvolver estas forças são determinantes na quantidade de energia despendida no movimento (MICHEL-PELLEGRINO et al., 2008). Heise e Martin, (2001) realizaram um estudo com corredores e demonstraram uma correlação inversa entre o impulso vertical e o desempenho na corrida. Assim, corredores menos econômicos geram maiores impulsos que demandam maior recrutamento de fibras musculares (HEISE; MARTIN, 2001). Estas afirmações estão
de acordo com Larsen et al. (2008), que concluíram que o aumento da idade reflete diretamente na redução da capacidade de reserva funcional, ou seja, que idosos sobem escadas utilizando maior percentual de sua capacidade máxima de gerar força, o que indica um maior uso da força relativa. Essa redução pode resultar em fadiga muscular e um controle postural debilitado durante a subida da escada, o que
também sugere maiores riscos de quedas (LARSEN et al., 2008). Desta forma, a
hipótese H3 de que os grupos revelariam diferenças nos impulsos vertical, horizontal
e resultante foi parcialmente aceita, devido a presença de diferenças apenas nos impulsos vertical e resultante.
O grupo com maior funcionalidade revelou maiores velocidades, menores tempos de apoio e maiores picos de força vertical, o que refletiu nas maiores taxas de carregamento e descarregamento. Um aumento nas taxas indica maior intensidade na transferência de peso (LARSEN et al., 2008; PRINCE et al., 1997) reflexo de uma melhor capacidade do grupo mais funcional em aplicar as forças em um menor espaço de tempo (CHRISTINA; CAVANAGH, 2002). Este resultado reitera a aceitação da hipótese H1, a qual afirma existirem diferenças entre os grupos na aplicação das forças no solo.
Os deslocamentos angulares máximos e mínimos das articulações do tornozelo, joelho e quadril não revelaram diferenças entre os grupos experimentais e são similares aqueles reportados para jovens e idosos nos estudos de Andriacchi et
al. (1980), Hortobágyi et al. (2003), Nadeau et al. (2003) e Riener et al. (2002). No
estudo de Hortobágyi et al. (2003) os deslocamentos angulares de jovens e idosos
também foram similares durante a subida da escada. Provavelmente, para os idosos as amplitudes necessárias para subir escadas estão muito próximas das suas amplitudes articulares máximas, o que torna a transposição da escada uma tarefa que exige maior esforço no intuito de evitar tropeços (HORTOBÁGYI et al., 2003; REEVES et al., 2009). Esta relação entre a amplitude articular utilizada na tarefa e a máxima amplitude articular é acentuada com o envelhecimento. A principal causa de redução de amplitude articular máxima é a perda gradual de flexibilidade pelo idoso devido a processos fisiológicos naturais do ser humano, como a diminuição da quantidade de água no músculo, o aumento da orientação cristalina das fibras colágenas, a calcificação e substituição de fibras elásticas por colágenas (PRINCE
et al., 1997). Assim, aceita-se a hipótese H5, a qual indica que não existem diferenças no deslocamento articular entre os grupos.